Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

FADO é que está a dar...

 

A oportunidade e o oportunismo no Fado   
 
Recentemente surgiram duas 'colectâneas' de fado – de Lisboa e Coimbra – o que é de louvar na medida em que mostra aos que hoje cantam como se cantava e também se era moderno, cada um no seu tempo, claro está.

Mas a diferença que ressalta entre estas duas 'colectâneas' é o modus facienti, isto é a distinta maneira de apresentar, o cuidado colocado na edição e atenção ao fado. As duas edições são: “Fado, Sempre, ontem, hoje e amanhã ” da Difference com distribuição da Iplay,  e a caixa azul de “Fado capital” da Ovação.

A primeira, é uma edição cuidado desde logo no aspecto, bonita capa, sóbria, e fácil e manusear, consultar e ler.

“Fado, Sempre, ontem, hoje e amanhã” revela esmero, atenção e respeito por esta canção e não um mero aproveitamento porque “o fado está a dar” (a expressão é feia, e infelizmente é usada).

Nesta edição da Difference, muito bem masterizada, os fadistas surgem num contexto que é explicado e argumentado, no ãmbito da História do Fado.
Na edição da Ovação os fadistas vão de A a Z, sem contexto nem organização que não seja a do abecedário, começa com Ada de Castro pelas razões óbvias e encerra com Zélia Lopes pelas mesmas razões, mesmo que a importância destas duas artistas, no contexto fadista, seja absolutamente diferente.
Ada de Castro é uma mulher do fado, tem uma carreira e sabe-se quem é.
A Zélia foi a um Festival RTP, cantou e canta bem, e apenas se aventurou no fado.
Para a história da canção de Lisboa o contributo de Zélia vale por isso mesmo e o da Ada é significativo, artista de casas típicas como O Faia ou O Folclore é indiscutivelmente um nome a reter.

 Mas a caixa da Ovação brinda-nos com surpresas como Maria José da Guia (uma falha na edição da Difference) ou Augusta Ermida.
Embora outros nomes colocados alfabeticamente perderam-se na memória no tempo – esse grande juiz – se é que alguma vez tiveram memória ou a editora saiba até quem são, pois o “resumido” texto da caixa da Ovação, em cor dourada, não assinado, é pobre e uma manta de retalhos onde rapidamente o leitor mais atento nota uma colagem apressada de outros sem articulação ou sequer ligação aos fadistas incluídos entre eles, Amália Rodrigues, que não podia faltar.

O texto é pobre, feito de lugares comuns, revela pouca pesquisa.
No tocante ao fado de Lisboa faz-se tábua rasa entre a Severa e Amália Rodrigues, calcule-se.

Nesta caixa que reúne 120 fados cantados tanto por nomes gloriosos da arte fadista como Fernanda Maria, Fernando Maurício, Maria da Fé ou Alfredo Marceneiro e AMÁLIA, passando outros nomes maiores como Maria Amorim, António Rocha, Cidália Moreira, Saudade dos Santos, Vasco Rafael, inclui também os “aventureiros no fado”, casos dops cançonetistas Mirene Cardinalli e Rui de Mascarenhas, ou nomes que nos interrogam como o de Bela Bueri ou Conceição que terá gravado em 1971 “A minha vida fadista”.

E se pensam que é a grande Beatriz da Conceição, não; não é, pois esta está representada com um magnífico poema de Vasco de Lima Couto, “Dei-te um nome em minha cama”.

Esta caixa inclui algumas bizarrias como as Entre Vozes, na sua formação de 2000, ou ainda na letra D, surge Daniel Gouveia, um nome a que ninguém fica indiferente nas lides fadistas, e isto porque está sempre presente, porquê?... ninguém sabe.

Além das falhas nesta caixa de 10 CD e um DVD o que sobressai é a desarrumação e falta de articulação, além de um descuido quer de apresentação (artwork) quer de masterização.

 Em sinal absolutamente contrário surge “Fado, Sempre, ontem, hoje e amanhã ” coordenado pelo editor Samuel Lopes (parabéns!), e com excelentes textos de Nuno Lopes – um jornalista há muito ligado às lides fadistas – e Manuel Halpern – que editou já um livro polémico sobre as novas gerações-.

Os textos estão bem escritos e claros.
Sobressai quanto a nós o de Nuno Lopes pois fez uma esclarecida síntese da história do fado desde as suas “tumultuosas” e muito discutidas origens, até à década de 1980, quando consideram os dois autores poder falar-se de um novo fado.

O texto de Nuno Lopes bem argumentado e com pesquisa tem ainda a qualidade de destacar algumas figuras sobre as quais faz uma síntese biográfica casos, entre outros, de Amália (sempre ela!), Fernanda Maria, Alfredo Marceneiro, Berta Cardoso, Carlos do Carmo, ou Mariza.

O texto, muito bem intitulado, “Fado, um gosto português”, marcando desde logo a portugalidade do fado, tem contextualização histórico-social, referências à bibliografia, designadamente o livro recente de Rui Vieira Nery, mas também outros ensaios editados como o de Vítor Duarte Marceneiro sobre Hermínia Silva.

Manuel Halpern retoma no seu texto uma sua frase-chave forte: “A saudade já não é o que era”, um tão brilhante título como o de Nuno Lopes, aqui de facto nota-se a inteligência do editor de colocar dois jornalistas à mesma altura.

Voltando ao texto de Halpern, está muito bem argumentado, citando até Camões para afirmar que “há fado, mas os tempos são outros e outras as vontades”, além de não faltar o contexto sócio-cultural e com uma ousadia intitulada: “receita para um disco de novo fado” que vale a leitura (bravo!).

Refira-se sobre esta excelente edição, a vários níveis, de “Fado, Sempre, ontem, hoje e amanhã”, a magnífica masterização. Um som absolutamente espectacular.

Se outras não fossem as excelentes qualidades deste Livro-CD há ainda o cuidado na escolha dos intérpretes e o incluir o primeiro registo de Carminho, a filha da fadista Teresa Siqueira, que está, e irá dar cartas.

Carminho canta “As penas” no Fado Perseguição de Carlos da Maia.
Se notámos nesta edição a falta de Maria José da Guia e interrogamos a inclusão de João Braga, seguramente sem os intérpretes incluídos na edição da Difference é que não se fazia a história do fado.
Diga-se, fazendo-se justiça a tais autores, designadamente a Nuno Lopes, que mesmo fadistas de referência que não são incluídos em CD, estão referenciados de algum modo nos textos.

A “santa do fado”, Ercília Costa, tem um texto só seu, apesar de não a ouvirmos, mas onde Nuno Lopes revela, citando a poetisa Fernanda de Castro que “a primeira internacional” do fado viajava sempre com bacalhau e azeite português porque desconfiava da gastronomia dos hotéis.

Outro exemplo, e daí os bem argumentados textos, ao incluir Frutuoso França, no popular tema da década de 1940, “Amizades”, refere-o como representante de um grupo de fadistas da "velha guarda" constituído por Júlio Vieitas, José Coelho, Gabino Ferreira, Júlio Peres e Manuel Calisto (o rouxinol da Madragoa). Referem-se nomes como José Porfírio, Raul Nery e o seu conjunto de guitarras, etc.. Nos novos não é esquecido o audaz gesto de Paulo Bragança, Mísia está muito bem contextualizada e o fenómeno Mariza argumentado q.b. para estar entre as glórias do CD “Sempre”.

Esta edição além do texto que inclui um guia das casas de fado, é constituída por quatro CD referentes aos nomes de Sempre, Ontem, Hoje e Amanhã.

Relativamente ao Amanhã, é recuperada aquela que terá sido a primeira gravação de Raquel Tavares para a Metrosom e que não faz justiça à notável fadista, porque será?

De qualquer forma nota máxima para a edição da Difference, e muito rasa para a da Ovação que tem apenas o mérito de trazer para o digital alguns nomes realmente de interesse, mas é uma edição pobre que nem o DVD salva.

As duas edições demonstram claramente a oportunidade do Fado e o oportunismo no Fado.
Inez Benamor/ Hardmúsica

Contacto com o autor: clicando aqui
publicado por Vítor Marceneiro às 20:26
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8 comentários:
De ANÓNIMO a 31 de Dezembro de 2009 às 08:33
Embora este texto já tenha seguramente um ano, ainda dá para perguntar: -E esta Inez Benamor, quem é, que tanto sabe de Fado, mas "nunca está presente" e é "um nome a que todos ficam indiferentes nas lides fadistas"?!...
De Anónimo a 31 de Dezembro de 2009 às 11:04
É óbvio que é um pseudónimo, será (é) parente do verde pinho?
Se ninguém fala de ti, arranja quem fale, nem que sejas tu próprio com outro nome.
Só os otários usam o nome próprio nesta selva que é a internet.
O autor deste blogue pode não ser otário, mas "anjinho!" é .
Anónimo, porque não otário.
NAC
De Anónimo a 31 de Dezembro de 2009 às 11:30
Ontem cerca das 22 horas escrevi um comentário, que verifiquei hoje não aparecer aqui, logo pensei, que afinal sempre fazia censura, mas verifiquei agora que o coloquei no artigo que fez "Mulher Lisboa".
Aqui está novamente, e fico contente por verificar que não faz censura, pode crer que não é otário nem anjinho, o tempo lhe dará a razão.
Este seu trabalho é uma espinha atravessada na garganta de muita gente.

"Colocou esta notícia porque fala em si e no seu amigo Nuno Lopes? e o Daniel Gouveia! É que ele também está em todas, tal como o outro seu amigo Daniel Gouveia, mas tem classe e sabe fazer, é oportuno, o outro é só oportunista. Mude de projecto o fado que está a dar, não é o seu fado."
De Vítor Marceneiro a 31 de Dezembro de 2009 às 11:57
Um amigo relembrou-me este texto, que na realidade tem quase um ano, na altura a Hardmusic enviou-me o mesmo, como aliás vem simpáticamente fazendo, não o publiquei logo, primeiro porque falava em mim, segundo, porque já tinha dado a minha opinião sobre a produção da Ovação ao seu proprietário, e em terceiro.... não vale a pena dizer o que é óbvio.
Faço páginas aqui que tem dezenas de visitantes, que não merecem um simples comentário, leia-se que comentário para mim é falar do assunto que publico, não estou a pedir elogios, os maiores elogios que recebo é de alguns pretensos amigos e/ou admiradores, que dizem que não têm tempo para perder tempo na net, mas mandam sempre a sua "boca" quando lhes toca, portanto vêm cá, mas não o dizem, (para não me darem cartel" tal como o autor do comentário que pergunta quem é esta Inez Benamor!
Bem, o que eu queria dizer, é que neste final de ano não queria criar polémicas, mas o artigo é ainda tão actual, que o publiquei, dei conhecimento do facto á Hardmusic, e soube também que um site o tinha publicado também agora, não estava á espera de nenhum comentário, como é costume.
Boas Festas
Vítor Marceneiro
De Arte por um Canudo a 31 de Dezembro de 2009 às 18:56
DESEJO
FELIZ ANO NOVO!..
PLENO DE REALIZAÇÕES E SUCESSOS PROFISSIONAIS..
De José Regaleira a 23 de Janeiro de 2010 às 19:26
Curiosamente chamara-me à atenção para estes comentários de um artigo que já elogiei publicamente porque bem escrito e diz uma coisa fundamental: há quem se aproveite do fado - e é verdade - e quem o faz de uma forma digna que é o que acontece na minha opinião com o livro e CD's publicados pela Difference . O trabalho da Ovação é a monte. Eu não sou José Regaleira mas retirei o pseudónimo de uma quinta que todos conhecerão bem perto de onde moro. Devo ainda acrescentar em defesa do Sr. Vítor Duarte (autor deste blog) que só lhe fica bem divulgar trabalho de amigos. No caso do Sr. Daniel Gouveia que nada tem a ver com estas duas edições a não ser que numa delas - na da Ovação - está como fadista (calcule-se!) eu nada vou dizer. O que tenho visto não me agrada, por exemplo a sessão de homenagem que fez ao D. Vicente da Câmara no Museu do Fado o ano passado por iniciativa da APAF . Quando ao Sr. Nuno Lopes tem de facto demonstrado qualidade, e é genuíno empenhado. Gostei muito da homenagem que apresentou e sei que escreveu o texto, á Berta Cardoso, também no Museu do Fado, ou a conversa que liderou com o Carlos do Carmo no mesmo espaço. Os seus textos nesta colectânea revelam um feliz compromisso entre uma certa erudição e destinarem-se a um público genérico. Sei que foi agora lançada uma nova colectânea mas dedicada às mulheres apenas.
De Pedro Fontes a 28 de Janeiro de 2010 às 15:45
Comprei esta colectânea e pela sua qualidade que tem, a que se lhe seguiu "Divas do fado". Para a minha geração este tipo de livros/CD são importantíssimos e dou por isso os parabéns à equipa. Aprendi muita coisa e gostei de certas vozes que nunca tinha ouvido e gostei.
De David a 15 de Novembro de 2011 às 01:38
A Inez Ben Amor parece uma figura enigmática (boa postura para um journalista). Tem presença no FB. Basta pôr lá o nome. Abraço e continuação de bom trabalho.

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