Segunda-feira, 26 de Junho de 2017

ALFREDO MARCENE$IRO - Deixou-nos há 35 anos

 E DEUS LHE DEU A GRAÇA E A ALEGRIA,  DE TER MORRIDO NA SUA FREGUESIA, COMO UM SOLDADO MORRE NO SEU POSTO

 

 

Alfredo Marceneiro faleceu na sua casa  pelas sete horas da manhã do dia 26 de Junho de 1982, contava 91 anos. (*)
O seu corpo esteve em câmara ardente, na Igreja de Santa Isabel, sendo apostas na urna a Bandeira Nacional e a bandeira da cidade de Lisboa por iniciativa do, então, Presidente da edilidade Engº Krus Abecassis e ainda uma guarda de honra permanente prestada pelos Soldados da Paz do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa.
 O Padre designado para fazer as exéquias do funeral de Alfredo Marceneiro desconhecia de todo a sua obra, mas impressionado com os milhares de pessoas presentes no velório, quis esclarecer-se sobre a sua figura. Levou a noite a escutar o José Pracana e este tão eloquentemente lhe falou do seu querido amigo "Ti Alfredo", que no dia do funeral,  o Padre ao dizer a Missa de Corpo Presente, ele próprio com as lágrimas nos olhos enalteceu a sua imagem de lisboeta e fadista, amante da sua cidade e da sua freguesia E a todos surpreendeu, quando recitou os versos que Marceneiro tantas vezes cantou:

 

Alfredo Marceneiro canta:

A Minha Freguesia

 

Se os cantadores todos, hoje em dia
Ruas e bairros cantam, de nomeada
Eu cantarei á minha freguesia
A de Santa Isabel tão afamada

 

Freguesia gentil que não tem par
É talvez de Lisboa, a mais dilecta
De D. Diniz, a rua faz lembrar
O esposo de Isabel o Rei poeta

 

Lembra a Rainha Santa, quando vinha
Transformar o pâo em rosas, com fé tanta
Ela que Santa foi, menos Rainha
Mas foi entre as Rainhas, a mais Santa

 

Poetas e literários, foram seu
Ilustres moradores, geniais
Como Almeida Garrett, João de Deus
Teófilo, Junqueiro e outros mais

 

Freguesia onde enfim, moro também
Onde sempre pisei honrados trilhos
Nela casou a minha querida mãe
E nela é que nasceram os meus filhos

 

Que Deus me dê a graça, a alegria
Na vida tão cheínha, de desgostos
A vir morrer na minha freguesia
Como um soldado morre no seu posto

 

Assim, até na sua morte o Fado acontecia. Cumpriu-se o desejo que Alfredo Marceneiro cantava nos versos escritos pelo poeta Armando Neves.
É de realçar, que não havendo espaço no talhão dos artistas no Cemitério dos Prazeres, a Câmara Municipal de Lisboa, disponibilizou um gavetão perpétuo para repouso dos seus restos mortais.
 Milhares de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre que apesar de ser proibido se efectuou a pé, numa sentida manifestação de pesar desde Santa Isabel até ao Cemitério dos Prazeres.   Guitarristas dedilharam os seus instrumentos, durante todo o percurso, " a sua Marcha" em tom dolente e magoado, que mais parecia um choro de guitarras.
O Povo de Campo d´Ourique estendeu colchas nas janelas, numa homenagem singela ao homem simples do seu bairro.

Todos os orgãos de informação se referiram á efeméride, com títulos de destaque.

 (*) 91 anos em termos de registo de nascimento, mas na realidade tinha 94 anos

 

Chorai Fadistas, chorai...
A morte de Alfredo Marceneiro
— A GRANDE LENDA DO FADO
in Diário de Notícias

 

« Ti Alfredo » deixou-nos

Morreu O REI do FADO.

Morreu aquele a quem apelidaram de
—PATRIARCA do FADO

 

Marceneiro morreu, o fado de luto

Morreu Alfredo Marceneiro
— O MONSTRO do FADO

 

Guitarras choraram por Alfredo Marceneiro
in Correio da Manhã

 

Morreu Alfredo Marceneiro...
 O Fado lisboeta está de luto.
in O Dia

 

De todos os jornais diários que se referiram á efeméride  destaco o artigo assinado pelo jornalista e poeta Fernando Peres que foi seu grande amigo e admirador:

 

GUITARRAS CHORAM NO FUNERAL DE MARCENEIRO
in A Capital


"Não sabemos de quem teria sido a ideia mas não é difícil adivinhá-lo: José Pracana tem alma de poeta e uniu-o sempre ao ti Alfredo uma amizade filial. Talvez pela primeira vez, desde a saída do corpo até ao cemitério dos Prazeres, guitarras e violas choraram o que deixa insubstituível um lugar e foi um intérprete ímpar de várias gerações. Apenas melodias suas foram escutadas por gente que se espalhava pelas janelas para assistir ao cortejo enorme e ouvir um coro imenso de vozes de que Alfredo Duarte (o Marceneiro para toda a gente) era autor e andam na boca de toda a gente.
Esta é uma verdade indesmentível. Se reflectirmos, podemos concluir que a vida e a morte constituem os círculos viciosos do tempo.
A hora que se viveu é uma hora morta. Aquilo que hoje é emoção violenta, constitui amanhã, uma sensação esquecida.
Devemos insistir: esta é uma verdade indesmentível pois existe dentro de cada homem uma tragédia que ele ignora e uma comédia que ele vive. Algumas vezes, a tragédia é caricata ridícula, dá vontade de rir. Mas nunca ninguém riu da tragédia que consigo arrasta. É que a dor é um sinal da vida. Na realidade, só vive quem sabe sofrer...
Por isso ti Alfredo não sofre sózinho. Consigo leva um bocadinho do coração de todos nós. Os ídolos do fado são ídolos do povo. E um desses foi esse extraordinário Alfredo Marceneiro, decano dos intérpretes portugueses e, talvez, mundiais. Quase todos choraram quando foi o «momento da despedida». Mas homens como o ti Alfredo não morrem, nunca. Faltou a madrugada, substituída por um Sol radioso. Mas tudo teve expressão e significado. Valeu pela intenção valiosa e espectacular (houve quem  estivesse de muletas). Se era preciso, foi a consagração de um grande fadista. Quantos o acompanharam, e entre eles o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Leonor Beleza, constituíram um público, sem distinção de classes ali acorrendo a acenar o seu adeus ao maior intérprete da canção, nascida não se sabe onde ecoou em vozes doridas e viciosas nas betesgas das ruelas de Lisboa. Depois, ganhou raça em gargantas aristocráticas e hoje corre mundo na névoa das «boites».
De facto, passam tristezas a desfazer-se e o vento arrasta-se, lentamente, com vagares de cansaço. Já se feriram alegrias em vibrantes risos. Uma lágrima indiscreta espreita um sorriso.
Não o disse? «Felizes os que sabem, colhendo beleza e poesia, refugiar-se em recordações purificadas da mesquinhez do mundo. Felizes os que  são sabem, colhendo inspirados pelo amor, para quem o poente é sempre uma rosa e o azul tem transparências». Teve a sua companheira — a tia Judite — ao seu lado até ao último momento. Mãe dos seus filhos teve até ao final um gesto de amor. «Felizes os que sabem andar feliz o coração no espaço infinito, entre orações, bençãos e perdão. Felizes os que sabem demorar o perfume que o amor deixou».
Lá estiveram os seu amigos. O infalível Júlio Amaro (como podia ele faltar?). E sabe uma coisa? Foi uma manifestação de ternura, neste mundo de egoísmos, cada vez mais fracas.
 Ti Alfredo, até qualquer dia..."

 

Na Revita "MAIS"  de 2 de Julho de 1982, destaca-se aqui o seu editorial e dois artigos da autoria de grandes jornalistas.

 

UM SILÊNCIO NO FADO

"Um silêncio no Fado, eis o que se fez, súbito, no último fim-de-semana.
Morrera Alfredo Marceneiro ou, se preferirem ele mudara de "poiso" para parte incerta onde, afinal, todos acabaremos por beber do mesmo copo — como ele continua, certamente a fazer.
Um silêncio no Fado, eis o que se fez, súbito no último fim-de-semana.
Um silêncio de guitarras e violas, um silêncio de gargantas vazias, um silêncio cúmplice de cantos impossíveis.
Alfredo Marceneiro "diz" agora ali mesmo, ao virar desta esquina, todos o sabemos. Por isso aqui estamos prontos a escutá-lo naqueles que o testemunharam, naqueles que o viveram e conviveram.
Prontos, não a consagrá-lo (que é lá isso?) mas a guardá-lo, nosso."

"MARCENEIRO" — exemplo do fado autêntico

"Sim, é uma verdade indesmentível: os ídolos do Fado são os ídolos do povo. E Alfredo Marceneiro, o «maior» do Fado tinha em si qualquer coisa de indefinível, de boémia atrevida e palpitante a confundir-se com uma ingenuidade quase infantil. Como era ele, afinal?
Igual a si próprio: rezingão e pitoresco, com a sua madeixa preta, a testa enrugada, mantendo ao pescoço o lenço de seda com um nó mal-humorado. Como cantava? Como ninguém: com voz saturada de sensibilidade, uma voz popular e instintiva intérprete como nenhuma outra, da pobreza feliz da cidade e a poesia do seu povo. No Fado, soube sempre poetizar Lisboa. E, por isso, talvez, já não pertence apenas ao Fado e aos que o admiram — é património de Lisboa.
A cidade vai perdendo as suas figuras típicas. Mas ainda tinha em Alfredo Marceneiro um exemplo do Fado autêntico, nascido não se sabe onde mas que vivia na sua alma. Ele possuía a reforma do ofício que foi durante anos um apelido. Chamava-se Alfredo Rodrigo Duarte, o «Marceneiro» para quase todos, «Ti Alfredo» para os fadistas e para os amigos. Andou a roçar os noventa e era ainda uma figura da noite lisboeta. Raros o viram de dia e sempre por ocasiões graves. De resto era a noite que o trazia, envolvendo-o nas suas sombras de mistério. E, parecia conservar nos lábios uma saudade e um beijo quando chegava e dizia: «boa-noite». Sim, era a noite quem o trazia pois é de noite que ele vivia no mundo onde ganhou fama e glória. A sua ronda diária pelas casas típicas (a terminar sempre madrugada alta) era já talvez, uma necessidade de se sentir estimado, acarinhado, vivo para os que lhe queriam bem. O Fado, a sua segunda vida foi,  afinal, a sua vida inteira."

Assina: Fernando Peres

 

E ainda na Revista Mais um artigo de Miguel Esteves Cardoso

 

Ao fadista, Alfredo Marceneiro,

bem ido e bem vindo,

por,ocasião do fim da sua primeira vida (1891 - 1982)

 

"Se, como escreveu D.H. Lawrence, a morte é a única pura e bela conclusão de uma grande paixão, então a morte do fadista Alfredo Marceneiro é, também ela, um acto de paixão.
E é um Fado.
E é uma morte.
Mas um fadista não morre como morreram os outros homens.
A morte não o surpreende nem o leva — é ele que a chama e a ela se entrega. Porque ser fadista é atiçar, cortejar, pedir a morte desde o primeiro momento em que o Fado lhe nasce na voz. Um fadista, ao morrer, vê a sua arte a atingir o ponto máximo de perfeição.
E é um Fado.
E é uma morte.
Mas um fadista não morre como morrem os outros homens.
Ele trata a morte por tu. Conhece-le os jeitos e as manhas e só pode ter por ela o respeito que se tem por aquilo que conhecemos de gingeira: é gingão com ela, mas tem-lhe amor. Ou não fosse todo o Fado um fingimento da morte e todo o fadista um fingimento da vida
E é um Fado.
E é uma morte
E é uma saudade, e um destino. Ou não fosse a saudade, como memória do bem que jamais regressará, no qual que nunca desaparecerá, uma espécie de morte. O mesmo, em vida que ver morrer. Ou não fosse o destino, como pressentimento sem recuo nem apelo, uma espécie de preparação para a morte. O mesmo, em vida, que ver-mo-nos morrer.
E é um Fado
E é uma morte.
Pela saudade, o fadista pôde saborear a morte que lhe sobe do peito pela garganta, até à boca. É talvez um amargo e doce paladar — terá concretiza algo a ver com amêndoas cruas, caroços de cereja, vinho acre.
Pelo destino, o fadista faz no peito a cama á morte e o aroma desses lençóis  sobe pela garganta até à boca e tem o cheiro de uma mortalha lavada nas lixívias pungentes da vida.
E é só um Fado.
É afinal apenas uma Morte.
Mas que sentido teria celebrá-la e senti-la senão com sua própria língua, a do Fado e da Morte ? A morte de um fadista, a morte de Marceneiro, só pode ser celebrada e sentida na voz de outro fadista. Não pode ser escrita, não consente ser lida.
Porque o Fado precisa dos seus fadistas mortos, das suas lendas e lugares. No Fado, o luto continua. Deste modo sempre. Ou há alguém que disputa a lenda e o lugar da Severa ? Ou há alguém que duvide que, como morto. Marceneiro servirá o Fado como o não pôde servir nos últimos anos da sua vida ?
E é outro Fado.
E é nenhuma Morte.
Ao morrer, Marceneiro inicia uma outra carreira no Fado. Tão bela e importante como aquela que findou. Será furiosamente lembrado, mistificado, transformado em voz. Porque é uma das bonitas qualidades do Fado: o Fado nunca esquece. Agora é que Marceneiro começará a viver, porque já está morto, reconciliado com o seu destino de homem, preparado para a sua missão de reminiscência e saudade.
E é este o verdadeiro Fado.
E é esta a verdadeira Morte.
Porque os fadistas não morrem como os outros homens.
Melhor: nem sequer morrem. Toda a vida anseiam morrer. De amor e paixão, de cio e da saudade. Sem respeitar a vida, que é coisa que vem e que passa, senão daquilo que a vida tem de transportadora. Transportadora da imagem e do desejo das coisas que se amaram, e que nela se guardam, tão brancos como no dia que nasceram,os vícios da alma, os vícios do corpo.
E é assim um bonito Fado.
E não é assim uma feia Morte.
Ou não haja alguém que ponha em causa que um fadista não é um homem que, ora em ora, canta o Fado. Não existe esse bicho: o fadista em tempo parcial. Cantar o Fado é apenas um momento na vida de um fadista, tão natural como abrir as janelas de manhã, tão normal como as tarefas do dia-a-dia. E as tarefas do noite-a-noite, as rondas, as batalhas, os amores, os vinhos, os amigos, os trabalhos, misturam-se com o canto e — nos grandes fadistas, como o Marceneiro — entram pelo canto adentro e tudo encharcam para que a voz depois dê vazâo à paixão, dê cor à dor, dê despejo ao desejo.
È isto o dito Fado.
Bendito Fado, para além da Morte.
Alfredo Marceneiro foi esse fadista em que o Fado, como mero canto, era indissociável do Fado, como mera vida. Mas se dantes não havia realidade que podia com o arroubo de lembrar — o Fado é uma perpétua reconstrução do passado, sabendo sempre que nunca o poderá reconstruir a tempo de evitar o futuro — se dantes não havia Marceneiro—homem que podia com o esplendor de Marceneiro—mito; agora, agora e durante os muitos anos que só o Fado guarda contristadamente faz enternecer, Marceneiro pertence todo ao Fado como nem ele em vida, conseguiu pertencer.
E é Fado
E deixa de ser Morte
Digamos só: Olá Alfredo Marceneiro, é bom tê-lo outra vez entre nós.

Assina: Miguel Esteves Cardoso

 

Imagem do Cortejo que acompanhou a pé, em marcha lenta, ao som das guitarras, Marceneiro até à sua sepultura

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Segunda-feira, 5 de Junho de 2017

Saudade dos Santos - Fadista e poetisa

SAUDADE DOS SANTOS5.jpg

Nasceu em São Pedro de Alva,  a 15 de Fevereiro de 1939, mas seus pais vieram viver para o Distrito de Lisboa quando ainda era muito jovem.

Desde muito cedo, que sentiu  a paixão pela  poesia, pelo que não podia deixar e tomar atenção ao  Fado, aos seu interpretes e aos seu poemas,  de tal forma se empenhou, que  tomando-lhe o gosto, começa a cantar Fados para os amigos, agradou e encantou que a incentivaram a continuar, e assim aconteceu.
Saudade dos Santos  ao longo da sua vida escreveu muitos poemas para Fado, alguns ela mesmo cantou e gravou, mas a maioria foi dada a outros fadistas que lhos solicitavam. (Está para breve a edição de um livro dos seus poemas)
Em 1957 num concurso de fados organizado no Luso foi eleita  “Rainha das Cantadeiras”.
Fez várias digressões artísticas no Ultramar e nas Ilhas onde obtém acentuado êxito, fez teatro, cinema e televisão, grava vários discos e é muito ouvida  nas rádios.
Saudade dos Santos tinha  uma voz melodiosa que nos seduzia,  aliada à sua bonita figura e simpatia pessoal. era frequentemente convidada para cantar nos salões dos casinos, e em várias Casa de Fado, por último foi contratada no Restaurante Típico “Severa”  no Bairro Alto.
Foi considerada por muitos admiaradores e colegas (nas quais eu me incluo) UMA DAS CARAS MAIS BONITAS DO FADO de então.
No auge da sua popularidade, casa-se com o conhecido empresário Emílio Mateus, da etiqueta "Discos Estúdio", quando está para ser mãe pela primeira vez,  tomou a opção de abandonar a vida artística,  para dedicar todos os seus momentos ao lar e à educação dos filhos.
Saudade dos Santos faleceu a 23 de Janeiro de 2015
 

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Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

A Casa da Mariquinhas e O Leilão

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 tema " A Casa da Mariquinhas ", teve tal êxito, que levou outros poetas a se basearem nele compondo outras versões igualmente cantadas por Marceneiro.
O poeta João Linhares Barbosa, escreveu:

 

O LEILÃO DA MARIQUINHAS

 

                                  Ninguém sabe dizer nada
                                  Da famosa Mariquinhas
                                  A casa foi leiloada
                                  Venderam-lhe as tabuinhas

 

Ainda fresca e com gagé
Encontrei na Mouraria
A antiga Rosa Maria
E o Chico do Cachené
Fui-lhes falar, já se vê
E perguntei-lhes, de entrada
P´la Mariquinhas coitada?
Respondeu-me o Chico: e vê-la
Tenho querido saber dela
Ninguém sabe dizer nada.

 

                                  E as outras suas amigas?
                                  A Clotilde, a Júlia, a Alda
                                  A Inês, a Berta e a Mafalda?
                                  E as outras mais raparigas?
                                  Aprendiam-lhe as cantigas
                                  As mais ternas, coitadinhas
                                  Formosas como andorinhas
                                  Olhos e peitos em brasa
                                  Que pena tenho da casa
                                  Da formosa Mariquinhas.

 

Então o Chico apertado
Com perguntas, explicou-se
A vizinhança zangou-se
Fez um abaixo assinado,
Diziam que havia fado
Ali até de Madrugada
E a pobre foi intimada,
A sair, foi posta fora
E por more de uma penhora
A casa foi leiloada.

 

                                  O Chico foi ao leilão
                                  E arrematou a guitarra
                                  O espelho a colcha com barra
                                  O cofre forte e o fogão,
                                  Como não houve cambão
                                  Porque eram coisas mesquinhas
                                  Trouxe um par de chinelinhas
                                  O alvará e as bambinelas
                                  E até das próprias janelas
                                  Venderam-lhe as tabuinhas.

 

  

Nesta actuação na TVI - Tardes da Júlia, sou acompanhado na guitarra portuguesa por Luís Ribeiro

 e na viola de acompanhamento por Jaime Martins

 

Foram muitos os temas que Alfredo Marceneiro cantou, mas, de entre todos eles, houve um que teve grande êxito com versos da autoria do grande jornalista e poeta Silva Tavares e que foi, aliás, considerado o "ex-libris" das suas criações,

" A Casa da Mariquinhas".

Todos os que o escutavam, eram unânimes em afirmar que os versos que Silva Tavares escreveu, quando cantados pelo Alfredo, "viam imagens reais". Marceneiro, numa ideia genial, decide demonstrar a todos que, também no seu ofício, é um mestre e na escala de 1/10 constrói em madeira a Casa da Mariquinhas, recriando todos os pormenores que são descritos nos versos do fado.

 

   

 

 

"CASA DA MARIQUINHAS"


                                               É numa rua bizarra 
                                               A casa da Mariquinhas
                                              Tem na sala uma guitarra
                                              Janelas com tabuinhas.


Vive com muitas amigas
Aquela de quem vos falo
E não há maior regalo
De vida de raparigas
É doida pelas cantigas
Como no campo a cigarra
Se canta o fado á guitarra
De comovida até chora
A casa alegre onde mora
É numa rua bizarra

 

              Para se tornar notada
              Usa coisas esquisitas
              Muitas rendas, muitas fitas
              Lenços de cor variada
              Pretendida e desejada
              Altiva como as rainhas
              Ri das muitas, coitadinhas
              Que a censuram rudemente
              Por verem cheia de gente
              A casa da Mariquinhas

 

É de aparência singela
Mas muito mal mobilada
No fundo não vale nada
O tudo da casa dela
No vão de cada janela
Sobre coluna, uma jarra
Colchas de chita com barra
Quadros de gosto magano
Em vez de ter um piano
Tem na sala uma guitarra

 

                                               Para guardar o parco espólio
                                               Um cofre forte comprou
                                               E como o gás acabou
                                               Ilumina-se a petróleo
                                               Limpa as mobílias com óleo
                                               De amêndoa doce e mesquinhas
                                               Passam defronte as vizinhas
                                               Para ver o que lá se passa
                                               Mas ela tem por pirraça
                                              Janelas com Tabuinhas

 

 

 

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música: A Casa da Mariquinhas e O Leilão da Mariquinhas
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Sábado, 6 de Maio de 2017

DIA DA MÃE 7 de Maio de 2017

MÃE... com três letras apenas se escreve esta palavra,

palavra pequena, mas é daquelas  que na VIDA, um  maior  significado têm.

Mãe do Vitó aos 20 anos.jpg

 Minha mãe Mariete aos 20 anos

Minha mãe faleceu tinha eu cinco anos de idade, fui apara casa dos meus avós  Alfredo e Judite.

Eu nasci para os braços da minha avó Maria (madrasta de minha mãe), dado que na altura da morte de minha mãe,  a minha avó Maria não me podia ter aos seu cargo,  pois era empregada doméstica interna.

Aos  10 anos de idade,  fiz o exame de admissão ás escolas técnicas, os seu patrões  aceitaram que eu fosse viver com ela para poder frequentar a Escola Industrial Marquês de Pombal em Alcântara. Fiz-me homem a seu cargo, ficou sempre a meu lado até ao seu falecimento.

Avó Maria.jpg

A minha saudosa avó Maria

 Nunca a chamei de mãe, nem nunca tal me pediu, ou sugeriu,  mas o meu coração sentia que ela era/foi a minha MÃE  e,  recordo quando se comemorava o dia oficial da mãe no dia 8 de Dezembro (Feriado Religioso dia de Nª. Snrª Maria mãe de JESUS)  nunca deixei de lhe dar o cartãozinho como se minha mãe fosse. A esta  grande mulher tudo fiquei a dever.

Saúdo as mães de todo o Mundo, com especial carinho para aquelas que acabam por passar os seus últimos dias de vida, ou sós nas suas casas, ou em lares, e tantas vezes esquecidas e desamparadas.

A solidão é muito triste, mas como deve ser angustiante a solidão de uma mulher que pariu um filho, e no fim da vida, se vê só e abandonada por esse próprio filho.  

Relembro estes versos de um poema da autoria de Linhares Barbosa e cantado por  Fernando Farinha.

 

P´las mãos de minha mãezinha

 Andei nos tempos de então

Hoje com está velhinha

É ela que anda p´la minha

Faço a minha obrigação

 

 

De Henrique Rego. 

 

 

 

DA MULHER DESVENTURADA NINGUÉM FUJA

SE ELA ACASO UM FILHO TEM,

DEIXÁ-LA SER DESGRAÇADA

PORQUE A DESGRAÇA NÃO SUJA

O SANTO AFECTO DE MÃE

 

De Eugénio de Andrade o poema "MÃE", num Video-Clip

Produzido por Estúdios Raposa

Poema dito pelo meu meu amigo Luís Gaspar

 

 

 

 

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Domingo, 30 de Abril de 2017

DIA MUNDIAL DOS TRABALHADORES - 1º de MAIO DE 2017

EM PORTUGAL NO 1º DE MAIO,  RELEMBRAMOS/DENUNCIAMOS  TAMBÉM,  O DIA DOS ESPOLIADOS DE PORTUGAL, O DIA DOS SEM ABRIGO, DAS CRIANÇAS POBRES E SEM ALIMENTOS

 

 

No dia do trabalhador, há 43 anos estávamos todos de braço dado, com um cravo ao peito, acreditando num futuro melhor....

 

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Hoje embora desiludidos, e na iminência da continuidade da austeriedade, exigida por uma EUROPA, cada vez mais à direita,   temos que dar as mãos e lutar por um futuro mais justo para todos os povos do Mundo Inteiro, e celebremos em todos os dias o dia do cidadão independentemente das raças ou credos de cada um.

Viva a Paz, Viva a Liberdade,

Viva a Democracia

 

 

1º de Maio – Dia Mundial do Trabalho

 

O Dia Mundial do Trabalho foi criado em 1889, por um Congresso Socialista realizado em Paris. A data foi escolhida em homenagem à greve geral, que aconteceu em 1º de Maio de 1886, em Chicago, o principal centro industrial dos Estados Unidos naquela época. 

Milhares de trabalhadores foram às ruas para protestar contra as condições de trabalho desumanas a que eram submetidos e exigir a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias. Naquele dia, manifestações, passeatas, piquetes e discursos movimentaram a cidade. Mas a repressão ao movimento foi dura: houve prisões, feridos e até mesmo mortos nos confrontos entre os operários e a polícia.

Em memória dos mártires de Chicago, das reivindicações operárias que nesta cidade se desenvolveram em 1886 e por tudo o que esse dia significou na luta dos trabalhadores pelos seus direitos, servindo de exemplo para o mundo todo, o dia 1º de Maio foi instituído como o Dia Mundial do Trabalho. 

 

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Sábado, 29 de Abril de 2017

MANUEL DE ALMEIDA - Fadista, autor e compositor

 

Deixou-nos há 21 anos e faria 95 anos hojese estivesss entre nós

Nasceu no ano de 1922 e faleceu a 3 de Dezembro de 1995.

Desde a sua partida que um grupo de amigos, encabeçados por Humberto Rosa a partir de  1996, tem vindo a organizar um jantar de confraternização, para lembrar e homenagear, na data do seu aniversário.

 

          O FADISTA... O AMIGO

                             MANUEL DE ALMEIDA

 

Uma monobiografia já publicada neste blog pode ser consultada em:   http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/60925.html

 

  

 
 
MANUEL DE ALMEIDA 
canta : Olhos Fatais
Letra de: Armando Neves
Música: Fado Bailado de Alfredo Marceneiro
 
  
 
Homenageado também hoje pelos poetas . 
  
Carlos Escobar:
  

Amigo... amigo ...

Falava no outro dia

Alguém que sonhou contigo

E dizia

O Manel !!!

O Manel foi aquele que sonhei

A voz, a graça, a humildade

O fado

O fado do Manel foi o fado da verdade

O homem !!!

O homem ... recordamos com saudade

Foi o homem que eu sonhei

No sonho ...

No sonho sonhei contigo

Amigo ... amigo...

  

  

 

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Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

25 de ABRIL - Renasceu a Esperança... MAS!?

Na realidade verifico que esta imagem de ano para ano, está mais desfocada!?

 

Com esta europa anti-democrática,  com esta direita liberal,

com estes capitalistas a gamarem e o povo a pagar,

como vai ser?

Vamos lá ver se a esquerda aguenta a reacção. Viva Portugal

 

 

 Foto de: Sérgio Guimarães
Foi um talentoso fotógrafo,ligado ao meio teatral, às artes plásticas.
O seu génio criativo e sentido de oportunidade é bem exemplificado nesta foto.
Sérgio Guimarães com esta foto ficará para sempre ligado à nossa História, ao 25 de Abril, ao Movimento dos Capitães.
Milhares de pessoas admiram esta foto, mas Infelizmente poucos conhecem o nome do seu autor.
Já se têm feito homenagens por muito menos.

   

 
Poema dito pelo seu autor, o saudoso poeta
FERNANDO PINTO RIBEIRO
 

Ao Novo Dia

 

Rebenta dos abismos às montanhas

o sangue que incendeia a madrugada

e um novo dia irrompe das entranhas

 da terra finalmente fecundada

 

Foices malhos enxadas e gadanhas

e punhos - semeando-se em rajada

contra lobos ocultos entre as brenhas -

­alevantam pendões de tudo-ou-nada

 

Acorda o novo dia. E desta vez

o sol nasce nas mãos do camponês

e põe-se na tigela do operário

 

Multiplicado o pão por quem o fez

não mais há-de ser hóstia que  burguês

consagre dando a fome por salário

 

 
Crónica actual.

ASSIM VAI PORTUGAL..

 

«O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
          Não há princípio que não seja desmentido.
          Não há instituição que não seja escarnecida.
          Ninguém se respeita.
          Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
          Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o país está perdido!»

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Sexta-feira, 14 de Abril de 2017

FELIZ PÁSCOA 2017

BOA PÁSCOA 

E ACIMA DE TUDO SEJAMOS FELIZES

 

 

 

O FADO É UM TESTEMUNNHO
O Fado não é apenas testemunho poético do drama histórico de um Povo.
Fado é Vida é Destino.
A tensão entre a Saudade e a Esperança, pertencem também a cada português, se é que não faz mesmo parte da condição humana.
Talvez o Fado não seja a força inevitável do destino, mas procure-se nele o sinal vivo da luta do Amor com a Morte.
O que há de mórbido na “alma” do Fado é as mil maneiras como nos prova que o coração se engana e é com a morte que se enleia quando busca o Amor.
Mas o Fado não abafa o sopro inquieto com que o homem se interroga sobre todos os horizontes e arde em anseios de Infinito.
Se Fado é vida e destino, também Jesus Cristo veio à Terra cumprir o seu Fado... o seu destino.
 
Mas, o Fado é acima de tudo é ....
 
UM ESTADO DE ALMA
 
SE O SANTO PADRE  FRANCISCO, SOUBER

O "SABOR" QUE O FADO TEM
 VEM DE ROMA A FÁTIMA
PODE CANTAR O FADO TAMBÉM

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Terça-feira, 21 de Março de 2017

FERNANDO PINTO RIBEIRO - O Poeta

 

  

O Fado ficou de  luto, quando o meu querido amigo,  o poeta Fernando   Pinto Ribeiro, nos deixou em  20 de Fevereiro, sinto uma mágoa imensa, pois desde o dia em  que tive a honra de o conhecer, nasceu ente nós uma amizade   e carinho, que nunca esquecerei.

Ainda pouco tempo antes da sua morte,  em conversa telefónica me informou que ía re-escrever um dos seus poemas, que enviou por carta,  com uma dedicatória manuscrita, apelidando-me  de "SEU PADRINHO NO FADO".

Tínhamos sido apresentados há pouco mais de um ano, que pena tive de e  ter tido conhecido há mais tempo, fez questão de me conhecer para me elogiar pelo trabalho neste blogue,  meu afilhado do Fado!,  como me afirmava,  com um misto de orgulho que eu sempre te disse , não merecer. Fazia ainda questão de me apelidar de Vítor Duarte  "Marceneiro  Terceiro"  ( o III, por extenso). 

 

   

NAS RUAS DA NOITE

 

A Vítor Duarte, “Marceneiro Terceiro” — Meu padrinho no Fado

Fernando Pinto Ribeiro

 

 

 No crepitar de estilhaços(*)

de estrelas sobre os espaços

da Lisboa  rua em rua —

crucificámos abraços

encruzilhados nos passos

que à noite a lua insinua

 

                                Nas nossas bocas unidas

                                sangrámos fados em feridas

                                dos beijos amordaçados —

                                salvámos vias vencidas

                                que andam pla treva perdidas

                                como num mar afogados

 

Cegos de sombras e lama

E da sede que se inflama

numa inquisição divina —

bebemos o vinho em chama

que sanguínea  luz derrama

no candeeiro da esquina

 

                                Embriagados de lume

                                sem dissipar o negrume

                                do fumo que nos oprime —

                                rezamos todo o queixume

                                do cio deste ciúme

                                num amor que se faz crime

 

Crucificamos abraços

encruzilhados nos passos

que a noite nua desnua —

crepitantes de estilhaços

de estrelas quando em pedaços

vêm morrer sobre a rua

 

O Poeta e escritor Fernando Pinto Ribeiro, que faz questão de me chamar  "Seu Padrinho no Fado" quando eu nasci já ele escrevia para o Fado  isto,  porque acha que eu fui  a pessoa do Fado, que escreveu acerca dele  e da sua obra, , de uma forma que ele considera a mais objectiva, em todos estes  anos que tem de Fado. ("O percurso da História é muitas vezes estrangeiro ao percurso do artista. Nem sempre este se integra de forma tão sincronizada e congruente com aquele".

hoje somos somos duas almas gémeas do "Fado" que se encontraram, como que para reatar uma amizade que há muito estava estagnada.

É uma ternura para mim este seu sentir, como honrado fico com os versos que me dedica, e que gostariamos que eu um dia cantasse com música de meu avô. 

(*) Este tema já foi cantado e gravado, por decisão própria de quem o cantou, o poeta autorizou através da SPA, por delegação, mas é a primeira vez que ele o dedica pessoalmente,  com algumas, mas importantes reformulações, em última e definitiva versão, orientadas segundo ele,  para a  minha peculiar forma de me exprimir e venerar o Fado.

 

 

 

 

Fernando Pinto Ribeiro, é natural da Guarda. Nasceu em 1928. Ao 17 anos vem para Lisboa após completar o Curso Liceal, inscrevendo-se na Faculdade de Direito, cujo curso não chegou a completar. Já em jovem começa a rimar as palavras, nunca deixando de escrever quadras soltas, tendo aos catorze anos escrito, o seu primeiro soneto a que dá o título de “Soneto dos 15 Anos”.

Colaborou nas Revistas Flama , Panorama, Páginas Literárias, em Jornais, como Diário de Notícia, Diário Ilustrado e em vários jornais regionais, tendo também sido publicados  no Brasil alguns poemas de sua autoria.

Foi Director da Revista de Letras e Artes “CONTRAVENTO” (1968), da qual só se conseguiram editar quatro  números, dado que o seu cariz intelectual e democrático, não podia de deixar de ser amordaçado pela censura.

Pertence aos corpos sociais da Sociedade da Língua Portuguesa, Sócio da Associação Portuguesa de Escritores, Cooperador da Sociedade Portuguesa de Autores, Sócio da Colectividade Grupo Dramático e Escolar “Os Combatentes”. (Colectividade Popular Centenária)

Frequenta algumas noites de Fado e fica fascinado com o ambiente da noite fadista, começando sem que se aperceba, a identificar-se com  a “expressão fadista” o que apela  à sua alma de poeta, começando a escrever alguns fados que desde logo foram bastante elogiados. Compositores de Fado colaboraram,  e a qualidade dos seus poemas é tal, que logo houve nomes do panorama musical do Fado que os quiseram interpretar, fadistas como: Ada de Castro, Alexandra Cruz, Anita Guerreiro, António Mourão, António Laborinho António Passão , António Severino, Arlindo de Carvalho, Artur Garcia, Beatriz da Conceição, Branco de Oliveira, Carlota Fortes, Chico Pessoa, Estela Alves, tia e sobrinha, Fernando Forte, Francisco Martinho, Humberto de Castro, Julieta Reis e sua filha Sara Reis, Lenita Gentil, Lídia Ribeiro, Maria Jô-Jô Pedro Lisboa, Lurdes Andrade, Natércia Maria, Simone de Oliveira Toni de Almeida,, Tonicha , Tristão da Silva, Xico Madureira, e outros. No início Fernando Pinto Ribeiro usava ainda o pseudónimo "SÉRGIO VALENTINO".

Alguns das suas letras para fado mais conhecidos, são: Às Meninas dos Meus Olhos, A Cantiga dos Pardais, Era um Marinheiro, Fado Alegre, Hino à Vida, Nas Ruas da Noite, Bom Fim de Semana, Noites Perdidas, Pensando em Ti, Lisboa vai,  Pensando em Ti, , etc.

 © Vítor Duarte Marceneiro

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Viva Lisboa: Que Saudades Amigo
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Segunda-feira, 6 de Março de 2017

RTP - 60 anos

  (1)      (2)         

 

Comemora-se os 60 Anos de Televisão pública em Portugal, a inauguração foi na antiga Feira Popular (1)  Luna Parque) a Palhavã, que era para nós miúdos uma coisa do outro mundo, ficava no (2) Parque onde está a Fundação Calouste Gulbenkian, tive a felicidade de lá estar e nunca mais me esqueci daquela caixinha mágica, acabei de vir a ser profissional de Cinema e Televisão... o sonho concretizou-se.

Relembro este acontecimento porque para mim est á relacionado com Fado, pois naqueles anos quase todos os fadistas profissionais e amadores que sobressaiam ,  eram convidados a cantar para à RTP. Depois de abrirem os outros dois canais  tudo piorou, e até a RTP deixou de dar práticamente Fado, agora são sempre os mesmos que vão aos mesmos canais, e a RTP vai-nos dando as "Memórias".

Passa a alguém pela cabeça que O Fado tenha a sido  considerado Património da Imaterial da Humanidade, porque é  uma forma musical única no mundo, e que seja   no próprio país que reivindica a designação, a Televisão Pública não tem  programas de Fado. (Excepto se for alguém premiado lá fora),.!!!

Mas meus amigos recordam-se?

 

Ficcão... ou Talvez não!

Há um Realizador de Cinema (Documentários) o  Sr. Saura , que  é quem  sabe da poda, foi -lhe pedida ajuda de uns entendidos (conselheiros),  que até arranjaram um mecenas (o er á rio público), pedindo-lhe  para fazer um filme histórico e isento, porque os realizadores portugueses são uns intelectuais e não de debruçam sobre estes temas menores, consta-se que o Sr. Saura   ter á nbsp; logo ter dito: — Fado só com portugueses é uma chatice , assim vai se for como eu quiser , vai haver fado em flamengo, em brasileiro, em mornas etc.

O Sr. Saura estudou muito sobre Fado , e vai acabar,   com conhecimento de causa por  explicar de uma vez por todas aos portugueses, que o Fado não é nada nosso, foi roubado, nós fomos foi grande navegadores, e como aos marinheiro era h á bito ter uma mulher em cada porto, os marinheiros portugueses não fugiam á regra, ou não fossem latino machistas , assim em cada terra por onde passavam, aprendiam um pouco do que por l á se cantava nos bordeis, aprenderam uma notas com os  escravos africanos, mais umas notas com os índios brasileiros, na Índia  também tirámos notas, na China , no Japão, etc. , repovo á mos ainda Cabo Verde com v á rias raças, o que obviamente deu mais umas misturas de musicais diferentes.

Finalmente previdentes como somos,  e para não sermos acusados de pl á gio, e hoje teríamos a pagar indemnizações a esses povos , juntámos tudo num molho e deu esta mistura de canção que chamamos   Fado,  e é por isso que só nós é que o cantamos em todo o Mundo. Mas é porque os outros não quiseram  aproveitar esta "modinha"?,  é porque é pobre musicalmente, é tocado num instrumento que tem cordas a mais,  só tem 1º e 2º  andamento e que é tocado de ouvido, os tocadores não vem do conservatório. Uma chatice .......

Ninguém tem dúvida que o Filme vai ser um êxito (ler a História do Rei Vai Nu), pois ele só ser á entendido por gente inteligente, e se não gostarem e protestarem o Sr. Saura até sabe daquela história do Manuel de Oliveira que no filme "Francisca" ninguém viu o filme até ao fim, a versão de televisão ninguém gostou, ali á s mudavam para o 2º canal, ou apagavam os televisores. Manuel de Oliveira em entrevista na TV confrontado com estes factos retorquiu : — O Filme é bom, o povo português é que é inculto, vejam como eu lá fora sou apreciado (Nota - felizmente é apreciado tem uma obra fant á stica, eu como inculto que sou, tenho direito a só ter gostado do Anikita Bóbó ).

Portanto seja o filme o que for, não tenham dúvidas que vamos ter muitos intelectuais e conhecedores a dizerem que nós é que

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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2017

ZECA AFONSO - 30 Anos de Saudade

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, filho de um juiz e de uma professora primária, nasceu, em Aveiro, em 2 de Agosto de 1929, tendo passado os primeiros anos de vida entre a terra natal, Angola e Moçambique.

"Bicho-cantor" foi a alcunha que lhe deram no liceu, por cantar serenatas durante as praxes. Nesta altura conhece a vida boémia e os fados tradicionais de Coimbra.

Entre 1946 e 1948, enquanto terminou o liceu, conheceu a costureira Maria Amália de Oliveira, com quem casou às escondidas, devido à oposição dos pais.

Quando, em 1949, ingressou no curso de Ciências Histórico Filosóficas, da Faculdade de Letras, revisitou Angola e Moçambique, integrado numa comitiva do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra.

Em 1953, nasceu o primeiro filho, José Manuel, e, enquanto dava explicações e fazia revisões no "Diário de Coimbra", viu os primeiros discos serem editados.

O Emissor Regional de Coimbra, da Emissora Nacional, foi o local escolhido para a gravação dos dois discos, de 78 rotações, com faixas de fados de Coimbra.

"Fados de Coimbra" é o título do primeiro EP, editado em 1956. Nos finais dos anos 50, princípios de 60, começou a frequentar colectividades e a cantar, com regularidade, em festas populares.

Em 1963, concluiu o curso, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre e a nota de 11 valores.

A senha para o início da Revolução de Abril, "Grândola Vila Morena", nasceu após Zeca Afonso se ter inspirado numa actuação na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, em Maio de 1964.

O único disco editado pela Valentim de Carvalho, "Cantares de José Afonso", é desse ano, altura em que regressou a Moçambique, onde viveu e leccionou durante três anos.

O regresso a Portugal deveu-se à oposição José Afonso ao sistema colonial . O destino, desta vez, foi Setúbal, onde foi colocado como professor, tendo sofrido uma grave crise de saúde que o forçou ao internamento hospitalar durante vinte dias. Quando recuperou, ficou a saber que tinha sido expulso do ensino oficial, passando a viver de explicações que dava.

O PCP chegou a convidá-lo, por esta altura, a entrar para o partido, mas José Afonso recusou alegando a sua condição de classe.

O álbum "Contos Velhos Rumos Novos" e o single "Menina dos Olhos Tristes", que contem a canção popular "Canta Camarada" , são editados em 1969.

Seguem-se "Traz Outro Amigo Também", em 1970, gravado em Londres, "Cantigas do Maio", em 1971, gravado em Paris, e, no ano seguinte, "Eu Vou Ser Como a Toupeira", editado em Madrid.

Em Abril de 1973, foi preso, passando vinte dias em Caxias, e no Natal desse ano gravou, em Paris, "Venham Mais Cinco", com a colaboração musical de José Mário Branco, então exilado na capital francesa.

Muitas outras canções, espectáculos e prémios surgiram nos anos posteriores à revolução e, em 1982, os primeiros sintomas da doença que lhe causou a morte, uma esclerose lateral amiotrófica, começaram a manifestar-se.

No último álbum, "Galinhas do Mato", editado em 1985, Zeca Afonso já não conseguiu cantar todos os temas, sendo substituído por muitos cantores portugueses, como Luís Represas e Janita Salomé.

Dois anos mais tarde, em 1987, no dia 23 de Fevereiro, às 3:00 h, José Afonso morreu, no Hospital de S. Bernardo, em Setúbal.

in: http://delta02.blog.simplesnet.pt/

 

 

 

 

 

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música: A Morte saiu à rua
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ZECA AFONSO - José Afonso -Fados da Minha Vida

 

 

Nos anos oitenta, andava eu na minha actividade de cineasta, não tinha o protagonismo, que hoje me atribuem, no meio do Fado, nem tinha escrito livros nem blogues, só cantava para os amigos. Chamavam-me Vítor Duarte, o Marceneiro, por ser neto de quem era, mas nunca ninguém se referiu a mim como "Vítor Marceneiro", e o Zeca na dedicatória que me fez na capa do LP, foi decerto e por sua alta recreação,  o primeiro a fazê-lo. Só adoptei o nome de Vítor Duarte Marceneiro, quando me inscrevi na SPA, e a minha intenção era e é, realçar que o que sei de Fado aos meus progenitores o devo.

 

 

 

 

 Em meados de 1980, a etiqueta Órfeu – Arnaldo Trindade, dava-me a produção e realização, do que na altura se chamava de "telediscos", que eram filmados em película de 16mm, e o som não era síncrono, por falta de meios, sobre os temas que eram editados em disco, que depois a RTP, passava em programas musicais

Nessa altura fui incumbido de fazer um "teledisco", do último LP de Zeca Afonso – Fados de Coimbra.

Eu nunca tinha estado com José Afonso, mas conhecia toda a sua obra, e a sua posição de cidadania perante o regime.

Em finais 1973 a Órfeu-Arnaldo Trindade, tinha toda a produção em single de José Afonso, proibida de ser comercializada, (foi o rescaldo da promessa de abertura do regime, pois a censura só era feita após a saída das edições, quer fossem livros ou discos), sendo nessa altura, José Niza, director de produção musical, e o responsável comercial era o Mota Alves, que era em Lisboa o representante da Orfeu do Porto, e distribuía os discos proibidos do Zeca, a pessoas de confiança, para serem vendidos às escondidas, ao preço de custo (50$00 na época). O meu carro era um NSU-PRINZ, que tinha a mala à frente, e estava sempre a abarrotar de discos, que ia vendendo, e bem, a conhecidos e amigos, sendo que para muitos, era o primeiro contacto com a obra do Zeca.

Certo dia de madrugada, vinha de Cascais de uma fadistisse, e fui mandado parar num auto-stop, não me recordando já, se por agente da GNR ou ainda da PVT, que depois de ver os documentos, quis que lhe mostrasse o pneu de reserva. Lembro-me que todo eu fiquei "gelado", tendo aberto a mala do carro, e ouvido uma exclamação... mas afinal o que é isto? E começou a mexer nos discos, a ver um a um, com muita atenção, chamou o outro camarada que estava com ele, para ver aquilo, e pediram-me uma explicação, lembro-me de ter apresentado um argumento "esfarrapado"....sou colaborador eventual desta discográfica e isto são discos de pessoas que são pouco conhecidas, e não se conseguem vender, assim, em vez de queimar ou deitar fora, dão-nos para podermos oferecer a quem quisermos.... Soltaram ambos uma gargalhada estrondosa... e, disseram algo, tipo, bem, sendo assim se não se importa, vamos ficar com alguns para nós, lembrando-me, que com um certo ar sarcástico, um deles ter dito, é desconhecido, não se vendem, mas nós aproveitamos.

Mandaram-me seguir viagem, nem sequer chegaram a ver o pneu de reserva, e em modo de aviso, aconselharam-me a ter cuidado, pois nem todos são desconhecedores de música “desta” como nós…

Voltando á produção do "teledisco", ficou combinado que as filmagens seriam efectuadas em Azeitão, numa quinta com um palacete, que tinha um jardim muito bonito e que considerámos adequado para o efeito.

Pensava eu que iria ouvir e poder fazer muitas perguntas ao Zeca Afonso, mas tal não aconteceu, pois o Zeca ao saber quem era o meu avô, levou todo o tempo dos intervalos das filmagens a querer saber por mim, tudo sobre Marceneiro, creio ter sido convincente, pois no final, autografou-me o LP na contracapa (imagem acima), com o seguinte texto:

 

Ao amigo latiníssimo. Temperamental da velha raça do Gama Vítor Marceneiro – do autêntico até ao próximo encontro com o José Afonso.

 

Não o voltei a encontrar em vida, mas acredito que algures num tempo (indefinido/definido) nos voltaremos a encontrar.

Até lá, Zeca.

 

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Viva Lisboa: Saudades Amigo
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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2017

JOÃO PAULO - Fadista de Bucelas

João Paulo Pascoal Félix, nasceu em 1977 na Bemposta, freguesia de Bucelas, onde ainda reside,

Desde muito jovem que tem uma tendência para o Fado, ao conseguir ter o seu primeiro rádio com gravador incorporado, passa os tempos livres a ouvir rádio e a gravar os seus ídolos, Amália Rodrigues, Tristão da Silva,Fernando Farinha, e outros.

Sempre afirmou  ser fã incondicional de Fernando Maurício, cantando alguns números do seu repertório, que apraz assinalar, num estilo muito próprio.

Aos 11 anos começou a cantar fado, em colectividades recreativas,    festas dos Bombeiros, etc.

Nunca perdeu a oportunidade de se inscrever em todos os concursos de Fado,  teve conhecimento, tendo em todos eles se destacado, o  que lhes deu-lhe um palmarés notável:

Em 1992 com 15 anos concorre à Grande Noite do Fado "CASA DA IMPRENSA", e ficou em 2° lugar na classe de juvenis

No ano seguinte, já mais experiente, concorre novamente à Grande Noite do Fado no Coliseu de Lisboa, mas agora na classe sénior, e ganha o 1º lugar, sem contestação.      .

Foi finalista no programa “Lugar aos Novos” da Rádio Renascença, tendo sido o Vencedor.

No programa "Luzes da Ribalta" de Júlio Isidro na TVI, mantém-se em primeiro lugar durante quatro semanas, tendo alcançado um feito único num programa de TV do género.

Já actuou em quase todo o país, Coliseu do Porto, Coliseu de Lisboa, Teatro São Luís, Teatro Maria Matos, Pavilhão Carlos Lopes, Voz do Operário, Fórum Almada, etc., etc.,

No estrangeiro, já actuou em Inglaterra, França e Suiça, agradando quer pelo seu estilo de cantar, quer pela sua forma de estar.

Jovem mas consciente da sociedade em que está inserido, nunca recusa a sua colaboração em festas de beneficência.

Embora cantando com bastante frequência, tem uma outra actividade que considera ser a estabilidade do seu futuro e da sua família.

Gravou uma Cassete e mais tarde um CD para a Metro-Som, está a preparar a produção de um novo trabalho para CD, com inéditos, para a mesma editora.

Actuou na TVI num Programa de Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira  como meu convidade em homenagem a meu avô  Alfredo Marceneiro.

João Paulo actuou na Noite de fados nas janelas da Casa da Amália em 2011 a meu convite e nas Festa de Campo d´Ourique - Santa Isabel em Festa.

 

 João Paulo

Canta: Leilão da Mariquinhas

Letra de João Linhares Barbosa

Música do Fado Mouraria

 

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Viva Lisboa: fadista da Nova Geração
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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

JOAQUIM NOGUEIRA MARQUES - POETA

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Nasceu na  pacata  aldeia de Marrazes, distrito de Leiria a  26 de Dezembro de  1956. 

Desde muito miúdo que se lembra de ouvir ao colo da mãe e da avó,  o Programa de Rádio da Emissora Nacional - Serão Para Trabalhadores, e destes serões ficou-lhe o gosto pelo Fado.

Ao 10 anos de idade  por motivos da vida profissional do pai, vieram morar para o Distrito de Lisboa, primeiramente para Alverca e mais tarde em Sacavém.

É com o pai que era um poeta popular,  que  sente a motivação de começar a  rimar versos  em quadras, aliado ao gosto pela leitura,  também motivado pelo pai,  que para a época detinha uma notável biblioteca pessoal muito diversificada, com obras de Guerra Junqueiro,, Lopes Vieira, Camões Florbela Espanca, entre outros, mas gaba-se,  de ter lido toda a obra de Bocage, que o deliciou.

Aos  15 anos escreve um soneto dedicado ao Rei D. Dinis, para apresentar nos jogos florais organizados pela Junta de Freguesia de Sacavém,   em conjunto com as  colectividades  da zona, foi elogiado , o que lhe deu ânimo para continuar a escrever.

Joaquim  Nogueira Marques, recorda que a primeira vez que ouviu cantar Fado ao vivo, foi no mítico retiro “A Toca do Patrício”, onde começa a descobrir as também músicas populares, o Menor, o Corrido e o Mouraria, seguindo-se as composições dos estilistas, Joaquim Campos, Armandinho, mas desde logo ficou fan das músicas de  Marceneiro, em que destaca o Fado Cravo, começa a ter a noção da narração, da métrica, do ritmo e do estilo que cada fadista imprime ao cantar Fado.

Licenciou-se em Filosofia, por gosto e vocação, o que o leva a afirmar que,  muitos dos seus traços adquiridos de personalidade,  daí advêm, e que  a Filosofia lhe ensinou: Análise, distância da realidade, procura de objectividade. Exerce a profissão de professor de Filosofia.

Com pouco  mais de 20, escreve os seus primeiros  poemas para Fado,  para  o fadista Luís Rocha.

Editou 2 obras de poesia na Colibri:

“Como o Voo da Garça”  em 2002 e “Do Nosso Amor” em 2006.

Em 2011 é com dois  temas que  escreve para a Fadista Margarida Soeiro para um Cd que a fadista grava na altura, que vê pela primeira vez o seu trabalho editado, a que se seguiram muito mais poemas que a fadista tem cantado.

Começa a cimentar mais os seu conhecimento do “Mundo do Fado”  ao conviver com muitos mais fadistas, muitos deles,  hoje seus amigos pessoais que também vão cantando os seu poemas, a    Maria do Ceo, Maria Emília Sobral, Vítor Duarte Marceneiro, Margarida Arcanjo, Luís Rocha, Carmen Santos, Francisco Rei, Ana Sofia e Gustavo.

Desde o ano de 2012, por solicitação de  diversa Escolas e Autarquias,  que vem  realizando  palestras sobre o Fado, que intitulou  de  “Oficina de História e Poesia de Fado”.

Em 2016 estreou-se no musical “ A Chinela da Severa” em que foi o autor do guião.

Ainda em  2016,  decide editar um Cd com 14 poemas de sua autoria, com o título genérico:

PALAVRAS QUE CANTO EU

CD.jpg

 

Deram o seu contributo cantando, os fadistas

Ana Sofia,  Carmen Santos,  Francisco Rei, Gustavo, Luís Rocha, Margarida Arcanjo, Margarida Soeiro, Maria do Ceo, Maria Emília Sobral, Vítor Duarte Marceneiro, acompanhados na Guitarra Portuguesa por Luís Petisca

Sobre este Cd, esclarece que é um trabalho que tem uma razão de vida, uma intenção estética e artística que quis publicar,  como um legado, um testemunho, é este o Fado de que gosta, e quer  preservar, o Fado que tem um registo clássico ao nível instrumental, da composição e das vozes.

Nota:

Joaquim Nogueira Marques faz o favor de ser meu amigo que eu retribuo com muita amizade e consideração. Tenho vários poemas de sua autoria que me dedicou, um deles que cantei no CD "Palavras QUE Canto EU",  assim como poemas homenageando meu avô, destaco este,  que aqui publico " Uma goiva, um trinado"

Vítor Duarte Marceneiro

 

Uma goiva, um trinado

 

Na madeira ,  fica breve  o afago

da  minha arte antiga  que aprendi

Da alma vem-me o canto que eu trago

pela  graça de Deus com que nasci.

 

                  No meu cantar ora  rouco ora macio

                  há Saudade , há Amor , Lisboa e Fado

                 entalhe que um bairro faz no rio

                 com a  goiva defino  um trinado

 

Minha voz com a noite sai ao mundo

 minha voz da madrugada é vizinha

 a plaina dá-lhe o veio, dá-lhe o fundo

melodia  em volteio  de andorinha

 

                O choro da guitarra anda disperso

                dorido  desenhando um  coração

                Há verniz no brilho de um verso

                há palavras que são  escritas a formão

 

Quem meu nome chama e me conhece

é gente amiga,  é povo,  somos  nós:

- Marceneiro ! Um nome que floresce

a  que respondem minhas mãos e minha voz

 

Joaquim Nogueira Marques

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Domingo, 29 de Janeiro de 2017

JOAQUIM PIMENTEL - cantor e compositor

JOAQUIM PIMENTEL nasceu na freguesia de Cedofeita, do Porto, cidade onde se dedicou à prática do atletismo no Clube Académico.

Começa por  cantar fados e tangos como amador.

Fixou-se depois em Lisboa, foi atleta do clube de futebol Os Belenenses e em 1933 apareceu a cantar no Retiro da Severa (do Luna Parque), afirmando-se desde logo como um intérprete do fado, expressivo e de boa voz, que depressa se impôs no meio artístico da capital.

Em 1934 foi convidado para ir ao Brasil (Rio de Janeiro e S. Paulo) com alguns nomes consagrados do fado como Maria do Carmo, Maria do Carmo Torres e Filipe Pinto, além de outros artistas (Branca Saldanha, Alberto Reis, Eugénio Salvador e Lina). Essa viagem determinaria, aliás, o futuro de Joaquim Pimentel, que em 1939 voltou ao Brasil para lá permanecer até 1946, ano em que regressou a Portugal e actuou no Teatro Avenida. Mas em 1947 parte uma vez mais e então para se radicar definitiva­mente naquele país.

Depois de largos anos de actuações em espectáculos, na rádio e na televisão do Rio de Janeiro, onde também praticou remo no Clube Vasco da Gama, Joaquim Pimentel instalou-se em S. Paulo, dedicando-se à exploração da Adega Lisboa Antiga, à Rua Brigadeiro Tobias, um restaurante típico por onde passaram os mais destacados artistas portugueses da canção.

Autor das músicas de parte dos números do seu reportório e também para outros artistas, Joaquim Pimentel can­tou, entre outros, os fados Mulheres Há Muitas, Malmequer, Confissão, Não Penses Mais em Mim, A Freira, Duas Mortalhas, Deixa-me Só, O Teu Destino, O Melhor Amor, Por Que Razão, Coração?, O Amor Sempre Acontece, Saudade Não Vás Embora e Caçador de Mulheres.

Entre outras quero aqui recordar dois grandes êxitos para o repertório de Tony de Matos, “SÓ NÓS DOIS”, letra e música de sua autoria,  e “VENDAVAL” em que o autor da música foi A. Rodrigues.

© Vítor Duarte Marceneiro

 

 Toni de Matos canta:

SÓ NÓS DOIS

 

   

 

SÓ NÓS DOIS

 

Só nós dois é que sabemos

O quanto nos queremos bem

Só nós dois é que sabemos

Só nós dois e mais ninguém

Só nós dois avaliamos

Este amor, forte, profundo...

Quando o amor acontece

Não pede licença ao mundo

 

                                      Anda, abraça-me... beija-me

                                      Encosta o teu peito ao meu

                                      Esqueça o que vai na rua

                                      Vem ser minha,  eu serei teu

                                      Que falem não nos interessa

                                      O mundo não nos importa

                                      O nosso mundo começa

                                      Cá´dentro da nossa porta.

 

Só nós dois é que sabemos

O calor dos nossos beijos

Só nós dois é que sofremos

As torturas dos desejos

Vamos viver o presente

Tal-qual a vida nos dá

O que reserva o futuro

Só Deus sabe o que será.

 

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Viva Lisboa: Grande Homeme
música: Só Nós Dois- Toni de Matos
publicado por Vítor Marceneiro às 21:00
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Vítor Duarte Marceneiro - Fui á Feira da Ladra há mais de 65 anos

Fui à Feira da Ladra com o meu pai...

Vitó com 6 anos.jpg

 

Tinha eu uns seis anos de idade, quando num Sábado o meu pai  Alfredo Duarte Jr., me foi buscar a casa dos meus avós para me levar a conhecer a Feira da Ladra. Nessa época meu pai já tinha abraçado a profissão de "Artista de Variedades – Fadista", mas estava no início, o que ainda não lhe dava estabilidade económica. Com o falecimento precoce de minha mãe, passei a viver com os meus avós, na Rua da Páscoa, a Santa Isabel – Campo de Ourique.

Fomos a pé até ao Largo do Rato, descemos a Rua de S. Bento e, quando íamos a meio da Av.ª D. Carlos I, comecei a chorar porque me doíam muito os pés; tinha calçado nessa altura umas botas de carneira com sola de pneu, boas para jogar à bola, mas para caminhadas pareciam ser feitas de chumbo. Meu pai ficou um pouco arreliado, pois estava a fazer planos para irmos até ao Campo de Santa Clara a pé, e logo me disse:

– Lá vamos ter que gastar catorze tostões em dois bilhetes de eléctrico para a Graça.

                       

Carro Eléctrico aberto anos 50

Chegámos a Santos e apanhámos o eléctrico, tal como o da foto acima (eléctrico aberto). Lembro-me que enjoei um pouco, pois o meu pai disse-me:

– Eh pá, estás amarelo, não vomites no carro – e passou-me para o topo do banco, onde era totalmente aberto, agarrando-me o braço com força para eu não cair.

Lá chegámos e entrámos para o recinto, pelo lado da Rua da Voz do Operário.

 

                    

                        

                                    Foto do ambiente da Feira da Ladra, anos 50

 

Aquilo era um mundo fantástico para mim (tantas coisa giras); algumas eu nem sabia para que serviam, mas meu pai era frequentador e já ia com a ideia fixa do que queria comprar: uma grafonola! Fomos ao poiso do homem que ele sabia ter uma para vender, embora avariada. Na semana anterior já tinha tentado negociar um bom preço, mas não conseguiu. Com a minha presença (talvez para puxar ao sentimento) e batendo no argumento de que a corda estava partida e talvez nunca fosse possível reparar, lá a comprámos por 20$00, incluindo uma caixa de agulhas e um disco de massa da "Voz do Dono" com dois temas de Maria Alice (que mais tarde veio a ser mulher de Valentim de Carvalho).

Tentámos, nos vários comerciantes, arranjar um disco do meu avô para lhe fazer a surpresa, mas em vão; os discos de "Marceneiro" ainda eram preciosidades, raras de mais para aparecerem por ali.

Com o meu pai a transportar a grafonola, que depois de fechada parecia uma mala e tinha uma pega, começámos a descer em direcção à Av.ª 24 de Julho, para nos irmos embora. Ao passarmos junto ao gradeamento que dá para o Hospital da Marinha, havia um homem a vender calçado usado, mas com bom aspecto e muito bem engraxado. Os meus olhos fixaram logo uma botas de cano alto (à cow-boy). Pedi ao meu pai para ir ver se eram da minha medida, calcei-as e recordo que estavam um pouco compridas. Mas o homem disse logo que era a minha medida e que tinham solas novas, estavam muito baratas, só 15$00. Ó paizinho, compre, para eu levar para a escola (eu entrava em Outubro desse ano de 1952 para a 1ª Classe, nas Oficinas de S. José, aos Prazeres).

– São caras e o pai só tem... – e levou a mão ao bolso, mostrando 8$60.

O homem, com a sua lábia de vendedor, disse-lhe:    

– Estas botas, por 15$00, são um pechincha... Mas como o miúdo está aí tão triste, dê cá isso e leve lá as botas.

Mesmo antes que meu pai dissesse algo, embrulhou-as em papel de jornal, atou-as com uma guita, à volta. Eu agarrei-as logo, pois o meu pai, carregado com a grafonola, ainda podia dizer que não, o que não aconteceu. Lá deu o dinheiro ao homem e – meu Deus, como hoje recordo (sem pieguices ,mas com uma lágrima no olho) – que alegria!

Começámos a descer para a 24 de Julho, quando o meu pai se volta para mim e a rir diz:

– O menino Vitó levou a sua avante, mas esqueceu-se de uma coisa: o pai não tem mais dinheiro e agora temos que ir para casa a pé; e olha que não te posso ajudar porque a grafonola ainda é pesada.

– Ó paizinho, não há problema; eu aguento.

– Sempre quero ver isso – retorquiu ele.

Chegámos ao Cais do Sodré e eu derreado, já não conseguia dar mais um passo. Meu pai, a quem também já doía o braço de carregar a grafonola, poisou-a no chão, junto a uma parede, sentou-me em cima dela, disse-me que não saísse dali porque ia ao bar da gare dos comboios, ver se estava lá alguém conhecido.

Fiquei ali e, passados uns minutos, o meu pai aparece com uma sandes de torresmos e um pirolito. Fiquei deliciado, porque já havia um bom bocado que tinha fome e sede, mas não tinha dito nada para não complicar ainda mais a situação. Então, ele disse-me:

– Bem, espero que tenhas aprendido a lição; mas como o pai ainda descobriu aqui no fundo do bolso uns trocos, que deram para as sandes e ainda nos sobrou 2$00, assim podemos ir de eléctrico até ao Rato.

Calculem o alívio e alegria quando ouvi esta novidade, e lá fomos os dois a rir às gargalhadas para a paragem do eléctrico.

Foi um dia em cheio (que saudades, pai)...

Mal chegámos a casa, o meu avô começou logo meter-se com o meu pai, em ar de troça:

– Uma grafonola... e avariada!

– Deixe estar, que eu e o Vitó arranjamos isto – dizia o meu pai.

Claro que eu não percebia nada daquelas coisas, mas recordo ter ficado todo orgulhoso com o comentário. No futuro viria a ter esse jeito para as máquinas e ferramentas, mas meu pai era um grande “engenhocas”, lá em casa arranjava tudo.

Limpámos muito bem a caixa, que estava um pouco mal tratada, e meu pai desmontou o engenho de corda. Lembro-me que era parecido com a corda dos relógios de sala e – vejam a nossa sorte – a corda não estava partida, tinha-se solto o engate da ponta, que prendia ao sistema de fixação do enrolamento. O meu pai todo contente só dizia:

– Eu sabia, eu sabia!

Grafonola-Gramofone-de-mala-antiga-20140202180932.

 

Após a montagem, com a família toda à volta do engenho posto em cima da mesa de jantar, o meu pai dá à corda, destrava a pequena alavanca e o prato começa a rodar. Foi uma proeza saudada com grande algazarra e alegria. Logo o meu avô deu o dito por não dito:

– Já podemos tentar arranjar uns discos meus.

Entretanto, meu pai monta uma agulha, dá à corda (avisa-nos que não se deve rodar até prender, pois pode partir a corda ou voltar a soltar-se o engate) e põe o disco da Maria Alice. Foi, decerto, o primeiro disco que ouvi na minha vida, de tal forma que ainda hoje me lembro do fado na totalidade:

 

Acredita meu amor

Quando te vou visitar

Às grades dessa prisão

Sufocada pela dor

De te ver assim penar

Estala meu coração

 

Por mim mataste um rival

És agora condenado

Ao degredo por castigo

Mas juro por amor fatal

Não vai meu corpo a teu lado

Mas vai minha alma contigo

 

Depois, tomámos o gosto à grafonola e o primeiro disco do meu avô que arranjámos foi da “ODEON”, com os temas, "Amor de Mãe" e "Os Olhos". Como sabem, as grafonolas não tinham uma velocidade constante, e então o meu avô, quando se ouvia, exclamava:

– Então não é que até parece que tenho voz de mulher!!

                                   

                            

 

Disco de Grafonola 78 r.p.m

 

Mas voltemos às botas. Conforme tinha sido combinado, eram para estrear no primeiro dia de aulas, e assim foi, penso que a 6 ou 7 de Outubro. Nesse dia chovia torrencialmente, as botas vinham mesmo a calhar.

Ao fim do dia cheguei a casa desolado e com os pés todos molhados, pois as solas estavam todas desfeitas: eram de cartão colado sobre a sola inicial já gasta, muito bem pintadas, com anilina preta e graxa, o que lhes dava aquele aspecto consistente e novo! Fartei-me de chorar com o desgosto, mas mais tarde até rimos, porque nos lembrámos de como fora o negócio e, afinal, os enganados fomos nós. Pediu-se orçamento ao sapateiro, mas a minha avó disse logo que não se podia agora estar com aquela despesa, as solas e a mão-de-obra custavam quase 30$00 (o meu avô, naquela altura, ganhava 50$00 por noite e o meu pai, quando arranjava para cantar, não ganhava mais do que 20$00 a 25$00 por noite).

Ora, a solução acabou por ser uma alegria e um orgulho para todos nós, isto porque o meu bisavô (pai do meu avô Alfredo) era sapateiro e o meu avô, nos intervalos da escola, até o pai morrer, foi aprendendo o oficio e dando uma ajuda no trabalho. Como o meu avô era habilidoso, desembaraçava-se bem; comprou num armazém, em S. Paulo, um bocado de sola que lhe custou 6$00 ou 8$00 e, como tinha as ferramentas da arte de sapateiro que tinham sido do pai – as formas, sovelas etc. – foi ele próprio que me colocou as solas nas botas, botas que usei enquanto me serviram. Creio que ainda acabaram por levar umas solas de borracha.

Desculpem estes desabafos/recordações dos meus Fados!

 

Vítor Duarte Marceneiro

 

 

 

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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

Vítor Marceneiro - Os Fados da minha vida "O Fado de Cada Um" de Amália

 Vítor Marceneiro aos 6 anos

A primeira vez que entrei numa sala de cinema, foi para ver o filme, História de uma Cantadeira interpretado por Amália Rodrigues, o filme estava em exibição no Cinema Paris, à Estrela ( o edificio ainda lá está, embora em ruinas), quem me levou foi  minha tia Aida. Naquele tempo,  os miúdos desde que acompanhados por um adulto, não pagavam bilhete, mas teriam que ficar sentados ao colo do adulto, se a lotação estivesse esgotada.

Tinha cerca de 6 anos e recordo que  fartei-me de chorar, é que  minha mãe tinha falecido há relativamente pouco tempo, e aquela "linda senhora do filme", fez-me recordá-la,  vendo a foto de minha mãe, poder-se-à entender como para uma criança haviam tais parecenças, minha mãe tinha faleceu com  25 anos de idade,   razão porque fui viver com os meus avós Alfredo e Judite.

  

Mariete Duarte mãe de Vítor Marceneiro

Passado que foram alguns meses, venho a conhecer a tal "linda senhora!", e pasme-se,  ela era uma grande amiga do meu avô,  foi numa manhã em que ela após uma das muitas noites  de Fado que estiveram juntos,  lhe dava boleia  para casa  e onde acabava  também por ficar a comer uma sopa da "Ti Judite, pois é,  a tal senhora era a saudosa Amália Rodrigues. 

 

Apontamento retirado do filme

História de uma Cantadeira

Amália canta "O Fado de Cada Um"

 

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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017

VICTOR DUARTE - Discos e Censura

O Dueto dos Marceneiros_.jpg

Capa do EP - Discos Estúdio

Alfredo Marceneiro & Vítor Duarte

Cantam Duetos: Lucinda Camareira e O Camponês e o Pescador

 

Em 1972 já depois de ter gravado a solo e em dueto para a etiqueta Estúdio – Emílio Mateus, sou convidado para gravar um EP para a etiqueta Parlophone- Valentim de Carvalho, sendo-me dada a honra de ser acompanhado por José Nunes à guitarra, e Francisco Peres (Paquito) à viola.

Os temas foram escolhidos por mim, e é quando o saudoso Artur Ribeiro, me escreve um Fado original, como já tive oportunidade de aqui referir, “Mais Um Entre Tantos”, escolhi ainda, do repertório de meu avô, “Vestido Azul” poema de Henrique Rego, e também  “Não Me Queres, Não Admira”, de Frederico de Brito, que lhe pedi directamente não só autorização, como os versos que eu não tinha, pois só conhecia o mote, que julgo já tinha sido cantado e talvez gravado por outro artista, o que na realidade desconheço, e finalmente “Sangue de Heróis” do meu saudoso Carlos Conde, que deu o título ao disco, e que escreveu o prefácio na contra-capa.

 

 

                                   

 

Texto da contra-capa:

Ao longo dos séculos, a terra portuguesa tem sido cenário de lutas intemeratas, de glórias, de amores e de mágoas.

Mas nas lutas. como nos amores, nas mágoas como nas glórias, souberam os portugueses cunhar um destino. E a sua maneira de ser e de viver fez uma Pátria, uma Raça, um Povo e, mais do que tudo isto: uma Alma.

E se a canção é, por vezes, a Pátria, ela está, também, em versos, nas vozes que os cantam, na intenção que os sugere, na saudade que corta todos os silêncios e chora todas as angústias.

 

 O disco foi censurado, na face B, pelo então Director de Programas da Emissora Nacional.

 

 

Caro Vítor  Duarte,                         

Em resposta ao seu pedido enviamos 4 imagens digitalizadas do EP Parlophone 8E 016-40236 [cota EN: A-382] — três das quais testemunham os procedimentos de censura por si mencionados.

 

Na imagem da contracapa é legível a seguinte inscrição: “Proibidas – Exmo. DSP – 12/12/72”. A sigla “DSP” correspondia, na Emissora Nacional a “Director dos Serviços de Programas”. Também o disco apresenta marcas feitas com lápis de cera amarelo com o objectivo de impedir a sua reprodução.

 

Cedemos estas imagens exclusivamente para a utilização declarada – utilização no blogue Lisboa no Guiness. A proveniência das imagens deve ser tornada explícita com a seguinte menção: “Rádio e Televisão de Portugal - Arquivo da Rádio”.

 

Ficamos ao seu inteiro dispor para qualquer esclarecimento adicional,

 

Com os melhores cumprimentos,

Eduardo Leite
Chefe de Departamento

Rádio e Televisão de Portugal
Arquivo da Rádio

 

Na face B, estão os temas, "Não me queres não admira" e Mais Um Entre Tantos   

                                         

Vítor Duarte canta:

 

Não me queres, não admira

Letra de Frederico de Brito

Musica Fado Marcha de Alfredo Correeiro                                                                                                                                                                                                                                  

Vítor Duarte canta:

Mais um Entre Tantos

Letra de Artur Ribeiro

Musica Fado Alexandrino Laranjeira de Alfredo Marceneiro

 

Mas a censura, não ficou por aqui, Armando Marques Ferreira, que na altura tinha um programa na Rádio Renascença, anulou uma entrevista, que tinha marcada comigo, dizendo-me, que após ouvir o disco, não dava cobertura a simpatizantes da guerra do ultramar, (!) .

O certo é que o disco nunca passou nas rádios.

A face "B" já se viu porquê.  A  face "A" por causa do tema "Sangue de Heróis", de Carlos Conde.

Houve também alguns amigos meus,  que embora sabendo bem quais as minha convicções (e, em que águas eu navegava, desde os tempos de estudante) que me chamaram reaccionário,  e mesmo explicando-lhes que o poema era do poeta talvez mais censurado de Fado, por ser anti-regime, o tema fala de patriotismo, que nos anos trinta,  altura em que Hitler já estava no poder na Alemanha, e era do conhecimento geral, que  queria dominar toda a África, e as colónias portuguesas na altura, eram por ele cobiçadas, qualquer português digno desse nome, se indignava,  mas pasme-se, até  nessa altura a censura, proibiu que a letra fosse cantada, porque era uma provocação! 

Dois anos depois veio o 25 de Abril,  e alguns desses que  se desagradaram com o tema do Fado...... que me chamaram reaccionários, encontrei-os do outro lado ...... não digo mais.

Ainda hoje tenho todo o orgulho como português, do conceito do Fado, e aqui realço os seus versos finais,

 

                      Diz ao mundo, grita aos sóis

                      Enche os céus da nossa glória

                      Num clarão vasto e profundo

                      Que só com sangue de heróis

                      Portugal ergueu  história

                      Nas cinco parte do mundo 

 

Vítor Duarte canta:

Sangue de  Heróis

Letra de Carlos  Conde

Musica Fado Cravo de Alfredo Marceneiro

                                      

Nota: Esta página foi publicada pela primeira vez em 27 de Janeiro de 2008

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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016

2017 - Façam-me o Favor de Serem Felizes

Cartão Bom Ano 2017.jpg

 

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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2016

Maria Emília Sobral - Fadista

Emilia Sobral2.jpg

Na realidade, foi batizada como Maria Emília Ferreira Lima, a Mila para os amigos e familiares, nasceu na Barqueira a 19 de Julho de 1945, junto à Vila de Sobral de Monte Agraço, Vila onde  viveu a sua infância, lá estudou e é  lá tem ainda hoje tem a sua residência.

O seu primeiro emprego foi no Colégio Moderno, em Lisboa, depois trabalhou em diversas empresas no Sobral de Monte Agraço, até á sua  reforma.

Desde muito jovem que se sentiu atraída pelas artes, mas no Fado começou a destacar-se a partir de 1970, nas festas da Vila,  em especial na  “Tasca do Carreiras”,  tal como outros amigos sobralenses, destacando-se,  o Egídio, o António Jordão, todos lá cantavam,  mas  á “cappela”.

A primeira vez que se apresentou em público devidamente acompanhada  com guitarra e viola, foi numa Festa de Natal dos Bombeiros Voluntários do Sobral de Monte Agraço, em 1972, onde teve enorme êxito sendo estrondosamente aplaudida.

Foi o ponto de partida para ganhar confiança e começou a ir para Lisboa, frequentando as Tertúlias de Fado, onde sempre foi muito bem recebida e onde cultivou muitas amizades e admiradores.

Entre  os seu admiradores,  estava o seu amigo Manuel Tavares, que à altura,  era trabalhador da RTP,  que a convidou para uma Festa de Natal dos Trabalhadores da RTP,  o que aconteceu por dois anos seguidos, tal foi o seu desempenho. Nestas festas, foi acompanhada na guitarra portuguesa  por António Chainho,  e na viola pelo José Maria Nóbrega,  que muitos gostaram do seu estilo de cantar,  deste encontro nasceu uma amizade, que  mais se cimentou,  quando da  gravação do seu primeiro Disco  EP,  para a etiqueta  Alvorada  em 1976,  pois o elenco musical foi o  Conjunto de Guitarras de António Chainho, composto pelo próprio, pelo guitarrista José Luís Nobre Costa, o viola de acompanhamento José Maria Nóbrega, e o viola-baixo Raúl Silva. Neste trabalho, Maria Emília Sobral,  dá-lhe o titulo “Meus Senhores Chamo-me Fado” , tal como o  letra do Fado que canta,  da autoria de Luiz Miguel Oliveira, é de lembrar que estávamos em 1976 e o Fado era muito contestado e apelidado de reacionário, senda esta letra,  um grito de defesa do próprio Fado, canta ainda,  “O Fado Monte Agraço”. “O Fado de Abril” e “Vejo-te ao Longe Partindo”.  Em 1978, grava o seu segundo EP, também para a etiqueta Alvorada e novamente com o Conjunto  de Guitarras de António Chainho,  com os temas: “Mensagem”, “Sardinha na Brasa”, “De Novo” e “Não Passo de Ser Nada”

 Meus senhores , chamo-me Fado (2).jpgMeus senhores , chamo-me Fado (1).jpgMeus senhores , chamo-me Fado (4) (1).jpg

Em 1977,  iniciam-se as suas deslocações para o estrangeiro,  contratada para cantar,  esteve três meses na África do Sul, onde Cantou em Joanesburgo, no Cabo e em Durban, integrada numa digressão artística,  a que chamaram “Caravana da Saudade”, digressão esta muito assinalada, quer nos jornais,  revistas e na Rádio local.

Em 1978, foi à Holanda, com Arlindo de Carvalho, com a Ágata (nessa altura Fernanda de Sousa) e outros artistas, onde atuaram em Haia, Amsterdão e Roterdão.

Ainda em 1978 na sequencia  do êxito do seu segundo EP, atuou no programa da RTP – Último Fado.

Em 1979, voltou á Holanda,  esteve em Antuérpia, na Bélgica, seguindo-se  Alemanha, em Singen.

Em Portugal, fez muitos espetáculos em festas de beneficência, assim como, atuações em casas de Fados , Adega da Matilde, o Castiço, o Embuçado, o Nove e Tal, o Pátio das Cantigas, entre outros.

Em 1988 voltou à Africa do Sul, convidada para as Comemorações Oficiais do Dia de Portugal, tendo atuado em Joanesburgo, Pretória e Windhoek.

Regressada a Portugal conheceu o companheiro da sua vida, Diamantino Calisto e, em 1991, decidem ir  para Angola, para tentarem uma nova  experiência nas suas vidas, não foi  nada fácil, dadas as condições politicas e sociais em Angola,  nessa época. Abrem um restaurante, “O Pátio Alfacinha”, e como em Angola também se aprecia o Fado,  passam  a dar frequentemente, sessões de Fado,  foi várias vezes contratada para atuar,  no Hotel Ritz, no Méridien,  no Vitória Garden, na Casa 70, na Associação 25 de Abril, e na Embaixada de Portugal em Luanda,  ao lado de Carlos do Carmo, Camané, Beatriz da Conceição, Ricardo Ribeiro, Rodrigo, entre outros.

Como fadista que é,  nunca deixou de cantar, sempre que é convidada ou como muitas das vezes acontece e vem até á Lisboa Fadista, onde é sempre recebida carinhosamente.

Tenho um carinho muito especial pela Mila, fui seu vizinho no Sobral de Monte Agraço, terra onde nasceu a minha filha Beatriz.

Maria Emilia Sobral

Canta: Sardinha na Brasa

 

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