Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

ALFREDO MARCENEIRO - Fado Revolucionário

  O texto abaixo transcrito é da autoria de Luís Cília, músico, cantor e compositor, e foi publicado no jornal " O Público" em 3 de Março de 1996.

Já aqui o tinha publicado, mas nunca é demais repetir...para alertar! 

 

FADO REVOLUCIONÁRIO

  A primeira vez que ouvi um disco do Alfredo Marceneiro foi em Paris, nos anos sessenta. E, como ainda hoje sucede, fiquei extasiado com a profundi­dade e veracidade de tal canto. Imediatamente, a voz de Marceneiro passou a fazer parte dos meus eleitos, ao lado de Atahualpa Yupanqui, Violeta Parra, Brassens, Ferre e dos grandes cantores de blues.

Confesso que não sou um entendido em questões de Fado e portanto apenas posso expressar o que sinto, sem qualquer pretensão teórica. Porém, ao ouvir Marceneiro, e pela forma muito peculiar que ele tinha de frasear, é possível, se nos abstrairmos da língua, com­pará-lo aos grandes cantores que fizeram a história dos blues.

Ainda em França, antes e depois de 1974, tentei transmitir o meu entusiasmo a outros músicos amigos. E pelo menos dois ficaram, como eu, seus admiradores: o Paço Ibafiez e o Leo Ferre.

De uma forma casual, o Alfredo Marce­neiro ficou ainda ligado a dois episódios da minha vida.

O primeiro ocorreu logo a seguir ao 25 de Abril de 74, quando desembarquei (a 28) numa Lisboa que fervilhava de entusiasmo e onde começava, ao mesmo tempo, a germinar um sectarismo revanchista que ti­nha muito a ver cora o obscurantismo do passado e que, embora surgisse mascarado de revolucionário, nada tinha a ver com o que se passava a nível popu­lar. Uma das facetas desse revanchismo foi o ataque ao Fado, conotando-o com o fascismo. A 29 de Abril de 1974, dei uma entrevista ao Mário Contumélias, para a revista "Cinéfilo", onde afirmei que conside­rava o Alfredo Marceneiro um cantor revolucioná­rio. Embora na altura a afirmação tivesse algo de provocatório, a verdade é que ela não podia ser mais acertada. Ainda hoje penso que, no seu sentido mais profundo, o da transforma­ção do homem no que ele pode ter de melhor, que é a sua sensibilidade, o Marceneiro representa, com a sua arte, o que de mais ge­nuíno existe na cultura portuguesa.

Ê escusado dizer que, na altura, essa afir­mação me trouxe alguns dissabores políticos— de que muito me orgulho. (1)

O outro episódio, de que não pude con­firmar o rigor histórico, é o seguinte: num disco meu ("Margina 1", de 1981), gravei uma canção intitulada "Romance de Lulu do Inten­dente". Mais tarde, um amigo meu garantiu-me que, na sua juventude, o Alfredo Marceneiro era conheci­do por... "Lulu do Intendente". (2) Não posso, como dis­se, garantir a veracidade do facto. Mas, a ser verda­de... que alegria!

 

(1) Luís Cilia afirma que teve alguns dissabores políticos por ter feito esta afirmação, mas não foi com Partidos, foi sim com os tais cantores revolucionários (e alguns assim foram na realidade), que formavam um grupo sectário e arrogante, do qual CC (o Mentiroso) fazia parte. como se devem lembrar, que só eles é que tinham audiência, aliás dominavam  totalmente os media, e alguns ainda dominam.... e veio o Luís Cília, dizer o que disse ao pisar o solo da sua pátria, regessado do exílio,  por ser sim,  cantor, músico e compositor REVOLUCIONÁRIO.

Foi uma espinha atravessada na garganta dos tais....

 

(2) Na realidade até cerca dos seus vinte e picos anos, era conhecido no seu bairro, Campo d´Ourique, pelo Alfredo “Lulu” , porque fazia questão de embora com roupas modestas, andar sempre aperaltado, mas não do Intendente,  como aliás está explicitadoi no meu livro monográfico “Recordar Alfredo Marceneiro”

 

Alfredo Marceneiro canta

É Tão Bom Ser Pequenino

Versos de Carlos Conde

Música Fado Corrido

 


CARTA A ALFREDO MARCENEIRO por João Santos

 

 

Alfredo, meu querido amigo

minha missão é ingrata

mas lê bem o que te digo

e Deus esteja contigo

quando abrires esta carta

 

                                             notiçias, tu! ai tens minhas

                                             cá vai de mal a pior

                                             eu te explico nessas linhas

                                             o versiculo que tu tinhas

                                             agora é fado menor

 

afirmo,com toda a certeza

lê: e fica descansado

Deus trabalha por natureza

agindo em tua defesa

com fadistas a teu lado

 

                                             escreve, Deus por linhas tortas

                                             é ditado português

                                             Alfredo se não te importas

                                             hei-de procurar respostas

                                             e escrever-te outra vez

 

cantar-te, o desfecho final

actuaçâo de ventricúlo

acabar-se o carnaval

o menor sentir-se mal

e passar a ser versículo

Contacto com o autor: clicando aqui
música: è Tão Bom Ser Pequenino
publicado por Vítor Marceneiro às 10:28
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1 comentário:
De joaoluisrsantos a 24 de Julho de 2008 às 23:54
CARTA A ALFREDO MARCENEIRO

alfredo, meu querido amigo
minha missão é ingrata
mas lê bem o que te digo
e Deus esteja contigo
quando abrires esta carta

notiçias, tu! ai tens minhas
cá vai de mal a pior
eu te explico nessas linhas
o versiculo que tu tinhas
agora é fado menor

afirmo, com toda a certeza
lê: e fica descansado
Deus trabalha por natureza
agindo em tua defesa
com fadistas a teu lado

escreve, Deus por linhas tortas
é ditado portugues
alfredo se não te importas
hei-de procurar respostas
e escrever-te outra vez

cantar-te, o desfecho final
actuaçâo de ventricúlo
acabar-se o carnaval
o menor sentir-se mal
e passar a ser versiculo

letra de joao santos.

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