Domingo, 14 de Abril de 2013

JULIETA FERREIRA - ROSTO DO MEU POVO

Ama Lisboa... Escreve amando Lisboa...

 

 

 

Julieta Ferreira nasceu em Lisboa em 1952.

 

Desde criança sentiu uma grande paixão pela leitura e pela escrita.

Licenciou-se em Filologia Românica na Universidade de Lisboa.

Em 1983, emigrou para a Austrália, onde começou por trabalhar como tradutora e intérprete.

Em 1987 foi convidada para leccionar Língua e Cultura Portuguesa na Universidade de Queensland, Brisbane, onde se manteve até 1999.

Compilou e publicou um Curso de Língua Portuguesa para principiantes e organizou várias conferências para divulgação da História e Cultura de Portugal.

É muito entusiasta por tudo o que é português e, desde que tem estado ausente do seu país, tem apreciado ainda mais as suas origens, na sua visita a Portugal, em 2005, surgiu a inspiração para a escrita de “Regresso a Lisboa” concretizando assim um sonho antigo. Este seu primeiro romance, de carácter autobiográfico, é a expressão de um amor muito intenso pela pátria e, em particular, por Lisboa.

Em 2007, publicou o seu primeiro romance de ficção, “Sem ponto final”, assim como um livro de poesia, “Pedaços de mim”. Em 2010 voltou a publicar,  "O Outro Lado do Silêncio"

 in:http://julieta-ferreira.com/




 

 

ROSTO DO MEU POVO

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

Para Cesário, a cidade revelava-se melancólica e opressora. Era um espaço que o limitava e constrangia. Com vinte e cinco anos, nos finais do século dezanove, o poeta sente-se como que diminuído e oprimido pelo ambiente citadino. Existe nele uma ânsia de evasão que não consigo deixar de comparar ao melancolismo mórbido e alucinatório do rei-menino quinhentista.

Essa mesma tristeza profunda e patológica reaparece noutros autores, atingindo um ponto máximo na complexidade poética do mestre do século passado. Pessoa passeava pela cidade e sentia na alma a ‘negra bílis’ dos lisboetas.

 

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!

 

Há quem afirme que a melancolia se teria instalado, de forma definitiva, nos portugueses, a partir da nefasta e incongruente derrota em Alcácer Quibir. Ou então teria sido herdada dos Mouros e dos seus cânticos que permaneceram em Lisboa, depois da reconquista cristã. O Fado, de origem obscura, segundo algumas teorias, teria sido proveniente desses cânticos e daí o seu carácter dolente e melancólico. Seja como for, o certo é que a nostalgia, desilusão e resignação assaltam e invadem o nosso povo. Os poetas, melhor do que ninguém, entenderam esses sentimentos e expressaram-nos de formas variadas. Como eles, eu tenho sentido, na pele e na alma, esta maneira tão lusitana de sermos e estarmos no mundo. Mas, ao contrário de Cesário ou Pessoa, a cidade dispersa a minha melancolia e serena a minha nostalgia. Em mim, a desilusão surge da vontade de permanência, ao invés de fuga. E tão pouco me resignarei a um destino, enquanto continuar a acreditar nas infinitas leis do Universo e na minha inabalável determinação.

Ao palmilhar Lisboa, saboreando e sorvendo as nuances com que ela sempre me surpreende, em cada viela, praça ou esquina, eu vejo o rosto do meu povo. E vejo-o com esse vagar, emoção e deslumbramento, ausentes nas faces e vidas dos lisboetas. Pressurosos, desinteressados ou decepcionados, deixaram há muito de olhar a sua cidade e de se reconhecerem, dentro dela. Olho os pedintes de corpos chagados e andrajosos, na entrada das igrejas, e oiço as suas lamúrias. As mulheres prenhes e mal cheirosas, de criança chorosa, nos braços cansados. O homem de face enrugada e mãos calejadas que tacteia o lajedo com a bengala vacilante. Escuto o zunido dos homens, discutindo futebol e bebericando ginjinha, no Largo de São Domingos. Observo os velhos, aos magotes, de chapéu às três pancadas, atentos ao naipe de cartas, pés pesados sobre o relvado, no centro da Alameda.

 

É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi

 

Regresso sempre a Lisboa com a mesma e renovada fascinação, que porventura teria trazido Ulisses de volta, seduzido pela doçura e claridade deste pedaço de terra, no jardim da Europa, à beira-mar plantado.

Esta é uma cidade que deve ser vista a pé. Deve ser sentida no pisar firme das suas pedras de calcário e granito, no cheirar cativo dos seus aromas que se misturam numa simbiose invulgar, no olhar demorado pelas suas fachadas seculares, na contemplação envaidecida dos seus bairros sem igual e no apreciar da sua luz que nos aquece por dentro.

Por toda a parte nos deparamos com contrastes, onde o passado se afirma constantemente, remetendo-nos para épocas gloriosas e feitos singulares. Nos azulejos, pelos miradouros, ou nas estátuas de mármore ou bronze a eternizar os que se distinguiram nas letras ou artes e nos deixaram um espólio riquíssimo, eu continuo a ver e a venerar o rosto multifacetado do meu povo. Sinto orgulho em ser portuguesa e em ter nascido nesta cidade!


Mais sobre Julieta Ferreira neste blogue:


http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/78971.html

http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/211797.html

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publicado por Vítor Marceneiro às 23:00
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