Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

25 de ABRIL - Renasceu a Esperança... MAS!?

Na realidade verifico que esta imagem de ano para ano, está mais desfocada!?

 

Com esta europa anti-democrática,  com esta direita liberal,

com estes capitalistas a gamarem e o povo a pagar,

como vai ser?

Vamos lá ver se a esquerda aguenta a reacção. Viva Portugal

 

 

 Foto de: Sérgio Guimarães
Foi um talentoso fotógrafo,ligado ao meio teatral, às artes plásticas.
O seu génio criativo e sentido de oportunidade é bem exemplificado nesta foto.
Sérgio Guimarães com esta foto ficará para sempre ligado à nossa História, ao 25 de Abril, ao Movimento dos Capitães.
Milhares de pessoas admiram esta foto, mas Infelizmente poucos conhecem o nome do seu autor.
Já se têm feito homenagens por muito menos.

   

 
Poema dito pelo seu autor, o saudoso poeta
FERNANDO PINTO RIBEIRO
 

Ao Novo Dia

 

Rebenta dos abismos às montanhas

o sangue que incendeia a madrugada

e um novo dia irrompe das entranhas

 da terra finalmente fecundada

 

Foices malhos enxadas e gadanhas

e punhos - semeando-se em rajada

contra lobos ocultos entre as brenhas -

­alevantam pendões de tudo-ou-nada

 

Acorda o novo dia. E desta vez

o sol nasce nas mãos do camponês

e põe-se na tigela do operário

 

Multiplicado o pão por quem o fez

não mais há-de ser hóstia que  burguês

consagre dando a fome por salário

 

 
Crónica actual.

ASSIM VAI PORTUGAL..

 

«O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
          Não há princípio que não seja desmentido.
          Não há instituição que não seja escarnecida.
          Ninguém se respeita.
          Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
          Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o país está perdido!»

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Sexta-feira, 14 de Abril de 2017

FELIZ PÁSCOA 2017

BOA PÁSCOA 

E ACIMA DE TUDO SEJAMOS FELIZES

 

 

 

O FADO É UM TESTEMUNNHO
O Fado não é apenas testemunho poético do drama histórico de um Povo.
Fado é Vida é Destino.
A tensão entre a Saudade e a Esperança, pertencem também a cada português, se é que não faz mesmo parte da condição humana.
Talvez o Fado não seja a força inevitável do destino, mas procure-se nele o sinal vivo da luta do Amor com a Morte.
O que há de mórbido na “alma” do Fado é as mil maneiras como nos prova que o coração se engana e é com a morte que se enleia quando busca o Amor.
Mas o Fado não abafa o sopro inquieto com que o homem se interroga sobre todos os horizontes e arde em anseios de Infinito.
Se Fado é vida e destino, também Jesus Cristo veio à Terra cumprir o seu Fado... o seu destino.
 
Mas, o Fado é acima de tudo é ....
 
UM ESTADO DE ALMA
 
SE O SANTO PADRE  FRANCISCO, SOUBER

O "SABOR" QUE O FADO TEM
 VEM DE ROMA A FÁTIMA
PODE CANTAR O FADO TAMBÉM

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Terça-feira, 21 de Março de 2017

FERNANDO PINTO RIBEIRO - O Poeta

 

  

O Fado ficou de  luto, quando o meu querido amigo,  o poeta Fernando   Pinto Ribeiro, nos deixou em  20 de Fevereiro, sinto uma mágoa imensa, pois desde o dia em  que tive a honra de o conhecer, nasceu ente nós uma amizade   e carinho, que nunca esquecerei.

Ainda pouco tempo antes da sua morte,  em conversa telefónica me informou que ía re-escrever um dos seus poemas, que enviou por carta,  com uma dedicatória manuscrita, apelidando-me  de "SEU PADRINHO NO FADO".

Tínhamos sido apresentados há pouco mais de um ano, que pena tive de e  ter tido conhecido há mais tempo, fez questão de me conhecer para me elogiar pelo trabalho neste blogue,  meu afilhado do Fado!,  como me afirmava,  com um misto de orgulho que eu sempre te disse , não merecer. Fazia ainda questão de me apelidar de Vítor Duarte  "Marceneiro  Terceiro"  ( o III, por extenso). 

 

   

NAS RUAS DA NOITE

 

A Vítor Duarte, “Marceneiro Terceiro” — Meu padrinho no Fado

Fernando Pinto Ribeiro

 

 

 No crepitar de estilhaços(*)

de estrelas sobre os espaços

da Lisboa  rua em rua —

crucificámos abraços

encruzilhados nos passos

que à noite a lua insinua

 

                                Nas nossas bocas unidas

                                sangrámos fados em feridas

                                dos beijos amordaçados —

                                salvámos vias vencidas

                                que andam pla treva perdidas

                                como num mar afogados

 

Cegos de sombras e lama

E da sede que se inflama

numa inquisição divina —

bebemos o vinho em chama

que sanguínea  luz derrama

no candeeiro da esquina

 

                                Embriagados de lume

                                sem dissipar o negrume

                                do fumo que nos oprime —

                                rezamos todo o queixume

                                do cio deste ciúme

                                num amor que se faz crime

 

Crucificamos abraços

encruzilhados nos passos

que a noite nua desnua —

crepitantes de estilhaços

de estrelas quando em pedaços

vêm morrer sobre a rua

 

O Poeta e escritor Fernando Pinto Ribeiro, que faz questão de me chamar  "Seu Padrinho no Fado" quando eu nasci já ele escrevia para o Fado  isto,  porque acha que eu fui  a pessoa do Fado, que escreveu acerca dele  e da sua obra, , de uma forma que ele considera a mais objectiva, em todos estes  anos que tem de Fado. ("O percurso da História é muitas vezes estrangeiro ao percurso do artista. Nem sempre este se integra de forma tão sincronizada e congruente com aquele".

hoje somos somos duas almas gémeas do "Fado" que se encontraram, como que para reatar uma amizade que há muito estava estagnada.

É uma ternura para mim este seu sentir, como honrado fico com os versos que me dedica, e que gostariamos que eu um dia cantasse com música de meu avô. 

(*) Este tema já foi cantado e gravado, por decisão própria de quem o cantou, o poeta autorizou através da SPA, por delegação, mas é a primeira vez que ele o dedica pessoalmente,  com algumas, mas importantes reformulações, em última e definitiva versão, orientadas segundo ele,  para a  minha peculiar forma de me exprimir e venerar o Fado.

 

 

 

 

Fernando Pinto Ribeiro, é natural da Guarda. Nasceu em 1928. Ao 17 anos vem para Lisboa após completar o Curso Liceal, inscrevendo-se na Faculdade de Direito, cujo curso não chegou a completar. Já em jovem começa a rimar as palavras, nunca deixando de escrever quadras soltas, tendo aos catorze anos escrito, o seu primeiro soneto a que dá o título de “Soneto dos 15 Anos”.

Colaborou nas Revistas Flama , Panorama, Páginas Literárias, em Jornais, como Diário de Notícia, Diário Ilustrado e em vários jornais regionais, tendo também sido publicados  no Brasil alguns poemas de sua autoria.

Foi Director da Revista de Letras e Artes “CONTRAVENTO” (1968), da qual só se conseguiram editar quatro  números, dado que o seu cariz intelectual e democrático, não podia de deixar de ser amordaçado pela censura.

Pertence aos corpos sociais da Sociedade da Língua Portuguesa, Sócio da Associação Portuguesa de Escritores, Cooperador da Sociedade Portuguesa de Autores, Sócio da Colectividade Grupo Dramático e Escolar “Os Combatentes”. (Colectividade Popular Centenária)

Frequenta algumas noites de Fado e fica fascinado com o ambiente da noite fadista, começando sem que se aperceba, a identificar-se com  a “expressão fadista” o que apela  à sua alma de poeta, começando a escrever alguns fados que desde logo foram bastante elogiados. Compositores de Fado colaboraram,  e a qualidade dos seus poemas é tal, que logo houve nomes do panorama musical do Fado que os quiseram interpretar, fadistas como: Ada de Castro, Alexandra Cruz, Anita Guerreiro, António Mourão, António Laborinho António Passão , António Severino, Arlindo de Carvalho, Artur Garcia, Beatriz da Conceição, Branco de Oliveira, Carlota Fortes, Chico Pessoa, Estela Alves, tia e sobrinha, Fernando Forte, Francisco Martinho, Humberto de Castro, Julieta Reis e sua filha Sara Reis, Lenita Gentil, Lídia Ribeiro, Maria Jô-Jô Pedro Lisboa, Lurdes Andrade, Natércia Maria, Simone de Oliveira Toni de Almeida,, Tonicha , Tristão da Silva, Xico Madureira, e outros. No início Fernando Pinto Ribeiro usava ainda o pseudónimo "SÉRGIO VALENTINO".

Alguns das suas letras para fado mais conhecidos, são: Às Meninas dos Meus Olhos, A Cantiga dos Pardais, Era um Marinheiro, Fado Alegre, Hino à Vida, Nas Ruas da Noite, Bom Fim de Semana, Noites Perdidas, Pensando em Ti, Lisboa vai,  Pensando em Ti, , etc.

 © Vítor Duarte Marceneiro

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Viva Lisboa: Que Saudades Amigo
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Segunda-feira, 6 de Março de 2017

RTP - 60 anos

  (1)      (2)         

 

Comemora-se os 60 Anos de Televisão pública em Portugal, a inauguração foi na antiga Feira Popular (1)  Luna Parque) a Palhavã, que era para nós miúdos uma coisa do outro mundo, ficava no (2) Parque onde está a Fundação Calouste Gulbenkian, tive a felicidade de lá estar e nunca mais me esqueci daquela caixinha mágica, acabei de vir a ser profissional de Cinema e Televisão... o sonho concretizou-se.

Relembro este acontecimento porque para mim est á relacionado com Fado, pois naqueles anos quase todos os fadistas profissionais e amadores que sobressaiam ,  eram convidados a cantar para à RTP. Depois de abrirem os outros dois canais  tudo piorou, e até a RTP deixou de dar práticamente Fado, agora são sempre os mesmos que vão aos mesmos canais, e a RTP vai-nos dando as "Memórias".

Passa a alguém pela cabeça que O Fado tenha a sido  considerado Património da Imaterial da Humanidade, porque é  uma forma musical única no mundo, e que seja   no próprio país que reivindica a designação, a Televisão Pública não tem  programas de Fado. (Excepto se for alguém premiado lá fora),.!!!

Mas meus amigos recordam-se?

 

Ficcão... ou Talvez não!

Há um Realizador de Cinema (Documentários) o  Sr. Saura , que  é quem  sabe da poda, foi -lhe pedida ajuda de uns entendidos (conselheiros),  que até arranjaram um mecenas (o er á rio público), pedindo-lhe  para fazer um filme histórico e isento, porque os realizadores portugueses são uns intelectuais e não de debruçam sobre estes temas menores, consta-se que o Sr. Saura   ter á nbsp; logo ter dito: — Fado só com portugueses é uma chatice , assim vai se for como eu quiser , vai haver fado em flamengo, em brasileiro, em mornas etc.

O Sr. Saura estudou muito sobre Fado , e vai acabar,   com conhecimento de causa por  explicar de uma vez por todas aos portugueses, que o Fado não é nada nosso, foi roubado, nós fomos foi grande navegadores, e como aos marinheiro era h á bito ter uma mulher em cada porto, os marinheiros portugueses não fugiam á regra, ou não fossem latino machistas , assim em cada terra por onde passavam, aprendiam um pouco do que por l á se cantava nos bordeis, aprenderam uma notas com os  escravos africanos, mais umas notas com os índios brasileiros, na Índia  também tirámos notas, na China , no Japão, etc. , repovo á mos ainda Cabo Verde com v á rias raças, o que obviamente deu mais umas misturas de musicais diferentes.

Finalmente previdentes como somos,  e para não sermos acusados de pl á gio, e hoje teríamos a pagar indemnizações a esses povos , juntámos tudo num molho e deu esta mistura de canção que chamamos   Fado,  e é por isso que só nós é que o cantamos em todo o Mundo. Mas é porque os outros não quiseram  aproveitar esta "modinha"?,  é porque é pobre musicalmente, é tocado num instrumento que tem cordas a mais,  só tem 1º e 2º  andamento e que é tocado de ouvido, os tocadores não vem do conservatório. Uma chatice .......

Ninguém tem dúvida que o Filme vai ser um êxito (ler a História do Rei Vai Nu), pois ele só ser á entendido por gente inteligente, e se não gostarem e protestarem o Sr. Saura até sabe daquela história do Manuel de Oliveira que no filme "Francisca" ninguém viu o filme até ao fim, a versão de televisão ninguém gostou, ali á s mudavam para o 2º canal, ou apagavam os televisores. Manuel de Oliveira em entrevista na TV confrontado com estes factos retorquiu : — O Filme é bom, o povo português é que é inculto, vejam como eu lá fora sou apreciado (Nota - felizmente é apreciado tem uma obra fant á stica, eu como inculto que sou, tenho direito a só ter gostado do Anikita Bóbó ).

Portanto seja o filme o que for, não tenham dúvidas que vamos ter muitos intelectuais e conhecedores a dizerem que nós é que

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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2017

ZECA AFONSO - 30 Anos de Saudade

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, filho de um juiz e de uma professora primária, nasceu, em Aveiro, em 2 de Agosto de 1929, tendo passado os primeiros anos de vida entre a terra natal, Angola e Moçambique.

"Bicho-cantor" foi a alcunha que lhe deram no liceu, por cantar serenatas durante as praxes. Nesta altura conhece a vida boémia e os fados tradicionais de Coimbra.

Entre 1946 e 1948, enquanto terminou o liceu, conheceu a costureira Maria Amália de Oliveira, com quem casou às escondidas, devido à oposição dos pais.

Quando, em 1949, ingressou no curso de Ciências Histórico Filosóficas, da Faculdade de Letras, revisitou Angola e Moçambique, integrado numa comitiva do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra.

Em 1953, nasceu o primeiro filho, José Manuel, e, enquanto dava explicações e fazia revisões no "Diário de Coimbra", viu os primeiros discos serem editados.

O Emissor Regional de Coimbra, da Emissora Nacional, foi o local escolhido para a gravação dos dois discos, de 78 rotações, com faixas de fados de Coimbra.

"Fados de Coimbra" é o título do primeiro EP, editado em 1956. Nos finais dos anos 50, princípios de 60, começou a frequentar colectividades e a cantar, com regularidade, em festas populares.

Em 1963, concluiu o curso, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre e a nota de 11 valores.

A senha para o início da Revolução de Abril, "Grândola Vila Morena", nasceu após Zeca Afonso se ter inspirado numa actuação na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, em Maio de 1964.

O único disco editado pela Valentim de Carvalho, "Cantares de José Afonso", é desse ano, altura em que regressou a Moçambique, onde viveu e leccionou durante três anos.

O regresso a Portugal deveu-se à oposição José Afonso ao sistema colonial . O destino, desta vez, foi Setúbal, onde foi colocado como professor, tendo sofrido uma grave crise de saúde que o forçou ao internamento hospitalar durante vinte dias. Quando recuperou, ficou a saber que tinha sido expulso do ensino oficial, passando a viver de explicações que dava.

O PCP chegou a convidá-lo, por esta altura, a entrar para o partido, mas José Afonso recusou alegando a sua condição de classe.

O álbum "Contos Velhos Rumos Novos" e o single "Menina dos Olhos Tristes", que contem a canção popular "Canta Camarada" , são editados em 1969.

Seguem-se "Traz Outro Amigo Também", em 1970, gravado em Londres, "Cantigas do Maio", em 1971, gravado em Paris, e, no ano seguinte, "Eu Vou Ser Como a Toupeira", editado em Madrid.

Em Abril de 1973, foi preso, passando vinte dias em Caxias, e no Natal desse ano gravou, em Paris, "Venham Mais Cinco", com a colaboração musical de José Mário Branco, então exilado na capital francesa.

Muitas outras canções, espectáculos e prémios surgiram nos anos posteriores à revolução e, em 1982, os primeiros sintomas da doença que lhe causou a morte, uma esclerose lateral amiotrófica, começaram a manifestar-se.

No último álbum, "Galinhas do Mato", editado em 1985, Zeca Afonso já não conseguiu cantar todos os temas, sendo substituído por muitos cantores portugueses, como Luís Represas e Janita Salomé.

Dois anos mais tarde, em 1987, no dia 23 de Fevereiro, às 3:00 h, José Afonso morreu, no Hospital de S. Bernardo, em Setúbal.

in: http://delta02.blog.simplesnet.pt/

 

 

 

 

 

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música: A Morte saiu à rua
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ZECA AFONSO - José Afonso -Fados da Minha Vida

 

 

Nos anos oitenta, andava eu na minha actividade de cineasta, não tinha o protagonismo, que hoje me atribuem, no meio do Fado, nem tinha escrito livros nem blogues, só cantava para os amigos. Chamavam-me Vítor Duarte, o Marceneiro, por ser neto de quem era, mas nunca ninguém se referiu a mim como "Vítor Marceneiro", e o Zeca na dedicatória que me fez na capa do LP, foi decerto e por sua alta recreação,  o primeiro a fazê-lo. Só adoptei o nome de Vítor Duarte Marceneiro, quando me inscrevi na SPA, e a minha intenção era e é, realçar que o que sei de Fado aos meus progenitores o devo.

 

 

 

 

 Em meados de 1980, a etiqueta Órfeu – Arnaldo Trindade, dava-me a produção e realização, do que na altura se chamava de "telediscos", que eram filmados em película de 16mm, e o som não era síncrono, por falta de meios, sobre os temas que eram editados em disco, que depois a RTP, passava em programas musicais

Nessa altura fui incumbido de fazer um "teledisco", do último LP de Zeca Afonso – Fados de Coimbra.

Eu nunca tinha estado com José Afonso, mas conhecia toda a sua obra, e a sua posição de cidadania perante o regime.

Em finais 1973 a Órfeu-Arnaldo Trindade, tinha toda a produção em single de José Afonso, proibida de ser comercializada, (foi o rescaldo da promessa de abertura do regime, pois a censura só era feita após a saída das edições, quer fossem livros ou discos), sendo nessa altura, José Niza, director de produção musical, e o responsável comercial era o Mota Alves, que era em Lisboa o representante da Orfeu do Porto, e distribuía os discos proibidos do Zeca, a pessoas de confiança, para serem vendidos às escondidas, ao preço de custo (50$00 na época). O meu carro era um NSU-PRINZ, que tinha a mala à frente, e estava sempre a abarrotar de discos, que ia vendendo, e bem, a conhecidos e amigos, sendo que para muitos, era o primeiro contacto com a obra do Zeca.

Certo dia de madrugada, vinha de Cascais de uma fadistisse, e fui mandado parar num auto-stop, não me recordando já, se por agente da GNR ou ainda da PVT, que depois de ver os documentos, quis que lhe mostrasse o pneu de reserva. Lembro-me que todo eu fiquei "gelado", tendo aberto a mala do carro, e ouvido uma exclamação... mas afinal o que é isto? E começou a mexer nos discos, a ver um a um, com muita atenção, chamou o outro camarada que estava com ele, para ver aquilo, e pediram-me uma explicação, lembro-me de ter apresentado um argumento "esfarrapado"....sou colaborador eventual desta discográfica e isto são discos de pessoas que são pouco conhecidas, e não se conseguem vender, assim, em vez de queimar ou deitar fora, dão-nos para podermos oferecer a quem quisermos.... Soltaram ambos uma gargalhada estrondosa... e, disseram algo, tipo, bem, sendo assim se não se importa, vamos ficar com alguns para nós, lembrando-me, que com um certo ar sarcástico, um deles ter dito, é desconhecido, não se vendem, mas nós aproveitamos.

Mandaram-me seguir viagem, nem sequer chegaram a ver o pneu de reserva, e em modo de aviso, aconselharam-me a ter cuidado, pois nem todos são desconhecedores de música “desta” como nós…

Voltando á produção do "teledisco", ficou combinado que as filmagens seriam efectuadas em Azeitão, numa quinta com um palacete, que tinha um jardim muito bonito e que considerámos adequado para o efeito.

Pensava eu que iria ouvir e poder fazer muitas perguntas ao Zeca Afonso, mas tal não aconteceu, pois o Zeca ao saber quem era o meu avô, levou todo o tempo dos intervalos das filmagens a querer saber por mim, tudo sobre Marceneiro, creio ter sido convincente, pois no final, autografou-me o LP na contracapa (imagem acima), com o seguinte texto:

 

Ao amigo latiníssimo. Temperamental da velha raça do Gama Vítor Marceneiro – do autêntico até ao próximo encontro com o José Afonso.

 

Não o voltei a encontrar em vida, mas acredito que algures num tempo (indefinido/definido) nos voltaremos a encontrar.

Até lá, Zeca.

 

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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2017

JOÃO PAULO - Fadista de Bucelas

João Paulo Pascoal Félix, nasceu em 1977 na Bemposta, freguesia de Bucelas, onde ainda reside,

Desde muito jovem que tem uma tendência para o Fado, ao conseguir ter o seu primeiro rádio com gravador incorporado, passa os tempos livres a ouvir rádio e a gravar os seus ídolos, Amália Rodrigues, Tristão da Silva,Fernando Farinha, e outros.

Sempre afirmou  ser fã incondicional de Fernando Maurício, cantando alguns números do seu repertório, que apraz assinalar, num estilo muito próprio.

Aos 11 anos começou a cantar fado, em colectividades recreativas,    festas dos Bombeiros, etc.

Nunca perdeu a oportunidade de se inscrever em todos os concursos de Fado,  teve conhecimento, tendo em todos eles se destacado, o  que lhes deu-lhe um palmarés notável:

Em 1992 com 15 anos concorre à Grande Noite do Fado "CASA DA IMPRENSA", e ficou em 2° lugar na classe de juvenis

No ano seguinte, já mais experiente, concorre novamente à Grande Noite do Fado no Coliseu de Lisboa, mas agora na classe sénior, e ganha o 1º lugar, sem contestação.      .

Foi finalista no programa “Lugar aos Novos” da Rádio Renascença, tendo sido o Vencedor.

No programa "Luzes da Ribalta" de Júlio Isidro na TVI, mantém-se em primeiro lugar durante quatro semanas, tendo alcançado um feito único num programa de TV do género.

Já actuou em quase todo o país, Coliseu do Porto, Coliseu de Lisboa, Teatro São Luís, Teatro Maria Matos, Pavilhão Carlos Lopes, Voz do Operário, Fórum Almada, etc., etc.,

No estrangeiro, já actuou em Inglaterra, França e Suiça, agradando quer pelo seu estilo de cantar, quer pela sua forma de estar.

Jovem mas consciente da sociedade em que está inserido, nunca recusa a sua colaboração em festas de beneficência.

Embora cantando com bastante frequência, tem uma outra actividade que considera ser a estabilidade do seu futuro e da sua família.

Gravou uma Cassete e mais tarde um CD para a Metro-Som, está a preparar a produção de um novo trabalho para CD, com inéditos, para a mesma editora.

Actuou na TVI num Programa de Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira  como meu convidade em homenagem a meu avô  Alfredo Marceneiro.

João Paulo actuou na Noite de fados nas janelas da Casa da Amália em 2011 a meu convite e nas Festa de Campo d´Ourique - Santa Isabel em Festa.

 

 João Paulo

Canta: Leilão da Mariquinhas

Letra de João Linhares Barbosa

Música do Fado Mouraria

 

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Viva Lisboa: fadista da Nova Geração
publicado por Vítor Marceneiro às 00:30
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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

JOAQUIM NOGUEIRA MARQUES - POETA

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Nasceu na  pacata  aldeia de Marrazes, distrito de Leiria a  26 de Dezembro de  1956. 

Desde muito miúdo que se lembra de ouvir ao colo da mãe e da avó,  o Programa de Rádio da Emissora Nacional - Serão Para Trabalhadores, e destes serões ficou-lhe o gosto pelo Fado.

Ao 10 anos de idade  por motivos da vida profissional do pai, vieram morar para o Distrito de Lisboa, primeiramente para Alverca e mais tarde em Sacavém.

É com o pai que era um poeta popular,  que  sente a motivação de começar a  rimar versos  em quadras, aliado ao gosto pela leitura,  também motivado pelo pai,  que para a época detinha uma notável biblioteca pessoal muito diversificada, com obras de Guerra Junqueiro,, Lopes Vieira, Camões Florbela Espanca, entre outros, mas gaba-se,  de ter lido toda a obra de Bocage, que o deliciou.

Aos  15 anos escreve um soneto dedicado ao Rei D. Dinis, para apresentar nos jogos florais organizados pela Junta de Freguesia de Sacavém,   em conjunto com as  colectividades  da zona, foi elogiado , o que lhe deu ânimo para continuar a escrever.

Joaquim  Nogueira Marques, recorda que a primeira vez que ouviu cantar Fado ao vivo, foi no mítico retiro “A Toca do Patrício”, onde começa a descobrir as também músicas populares, o Menor, o Corrido e o Mouraria, seguindo-se as composições dos estilistas, Joaquim Campos, Armandinho, mas desde logo ficou fan das músicas de  Marceneiro, em que destaca o Fado Cravo, começa a ter a noção da narração, da métrica, do ritmo e do estilo que cada fadista imprime ao cantar Fado.

Licenciou-se em Filosofia, por gosto e vocação, o que o leva a afirmar que,  muitos dos seus traços adquiridos de personalidade,  daí advêm, e que  a Filosofia lhe ensinou: Análise, distância da realidade, procura de objectividade. Exerce a profissão de professor de Filosofia.

Com pouco  mais de 20, escreve os seus primeiros  poemas para Fado,  para  o fadista Luís Rocha.

Editou 2 obras de poesia na Colibri:

“Como o Voo da Garça”  em 2002 e “Do Nosso Amor” em 2006.

Em 2011 é com dois  temas que  escreve para a Fadista Margarida Soeiro para um Cd que a fadista grava na altura, que vê pela primeira vez o seu trabalho editado, a que se seguiram muito mais poemas que a fadista tem cantado.

Começa a cimentar mais os seu conhecimento do “Mundo do Fado”  ao conviver com muitos mais fadistas, muitos deles,  hoje seus amigos pessoais que também vão cantando os seu poemas, a    Maria do Ceo, Maria Emília Sobral, Vítor Duarte Marceneiro, Margarida Arcanjo, Luís Rocha, Carmen Santos, Francisco Rei, Ana Sofia e Gustavo.

Desde o ano de 2012, por solicitação de  diversa Escolas e Autarquias,  que vem  realizando  palestras sobre o Fado, que intitulou  de  “Oficina de História e Poesia de Fado”.

Em 2016 estreou-se no musical “ A Chinela da Severa” em que foi o autor do guião.

Ainda em  2016,  decide editar um Cd com 14 poemas de sua autoria, com o título genérico:

PALAVRAS QUE CANTO EU

CD.jpg

 

Deram o seu contributo cantando, os fadistas

Ana Sofia,  Carmen Santos,  Francisco Rei, Gustavo, Luís Rocha, Margarida Arcanjo, Margarida Soeiro, Maria do Ceo, Maria Emília Sobral, Vítor Duarte Marceneiro, acompanhados na Guitarra Portuguesa por Luís Petisca

Sobre este Cd, esclarece que é um trabalho que tem uma razão de vida, uma intenção estética e artística que quis publicar,  como um legado, um testemunho, é este o Fado de que gosta, e quer  preservar, o Fado que tem um registo clássico ao nível instrumental, da composição e das vozes.

Nota:

Joaquim Nogueira Marques faz o favor de ser meu amigo que eu retribuo com muita amizade e consideração. Tenho vários poemas de sua autoria que me dedicou, um deles que cantei no CD "Palavras QUE Canto EU",  assim como poemas homenageando meu avô, destaco este,  que aqui publico " Uma goiva, um trinado"

Vítor Duarte Marceneiro

 

Uma goiva, um trinado

 

Na madeira ,  fica breve  o afago

da  minha arte antiga  que aprendi

Da alma vem-me o canto que eu trago

pela  graça de Deus com que nasci.

 

                  No meu cantar ora  rouco ora macio

                  há Saudade , há Amor , Lisboa e Fado

                 entalhe que um bairro faz no rio

                 com a  goiva defino  um trinado

 

Minha voz com a noite sai ao mundo

 minha voz da madrugada é vizinha

 a plaina dá-lhe o veio, dá-lhe o fundo

melodia  em volteio  de andorinha

 

                O choro da guitarra anda disperso

                dorido  desenhando um  coração

                Há verniz no brilho de um verso

                há palavras que são  escritas a formão

 

Quem meu nome chama e me conhece

é gente amiga,  é povo,  somos  nós:

- Marceneiro ! Um nome que floresce

a  que respondem minhas mãos e minha voz

 

Joaquim Nogueira Marques

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Domingo, 29 de Janeiro de 2017

JOAQUIM PIMENTEL - cantor e compositor

JOAQUIM PIMENTEL nasceu na freguesia de Cedofeita, do Porto, cidade onde se dedicou à prática do atletismo no Clube Académico.

Começa por  cantar fados e tangos como amador.

Fixou-se depois em Lisboa, foi atleta do clube de futebol Os Belenenses e em 1933 apareceu a cantar no Retiro da Severa (do Luna Parque), afirmando-se desde logo como um intérprete do fado, expressivo e de boa voz, que depressa se impôs no meio artístico da capital.

Em 1934 foi convidado para ir ao Brasil (Rio de Janeiro e S. Paulo) com alguns nomes consagrados do fado como Maria do Carmo, Maria do Carmo Torres e Filipe Pinto, além de outros artistas (Branca Saldanha, Alberto Reis, Eugénio Salvador e Lina). Essa viagem determinaria, aliás, o futuro de Joaquim Pimentel, que em 1939 voltou ao Brasil para lá permanecer até 1946, ano em que regressou a Portugal e actuou no Teatro Avenida. Mas em 1947 parte uma vez mais e então para se radicar definitiva­mente naquele país.

Depois de largos anos de actuações em espectáculos, na rádio e na televisão do Rio de Janeiro, onde também praticou remo no Clube Vasco da Gama, Joaquim Pimentel instalou-se em S. Paulo, dedicando-se à exploração da Adega Lisboa Antiga, à Rua Brigadeiro Tobias, um restaurante típico por onde passaram os mais destacados artistas portugueses da canção.

Autor das músicas de parte dos números do seu reportório e também para outros artistas, Joaquim Pimentel can­tou, entre outros, os fados Mulheres Há Muitas, Malmequer, Confissão, Não Penses Mais em Mim, A Freira, Duas Mortalhas, Deixa-me Só, O Teu Destino, O Melhor Amor, Por Que Razão, Coração?, O Amor Sempre Acontece, Saudade Não Vás Embora e Caçador de Mulheres.

Entre outras quero aqui recordar dois grandes êxitos para o repertório de Tony de Matos, “SÓ NÓS DOIS”, letra e música de sua autoria,  e “VENDAVAL” em que o autor da música foi A. Rodrigues.

© Vítor Duarte Marceneiro

 

 Toni de Matos canta:

SÓ NÓS DOIS

 

   

 

SÓ NÓS DOIS

 

Só nós dois é que sabemos

O quanto nos queremos bem

Só nós dois é que sabemos

Só nós dois e mais ninguém

Só nós dois avaliamos

Este amor, forte, profundo...

Quando o amor acontece

Não pede licença ao mundo

 

                                      Anda, abraça-me... beija-me

                                      Encosta o teu peito ao meu

                                      Esqueça o que vai na rua

                                      Vem ser minha,  eu serei teu

                                      Que falem não nos interessa

                                      O mundo não nos importa

                                      O nosso mundo começa

                                      Cá´dentro da nossa porta.

 

Só nós dois é que sabemos

O calor dos nossos beijos

Só nós dois é que sofremos

As torturas dos desejos

Vamos viver o presente

Tal-qual a vida nos dá

O que reserva o futuro

Só Deus sabe o que será.

 

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Viva Lisboa: Grande Homeme
música: Só Nós Dois- Toni de Matos
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Vítor Duarte Marceneiro - Fui á Feira da Ladra há mais de 65 anos

Fui à Feira da Ladra com o meu pai...

Vitó com 6 anos.jpg

 

Tinha eu uns seis anos de idade, quando num Sábado o meu pai  Alfredo Duarte Jr., me foi buscar a casa dos meus avós para me levar a conhecer a Feira da Ladra. Nessa época meu pai já tinha abraçado a profissão de "Artista de Variedades – Fadista", mas estava no início, o que ainda não lhe dava estabilidade económica. Com o falecimento precoce de minha mãe, passei a viver com os meus avós, na Rua da Páscoa, a Santa Isabel – Campo de Ourique.

Fomos a pé até ao Largo do Rato, descemos a Rua de S. Bento e, quando íamos a meio da Av.ª D. Carlos I, comecei a chorar porque me doíam muito os pés; tinha calçado nessa altura umas botas de carneira com sola de pneu, boas para jogar à bola, mas para caminhadas pareciam ser feitas de chumbo. Meu pai ficou um pouco arreliado, pois estava a fazer planos para irmos até ao Campo de Santa Clara a pé, e logo me disse:

– Lá vamos ter que gastar catorze tostões em dois bilhetes de eléctrico para a Graça.

                       

Carro Eléctrico aberto anos 50

Chegámos a Santos e apanhámos o eléctrico, tal como o da foto acima (eléctrico aberto). Lembro-me que enjoei um pouco, pois o meu pai disse-me:

– Eh pá, estás amarelo, não vomites no carro – e passou-me para o topo do banco, onde era totalmente aberto, agarrando-me o braço com força para eu não cair.

Lá chegámos e entrámos para o recinto, pelo lado da Rua da Voz do Operário.

 

                    

                        

                                    Foto do ambiente da Feira da Ladra, anos 50

 

Aquilo era um mundo fantástico para mim (tantas coisa giras); algumas eu nem sabia para que serviam, mas meu pai era frequentador e já ia com a ideia fixa do que queria comprar: uma grafonola! Fomos ao poiso do homem que ele sabia ter uma para vender, embora avariada. Na semana anterior já tinha tentado negociar um bom preço, mas não conseguiu. Com a minha presença (talvez para puxar ao sentimento) e batendo no argumento de que a corda estava partida e talvez nunca fosse possível reparar, lá a comprámos por 20$00, incluindo uma caixa de agulhas e um disco de massa da "Voz do Dono" com dois temas de Maria Alice (que mais tarde veio a ser mulher de Valentim de Carvalho).

Tentámos, nos vários comerciantes, arranjar um disco do meu avô para lhe fazer a surpresa, mas em vão; os discos de "Marceneiro" ainda eram preciosidades, raras de mais para aparecerem por ali.

Com o meu pai a transportar a grafonola, que depois de fechada parecia uma mala e tinha uma pega, começámos a descer em direcção à Av.ª 24 de Julho, para nos irmos embora. Ao passarmos junto ao gradeamento que dá para o Hospital da Marinha, havia um homem a vender calçado usado, mas com bom aspecto e muito bem engraxado. Os meus olhos fixaram logo uma botas de cano alto (à cow-boy). Pedi ao meu pai para ir ver se eram da minha medida, calcei-as e recordo que estavam um pouco compridas. Mas o homem disse logo que era a minha medida e que tinham solas novas, estavam muito baratas, só 15$00. Ó paizinho, compre, para eu levar para a escola (eu entrava em Outubro desse ano de 1952 para a 1ª Classe, nas Oficinas de S. José, aos Prazeres).

– São caras e o pai só tem... – e levou a mão ao bolso, mostrando 8$60.

O homem, com a sua lábia de vendedor, disse-lhe:    

– Estas botas, por 15$00, são um pechincha... Mas como o miúdo está aí tão triste, dê cá isso e leve lá as botas.

Mesmo antes que meu pai dissesse algo, embrulhou-as em papel de jornal, atou-as com uma guita, à volta. Eu agarrei-as logo, pois o meu pai, carregado com a grafonola, ainda podia dizer que não, o que não aconteceu. Lá deu o dinheiro ao homem e – meu Deus, como hoje recordo (sem pieguices ,mas com uma lágrima no olho) – que alegria!

Começámos a descer para a 24 de Julho, quando o meu pai se volta para mim e a rir diz:

– O menino Vitó levou a sua avante, mas esqueceu-se de uma coisa: o pai não tem mais dinheiro e agora temos que ir para casa a pé; e olha que não te posso ajudar porque a grafonola ainda é pesada.

– Ó paizinho, não há problema; eu aguento.

– Sempre quero ver isso – retorquiu ele.

Chegámos ao Cais do Sodré e eu derreado, já não conseguia dar mais um passo. Meu pai, a quem também já doía o braço de carregar a grafonola, poisou-a no chão, junto a uma parede, sentou-me em cima dela, disse-me que não saísse dali porque ia ao bar da gare dos comboios, ver se estava lá alguém conhecido.

Fiquei ali e, passados uns minutos, o meu pai aparece com uma sandes de torresmos e um pirolito. Fiquei deliciado, porque já havia um bom bocado que tinha fome e sede, mas não tinha dito nada para não complicar ainda mais a situação. Então, ele disse-me:

– Bem, espero que tenhas aprendido a lição; mas como o pai ainda descobriu aqui no fundo do bolso uns trocos, que deram para as sandes e ainda nos sobrou 2$00, assim podemos ir de eléctrico até ao Rato.

Calculem o alívio e alegria quando ouvi esta novidade, e lá fomos os dois a rir às gargalhadas para a paragem do eléctrico.

Foi um dia em cheio (que saudades, pai)...

Mal chegámos a casa, o meu avô começou logo meter-se com o meu pai, em ar de troça:

– Uma grafonola... e avariada!

– Deixe estar, que eu e o Vitó arranjamos isto – dizia o meu pai.

Claro que eu não percebia nada daquelas coisas, mas recordo ter ficado todo orgulhoso com o comentário. No futuro viria a ter esse jeito para as máquinas e ferramentas, mas meu pai era um grande “engenhocas”, lá em casa arranjava tudo.

Limpámos muito bem a caixa, que estava um pouco mal tratada, e meu pai desmontou o engenho de corda. Lembro-me que era parecido com a corda dos relógios de sala e – vejam a nossa sorte – a corda não estava partida, tinha-se solto o engate da ponta, que prendia ao sistema de fixação do enrolamento. O meu pai todo contente só dizia:

– Eu sabia, eu sabia!

Grafonola-Gramofone-de-mala-antiga-20140202180932.

 

Após a montagem, com a família toda à volta do engenho posto em cima da mesa de jantar, o meu pai dá à corda, destrava a pequena alavanca e o prato começa a rodar. Foi uma proeza saudada com grande algazarra e alegria. Logo o meu avô deu o dito por não dito:

– Já podemos tentar arranjar uns discos meus.

Entretanto, meu pai monta uma agulha, dá à corda (avisa-nos que não se deve rodar até prender, pois pode partir a corda ou voltar a soltar-se o engate) e põe o disco da Maria Alice. Foi, decerto, o primeiro disco que ouvi na minha vida, de tal forma que ainda hoje me lembro do fado na totalidade:

 

Acredita meu amor

Quando te vou visitar

Às grades dessa prisão

Sufocada pela dor

De te ver assim penar

Estala meu coração

 

Por mim mataste um rival

És agora condenado

Ao degredo por castigo

Mas juro por amor fatal

Não vai meu corpo a teu lado

Mas vai minha alma contigo

 

Depois, tomámos o gosto à grafonola e o primeiro disco do meu avô que arranjámos foi da “ODEON”, com os temas, "Amor de Mãe" e "Os Olhos". Como sabem, as grafonolas não tinham uma velocidade constante, e então o meu avô, quando se ouvia, exclamava:

– Então não é que até parece que tenho voz de mulher!!

                                   

                            

 

Disco de Grafonola 78 r.p.m

 

Mas voltemos às botas. Conforme tinha sido combinado, eram para estrear no primeiro dia de aulas, e assim foi, penso que a 6 ou 7 de Outubro. Nesse dia chovia torrencialmente, as botas vinham mesmo a calhar.

Ao fim do dia cheguei a casa desolado e com os pés todos molhados, pois as solas estavam todas desfeitas: eram de cartão colado sobre a sola inicial já gasta, muito bem pintadas, com anilina preta e graxa, o que lhes dava aquele aspecto consistente e novo! Fartei-me de chorar com o desgosto, mas mais tarde até rimos, porque nos lembrámos de como fora o negócio e, afinal, os enganados fomos nós. Pediu-se orçamento ao sapateiro, mas a minha avó disse logo que não se podia agora estar com aquela despesa, as solas e a mão-de-obra custavam quase 30$00 (o meu avô, naquela altura, ganhava 50$00 por noite e o meu pai, quando arranjava para cantar, não ganhava mais do que 20$00 a 25$00 por noite).

Ora, a solução acabou por ser uma alegria e um orgulho para todos nós, isto porque o meu bisavô (pai do meu avô Alfredo) era sapateiro e o meu avô, nos intervalos da escola, até o pai morrer, foi aprendendo o oficio e dando uma ajuda no trabalho. Como o meu avô era habilidoso, desembaraçava-se bem; comprou num armazém, em S. Paulo, um bocado de sola que lhe custou 6$00 ou 8$00 e, como tinha as ferramentas da arte de sapateiro que tinham sido do pai – as formas, sovelas etc. – foi ele próprio que me colocou as solas nas botas, botas que usei enquanto me serviram. Creio que ainda acabaram por levar umas solas de borracha.

Desculpem estes desabafos/recordações dos meus Fados!

 

Vítor Duarte Marceneiro

 

 

 

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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

Vítor Marceneiro - Os Fados da minha vida "O Fado de Cada Um" de Amália

 Vítor Marceneiro aos 6 anos

A primeira vez que entrei numa sala de cinema, foi para ver o filme, História de uma Cantadeira interpretado por Amália Rodrigues, o filme estava em exibição no Cinema Paris, à Estrela ( o edificio ainda lá está, embora em ruinas), quem me levou foi  minha tia Aida. Naquele tempo,  os miúdos desde que acompanhados por um adulto, não pagavam bilhete, mas teriam que ficar sentados ao colo do adulto, se a lotação estivesse esgotada.

Tinha cerca de 6 anos e recordo que  fartei-me de chorar, é que  minha mãe tinha falecido há relativamente pouco tempo, e aquela "linda senhora do filme", fez-me recordá-la,  vendo a foto de minha mãe, poder-se-à entender como para uma criança haviam tais parecenças, minha mãe tinha faleceu com  25 anos de idade,   razão porque fui viver com os meus avós Alfredo e Judite.

  

Mariete Duarte mãe de Vítor Marceneiro

Passado que foram alguns meses, venho a conhecer a tal "linda senhora!", e pasme-se,  ela era uma grande amiga do meu avô,  foi numa manhã em que ela após uma das muitas noites  de Fado que estiveram juntos,  lhe dava boleia  para casa  e onde acabava  também por ficar a comer uma sopa da "Ti Judite, pois é,  a tal senhora era a saudosa Amália Rodrigues. 

 

Apontamento retirado do filme

História de uma Cantadeira

Amália canta "O Fado de Cada Um"

 

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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017

VICTOR DUARTE - Discos e Censura

O Dueto dos Marceneiros_.jpg

Capa do EP - Discos Estúdio

Alfredo Marceneiro & Vítor Duarte

Cantam Duetos: Lucinda Camareira e O Camponês e o Pescador

 

Em 1972 já depois de ter gravado a solo e em dueto para a etiqueta Estúdio – Emílio Mateus, sou convidado para gravar um EP para a etiqueta Parlophone- Valentim de Carvalho, sendo-me dada a honra de ser acompanhado por José Nunes à guitarra, e Francisco Peres (Paquito) à viola.

Os temas foram escolhidos por mim, e é quando o saudoso Artur Ribeiro, me escreve um Fado original, como já tive oportunidade de aqui referir, “Mais Um Entre Tantos”, escolhi ainda, do repertório de meu avô, “Vestido Azul” poema de Henrique Rego, e também  “Não Me Queres, Não Admira”, de Frederico de Brito, que lhe pedi directamente não só autorização, como os versos que eu não tinha, pois só conhecia o mote, que julgo já tinha sido cantado e talvez gravado por outro artista, o que na realidade desconheço, e finalmente “Sangue de Heróis” do meu saudoso Carlos Conde, que deu o título ao disco, e que escreveu o prefácio na contra-capa.

 

 

                                   

 

Texto da contra-capa:

Ao longo dos séculos, a terra portuguesa tem sido cenário de lutas intemeratas, de glórias, de amores e de mágoas.

Mas nas lutas. como nos amores, nas mágoas como nas glórias, souberam os portugueses cunhar um destino. E a sua maneira de ser e de viver fez uma Pátria, uma Raça, um Povo e, mais do que tudo isto: uma Alma.

E se a canção é, por vezes, a Pátria, ela está, também, em versos, nas vozes que os cantam, na intenção que os sugere, na saudade que corta todos os silêncios e chora todas as angústias.

 

 O disco foi censurado, na face B, pelo então Director de Programas da Emissora Nacional.

 

 

Caro Vítor  Duarte,                         

Em resposta ao seu pedido enviamos 4 imagens digitalizadas do EP Parlophone 8E 016-40236 [cota EN: A-382] — três das quais testemunham os procedimentos de censura por si mencionados.

 

Na imagem da contracapa é legível a seguinte inscrição: “Proibidas – Exmo. DSP – 12/12/72”. A sigla “DSP” correspondia, na Emissora Nacional a “Director dos Serviços de Programas”. Também o disco apresenta marcas feitas com lápis de cera amarelo com o objectivo de impedir a sua reprodução.

 

Cedemos estas imagens exclusivamente para a utilização declarada – utilização no blogue Lisboa no Guiness. A proveniência das imagens deve ser tornada explícita com a seguinte menção: “Rádio e Televisão de Portugal - Arquivo da Rádio”.

 

Ficamos ao seu inteiro dispor para qualquer esclarecimento adicional,

 

Com os melhores cumprimentos,

Eduardo Leite
Chefe de Departamento

Rádio e Televisão de Portugal
Arquivo da Rádio

 

Na face B, estão os temas, "Não me queres não admira" e Mais Um Entre Tantos   

                                         

Vítor Duarte canta:

 

Não me queres, não admira

Letra de Frederico de Brito

Musica Fado Marcha de Alfredo Correeiro                                                                                                                                                                                                                                  

Vítor Duarte canta:

Mais um Entre Tantos

Letra de Artur Ribeiro

Musica Fado Alexandrino Laranjeira de Alfredo Marceneiro

 

Mas a censura, não ficou por aqui, Armando Marques Ferreira, que na altura tinha um programa na Rádio Renascença, anulou uma entrevista, que tinha marcada comigo, dizendo-me, que após ouvir o disco, não dava cobertura a simpatizantes da guerra do ultramar, (!) .

O certo é que o disco nunca passou nas rádios.

A face "B" já se viu porquê.  A  face "A" por causa do tema "Sangue de Heróis", de Carlos Conde.

Houve também alguns amigos meus,  que embora sabendo bem quais as minha convicções (e, em que águas eu navegava, desde os tempos de estudante) que me chamaram reaccionário,  e mesmo explicando-lhes que o poema era do poeta talvez mais censurado de Fado, por ser anti-regime, o tema fala de patriotismo, que nos anos trinta,  altura em que Hitler já estava no poder na Alemanha, e era do conhecimento geral, que  queria dominar toda a África, e as colónias portuguesas na altura, eram por ele cobiçadas, qualquer português digno desse nome, se indignava,  mas pasme-se, até  nessa altura a censura, proibiu que a letra fosse cantada, porque era uma provocação! 

Dois anos depois veio o 25 de Abril,  e alguns desses que  se desagradaram com o tema do Fado...... que me chamaram reaccionários, encontrei-os do outro lado ...... não digo mais.

Ainda hoje tenho todo o orgulho como português, do conceito do Fado, e aqui realço os seus versos finais,

 

                      Diz ao mundo, grita aos sóis

                      Enche os céus da nossa glória

                      Num clarão vasto e profundo

                      Que só com sangue de heróis

                      Portugal ergueu  história

                      Nas cinco parte do mundo 

 

Vítor Duarte canta:

Sangue de  Heróis

Letra de Carlos  Conde

Musica Fado Cravo de Alfredo Marceneiro

                                      

Nota: Esta página foi publicada pela primeira vez em 27 de Janeiro de 2008

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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016

2017 - Façam-me o Favor de Serem Felizes

Cartão Bom Ano 2017.jpg

 

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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2016

Maria Emília Sobral - Fadista

Emilia Sobral2.jpg

Na realidade, foi batizada como Maria Emília Ferreira Lima, a Mila para os amigos e familiares, nasceu na Barqueira a 19 de Julho de 1945, junto à Vila de Sobral de Monte Agraço, Vila onde  viveu a sua infância, lá estudou e é  lá tem ainda hoje tem a sua residência.

O seu primeiro emprego foi no Colégio Moderno, em Lisboa, depois trabalhou em diversas empresas no Sobral de Monte Agraço, até á sua  reforma.

Desde muito jovem que se sentiu atraída pelas artes, mas no Fado começou a destacar-se a partir de 1970, nas festas da Vila,  em especial na  “Tasca do Carreiras”,  tal como outros amigos sobralenses, destacando-se,  o Egídio, o António Jordão, todos lá cantavam,  mas  á “cappela”.

A primeira vez que se apresentou em público devidamente acompanhada  com guitarra e viola, foi numa Festa de Natal dos Bombeiros Voluntários do Sobral de Monte Agraço, em 1972, onde teve enorme êxito sendo estrondosamente aplaudida.

Foi o ponto de partida para ganhar confiança e começou a ir para Lisboa, frequentando as Tertúlias de Fado, onde sempre foi muito bem recebida e onde cultivou muitas amizades e admiradores.

Entre  os seu admiradores,  estava o seu amigo Manuel Tavares, que à altura,  era trabalhador da RTP,  que a convidou para uma Festa de Natal dos Trabalhadores da RTP,  o que aconteceu por dois anos seguidos, tal foi o seu desempenho. Nestas festas, foi acompanhada na guitarra portuguesa  por António Chainho,  e na viola pelo José Maria Nóbrega,  que muitos gostaram do seu estilo de cantar,  deste encontro nasceu uma amizade, que  mais se cimentou,  quando da  gravação do seu primeiro Disco  EP,  para a etiqueta  Alvorada  em 1976,  pois o elenco musical foi o  Conjunto de Guitarras de António Chainho, composto pelo próprio, pelo guitarrista José Luís Nobre Costa, o viola de acompanhamento José Maria Nóbrega, e o viola-baixo Raúl Silva. Neste trabalho, Maria Emília Sobral,  dá-lhe o titulo “Meus Senhores Chamo-me Fado” , tal como o  letra do Fado que canta,  da autoria de Luiz Miguel Oliveira, é de lembrar que estávamos em 1976 e o Fado era muito contestado e apelidado de reacionário, senda esta letra,  um grito de defesa do próprio Fado, canta ainda,  “O Fado Monte Agraço”. “O Fado de Abril” e “Vejo-te ao Longe Partindo”.  Em 1978, grava o seu segundo EP, também para a etiqueta Alvorada e novamente com o Conjunto  de Guitarras de António Chainho,  com os temas: “Mensagem”, “Sardinha na Brasa”, “De Novo” e “Não Passo de Ser Nada”

 Meus senhores , chamo-me Fado (2).jpgMeus senhores , chamo-me Fado (1).jpgMeus senhores , chamo-me Fado (4) (1).jpg

Em 1977,  iniciam-se as suas deslocações para o estrangeiro,  contratada para cantar,  esteve três meses na África do Sul, onde Cantou em Joanesburgo, no Cabo e em Durban, integrada numa digressão artística,  a que chamaram “Caravana da Saudade”, digressão esta muito assinalada, quer nos jornais,  revistas e na Rádio local.

Em 1978, foi à Holanda, com Arlindo de Carvalho, com a Ágata (nessa altura Fernanda de Sousa) e outros artistas, onde atuaram em Haia, Amsterdão e Roterdão.

Ainda em 1978 na sequencia  do êxito do seu segundo EP, atuou no programa da RTP – Último Fado.

Em 1979, voltou á Holanda,  esteve em Antuérpia, na Bélgica, seguindo-se  Alemanha, em Singen.

Em Portugal, fez muitos espetáculos em festas de beneficência, assim como, atuações em casas de Fados , Adega da Matilde, o Castiço, o Embuçado, o Nove e Tal, o Pátio das Cantigas, entre outros.

Em 1988 voltou à Africa do Sul, convidada para as Comemorações Oficiais do Dia de Portugal, tendo atuado em Joanesburgo, Pretória e Windhoek.

Regressada a Portugal conheceu o companheiro da sua vida, Diamantino Calisto e, em 1991, decidem ir  para Angola, para tentarem uma nova  experiência nas suas vidas, não foi  nada fácil, dadas as condições politicas e sociais em Angola,  nessa época. Abrem um restaurante, “O Pátio Alfacinha”, e como em Angola também se aprecia o Fado,  passam  a dar frequentemente, sessões de Fado,  foi várias vezes contratada para atuar,  no Hotel Ritz, no Méridien,  no Vitória Garden, na Casa 70, na Associação 25 de Abril, e na Embaixada de Portugal em Luanda,  ao lado de Carlos do Carmo, Camané, Beatriz da Conceição, Ricardo Ribeiro, Rodrigo, entre outros.

Como fadista que é,  nunca deixou de cantar, sempre que é convidada ou como muitas das vezes acontece e vem até á Lisboa Fadista, onde é sempre recebida carinhosamente.

Tenho um carinho muito especial pela Mila, fui seu vizinho no Sobral de Monte Agraço, terra onde nasceu a minha filha Beatriz.

Maria Emilia Sobral

Canta: Sardinha na Brasa

 

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Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2016

JOSÉ PRACANA - Faleceu nesta madrugada- O FADO ESTÁ DE LUTO

JOSÉ PRACANA, ( O KANA para os amigos) nasceu a 18 de Março de 1946 em Ponta Delgada, S. Miguel, Açores. Em 1956 veio residir para Lisboa com os pais e os irmãos

Iniciou a sua carreira artística em 1964 como fadista-amador, estatuto que sempre manteve, cantando e imitando em festas de estudantes. Frequentou várias casas de Fado-Amador que existiram no Estoril e em Cascais, onde aos fins de semana se juntava a José Carlos da Maia, Carlos Rocha, que em 1965 lhe proporciona as primeiras lições de guitarra portuguesa, João Ferreira-Rosa, António Mello Corrêa, Francisco Stoffel, João Braga, Teresa Tarouca, Carlos Guedes de Amorim, Francisco Pessoa e outros.

Em 1968 actuou pela primeira vez na RTP, num programa das Forças Armadas. Em 1969 foi ao Zip-Zip.

Em Dezembro de 1969, com Luís Vasconcellos Franco, seu conterrâneo, inaugurou o Bar de Fados Arredo, em Cascais, que dirigiu até 1972, ano em que abandonou a actividade empresarial para trabalhar na TAP  onde exerceu as funções de Comissário de Bordo e de funcionário da Direcção de Relações Públicas/Relações Externas e Protocolo da TAP/Air Portugal.

Na RTP participou no Curto-Circuito em 1970, programa de Artur Agostinho e João Soares Louro. A convite da RTP produziu o programa Vamos aos Fados, em 1976, uma série de cinco programas da sua autoria. Em 1985 entrou no programa televisivo de Carlos Cruz, "Um, Dois, Três". João Maria Tudela convidou-o para a RTP em 1987, actuando em Noites de Gala. No ano seguinte Simone de Oliveira teve a mesma iniciativa no Piano Bar. Em 1991 Júlio Isidro levou-o a Regresso ao Passado. A convite da RTP-Açores fez uma série de cinco programas com o título Silêncio Que Se Vai Cantar O Fado, em 1993. No ano seguinte Herman José convidou-o para Parabéns. Em 1995, Carlos Cruz fê-lo entrar em Zona Mais. etc.

Grande admirador de José Nunes e seu seguidor no estilo em que toca guitarra, e também de Alfredo Marceneiro.

Nos últimos anos regressou aos Açores onde vive actualmente.

José Pracana nos últimos tempos tem lutado contra uma doença que tem debilitado, mas estou crente que não o irá derrotar.... E Graças a Deus não derrotou.

Felicidades “Kana”

Infelizmente hoje dia 26 de Dezembro tive a triste de notícia que o KANA, já não está entre nós.

 

 
 

 

 

 

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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

ALFREDO DUARTE JÚNIOR - Fadista Bailarino

QUE SAUDADES....

ALFREDO DUARTE JUNIOR

 

 

Faria hoje 92 anos de idade, se o meu saudoso pai estivesse entre nós, nasceu em Lisboa, na freguesia de Santa Isabel, a 23 de Dezembro de 1924. 

Foi apelidado de "Fadista Gingão" porque começou a dar às suas interpretações uma coreografia , inédita no Fado, o que lhe valeu muitas críticas, mas ainda hoje é relembrado e há muitos fadistas que o imitam, e com admiração, quer no gingar, quer usando o lenço, ou boné.
Por fim chamaram-lhe o "Fadista Bailarino" uns gostavam, outros não, mas meu pai marcou um estilo muito seu, e tem por mérito próprio um lugar na História do Fado, embora no Museu do Fado, onde até cantou na inauguração, não tem lugar naquele vasto painel de fotos. Não seria lógico estar ao lado de seu pai? Será porque eu ser "persona no grata"? É  legítimo que eu questione, será que as "Três Gerações de Fado" - Avô, filho e neto, quer se goste ou não, não são um facto histórico do Fado?

Alfredo Duarte Júnior nos anos sessenta foi Rei da Rádio num concurso que era na época organizado pela revista "Plateia" da Agência Portuguesa de Revisras.

Ainda na memória dos verdadeiros amantes do Fado, como  «Castiço  e/ou  fadista bailarino» Alfredo Duarte Junior, sempre fez por honrar o nome do seu pai, Alfredo Marceneiro. 

Cantou em muitas casas de Fados, mas destaca-se a A Severa, na Viela, a Adega Machado, etc.

Faleceu a 6 de Junho de 1999, na casa onde viveu cerca de 30 anos na Rua do Cura à Madragoa.

A carreira de Alfredo Duarte Junior, meu pai merece, e terá decerto, um interessante e importante capítulo para o recordar, na história do Fado.

Na época do Natal, cantava sempre o Fado "Aí Vem o Natal" cuja letra é da autoria de Carlos Conde, afirmando que era o seu cartão de Boas Festas, para todos os amigos e admiradores.

 

Aí Vem o Natal

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2016

SAÚDO TODOS OS POVOS DO MUNDO

Cartão de Natal 2016.jpg

 

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Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016

Vítor Marceneiro - Poema à ÁRVORE

 

No Natal,  durante muitos anos,   o pinheiro era a árvores que levávamos para casa para decorar e  comemorar o Natal, havia muito abate indiscriminado,  que muito prejudicava a floresta, mas o abate pela necessidade do  repovoamento  pinhal,  ébenéfico, mas nem toda a gente assim o entendia e o estado estava atento.

Como profissional de cinema fiz alguns alguns filmes para  a então Direcção Regional das Florestas, com mensagens pedagógicas, hoje já não é tanto assim pois as árvores são artificiais.

Quando os meus filhos eram mais pequenos fiz este filme com eles para os sensibilizar e li o poema.

ORAÇÃO DA ÁRVORE

 

Tu que passas e ergues para mim o teu braço,
Antes que me faças mal, olha-me bem.
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de Inverno;
Eu sou a sombra amiga que tu encontras
Quando caminhas sob o sol de Agosto;
E os meus frutos são a frescura apetitosa
Que te sacia a sede nos caminhos.
Eu sou a trave amiga da tua casa,
A t á bua  da tua mesa, a cama em que tu descansas
E o lenho do teu barco.
Eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada,
A madeira do teu berço, o aconchego do teu caixão.
Eu sou o pão da bondade e a flor da Beleza.
TU QUE PASSAS, OLHA-ME E NÃO ME FAÇAS MAL.

VideoClipe: Realização Vítor Duarte Marceneiro

Figurantes: Alfredo Duarte e Beatriz Duarte (4ª Geração de Marceneiro)

Ideia recolha de fotos na net: Alfredo Duarte

Palavras ditas por: Vitor Duarte Marceneiro

Música: Fado Ana Maria de Alfredo Marceneiro

Interprete: Arménio de Melo à Guitarra. Viola Jaime Santos, Viola Baixo José Elmiro

 

 

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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2016

LISBOA, meu berço que eu amo.

Oh! Lisboa, minha querida Lisboa,  

teres sido a minha cidade  berço

foi uma ventura divina.

Cescer e viver em ti,  foi uma benção.

Amar-te é um dever, é profissão de fé.

Cantar-te são declarações de amor.

Mas através de ti, receber poemas que são para ti,

incluindo afagos para mim.... é um honra, é um orgulho.

Amo-te Lisboa

Assina Vítor Duarte (Marceneiro)

                            NOSSA SENHORA DO FADO

 

Lisboa é terço rezado

Nos passos de cada passo

Madrigal,cantar,jardim

Lisboa é uma aguarela

Que desanda n'um bailado

Em olhos d'olhares sem fim

 

Nossa Senhora do Monte

Desce em veleiro da Graça

Sangra a colina a descer

E segue a seguir p'ró Tejo

P'ró meu terreiro sem paço

Dos meus passos a doer

 

                            Lisboa é fado de luz,

                            Nossa Senhora da Luz

                            Desata-me o corpo ao céu

                            Dá-me o farol do teu mar

                            E desagua o luar

                            No cantar do fado meu

 

                            Lisboa é luar ao vento,

                            Três almas de Marceneiro

                            Que a levam de braço dado

                            Ai, meu amor cantadeiro

                            Não te percas d'esse jeito,

                            Nossa Senhora do Fado! 

    

Para o Vítor com um xi-coração.

m.josépraça.

 

                       

 

 

                       TENS NO OLHAR SETE COLINAS

 

                              Tens n' olhar sete colinas 

                               Tens cantigas e marés 

                                Tens quadras de Santo António

                                  Brumas de Fado a teus pés

 

És terra à beira do rio

És fado a rasgar o tempo

Tens nas mãos-das-tuas-mãos

Asas que voam no vento 

 

                              És peregrino de Lisboa

                               Solidão de mar de nardos

                                Guardas terraços nos olhos

                                 Rasgados em mil pedaços

 

És estio de namoro santo

Porque quem poisar em ti

Vai p'ró céu de sete céus,

Sete colinas de ti ... ...  

 

Beijinhos de mim para ti.

Eu.

 

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música: Nossa Senhora do Fado - Tens no Olhar Sete Colinas
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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2016

FERNANDO ASSIS PACHECO - Poeta, Escritor e Jornalista

 

Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco, nasceu em Coimbra no dia 1 de Fevereiro de 1937 e faleceu em Lisboa a 30 de Novembro de 1995. Notabilizou-se como jornalista, crítico , tradutor e escritor . Filho de pai médico e de mãe doméstica , licenciou-se em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, tendo vivido nesta cidade até que foi chamado para o serviço militar em 1961 Desde muito jovem se interessou pelas artes e letras, foi actor de teatro (TEUC e CITAC) e redactor da revista Vértice, o que lhe permitiu privar de perto com o poeta neo-realista Joaquim Namorado e com poetas da sua geração, como Manuel Alegre e José Carlos de Vasconcelos. Publicou a primeira obra em Coimbra, com o patrocínio paterno, “Cuidar dos Vivos” , livro estreia, com poemas de protesto político e cívico, com afloramento dos temas da morte e do amor. Em apêndice, dois poemas sobre a guerra em Angola, que terão sido dos primeiros publicados sobre este conflito. O tema da guerra em África voltaria a impor-se em Câu Kiên: Um Resumo (1972), ainda que sob "camuflagem vietnamita", livro que em 1976 conheceria a sua versão definitiva: Katalabanza, Kilolo e Volta. Memória do Contencioso (1980) reúne "folhetos" publicados entre 1972 e 1980, e Variações em Sousa (1987) constitui um regresso aos temas da infância e da adolescência, com Coimbra como cenário, e refinando uma veia jocosa e satírica já visível nos poemas inaugurais. A novela Walt (1978) comprova-o exuberantemente. Era notável em Assis Pacheco a sua larga cultura galega (origens do avô), sobejamente explanada em alguns dos seus textos jornalísticos e no seu livro Trabalhos e Paixões de Benito Prada. Em 1991 publica a “A Musa Irregular” em que reuniu toda a sua produção poética. Nunca conheceu outra profissão que não fosse o jornalismo: deixou a sua marca de grande repórter no Diário de Lisboa, no jornal A República, no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, no Musicalíssimo e no Se7e, onde foi director-adjunto. Foi também redactor e chefe de Redacção de O Jornal, semanário onde durante dez anos exerceu crítica literária, tendo sido também colaborador da RTP. Entre os seus poemas destaco dois, Última Tesão e Nini dos meus Quinze Anos, este último musicado e cantado por Paulo de Carvalho. Fui um dia apresentado a Fernando Assis Pacheco, por um amigo jornalista que lhe informou quem era o meu avô, confidenciou-me que para ele havia dois tipos de Fado: — O outro e o de Marceneiro. Penso que nunca escreveu nenhum Fado, mas podia ter escrito, tinha “Alma” para tal. Escreveu um poema bem popular que já referi “Nini dos meus Quinze Anos”, mas que nas suas biografias, nem sequer é referido… Porque será? Se calhar até escreveu alguns Fados… Quem sabe se também foram ignorados!

ÚLTIMO TESÃO

De: Fernando Assis Pacheco

Alombo contigo há uma porção de anos
e vou-te dizer és um chato
não tens ponta de paciência
para a vida nem para ti próprio

já te ouvi discursos a mandar vir
já te carreguei às costas
bêbedo como um Baco de aldeia
mijando as ceroulas
és um adolescente retardado
faltou-te sempre a quadra do bom senso

vez por outra um livrinho
de versos vez por outra nada
qualquer um do teu tempo
está bastante melhor do que tu
deputado administrador de empresa
ministro da maioria
puta (alguns chegaram a isso)

só tu meu inocente brincas com a neta
açulas o cão pedindo
à família que te ature
o tipo um dia destes morde-te
que é para aprenderes

mas aqui entre amigos
vou-te dizer também
uma coisa importante não cedas
à tentação de mudar
fica nesta pele que é tua

como é que tu escrevias
merdalhem-se uns aos outros
o país mete dó
guarda o último tesão
para mandares
meia dúzia de canalhas à tábua


PAULO DE CARVALHO

De: Fernando Assis Pacheco
Canta: Nini do Meus Quinze Anos


Nini dos Meus Quinze Anos

Chamava-se Nini
Vestia de organdi
E dançava (dançava)
Dançava só p´ra mim
Uma dança sem fim
E eu olhava (olhava)

E desde então se lembro o seu olhar
É só p´ra recordar
Que lá no baile não havia outro igual
E eu ia para o bar
Beber e suspirar
Pensar que tanto amor ainda acabava mal

Batia o coração mais forte que a canção
E eu dançava (dançava)
Sentia uma aflição
Dizer que sim, que não
E eu dançava (dançava)

E desde então se lembro o seu olhar
É só p´ra recordar
Os quinze anos e o meu primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Toda a ternura que tem o primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Que a vida passa
Mas um homem se recorda sempre assim
Nini dançava só p´ra mim

E desde então se lembro o seu olhar
É só p´ra recordar
Os quinze anos e o meu primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Toda a ternura que tem o primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Que a vida passa
Mas um homem se recorda, é sempre assim
Nini dançava só p´ra mim

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