Segunda-feira, 30 de Abril de 2007

ALFREDO MARCENEIRO - Caricaturado

 

  por :Aniceto Carmona       por: Armando Boaventura                 por: Fernando Farinha

 


 

            

 3 caricaturas de José Pargana , sendo a do meio, uma auto caricatura sua,  abraçando Marceneiro

 

                         Alfredo Marceneiro com o caricaturista  e seu amigo José Pargana

 


Alfredo Marceneiro canta: Bebado Pintor"

Letra de: Henrique Rego Música de Alfredo Marceneiro

 Depois de mostrar estas caricaturas, e embora fora do tema Lisboa, não resisto a relembrar estes lindos versos do grande poeta Henrique Rêgo, que foi uma criação de Alfredo Marceneiro com música sua a que deu o título:  Alexandrino Bêbado Pintor

 

 

                                               " O BÊBADO PINTOR"

Repertório de Alfredo Marceneiro

Letra de: Henrique Rêgo

Música de Alfredo Marceneiro

 

Encostado sem brio. Ao balcão da taberna

De nauseabunda cor, e t á bua carcomida       

O bêbado pintor, a l á pis desenhou        

O retrato fiel, duma mulher perdida

 

Impúdica mulher, Perante o vil bulício

De copos tilintando e de boçais gracejos,

Agarrou-se ao rapaz, e cobrindo-o de beijos,

Perguntou-lhe a sorrir, qual era o seu ofício.

 

Ele a cambalear, fazendo um sacrifício,

Lhe diz a profissão em que se iniciou,

Ela escutando tal, pedindo-lhe alcançou,

Que então lhe desenhasse o rosto provocante,

 

E num sujo papel,

O rosto da bacante

O bêbado pintor,

A l á pis desenhou.

 

Retocou o perfil, e por baixo escreveu,

Numa legível letra, o seu modesto nome,

Que o ébrio esfarrapado, e o rosto cheio de fome,

Com voz rascante e rouca, á desgraçada leu.

 

Esta louca de dor, para o jovem correu,

Beijando-lhe muito o rosto, abraça-o de seguida...

Era a mãe do pintor, e a turba comovida,

Pasma ante aquele quadro, original e estranho,

           

Enquanto o pobre artista

Amarfanha o desenho:

O retrato fiel

Duma mulher perdida.

 

 

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música: Bêbado Pintor
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Sábado, 28 de Abril de 2007

O Poeta Popular JOSÉ REGO, vulgo "Zé Brasileiro"

              

 

                        

                                 José Rego                                        Livro de poemas "Janela do Mundo

As Poesias de José Rego, conhecido por Zé Brasileiro, é uma compilação de composições escritas ao longo de anos.

Homem bem popular de Lisboa, (de rasto identificado em vários pontos da Cidade), nascido na Freguesia N." Sra. do Socorro (Mouraria), vive no Bairro da Boavista desde os dois anos, poeta há muito para a roda larga de amigos e convivas que o conhecem como veia repentista, ora mordaz, ora lírico de cadên ­cia certa e de palavra ajustada.

A quadra, tão própria dos poetas desta Lisboa popular, que animaram no pas­sado retiros - e muitos e famosos existiram em Benfica - das tascas e tabernas, destas terras de antigo termo, eram horas de convívio à volta duma "rodada" que saía da palmatória de zinco, onde os copos transbordavam do vinho do barril.

       O fado estaria presente como está nas compilações de José Rego: "o fado é

a vida da gente" pois quando "ouço uma guitarra" - "alegra-se o coração".

       Homem do povo, compreende a "alma" deste nas "festas rijas" "com vinho

e sardinha assada", com bailaricos e fado".

Nas suas quadras pressente-se o pulsar de quem viveu na cidade, sobretudo. Muitas das suas composições vão direitas às experiências e contrariedades dessas mesmas vivências. Há, porém, um moralismo vertido nos versos quer de aconselhamento, quer de crítica social ou de pacifismo como era (é) comum nos criadores destes modos literários.

Revela-se contra a guerra, rejubila com a bondade, encontra-se como homem - na nossa língua, na nossa literatura e na liberdade que Abril nos deu: "como o pão da liberdade e belo Abril". Assiste e participa como estivesse numa janela, numa grande e ampla janela rasgada em todas as direcções.

Exorta a natureza, a fiel companheira, defendendo como objectivo de vida a "entrega ao fado" pois "Eu levo a vida a cantar! Dou ao fado a minha voz! Cantar o fado é sondar! A alma dentro de nós".

Como poeta popular o seu "pensamento" revela-se nas experiências e nas opiniões que transmite como generosa dádiva.

É de louvar a Junta de Freguesia de Benfica, que na oportunidade dos 60 anos da Boavista, apoie José Rego, com a publicação deste trabalho, que tam­bém é uma homenagem à população daquele emblemático bairro de Lisboa, hoje renovado, mas de vivência humana, social e de cultura popular dignas de registo.

 

Dr. Carlos Consiglieri

                                           De Cacilhas P'ra Lisboa

 

                                       Letra de: José Rego “Zé Brasileiro”

 

                                               Da janela do meu quarto

                                               Vejo Lisboa mais bela

                                               Tão bela que não me farto

                                               De a ver da minha janela

 

                                               Vejo até o cacilheiro

                                               E a poesia que tem

                                               p' ra lá, p' ra cá, dia inteiro

                                               Num constante vai e vem

 

                                               De Cacilhas p' ra Lisboa

                                               De um para o outro lado

                                               Bate-lhe o vento na proa

                                               Nunca se mostra cansado

 

                                               Só quando chega a noitinha

                                               O cacilheiro descansa

                                               Mas volta de manhãzinha

                                               À faina cheio de esperança

 


 

Quadro de Mestre Real Bordalo "Tejo ao entardecer "

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MARIA DA FÉ

Maria da Fé canta "Valeu a Pena"

Letra e Musica de Moniz Pereira  

 

Maria da Conceição Costa Marques Gordo (Maria da Fé),  nasceu no Porto em 1945 e sonhou de ser fadista desde os nove anos de idade. Apresentou-se e venceu um concurso de cantadeiras amadoras quando tinha 14 anos, o que venceu, e atingiu a sua estreia em palco no Teatro Vale Formoso do Porto. Quando tinha dezoito anos mudou-se para Lisboa e começou a cantar em casas de fados principalmente na Adega Machado e no Casino de Estoril. Em 1967 lançou o seu primeiro disco dedicado somente a fado em que realizou bastante sucesso com os temas Valeu a Pena e O Primeiro Amor. Durante os anos 70´s o seu nome é reconhecido a nível nacional e nos continentes da Ásia, América do Sul e em toda a Europa. Maria da Fé alcançou o seu maior sucesso discográfico com “Cantarei Até Que A Voz Me Doa” nos anos dos 80´s e também com outros êxitos como: Pode Ser Mentira, Divino Fado, Obrigado, Vento do Norte e Fado Errado, Senhora Dona Cidade.

Hoje em dia o seu repertório é constituído  por imensos  poemas da autoria de seu marido José Luís Gordo.

Fez parte do elenco inicial de “Entre Vozes” com Alice Pires, Alexandra e

Lenita Gentil.

Foi e é uma fadista muito apreciada .

Recebeu o Prémio Carreira da Fundação Amália em 2006.

 

Maria da Fé

 

Tem uma voz de conforto

P'ra quem sofreu ou chorou,

A cantadeira do Porto

Que Lisboa consagrou !

 

E assim Maria da Fé

Que pretende ir mais além,

Mostra o valor de quem é

Pelo nome que já tem !

 

O Galarim " p'ra saudar

Esta popular artista,

Confere-lhe aqui lugar

Por direito de conquista !

poema de: Carlos Conde

 

 

Senhora Dona Lisboa

 Repertório de Maria da Fé

Letra de: Ary dos Santos

Música: Martinho da Assunção

 

Senhora Dona Lisboa

Burguesa de meia-raça

Vais do Terreiro do Paço

Ao miradouro da Graça

 

Levas saia pombalina

Blusa bordada ao redor

Sorriso de ceda fina

Cinta d´Eça de Queiroz

 

Com vestido de azulejos

E peito alto entalado

Num decote sobre o Tejo

Tens corpo de rio e Fado

 

Senhora Dona Lisboa

Cada praça mais formosa

E nas ruas da idade

Com paredes cor de rosa

 


 

Casamento de Maria da Fé (Os noivos com Alfredo Marceneiro e mulher)

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Sexta-feira, 27 de Abril de 2007

O Sapateiro - Lavadeiras de roupa - Origens

Imagem de sapateiro de vão de escada

Desde o  século XIX e até meio do século XX, o artífice de sapateiro,  desde que não trabalhasse para grandes lojas ou para casas senhoriais, para  sobreviver,  tinham que se estabelecer por conta própria,  e para tal, tentar arranjar  um vão de escada para alugar, era economicamente  o mais viável.

Nesta época havia muitos sapateiros de escada por toda a Lisboa.

Era uma vida dura e pouco gratificante em termos económicos, pois os seus clientes era o povo mais humilde, que muitas vezes mandava reparar o calçado, e ou não o chegava a ir levantar por dificuldades financeiras, ou às vezes passado muito tempo.

A sua postura corporal para trabalhar, era sentado num pequeno banco de madeira muito  baixo,  e no seu próprio colo sobre um avental de couro era a sua   mesa de trabalho, é de ver que sentado nesta posição tantas horas seguidas, com luz deficiente  mesmo durante o dia principalmente no inverno, tinham que ter praticamente o candeeiro a petróleo sempre aceso.

Trabalhavam dias e dias a fio, só se parava ao domingo de manhã para ir à missa, a saúde tinha que ser precária e muitas deformações, problemas de coluna, da  bacia, na vista, etc..

Meu Bisavô Rodrigo Duarte, já tinha esta profissão no Cadaval , quando com a minha bisavó Gertrudes da Conceição lavava roupa para fora.

Passaram no inicio grande dificuldades, até que arranjaram um local à Praça das Flores, que além do vão de escada para  poder montar a pequena bancada de sapateiro, tinha uma arrecadação   que mais não era que um corredor comprido e com uma largura razoável, atamancada para poderem lá viver. O corredor  dava para um saguão , onde minha avó podia lavar roupa para fora, e foi neste ambiente que  Alfredo nasceu e lá tiveram mais três filhos. (esse prédio já hoje não existe)

Rodrigo Duarte morre prematuramente em 1905 com uma "tísica galopante".

Meu avô viu-se assim aos 14 anos como o cabeça de casal, e esteve sempre com sua mãe até à hora da sua morte.

Meu avô Alfredo começa a trabalhar e arranja uma pequena casa na Rua da Páscoa, num pátio lá nasceram os seus filhos, e  foi onde viveu os restos dos seus dias.

Foi um filho  e irmão exemplar, que o adoravam, foi pai e um avô exremoso.

Lavadeiras de roupa

 

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Quarta-feira, 25 de Abril de 2007

FUI Á FEIRA DA LADRA

Fui à Feira da Ladra

Tinha eu uns seis anos de idade, quando num Sábado o meu pai me foi buscar a casa dos meus avós para me levar a conhecer a Feira da Ladra. Nessa época meu pai já tinha abraçado a profissão de "Artista de Variedades – Fadista", mas estava no início, o que ainda não lhe dava estabilidade económica. Com o falecimento precoce de minha mãe, passei a viver com os meus avós, na Rua da Páscoa, a Santa Isabel – Campo de Ourique.

Fomos a pé até ao Largo do Rato, descemos a Rua de S. Bento e, quando íamos a meio da Av.ª D. Carlos I, comecei a chorar porque me doíam muito os pés; tinha calçado nessa altura umas botas de carneira com sola de pneu, boas para jogar à bola, mas para caminhadas pareciam ser feitas de chumbo. Meu pai ficou um pouco arreliado, pois estava a fazer planos para irmos até ao Campo de Santa Clara a pé, e logo me disse:

– Lá vamos ter que gastar catorze tostões em dois bilhetes de eléctrico para a Graça.

                       

Carro Elécrico aberto anos 50

Chegámos a Santos e apanhámos o eléctrico, tal como o da foto acima (eléctrico aberto). Lembro-me que enjoei um pouco, pois o meu pai disse-me:

– Eh pá, estás amarelo, não vomites no carro – e passou-me para o topo do banco, onde era totalmente aberto, agarrando-me o braço com força para eu não cair.

Lá chegámos e entrámos para o recinto, pelo lado da Rua da Voz do Operário.

                    

                        

                                    Foto do ambiente da Feira da Ladra, anos 50

Aquilo era um mundo fantástico para mim (tantas coisa giras); algumas eu nem sabia para que serviam, mas meu pai era frequentador e já ia com a ideia fixa do que queria comprar: uma grafonola! Fomos ao poiso do homem que ele sabia ter uma para vender, embora avariada. Na semana anterior já tinha tentado negociar um bom preço, mas não conseguiu. Com a minha presença (talvez para puxar ao sentimento) e batendo no argumento de que a corda estava partida e talvez nunca fosse possível arranjá-la, lá a comprámos por 20$00, incluindo uma caixa de agulhas e um disco de massa da "Voz do Dono" com dois temas de Maria Alice (que mais tarde veio a ser mulher de Valentim de Carvalho).

Tentámos, nos vários comerciantes, arranjar um disco do meu avô para lhe fazer a supresa, mas em vão; os discos de "Marceneiro" ainda eram preciosidades, raras de mais para aparecerem por ali.

Com o meu pai a transportar a grafonola, que depois de fechada parecia uma mala e tinha uma pega, começámos a descer em direcção à Av.ª 24 de Julho, para nos irmos embora. Ao passarmos junto ao gradeamento que dá para o Hospital da Marinha, havia um homem a vender calçado usado, mas com bom aspecto e muito bem engraxado. Os meus olhos fixaram logo uma botas de cano alto (à cow-boy). Pedi ao meu pai para ir ver se eram da minha medida, calcei-as e recordo que estavam um pouco compridas. Mas o homem disse logo que era a minha medida e que tinham solas novas, estavam muito baratas, só 15$00. Ó paizinho, compre, para eu levar para a escola (eu entrava em Outubro desse ano de 1952 para a 1ª Classe, nas Oficinas de S. José, aos Prazeres).

– São caras e o pai só tem... – e levou a mão ao bolso, mostrando 8$60.

O homem, com a sua lábia de vendedor, disse-lhe:    

– Estas botas, por 15$00, são um pechincha... Mas como o miúdo está aí tão triste, dê cá isso e leve lá as botas.

Mesmo antes que meu pai dissesse algo, embrulhou-as em papel de jornal, atou-as com uma guita, à volta. Eu agarrei-as logo, pois o meu pai, carregado com a grafonola, ainda podia dizer que não, o que não aconteceu. Lá deu o dinheiro ao homem e – meu Deus, como hoje recordo (sem pieguices ,mas com uma lágrima no olho) – que alegria!

Começámos a descer para a 24 de Julho, quando o meu pai se volta para mim e a rir diz:

– O menino Vitó levou a sua avante, mas esqueceu-se de uma coisa: o pai não tem mais dinheiro e agora temos que ir para casa a pé; e olha que não te posso ajudar porque a grafonola ainda é pesada.

– Ó paizinho, não há problema; eu aguento.

– Sempre quero ver isso – retorquiu ele.

Chegámos ao Cais do Sodré e eu derreado, já não conseguia dar mais um passo. Meu pai, a quem também já doía o braço de carregar a grafonola, poisou-a no chão, junto a uma parede, sentou-me em cima dela, disse-me que não saísse dali porque ia ao bar da gare dos comboios, ver se estava lá alguém conhecido.

Fiquei ali e, passados uns minutos, o meu pai aparece com uma sandes de torresmos e um pirolito. Fiquei deliciado, porque já havia um bom bocado que tinha fome e sede, mas não tinha dito nada para não complicar ainda mais a situação. Então, ele disse-me:

– Bem, espero que tenhas aprendido a lição; mas como o pai ainda descobriu aqui no fundo do bolso uns trocos, que deram para as sandes e ainda nos sobrou 2$00, assim podemos ir de eléctrico até ao Rato.

Calculem o alívio e alegria quando ouvi esta novidade, e lá fomos os dois a rir às gargalhadas para a paragem do eléctrico.

Foi um dia em cheio (que saudades, pai)...

Mal chegámos a casa, o meu avô começou logo meter-se com o meu pai, em ar de troça:

– Uma grafonola... e avariada!

– Deixe estar, que eu e o Vitó arranjamos isto – dizia o meu pai.

Claro que eu não percebia nada daquelas coisas, mas recordo ter ficado todo orgulhoso com o comentário. No futuro viria a ter esse jeito para as máquinas e ferramentas, mas meu pai era um grande “engenhocas”, lá em casa arranjava tudo.

Limpámos muito bem a caixa, que estava um pouco mal tratada, e meu pai desmontou o engenho de corda. Lembro-me que era parecido com a corda dos relógios de sala e – vejam a nossa sorte – a corda não estava partida, tinha-se solto o engate da ponta, que prendia ao sistema de fixação do enrolamento. O meu pai todo contente só dizia:

– Eu sabia, eu sabia!

Após a montagem, com a família toda à volta do engenho posto em cima da mesa de jantar, o meu pai dá à corda, destrava a pequena alavanca e o prato começa a rodar. Foi uma proeza saudada com grande algazarra e alegria. Logo o meu avô deu o dito por não dito:

– Já podemos tentar arranjar uns discos meus.

Entretanto, meu pai monta uma agulha, dá à corda (avisa-nos que não se deve rodar até prender, pois pode partir a corda ou voltar a soltar-se o engate) e põe o disco da Maria Alice. Foi, decerto, o primeiro disco que ouvi na minha vida, de tal forma que ainda hoje me lembro do fado na totalidade:

 

Acredita meu amor

Quando te vou visitar

Às grades dessa prisão

Sufocada pela dor

De te ver assim penar

Estala meu coração

 

Por mim mataste um rival

És agora condenado

Ao degredo por castigo

Mas juro por amor fatal

Não vai meu corpo a teu lado

Mas vai minha alma contigo

 

Depois, tomámos o gosto à grafonola e o primeiro disco do meu avô que arranjámos foi da “ODEON”, com os temas, "Amor de Mãe" e "Os Olhos". Como sabem, as grafonolas não tinham uma velocidade constante, e então o meu avô, quando se ouvia, exclamava:

– Então não é que até parece que tenho voz de mulher!!

                                   

                            

Disco de Grafonola 78 r.p.m

Mas voltemos às botas. Conforme tinha sido combinado, eram para estrear no primeiro dia de aulas, e assim foi, penso que a 6 ou 7 de Outubro. Nesse dia chovia torrencialmente, as botas vinham mesmo a calhar.

Ao fim do dia cheguei a casa desolado e com os pés todos molhados, pois as solas estavam todas desfeitas: eram de cartão colado sobre a sola inicial já gasta, muito bem pintadas, com anilina preta e graxa, o que lhes dava aquele aspecto consistente e novo! Fartei-me de chorar com o desgosto, mas mais tarde até rimos, porque nos lembrámos de como fora o negócio e, afinal, os enganados fomos nós. Pediu-se orçamento ao sapateiro, mas a minha avó disse logo que não se podia agora estar com aquela despesa, as solas e a mão-de-obra custavam quase 30$00 (o meu avô, naquela altura, ganhava 50$00 por noite e o meu pai, quando arranjava para cantar, não ganhava mais do que 20$00 a 25$00 por noite).

Ora, a solução acabou por ser uma alegria e um orgulho para todos nós, isto porque o meu bisavô (pai do meu avô Alfredo) era sapateiro e o meu avô, nos intervalos da escola, até o pai morrer, foi aprendendo o oficio e dando uma ajuda no trabalho. Como o meu avô era habilidoso, desembaraçava-se bem; comprou num armazém, em S. Paulo, um bocado de sola que lhe custou 6$00 ou 8$00 e, como tinha as ferramentas da arte de sapateiro que tinham sido do pai – as formas, sovelas etc. – foi ele próprio que me colocou as solas nas botas, botas que usei enquanto me serviram. Creio que ainda acabaram por levar umas solas de borracha.

Desculpem estes desabafos/recordações dos meus Fados!

Vítor Duarte Marceneiro

 

 

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Terça-feira, 24 de Abril de 2007

Feira da Ladra - Tipicismo de Lisboa

Quadro a óleo do Mestre Real Burdalo

«Feira da ladra 1998»

                   

                

                                      A Feira da Ladra

 

Repertório de Fernando Maurício

Letra de: Carlos Conde

Música - Raul Pereira

 

Fui à Feira da Ladra, a mais bizarra

Das Feiras com a marca do passado,

E vi num ferro-velho uma guitarra

De tampo, sujo, negro, desgrudado!

 

No fundo uma etiqueta já sem cor

Ocultava um retrato que ficou

E que era de um famoso tocador

Que a morte há muitos anos já levou!

 

Quatro cordas em rugas de cantigas

Se mais nada fizessem recordar,

Lembravam quatro décimas antigas

A volta de uma quadra popular!

 

Comprei aquela jóia que se enquadra

Em tudo o que são velhas raridades,

I´nda é preciso haver Feira da Ladra

P'ra nos mostrar o preço das saudades

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Domingo, 22 de Abril de 2007

RECORDAR TONY DE MATOS

Tony de Matos canta: Vendaval

Letra de: A Rodrigues  Música de: Joaquim Pimentel

 

 

Tony de Matos

António Maria de Matos (Tony de Matos), nasceu no Porto a 28 de Outubro de 1924.

Estreou-se em 1945 na Emissora Nacional no programa “ Hora de Variedades “ como cançonetista.

Fez teatro, cinema e esteve radicado algum tempo no Brasil, onde chegou a abrir em Copacabana  o Restaurante “O Fados” Toni de Matos foi sem dúvida um cançonetista de rara sensibilidade e voz bonita, a suas interpretações fizeram vibrar corações, era um homem apaixonado e tinha indiscutivelmente uma alma bem fadista.

Em 1953 actua em Moçamedes.

Em 1955 fez parte de uma “embaixada” de artistas portugueses que foram actuar à Índia.

Grava o seu primeiro LP no Brasil em 1963

Na revista no Teatro ABC em 1968 na revista “Arroz de Miúdas” com Aida Baptista,, Carlos Coelho, Oscar Acúrcio, Delfina Cruz e Beatriz da Conceição, Toni de Matos canta um fado, que obteve um grande êxito - «O que sobrou da Mouraria».

Estreia-se no cinema em A Canção da Saudade (1964) de Henrique Campos, sendo ainda protagonista em Rapazes de Táxis (1965) de Constantino Esteves, O Destino Marca a Hora de Henrique Campos e Derrapagem (1972).
Toni de Matos era um homem que tinha muitos amigos e admiradores, pois tinha o dom natural de cativar quem com ele convivia.

Cantou canções, mas os fados que cantou, eram de alma fadista, e direi mais as canções que cantava, todas elas sabiam a Fado.

Alguns dos seus êxitos que nos ficarão na memória: Quando Cai uma Mulher; Só nós Dois; Romance Cigano; Quarto Alugado; Coitado do Zé Maria; Vendaval; Lugar vazio; De Homem para Homem; Fiz Leilão de Mim; Fado para dois: O Destino Marca a Hora; Trova do Vento que passa; Tu Sabes Lá; Maria do Céu; Vou Trocar de Coração; A Tal.  Etc...

Faleceu em 1989, tendo a seu lado uma grande Senhora, Lídia Ribeiro, sua companheira de então. 

Nota: Artur Ribeiro quando faz o poema A Rosinha dos Limões, oferece em primeira mão a Tony de Matos, que não gostou muito do tema,  e não aceitou. Como se sabe, acabou por ser um êxito de sempre dos poemas de Artur Ribeiro, cantado por Max, e mais tarde Tony então grava o tema.

                              

QUARTO ALUGADO

Repertório de Toni de Matos

Letra de: J. Maria Rodrigues

Música de: António Rodrigues

 

                                          Daquele quarto alugado

                                          Numa rua de Lisboa

                                          O tempo correu à toa

                                          Resta apenas a saudade

                                          Ao relembrar o passado

                                          Sinto que a vida correu

                                          Nem és minha nem sou teu

                                          Nem há sequer amizade

                                          Daquele quarto alugado

                                          Resta apenas a saudade

 

                                          Naquele quarto alugado

                                          Sem tristezas e sem dinheiro

                                          Tendo o sol por companheiro

                                          Só amor lá vivia

                                          Era feliz nosso fado

                                          O mundo só para nós dois

                                          Veio o ciúme e depois

                                          Morreu nossa alegria

                                          Daquele quarto alugado

                                          Só ficou a nostalgia

 

 

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música: Vendaval
publicado por Vítor Marceneiro às 22:55
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Segunda-feira, 16 de Abril de 2007

LUCÍLIA DO CARMO

 

 

 Lucilia do Carmo Canta " Foi na Travessa da Palha"

Letra de: Gabriel de Oliveira Música de: Frederico de Brito

 

Lucília Nunes de Ascenção Carmo nasceu em Portalegre em 1920. Estreou-se no Retiro da Severa em 1936 e foi nesta casa que a sua voz e talento chamou a atenção dos proprietários e empresários das maiores casas típicas de Lisboa. Em 1947 abriu a sua própria casa de fados com o nome de Adega da Lucília (mais tarde mudou, para "O Faia"), na Rua da Barroca, no Bairro Alto.
Quando regressou do Brasil, onde viveu durante cinco anos. Lucília do Carmo realizou poucas digressões ao estrangeiro e foi pena não ter gravado mais discos.
Entre os seus êxitos encontram-se: “Leio em teus olhos”, “ Foi na Travessa da palha”, “Maria Madalena”, “Não gosto de ti”, “Preciso de te ver”, “Senhora da Saúde” ,”Olhos Garotos”, “Antigamente”, “Tia Dolores” , “Loucura” , “Zé Maria”, “Lá Vai a Rosa Maria”
Lucília do Carmo retirou-se da vida artística na década de 1980, sendo considerada uma das melhores vozes que o fado conheceu.
Faleceu em Lisboa em 1999.
 
Caricatura de Armando Boaventura, em que para além do próprio poder-se-á identificar Lucilia do Carmo, Alfredo Marceneiro, Carlos do Carmo ainda miúdo e Alfredo de Almeida npo canto saperior esquerdo.
 

 Lucilia do Carmo com Alfredo Marceneiro

 


Sempre tive por Lucília do Carmo, desde muito miúdo, uma ternura muito especial, devido não só à sua simpatia para comigo, mas também pela grande amizade que ela e seu companheiro, Alfredo de Almeida, tiveram com o meu avô, o que era recíproco.
No início da abertura da Adega da Lucília, os tempos eram difíceis e Marceneiro nunca deixou de aparecer e colaborar, o que contribuiu para o êxito da casa, mesmo sem  nunca ter ser sido contratado.
Mais tarde, com a passagem para “O Faia”, Marceneiro era presença obrigatória ao final da noite, que passa a ser o seu “poiso” preferido, o que se torna do conhecimento dos seus admiradores que ali afluem na mira de o ouvir cantar, o que sempre acontecia, também sem que nunca tenha contratado. Carlos do Carmo começa a interessar-se pelo Fado e tem ali à mão de semear o Mestre. Inteligentemente sabe ouvir e assimila. Afirmo-o porque sei e o próprio muitas vezes, também o afirmou. Carlos do Carmo grava em disco com a benesse de Marceneiro, alguns dos seus fados mais emblemáticos - Fado Bailado, A Viela, etc. -.
Após a realização do documentário “Marceneiro é só Fado” para RTP, e cujos interiores foram filmados n’O Faia, e em que Carlos do Carmo se assume como produtor, Marceneiro deixa de entrar n’O Faia, porque alguém lhe diz que seria considerado “persona non grata”. [Um dia contarei estes acontecimentos, que eu esperava que fossem contados por outros, que não por mim, mas há uma quantidade de investigadores e conhecedores do Fado que infelizmente só falam quando têm público que não os poderá contestar].
A amizade com a Lucília mantém-se como sempre e talvez mais reforçada! (estranho?...) Lucília que não tem nada a ver com o assunto, mas que muito a magoa, e como deixa de ter como já vinha sendo hábito hà vários anos, o amigo Marceneiro a seu lado no (seu?) restaurante, visita-o na sua casa pelo menos de 15 em 15 dias sempre ao final da tarde, levando sempre um miminho, quer para ele, quer para a minha avó, a “Ti Judite”.
No último ano da sua vida, meu avô fica acamado e Lucília até à hora da sua morte não deixa de o visitar semanalmente.
Continuei a conviver com a Lucília do Carmo quer depois do falecimento do meu avô, quer após a sua retirada artística. 
Guardo uma recordação de grande ternura por esta grande Mulher (com M maiúsculo).
Infelizmente não pude retribuir-lhe, quando ficou acamada, as visitas que fez ao meu avô, por pedido do filho. [Uma história para também contar mais tarde].
Lucília morre e infelizmente estou fora de Portugal.
Acabo se me permitem com um ditado popular que o meu avô incutiu no meu espírito e na minha formação, e acho que tenho dado mostras que não me esqueci: “QUEM MEUS FILHOS BEIJA MINHA BOCA ADOÇA”.
Vítor Duarte (Marceneiro)
 
Lucília do Carmo
 
Por direito e por justiça,
Lucília do Carmo é bem
A figura mais castiça
Das poucas que o Fado tem!
 
Se ela canta a dor incalma
Logo vive a mágoa atroz,
E então abre-nos a alma
Na expressão da sua voz!
 
Dá-nos o gosto, o prazer,
De uma certeza formal,
A de poderemos dizer
Que inda há Fado em Portugal!
 
Versos de: Carlos Conde
Desenho de: Pedro Leitão
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Viva Lisboa: Que grande mulher
música: Foi na Travessa da Palha
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Figuras de Lisboa - Policia Sinaleiro

Policia Sinaleiro

 

 

Olha o policia sinaleiro

Ai, passa agora,

Mas se não passas

Ficas sem carta e sem dinheiro

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Domingo, 15 de Abril de 2007

PORTUGAL OH. MEU TESOIRO....LISBOA DO MEU PAÍS

PORTUGAL  OH. MEU TESOIRO,

CHAMAM-TE PEQUENO E POBRE

VALE MAIS DO QUE O OIRO

A TRADIÇÂO QUE TE COBRE

Lisboa do meu País
Que trago no coração,
Serás sempre Imperatriz
Da nossa nobre Nação

 

 

 

 

Lisboa de céu azul,
Tão linda és, capital
Do Norte, Centro e do Sul,
Rainha de Portugal
Frases a Lisboa Eurico A. Cebolo

 

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50 Anos de Televisão - RTP

  (1)      (2)         

 

Comemora-se os 50 Anos de Televisão pública em Portugal, a inauguração foi na antiga Feira Popular (1)  Luna Parque) a Palhavã, que era para nós miúdos uma coisa do outro mundo, ficava no (2) Parque onde está a Fundação Calouste Gulbenkian, tive a felicidade de l á estar e nunca mais me esqueci daquela caixinha mágica, acabei de vir a ser profissional de Cinema e Televisão... o sonho concretizou-se.

Relembro este acontecimento porque para mim est á relacionado com Fado, pois naqueles anos quase todos os fadistas profissionais e amadores que sobressaiam ,  eram convidados a cantar para à RTP. Depois de abrirem os outros dois canais  tudo piorou, e até a RTP deixou de dar pr á ticamente Fado, agora são sempre os mesmos que vão aos mesmos canais, e a RTP vai-nos dando as "Memórias".

Passa a alguém pela cabeça que O Fado venha a ser considerado património da Humanidade, embora seja  uma forma musical única no mundo?  È  no próprio país que reivindica a designação, os nossos ministros dão entrevistas a dizer que não gostam de Fado. A Televisão Pública não tem  programas de Fado. (Excepto se for alguém premiado lá fora),.!!!

Mas meus amigos vem aí a solução.

Ficcão... ou Talvez não!

H á um Realizador de Cinema (Documentários) o  Sr. Saura , que  é quem  sabe da poda, foi -lhe pedida ajuda de uns entendidos (conselheiros),  que até arranjaram um mecenas (o er á rio público), pedindo-lhe  para fazer um filme histórico e isento, porque os realizadores portugueses são uns intelectuais e não de debruçam sobre estes temas menores, consta-se que o Sr. Saura   ter á nbsp; logo ter dito: — Fado só com portugueses é uma chatice , assim vai se for como eu quiser , vai haver fado em flamengo, em brasileiro, em mornas etc.

O Sr. Saura estudou muito sobre Fado , e vai acabar,   com conhecimento de causa por  explicar de uma vez por todas aos portugueses, que o Fado não é nada nosso, foi roubado, nós fomos foi grande navegadores, e como aos marinheiro era h á bito ter uma mulher em cada porto, os marinheiros portugueses não fugiam á regra, ou não fossem latino machistas , assim em cada terra por onde passavam, aprendiam um pouco do que por l á se cantava nos bordeis, aprenderam uma notas com os  escravos africanos, mais umas notas com os índios brasileiros, na Índia  também tirámos notas, na China , no Japão, etc. , repovo á mos ainda Cabo Verde com v á rias raças, o que obviamente deu mais umas misturas de musicais diferentes.

Finalmente previdentes como somos,  e para não sermos acusados de pl á gio, e hoje teríamos a pagar indemnizações a esses povos , juntámos tudo num molho e deu esta mistura de canção que chamamos   Fado,  e é por isso que só nós é que o cantamos em todo o Mundo. Mas é porque os outros não quiseram  aproveitar esta "modinha"?,  é porque é pobre musicalmente, é tocado num instrumento que tem cordas a mais,  só tem 1º e 2º  andamento e que é tocado de ouvido, os tocadores não vem do conservatório. Uma chatice .......

Ninguém tem dúvida que o Filme vai ser um êxito (ler a História do Rei Vai Nu), pois ele só ser á entendido por gente inteligente, e se não gostarem e protestarem o Sr. Saura até sabe daquela história do Manuel de Oliveira que no filme "Francisca" ninguém viu o filme até ao fim, a versão de televisão ninguém gostou, ali á s mudavam para o 2º canal, ou apagavam os televisores. Manuel de Oliveira em entrevista na TV confrontado com estes factos retorquiu : — O Filme é bom, o povo português é que é inculto, vejam como eu lá fora sou apreciado (Nota - felizmente é apreciado tem uma obra fant á stica, eu como inculto que sou, tenho direito a só ter gostado do Anikita Bóbó ).

Portanto seja o filme o que for, não tenham dúvidas que vamos ter muitos intelectuais e conhecedores a dizerem que nós é que não percebemos  nada disto, um homem com o percurso profissional do Sr. Saura ter á sempre razão, quero dizer, ter á sempre alguém que lhe dar á razão!!

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Quinta-feira, 12 de Abril de 2007

Amaro de Almeida (Dr.) - Médico dos Fadistas de então...

Alfredo Marceneiro a ser consultado por Dr. Amaro de Almeida
Fotos de: Vítor Duarte
Sempre que tenho oportunidade, relembro o Doutor Amaro de Almeida, foi um grande Homem, um  grande Médico, uma grande Alma Fadista e um bom amigo.
Presto-lhe esta homenagem em meu nome,  do meu avô e de meu pai, e tenho a certeza que falo em nome de todos aqueles artistas e não só, que ele ajudou desinteressadamente.

 

O Doutor Amaro de Almeida, desde os seus tempos de estudante que era assíduo frequentador das noites fadistas, mais tarde já formado, foi graciosamente o médico dos artistas, (Quer fosse no seu consultório particular quer na Policlínica do Carmo onde chegou a estar toda a noite para atender os artistas depois do final dos seus espectáculos),
Foi também poeta,  estudioso e amante do fado.
Era um homem admirado e respeitado por toda a comunidade artística.
Era amigo e admirador de Alfredo Marceneiro, que por ele também nutria uma amizade profunda.
Recordando os velhos tempos que viveram escreveu estes versos inéditos que lhe dedicou.
 
FADO... TU ERAS DANTES !
ALFREDO, Vê se te lembras...
 
Severas de chinelinhas, da Rua do Capelão
Boémios do Campaínhas » dos tempos que j á l á vão,
Rosas Marias cansadas, da meia-porta da vida,
Chorando com as guitarradas, mais uma noite perdida,
 
Bicos de g á s , lampejando, num recantinho da Guia,
Madrugada bocejando, noites de Triste agonia,
Ermidinha da Saúde, altar de fé, j á velhinha,
Que conseguia virtude, p´ra quem virtude não tinha,
 
Procissões com rosmaninho, com foguetes a estalar,
Desgarradas no Charquinho » e no «Ferro de Engomar»,
Tardes de sol nas toiradas, rufias de banza ao lado,
Tipóias escavacadas cheias de gente do Fado,
 
Verbenas e arraiais, Santo Estêvão, São Miguel,
Com leilões de «Quem d á mais?» e os cravos de papel,
Retiros fora de portas, Catedrais desmoronadas,
Ruínas, saudades mortas, de tantas, tantas noitadas,
 
O «Retiro dos Patacos»,«Caliça», «Perna de Pau»
Com brigas e desacatos, e pastéis de bacalhau,
Os descantes turbulentos, com o vinho a azedar humores,
Os descantes ciumentos, despique de cantadores,
 
Fadistas da terra fria, Maria Emília Ferreira,
O grande João Maria, o Proença e o Zé Pereira,
O Ginguinhas , o Fininho, o Custódio, o Cutileiro,
O Filipe, o Machadinho e o Jorge Caldeireiro,
 
Júlio Duarte, Cascais, o Artur do Intendente
E tantos e tantos mais, que a memória não consente,
Guitarristas afagando melodias e queixume,
Cordas trinando, chorando, tristeza, amor e ciúme,
 
O Salgado, o Armandinho , Zé Marques, Abel Negrão,
O saudoso Pai Martinho, e tantos que j á l á estão,
Poetas que ao Fado deram, a vida que o Fado tem,
Poetas que não morreram, a morte é vida, também,
 
O Gabriel de Oliveira, o grande Silva Tavares,
O Boto, o Lino Ferreira, o querido João Linhares,
Fernando Teles, Radamanto , Henrique Rego e Sobral
Poetas com tanto encanto. Poetas de Portugal
 
Alfredo, vê se te lembras de tudo isto, que é Fado:
Das Severas, da boémia, dos recantinhos da Guia,
Das madrugadas perdidas, das guitarradas,
Das procissões, das desgarradas, das tipóias,
Das verbenas, dos dias grandes e das noites pequenas.
 
Alfredo, vê se lembras, dos retiros fora de portas,
Do rigoroso atirado com doçura, com bravura,
Despiques a horas mortas, com vinho, com Fado,
Com ternura, dos teus colegas que o tempo esvaiu,
Que a saudade acende, do borralho frio.
 
Se te lembras, Alfredo, de tudo o que é Fado,
Se podes viver o tempo passado,
Se sabes sentir, o que já viveste
Se podes ouvir ainda o Armandinho ,
E se sentes correr
Do peito á garganta um copo de vinho,
 
Se cantas, se gingas da cabeça aos pés :
Alfredo Marceneiro, só tu é que és ....
                        ......O Fado verdadeiro
 Poema:Amaro de Almeida
Que grandes noites de fado!
Algumas assisti bem miúdo, tinha para aí os meus 6 a 7 anos, mas depois dava-me o sono como era natural, punham-me a dormir no bengaleiro, que pena... mas nas horas e minutos que estive acordado sempre que o meu avô me levava, esses nunca mais os esqueci e cada vez me vêm mais à memória
 
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Segunda-feira, 9 de Abril de 2007

SEVERA

A SEVERA

Imagem da Severa

(Desenho da època)


As relações amorosas ilícitas, entre o Conde de Vimioso e a canta­deira de Fado Maria Severa, constituíram motivo de inspiração para representações de arte plástica, de teatro, cinema, televisão, sendo decerto o livro de Júlio Dantas que mais se destacou, mais tarde Júlio Dantas com base no livro escreve uma peça (em quatro actos) represen­tada pela primeira vez no Teatro D. Amélia (actual S. Luís) em 25 de Janeiro de 1901, e tal como já  acontecera com o romance, obteve grande sucesso.
Em 1909 é mais um êxito como “Opereta” adaptada por André Brun e musicada pelo maestro Filipe Duarte
Em 1931 foi ainda usado como guião para o realizador Leitão de Barros rodar o filme “A Severa”, o primeiro filme sonoro gravado em Portugal.
Em 1955 a Severa foi reposta em cena no Teatro Monumental, com Amália Rodrigues no papel da protagonista e a participação, entre outros, de Madalena Sotto, Assis Pacheco, Santos Carvalho, Paulo Renato, Rui de Carvalho e Mário Pereira, ainda o público encontrou nela motivos de agrado.
Em Fevereiro de 1990 o empresário Sérgio de Azevedo leva à cena um musical no Teatro Maria Matos, “ A SEVERA” tendo o papel da Severa , a actriz Lena Coelho e Carlos Quintas no papel do Vimioso, Carlos Zel também fez parte do elenco.
Maria Severa Onofriana, filha de Severo Manuel de Sousa e de Ana Gertrudes Severa (alcunha adaptada do nome próprio do marido), nasceu em 1820 em Lisboa aos Anjos numas barracas nos montes,
Seu pai era de etnia cigana, e a mãe uma portuguesa de Ovar que, com outros pescadores da região, emigrara para Lisboa . Atri­bui-se a essa ascendência cigana a sua beleza exótica e o seu cantar expressivo, que conquistou os boémios da capital.
Sua mãe, Ana Gertrudes Severa, era uma célebre prostituta da Mouraria conhecida pelo sobrenome de "Barbuda", e Maria Severa terá ingressado muito cedo na mesma profissão, depressa se distinguindo nesse meio, não só - e muito em particular, como seria de esperar em semelhante contexto - pela beleza trigueira, como ainda pelos dotes invulgares de cantadeira de Fado.
Em 1831 morava na Rua Direita da Graça, terá ainda morado no Pátio do Carrasco, ao Limoeiro por alturas de 1844-45, viveu no Bairro Alto à Travessa do Poço da Cidade, antes de se fixar definitivamente na Mouraria, na Travessa do Poço da Cidade nº 35-A, ao tempo chamada de Rua Suja, era frequentada pela marujada portuguesa e inglesa.
De Severa à muitos estudiosos, contam-se muitas histórias dela e/ou com ela, umas talvez verdadeiras, outras talvez não tanto.
Conta-se que percorria os bairros populares de Lisboa, e a sua voz animou as noites de muitas tertúlias bairristas, tabernas ficaram famosa só pela sua presença.
Naquela época os “bastidores” da Mouraria, eram de má fama. Botequins, batota, ladrões, prostitutas e rufias, que lhe dava um estranho encanto, era esta a Lisboa popular e a Mouraria oitocentista — “chinela no pé, cigarro lambido, peúgo riscado, chapéu às três pancadas, navalha no bolso tendo como banda sonora a guitarra. Esperas e Touradas, hortas aos Domingos, pancadaria de vez em quando. Os nobres demandavam tabernas e as meretrizes eram recebidas nos salões” — escândalos cujas crónicas deixaram registo.

                        

 Inicio da  Rua do Capelão na época                   Largo da Severa na Mouraria, onde a Severa viveu.
A Severa cantava e batia o Fado na taberna da Rosária dos óculos, situada ao cimo da Rua do Capelão na chamada casa de pedra.
A sua mocidade cheia de beleza, despertou paixões e ocasionou desvarios, fez perder a serenidade, e a compostura a fidalgos, burgueses, artistas e políticos.
Dizem escritos da época — Era linda, era alta um pouco delgada, seio e flancos esplêndidos, cabelos muito pretos, lábios muito vermelhos e nos olhos uma expressão indiscritível.
Diz-se que terão sido os seus olhos que terão atraído o Conde de Vimioso aliado ao seu doce canto e a paixão deste pelo som da guitarra.
O Conde era um homem garboso e de boa figura, foi o primeiro Cavaleiro Tauromáquico da sua época, arte que foi durante muitos anos ídolo dos espectadores das toiradas no Campo de Sant' Ana, o que não foi indiferente à Severa, o seu entusiasmo pelas corridas de touros, e sobretudo pelo toureio equestre, que a aproximou daquele, cuja popularidade exaltou cantando-o em letras de fados, de um dos quais chegou até nós esta quadra:
 
p'ra mim, o supremo gozo
É bater o fado liró
E ver combater c'um boi só
 
O contraste entre a condição social destes amores, foram por si só tema de conversa e de boatos e de muitos fados.
Má sina, na verdade, a da pobre Severa, que teve a intuição de que após a sua morte ainda havia de andar muito nas bocas do mundo, como resulta destas sextilhas da sua autoria:
 
                                    Quando a morte me levar
                                    Não há decerto faltar
                                    Quem diga mal da Severa!
                                    Pois neste mundo falaz
                                    De tudo se é capaz
                                    E só o mal se tolera...
 
                                    Lá na fria sepultura,
                                    Nessa cova tão escura
                                    Irei enfim descansar?
                                    Pressinto que em expiação
                                    E novamente ao baldão
                                   Aqui terei de voltar...
 
Leviano e mulherengo o Conde acaba por deixar a Severa e apaixona-se por uma cigana, o que a deixa desvairada, mas começa a não ter forças e a vivacidade para lutar pelo seu amante.
Por volta de 1845 já se manifestavam os sintomas da doença que a haveria de matar. (A sua morte terá sido devido a tuberculose pul­monar, de acordo com o estudo do Dr. Amaro de Almeida)
Severa morre pobre e abandonada num miserável bordel da Rua do Capelão, corria o ano de 1846, consta que as sus últimas palavras terão sido — “Morro, sem nunca ter vivido” — tinha 26 anos.
Foi sepultada em vala comum, sem caixão, que as amigas exigiram para fazer cumprir o que considerava seu desejo quando cantava versos dela:
 
                                     Tenho vida amargura
                                     Ai que destino infeliz!
                                     Mas se sou tão desgraçada
                                     Não fui eu que assim o quis.
 
                                     Quando eu morrer, raparigas,
                                     Não tenham pesar algum
                                     E ao som das vossas cantigas
                                     Lancem-me na vala comum.
 
Certidão de óbito da Severa
Assento de óbito, exarado pelo pároco da freguesia do Socorro, Padre Félix do Coração de Jesus,
"No dia trinta do mez de Novembro de mil oito centos e quarenta e seis annos na Rua do Capellaõ N° 35 A, falecêo apopletica sem Sacramentos, Maria Severa Honofriana, natural de Lisboa, idade de vinte e seis annos, solteira, filha de Severo Manoel de Souza e de Anna Gertrudes Sevéra. Foi a sepultar ao Cemiterio do Alto de Saõ Joaõ, de q fiz este assento”.
 
Registo do enterramento
 
1º cemitério de Lisboa
(Oriental – Alto de S. João)
Lº. Nº 3 a fls. 117
Nome: – Maria Severa Honofriana
Idade: - 26 anos
Estado: – Solteira
                Meretriz
Onde faleceu: - Rua do Capelão nº 35- A – Loja
Freguesia: - Socorro
Quando faleceu: - às 21 horas de 30 de Novembro de 1846
Entrou no cemitério: - às 16 horas e trinta de 1 de Dezembro de 1846
Quando sepultada: - às 7 horas do dia 2 de Dezembro de 1846
Onde: - Vala comum
Faleceu de: - Congestão cerebral
 
Mas foi após a sua morte que ela se tornou, de facto, um símbolo do fado. Na ver­dade, desde então jamais os autores de letras de fados deixaram de a celebrar, suges­tionados pela lenda dessa mulher de baixa condição que, todavia, logrou transpor os umbrais da fama. E, de entre as muitas composições que falam dela, uma alcançou teve grande êxito, com letra de José Galhardo e música de Raul Ferrão:
 
                                           Num beco da Mouraria
                                           Onde a alegria
                                           Do Sol não vem,
                                           Morreu Maria Severa.
                                           Sabem quem era?
                                           Talvez ninguém!
 
Consultas:
“Severa” de Júlio de Sousa e Costa
“História do Fado” Pinto de Carvalho (Tinop)
 
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Sábado, 7 de Abril de 2007

MARCENEIRO - ARMANDINHO

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Amália Rodrigues - Armandinho

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Quarta-feira, 4 de Abril de 2007

PALÁCIO MARQUÊS DE ALEGRETE- ARCO MARQUÊS DO ALEGRETE

 

PALÁCIO MARQUÊS DE ALEGRETE
ARCO MARQUÊS DO ALEGRETE
 
Por volta de 1580, começou a construir-se edifícios encostados à muralha da cidade
Mais tarde em 1694, junto da porta da Mouraria, (ou de S. Vicente ), ergueu-se o Palácio do Marquês do Alegrete, que acabou ele mesmo por dar um novo nome ao arco.
Foi Manuel Teles da Silva, 2.° Conde de Vilar Maior e 1.° Marquês de Alegrete quem mandou construir, o sumptuoso palácio conhecido pelo seu título, demolindo até aos alicerces a muralha Fernandina nesse local, as torres a ela pegadas e as casas dos seus avoengos.
Manuel Teles da Silva nasceu a 13-II-1641 e morreu a 12-IX-1709, sendo filho do 1.° Conde de Vilar Maior, por morte de quem passou a ser o 2° Conde de Vilar Maior. Coronel aos 27 anos, tomou parte com valentia na tomada de Évora, depois da batalha do Ameixial.
Nos dramáticos conflitos palacianos no tempo de D. Afonso VI, tomou partido pelo Infante D. Pedro, que depois o distinguiu com muitas honrarias. Foi regedor da Casa da Suplicação Conselheiro de Estado e Vedor da Fazenda, Em 1686 foi encarregado de ir a Heidelberga buscar a Princesa D. Maria Sofia de Neuburgo, que vinha casar com D. Pedro II. Por este motivo foi distinguido com o título de Marquês de Alegrete em 19 de Agosto de 1687.
Casou com D. Luísa Coutinho, filha do Conde de Sabugal, de quem houve nove filhos.
Entre os sucessivos proprietários do palácio contam-se figuras ilustres da história de Portugal, sejam embaixadores, estadistas, como militares, escritores e historiadores.
O palácio ocupava uma área sensivelmente rectangular e tinha duas fachadas idênticas, sul e norte, respectivamente sobre o Largo Silva e Albuquerque e sobre a rua que separava o palácio das hortas do vale que se alargou por essa época e que foi a desaparecida Rua Martim
Moniz. Uma terceira frente, onde estava a entrada principal, era voltada para o nascente, sobre a Rua da Mouraria; a quarta frente, a ocidental, parece que não tinha vãos abertos e ficava encostada a outro prédio que foi demolido em 1936.
Todos os portais eram sobrepujados por frontões, ao centro dos quais ficavam as pedras de armas da Casa Teles da Silva, mas só a do portal da entrada principal durou até à demolição do palácio.
O palácio ficou bastante arruinado pelo terramoto de 1755, e foi reconstruído parcialmente depois deste cataclismo, não com a sumptuosidade que havia tido, mas adaptado a prédio de rendimento, a fim de ser alugado para estabelecimentos comerciais e industriais (refinação de açúcar, depósito de cereais, animatógrafo) e inquilinos de modesto estatuto social.
A Câmara Municipal de Lisboa, carecendo do terreno do palácio para melhorar a circulação pública naquele sítio, encetou em 1932 as negociações para a sua aquisição e posterior demolição, o que veio a acontecer em Agosto de 1946, o terreno foi terraplenado, acabando-se este trabalho em 2 de
Outubro do mesmo ano.
No largo assim formado ficaram incorporadas a Rua Martim Moniz, o Largo Silva e Albuquerque, e um pequeno troço da Rua da Mouraria. O público, antes da oficialização do nome, começou a chamar-lhe Largo Martim Moniz.

 

 

Pinturas: Mestre Real Bordalo

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FADO DO ARCO

FADO DO ARCO
 
Reperório de: Hermínia Silva 
Letra. Fernando Santos/Almeida Amaral
Música: Frederico Valério
 
Lisboa amiga
Vão-se os teus arcos velhinhos
Vais perdendo pergaminhos
Da era antiga!
Ai, foi-se embora
Santo André
É no outro dia
E o da velha Mouraria
Lá vai agora
 
Estribilho
 
Diz-lhe adeus Mouraria
Diz-lhe adeus tradição
E tu Rosa Maria
Vem rezar uma oração!
Nunca mais ao sol-pôr
P´lo arco de mais virtude
Passará o andor
Da Senhora da Saúde.
 
Tu não tens raça
Velho arco sem beleza
Mas a tua singeleza
Até tem graça
Brasão bairrista
O teu ar de fidalguia
Fica bem à Mouraria
Nobre e fadista!
 

 

 

 Pintura do Mestre Real Bordalo, o Arco antes da demolição e depois da demolição do Palácio do Marquês do Alegrete

 

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Domingo, 1 de Abril de 2007

Há Festa na Mouraria - Igreja (Ermida) Nossa Senhora da Saúde

HÁ FESTA NA MOURARIA
Repertório de Alfredo Marceneiro
Poema: António Amargo  -  Música: Alfredo Marceneiro
 
Há festa na Mouraria,
É dia da procissão
Da Senhora da Saúde.
Até a Rosa Maria,
Da Rua do Capelão,
Parece que tem virtude.
 
Colchas ricas nas janelas,
Pétalas soltas no chão,
Almas crentes, povo rude.
Anda a fé pelas vielas,
É dia da procissão
Da Senhora da Saúde.
 
Após um curto rumor,
Profundo silêncio pesa,
Por sobre o Largo da Guia.
Passa a Virgem no andor,
Tudo se ajoelha e reza,
Até a Rosa Maria.
 
Como que petrificada,
Em fervorosa oração,
É tal a sua atitude,
Que a rosa já desfolhada,
Da Rua do Capelão,
Parece que tem virtude.

Quadro do Mestre Real Bordalo da Igreja de Nossa Senhora da Saúde

 


 

IGREJA DE NOSSA SENHORA DA SAÚDE
A Ermida de Nossa Senhora da Saúde - melhor é classificá-la assim - situa­-se no Bairro da Mouraria, na Rua Martim Moniz, local antigamente situado fora de portas. Constituía um dos encantos populares religiosos de Lisboa do século passado e que perdurou até à República.
No início do século XVI (1506), . terá sido construída uma ermida dedicada a S. Sebastião, mártir romano do final do século III, cujo culto se estendeu rapidamente por todo o mundo cristão depois de proclamado patrono de Roma pelo Papa Gregório Magno (590-604), devido à epidemia que grassou naquela cidade por mais de trinta anos.
Em Portugal foi objecto de uma devoção muito viva, como advogado contra os males da peste, da fome e da guerra. Entre nós, a peste tinha feito centenas de vítimas em 1506, e a construção da igreja foi da iniciativa dos artilheiros (na altura, bombardeiros) da guarnição de Lisboa. Por Alvará de 27 de Maio de 1647, «foi determinado que a cada um dos condestáveis que assentassem praça para servir na India se tirassem 400 réis e aos artilheiros 200 réis para se refazer do necessário para o culto da Ermida de S. Sebastião», que lhes teria sido doada pela Rainha D. Catarina, viúva de D. João III.
Contínuas epidemias surgiram no Reino e uma muito grande que vitimou milhares de pessoas, no ano de 1569, chegou a fazer mais de 500 vítimas por dia, obrigando o Rei D. Sebastião e sua avó, a Rainha D. Catarina, a afastarem-se para Sintra.
O Rei D. Sebastião (nascido em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554, no dia litúrgico de D. Sebastião) em 16 de Outubro de 1569 escreveu ao Senado de Lisboa no sentido de se proceder à edificação de um templo dedicado àquele santo, e por outra carta, datada de 28 de Dezembro do mesmo ano, autorizava que o templo fosse levantado no sítio da Mouraria, onde já se encontrava a ermida.
No ano de 1570, Lisboa foi de novo ameaçada por peste, e o próprio Senado dirige uma petição a D. Sebastião, que se encontrava em Salvaterra de Magos, para que se faça uma cerimónia religiosa com toda a solenidade, devoção e demonstração de reconhecimento a Nossa Senhora da Saúde, por a epidemia não ter progredido.
Em 20 de Abril de 1570, realiza-se a primeira procissão de Nossa Senhora da Saúde, cuja imagem se encontrava no oratório do Colégio dos Meninos Órfãos, formando-se então a respectiva Irmandade.
A imagem continuou no Oratório, fazendo-se todos os anos a procissão em data que caía na terceira quinta-feira de Abril, até 1908, ininterruptamente durante trezentos e trinta e dois anos.
Devido à proclamação da República, a procissão deixou de se efectuar durante trinta e dois anos, até que em 1940 se reatou a tradição, vindo a quebrar-se novamente de 1974 a 1981.
No início, o percurso era da Mouraria até ao Convento de S. Domingos, com regresso ao Colégio dos Meninos Órfãos. Em 1661, por desinteligência entre os administradores do Colégio dos Meninos Órfãos e a Irmandade de Nossa Senhora da Saúde, esta pensou construir capela própria.
Os artilheiros (bombardeiros) que possuíam a sua ermida votada a S. Sebastião, na Mouraria, ofereceram então guarida à Irmandade de Nossa Senhora da Saúde, que a aceitou, com a condição de a ermida passar a chamar-se de Nossa Senhora da Saúde e de a imagem ficar colocada no altar principal. As duas Irmandade fundiram-se depois numa única - a Associação da Senhora da Saúde e de S. Sebastião - aprovada
pelo Papa Alexandre VII, e em 20 de Abril de 1662 a imagem da Senhora da Saúde, após a procissão, entrou definitivamente na sua casa da Mouraria.
A ermida de Nossa Senhora da Saúde teve a protecção, não só de reis, rainhas e príncipes, mas também de fidalgos, militares e beneméritos.
D. Pedro V, em 1861, elevou a ermida à dignidade de Capela Real. A Condessa d'Elba, viúva do Rei D. Fernando II, criou, em 20 de Maio de 1871 a Real Irmandade de Santo António Lisbonense, erguida na Real Capela de N." S.a da Saúde.

                             

      (1)     (2)    

(1) Vista da Procissão da Senhora da Saúde em desfile na Rua da Madalena

(2) O andor com a imagem de Nossa Senhora da Saúde

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Pregões de Lisboa

São os pregões de Lisboa

Voz da vida, voz do povo,

Seu Fado, sua alegria!

E cada voz que apregoa

Tem um pregão sempre novo

P´ra cada hora do dia!


Quadra de:Francisco Radamanto
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Pregões de Lisboa- Vendedor de castanhas

 

Quentes e boas ... oh freguês é croa a dúzia

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