Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015

Fados do meu Fado...As estrelas do meu menino

Quando minha mãe faleceu tinha eu de 5 para 6 anos, e fui morar com os meus avós paternos, a avó Judite e o avô Alfredo.

O meu avô acompanhou Vitó com 6 anos.jpga minha mãe na fase da doença e tinha um carinho muito especial por ela, era como uma filha para ele e para a minha avó.

Como é de calcular no início da mudança,  eu era uma criança  com momentos de muita tristeza e melancolia, mas meu avô acarinhava-me muito, e acima de tudo fazia diálogos comigo, o que se prolongou até à minha saída de casa, foram estes diálogos e o meu espirito  de curiosidade, que contribuiram para que eu possa nestas páginas, contar com fidelidade o que me ensinou e relatou sobre a vida, e a sua experiência no Fado.

Num certo dia eu estava taciturno e lembro-me do meu avô logo que se apercebeu, começou por me dizer:— Oh! Vitó, nas estejas com esse olhar mortiço, tens os olhos da tua mãe, que eram muito bonitos.

Nunca mais me esqueci, pois logo de seguida disse-me estes versos:

 

Tua mãe quando nasceste
Viu cair duas estrelas
Foi  apanhá-las, e fez-te
Teus lindos olhos com com elas
 
Há uns anos atrás, contei com emoção este episódio ao meu amigo, o poeta Carlos Escobar, que glosou a quadra, que eu nunca soube se foi inspiração do meu avô, ou era alguma quadra de um autor que ele tinha em mente.
 

 AS ESTRELAS DO MEU MENINO

 
TUA MÃE QUANDO NASCESTE
VIU CAIR DUAS ESTRELAS
FOI APANHÁ-LAS, E FEZ-TE
TEUS LINDOS OLHOS COM ELAS
 
                                         QUEM O DISSE JÁ PARTIU
                                         DISSE-O COM AR MENINEIRO
                                         E QUANDO O DISSE ELEGEU
                                         DESCENDÊNCIA... MARCENEIRO
 
INDA MUITO PEQUENINO
O PETIZ NÃO PERCEBEU
MAS SOUBE LOGO MENINO
QUE HAVIA ESTRELAS NO CÉU
 
                                       REPAROU NUMA, BRILHANDO
                                       E O AVÔ TAMBÉM OLHOU
                                       E DE MÃOS DADAS ANDANDO
                                       SORRIU, PENSOU E CALOU
 
E NÃO DISSE AO SEU MENINO
QUE NAS ESTRELAS ALÉM
NUM PONTINHO PEQUENINO
ESTAVAM OS OLHOS D' MÃE
 
Autoria de Carlos Escobar para o Vitor Duarte

      Foto de minha mãe Mariete Duarte          Vitor Duarte aos 18 meses
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“È TÃO BOM SER PEQUENINO”
 
Letra de: Carlos Conde
 
É tão bom ser pequenino
Ter pai, ter mãe, ter avós
Ter esperança no destino
E ter quem goste de nós
 
                                          A velhice traz revés
                                          Mas depois da meninice
                                          Há quem adore a velhice
                                          Para ser menino outra vez
                                          Ser menino que altivez
                                          De optimismo e desatino
                                          Ver tudo bom e divino
                                         Tudo esperança, tudo fé
                                          Enquanto a vida assim é
                                          È tão bom ser pequenino
 
Ver tudo com alegria
Sem delongas sem demoras
Viver a vida numa hora
Eternidade num dia
Ter na mente a fantasia
Dum bem que ninguém supôs
Ter crença sonhar a sós
Com a grandeza deste mundo
E para bem mais profundo
Ter pai, ter mãe, ter avós
 
                                        Ter muito enlevo a sonhar
                                         Acordar e ter carinho
                                        Ter este Mundo inteirinho
                                         No brilho do nosso olhar
                                         Viver alheio ao penar
                                         Deste orbe torpe ferino
                                        Julgar-se eterno menino
                                        Supor-se eterna criança
                                        E num destino sem esperança
                                        Ter esperança no destino
 
Oh! Desventura, Oh! Saudade
Causas da minha inconstância
Dai-me pedaços de infância
Retalhos de mocidade
Dai-me a doce claridade
Roubando-a ao tempo atroz
Eu queria ter a minha voz
Para cantar o meu passado
E é tão bom cantar o fado
E ter quem goste de nós

 

Contacto com o autor: clicando aqui
Viva Lisboa: Recordar é viver
música: É Tão Bom Se Pequenino
publicado por Vítor Marceneiro às 00:00
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2 comentários:
De Ana Mestre a 15 de Outubro de 2009 às 20:32
Vítor, fiquei de lágrima no olho a ler este post...
Ainda bem que depois do infortúnio de ficar sem mãe teve amor e carinho...
Curiosamente, o fado que nos trás é o que me lembro do seu avo a cantar.

Beijinho de carinho

Ana Mestre
De MARIA JOSÉ PRAÇA a 15 de Outubro de 2009 às 20:46
COMENTÁRIO À OBSERVAÇÃO

RECORDAR é ter memórias...
VIVER é arrancar com esse Chão-do-Passado (que nos dá pé) para a luta do Caminho-do-Futuro... Maria José Praça.

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