Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

A SEVERA - 1820-1846

       FAZ HOJE 163 ANOS QUE MORREU A SEVERA

 

A SEVERA

As relações amorosas ilícitas, entre o Conde de Vimioso e a canta­deira de Fado Maria Severa, constituíram motivo de inspiração para representações de arte plástica, de teatro, cinema, televisão, sendo decerto o livro de Júlio Dantas que mais se destacou, mais tarde Júlio Dantas com base no livro escreve uma peça (em quatro actos) represen­tada pela primeira vez no Teatro D. Amélia (actual S. Luís) em 25 de Janeiro de 1901 que, tal como viria a acontecer com o romance, obteve grande sucesso.
Em 1909 é mais um êxito como “Opereta” adaptada por André Brun e musicada pelo maestro Filipe Duarte
Em 1931 foi ainda usado como guião para o realizador Leitão de Barros rodar o filme “A Severa”, o primeiro
filme sonoro gravado em Portugal.
 

Imagem da Severa

(Desenho da època)

Em 1955 a Severa foi reposta em cena no Teatro Monumental, com Amália Rodrigues no papel da protagonista e a participação, entre outros, de Madalena Sotto, Assis Pacheco, Santos Carvalho, Paulo Renato, Rui de Carvalho e Mário Pereira, ainda o público encontrou nela motivos de agrado.
Em Fevereiro de 1990 o empresário Sérgio de Azevedo leva à cena um musical no Teatro Maria Matos, “ A SEVERA” tendo o papel da Severa , a actriz Lena Coelho e Carlos Quintas no papel do Vimioso, Carlos Zel também fez parte do elenco.
Maria Severa Onofriana, filha de Severo Manuel de Sousa e de Ana Gertrudes Severa (alcunha adaptada do nome próprio do marido), nasceu em 1820 em Lisboa aos Anjos numas barracas nos montes,
Seu pai era de etnia cigana, e a mãe uma portuguesa de Ovar que, com outros pescadores da região, emigrara para Lisboa . Atri­bui-se a essa ascendência cigana a sua beleza exótica e o seu cantar expressivo, que conquistou os boémios da capital.
Sua mãe, Ana Gertrudes Severa, era uma célebre prostituta da Mouraria conhecida pelo sobrenome de "Barbuda", e Maria Severa terá ingressado muito cedo na mesma profissão, depressa se distinguindo nesse meio, não só - e muito em particular, como seria de esperar em semelhante contexto - pela beleza trigueira, como ainda pelos dotes invulgares de cantadeira de Fado.
Em 1831 morava na Rua Direita da Graça, terá ainda morado no Pátio do Carrasco, ao Limoeiro por alturas de 1844-45, viveu no Bairro Alto à Travessa do Poço da Cidade, antes de se fixar definitivamente na Mouraria, na Travessa do Poço da Cidade nº 35-A, ao tempo chamada de Rua Suja, era frequentada pela marujada portuguesa e inglesa.
De Severa à muitos estudiosos, contam-se muitas histórias dela e/ou com ela, umas talvez verdadeiras, outras talvez não tanto.
Conta-se que percorria os bairros populares de Lisboa, e a sua voz animou as noites de muitas tertúlias bairristas, tabernas ficaram famosa só pela sua presença.
Naquela época os “bastidores” da Mouraria, eram de má fama. Botequins, batota, ladrões, prostitutas e rufias, que lhe dava um estranho encanto, era esta a Lisboa popular e a Mouraria oitocentista — “chinela no pé, cigarro lambido, peúgo riscado, chapéu às três pancadas, navalha no bolso tendo como banda sonora a guitarra. Esperas e Touradas, hortas aos Domingos, pancadaria de vez em quando. Os nobres demandavam tabernas e as meretrizes eram recebidas nos salões” — escândalos cujas crónicas deixaram registo.
 

                        

 Inicio da  Rua do Capelão na época                   Largo da Severa na Mouraria, onde a Severa viveu.
 
A Severa cantava e batia o Fado na taberna da Rosária dos óculos, situada ao cimo da Rua do Capelão na chamada casa de pedra.
A sua mocidade cheia de beleza, despertou paixões e ocasionou desvarios, fez perder a serenidade, e a compostura a fidalgos, burgueses, artistas e políticos.
Dizem escritos da época — Era linda, era alta um pouco delgada, seio e flancos esplêndidos, cabelos muito pretos, lábios muito vermelhos e nos olhos uma expressão indiscritível.
Diz-se que terão sido os seus olhos que terão atraído o Conde de Vimioso aliado ao seu doce canto e a paixão deste pelo som da guitarra.
O Conde era um homem garboso e de boa figura, foi o primeiro Cavaleiro Tauromáquico da sua época, arte que foi durante muitos anos ídolo dos espectadores das toiradas no Campo de Sant' Ana, o que não foi indiferente à Severa, o seu entusiasmo pelas corridas de touros, e sobretudo pelo toureio equestre, que a aproximou daquele, cuja popularidade exaltou cantando-o em letras de fados, de um dos quais chegou até nós esta quadra:
 
p'ra mim, o supremo gozo
É bater o fado liró
E ver combater c'um boi só
 
O contraste entre a condição social destes amores, foram por si só tema de conversa e de boatos e de muitos fados.
 
Má sina, na verdade, a da pobre Severa, que teve a intuição de que após a sua morte ainda havia de andar muito nas bocas do mundo, como resulta destas sextilhas da sua autoria:
 
                                    Quando a morte me levar
                                    Não há decerto faltar
                                    Quem diga mal da Severa!
                                    Pois neste mundo falaz
                                    De tudo se é capaz
                                    E só o mal se tolera...
 
                                    Lá na fria sepultura,
                                    Nessa cova tão escura
                                    Irei enfim descansar?
                                    Pressinto que em expiação
                                    E novamente ao baldão
                                   Aqui terei de voltar...
 
Leviano e mulherengo o Conde acaba por deixar a Severa e apaixona-se por uma cigana, o que a deixa desvairada, mas começa a não ter forças e a vivacidade para lutar pelo seu amante.
Por volta de 1845 já se manifestavam os sintomas da doença que a haveria de matar. (A sua morte terá sido devido a tuberculose pul­monar, de acordo com o estudo do Dr. Amaro de Almeida)
Severa morre pobre e abandonada num miserável bordel da Rua do Capelão, corria o ano de 1846, consta que as sus últimas palavras terão sido — “Morro, sem nunca ter vivido” — tinha 26 anos.
Foi sepultada em vala comum, sem caixão, que as amigas exigiram para fazer cumprir o que considerava seu desejo quando cantava versos dela:
 
                                     Tenho vida amargura
                                     Ai que destino infeliz!
                                     Mas se sou tão desgraçada
                                     Não fui eu que assim o quis.
 
                                     Quando eu morrer, raparigas,
                                     Não tenham pesar algum
                                     E ao som das vossas cantigas
                                     Lancem-me na vala comum.
 
 
Certidão de óbito da Severa
Assento de óbito, exarado pelo pároco da freguesia do Socorro, Padre Félix do Coração de Jesus,
"No dia trinta do mez de Novembro de mil oito centos e quarenta e seis annos na Rua do Capellaõ N° 35 A, falecêo apopletica sem Sacramentos, Maria Severa Honofriana, natural de Lisboa, idade de vinte e seis annos, solteira, filha de Severo Manoel de Souza e de Anna Gertrudes Sevéra. Foi a sepultar ao Cemiterio do Alto de Saõ Joaõ, de q fiz este assento”.
 
Registo do enterramento
 
1º cemitério de Lisboa
(Oriental – Alto de S. João)
Lº. Nº 3 a fls. 117
Nome: – Maria Severa Honofriana
Idade: - 26 anos
Estado: – Solteira
                Meretriz
Onde faleceu: - Rua do Capelão nº 35- A – Loja
Freguesia: - Socorro
Quando faleceu: - às 21 horas de 30 de Novembro de 1846
Entrou no cemitério: - às 16 horas e trinta de 1 de Dezembro de 1846
Quando sepultada: - às 7 horas do dia 2 de Dezembro de 1846
Onde: - Vala comum
Faleceu de: - Congestão cerebral
 
Mas foi após a sua morte que ela se tornou, de facto, um símbolo do fado. Na ver­dade, desde então jamais os autores de letras de fados deixaram de a celebrar, suges­tionados pela lenda dessa mulher de baixa condição que, todavia, logrou transpor os umbrais da fama. E, de entre as muitas composições que falam dela, uma alcançou teve grande êxito, com letra de José Galhardo e música de Raul Ferrão:
 
                                           Num beco da Mouraria
                                           Onde a alegria
                                           Do Sol não vem,
                                           Morreu Maria Severa.
                                           Sabem quem era?
                                           Talvez ninguém!
 
Consultas:
“Severa” de Júlio de Sousa e Costa
“História do Fado” Pinto de Carvalho (Tinop)
 Nota. Este post já  foi publicado em 2007 no dia 9 de Abril, com bastantes comentários sobre o tema. 

 

Carlos Zel

Canta: Maria Severa 

 

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Viva Lisboa: Fadistas chorai ela morreu...
música: Maria Severa
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Domingo, 29 de Novembro de 2009

Alfredo Marceneiro diz o Poema Bailado das Folhas

 

 

 

 
 
" O BAILADO DAS FOLHAS "
 Poema dito por Alfredo Marceneiro
Letra de: Henrique Rêgo
Música de: Alfredo Marceneiro
 
Foi numa pálida manhã de Outono
Soturna como a cela dum convento
Que num vetusto parque ao abandono
Dei largas ao meu louco pensamento
 
Cortava o espaço a lamina de frio
Que impunemente as nossas carnes corta
E o vento num constante desvario
Despia as árvores da folhagem morta
 
Folhas mirradas como pergaminhos
Soltas ao vento como os versos meus
Bailavam loucamente p´los caminhos
Como farrapos a dizer adeus
 
Das débeis folhas lamentei a sorte
Mas reflecti depois de estar sereno
Que bailar á mercê de quem é forte
É sempre a sina de quem é pequeno
 
Desde então, o meu pobre pensamento
Fugiu para não bailar ao abandono
Como a folhagem que bailava ao vento
Naquela pálida manhã de Outono
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música: Bailado das Folhas
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Sábado, 28 de Novembro de 2009

O FADO E OS DESCOBRIMENTOS

Vasco da Gama

 

FADO DO MARINHEIRO

 

Criação de: Estêvão Amarante

 

                                                     O marujo criou fama.

                                                     Desde um tal Vasco da Gama

                                                     Que no mar foi o primeiro;

                                                     E o Pedro Álvares Cabral

                                                     Só foi grande em Portugal

                                                      Por ter sido marinheiro.

 

A lutar como um soldado,

Peito ao léu, rosto queimado,

Ao sol da terra africana,

Com a farda em desalinho,

(Foi às ordens de Mouzinho

Que deu caça ao Gungunhana !

 

                                                     Quando o mar era um segredo,

                                                     Os antigos tinham medo

                                                     De perder-se ou ir a pique;

                                                     Só zombavam das porcelas

                                                     As primeiras caravelas

                                                     Do Infante Dom Henrique!

 

Fartos já de andar nos mares,

Também vamos pelos ares

Sem temor, abrir caminho;

Pois bem sabe toda a gente

Que o marujo mais valente

É o avô Gago Coutinho!

 

                                                     Nessa Alcântara afamada,

                                                     O marujo anda à pancada

                                                     E arma sempre espalhafato;

                                                     É que guarda na memória

                                                     O banzé que houve na história

                                                     Do António Prior do Crato.

 

Quando vai p'rá Fonte Santa

E dá largas à garganta,

P'la guitarra acompanhado.

Até chora o mundo inteiro,

Porque a voz do marinheiro

É a voz do próprio Fado!...

 

  

 

Caravela Portuguesa dos Descobrimentos

 

FADO DAS CARAVELAS

 

­­Criação de Estêvão Amarante

 

Quando foi das descobertas e conquistas,

Os fadistas,

Guitarristas

De mais fama,

Lá no fundo do porão,

Deram alma e coração

Às descobertas do Gama.

 

                                                      No alto mar

                                                      Ia o barco a naufragar,

                                                      O vento rijo a soprar,

                                                      Que até os mastros levou.

                                                      Foi ao sentir,

                                                      Uma guitarra a carpir,

                                                      Que o Neptuno querendo ouvir,

                                                      A tempestade abrandou.

 

E nas horas d'incerteza, à marinhagem

Deu coragem

Na miragem

Da vitória.

Cabe ao fado o seu quinhão,

De todo e qualquer padrão,

Dos que fala a nossa História.

 

                                                      No alto mar

                                                      Quando em noites de luar,

                                                      O pensamento a pairar,

                                                      Na nossa aldeia natal.

                                                      Ai, era ver,

                                                      Quanta lágrima a correr,

­                                                      Na guitarra a descrever,

                                                      Saudades de Portugal.

 

O Gigante Adamastor

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Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Amália Rodrigues - Marcha de Stº António

 
 
        
Amália no Largo de S. Miguel
 
  
Noite de Santo António (1950)
 
Cantado e gravado por Amália
 
Versos de: Norberto de Araújo
Música de: Raul Ferrão
 

Cá vai a marcha mais o meu par

Se o não trouxesse quem o havia de aturar

Não me digas sim, não me digas não

Negócios de amor, são sempre o que são

 

Já não há praça dos bailaricos

Tronos de luz, num altar de manjericos

Mas sem a Praça que foi da Figueira

A gente cá vai, quer  queira ou não queira

 

Ó noite de Santo António

Ó Lisboa de encantar

De alcachofras a florir

De foguetes a estoirar

Enquanto os bairros cantarem

Enquanto houver arraias

Enquanto houver Santo António

Lisboa não morre mais

 

Lisboa é sempre namoradeira

Tantos derriços, que até já fazem fileira

Não me digas sim, não me digas não

Amar é destino, cantar é condão

 

Uma cantiga, uma aguarela

Um cravo aberto, debruçado da janela

Lisboa linda, do meu bairro antigo

Dá-me o teu bracinho, vem bailar comigo

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Viva Lisboa: Lisboeta - Alfacinha
música: Marcha de Santo Anónio 1950
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Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

AMÁLIA - Bendita seja a tua voz

Amália com o guitarrista José Nunes

A Tua Voz Amália           
 
A tua voz, Amália, é quente como um raio de sol em dia de inverno e fresca como talhada de melancia em tarde de canícula... É doce como um beijo de amor antes da posse e amarga como travo de ciúme após o amor... É macia como pétalas de rosa-chá ao bater Trindades e áspera como espinhos a fazer sangrar...
Nos teus olhos, Amália, negros e profundos como poços sem fundo, brilhantes e deslumbrantes como gemas preciosas, retracta-se a tua alma onde cabe a vida com todos os seus desesperos e crenças, com todas as suas revoltas e amores. Tudo quanto a vida tem de mau e de bom, as teus olhas o exprimem como nenhuns outros... Eles são a fonte onde vais beber a tua voz impar — essa voz que nos prende e nos domina, essa voz bruxa que nas encanta e faz sonhar...
Amália — encarnação da Severa e da Maria Vitória numa alma só — Amália sonhadora e boémia, Amália fadista e perdulária. Amália Mulher, pela magia da lua voz, para tudo quanto ela nos dá de vida palpitante e viva, — bendita sejas tu, Amália ! Bendita seja a tua voz !
 
Francisco Radamanto
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Sábado, 14 de Novembro de 2009

AMÁLIA... ser ou não ser Amalista

Destaques:

Ser ou ser «Amalista»!

Os intelectuais não gostam de Fado!...

 

                             Amália a cantar no Luso (anos 40)

 

Amália!...

 

Noel de Arriaga tinha um amigo, de seu nome Nuno António, é um intelectual, uma autêntica enciclopédia ambulante, mas não gosta de fado. Certo dia, em que se encontravam no café do costume, começaram a divagar sobre diversos temas com era habitual, mas o Noel de Arriaga nem deu pelo passar do tempo, o que acontecia com frequência quando ambos começavam a conversar, mas nesse dia...

Adorava continuar a ouvir-te amigo Nuno António, mas vou... não vale a pena dizer-te onde.

Alguma conquista...

Qual! Conquistado já eu ando por esta comédia da vida... Então?

Vais-te rir. Eu sei que és contra o Fado. Vou ouvir a Amália!

A Amália?! A Amália Rodrigues?!...

Sim, já ouvi....... E vais tu ao Bairro Alto ouvir a Amália! És espantoso!

Serei, Nuno. Não quero discutir. Mas o que hei-de fazer esta noite? E depois... A Amália...

Empresto-te um livro sobre o Fado! Muito interessante! Muito mais útil! Ficarás a saber que o Fado é a canção dos vencidos além de ser, é claro o pior livro desse poeta que podia ser um grande poeta: o Régio...

A canção dos vencidos! Mas, ó Nuno, é tão bom a gente às vezes sentir-se vencido...

 Porque talvez nunca te tivesses sentido vencedor! Nietzche dizia...

Alto! Alto! Deixa lá o que dizia o Nietzche e anda ouvir a Amália...

Ouvir a Amália?! Perder tempo?! Endoideceste!

Mas porquê?! És uma pessoa como outra qualquer!

Sou contra o fado.

Porque nunca o ouviste...

Não interessa sou «á priori» contra o Fado. Não posso, não quero gostar de Fado!

E da Amália?

Nunca a vi!

Vais conhecê-la hoje...

O Fado é, como te disse, a canção dos vencidos. Isto quando é verdadeiro Fado. Aquele que se canta, ou se cantava no tempo da Severa, pela Mouraria com toda a decadência. Com todo o seu «vicio». Mas esse porque é dos vencidos, odeio-o. O outro, o que passou aos salões, deixou de ser Fado para ser ( o que é talvez pior) uma manifestação inferior de arte...

Sabes qual é a origem do Fado? 

Segundo estudos que fiz, deriva das canções que os negros das docas trouxeram de África...

Não ouso duvidar. Mas pago-te o bilhete e vens ouvir a Amália... Fixe?

E se os meus satélites intelectuais me encontram a ouvir o Fado? Que rombo!...

Dizes que fui eu que te arrastei...

Pois bem: vou abrir uma primeira e última excepção! Estás contente?

Vês como por vezes é bom a gente sentir-se vencido?...

E o meu amigo Nuno António foi comigo até ao Bairro Alto. Parecia triste por ter acedido ao meu convite. Ele que saía sempre vencedor das lutas com o mundo e consigo próprio, deixara-se arrastar como qualquer menino fútil! Porque fora aquilo? Não sabia. Sentamo-nos. Subitamente, a luz desce mais. Um foco luminoso perturba a escuridão. Ouvem-se palmas! E os primeiros acordes, numa espiral doirada, deslizam pela sala como ondas de veludo.

            No seu vestido negro, Amália, a os olhos sonhadores, parece o sonho dos seus próprios olhos!

            Em movimentos nostálgicos, transportada a um mundo de sentimento e fadiga, ela vai colorindo de harmonioso ritmo aqueles versos tristes - tristes como as caravelas que nos seus olhos naufragam.

            E a sua voz, onde a fatalidade da Raça parece gravar dolorosos sulcos de serena transição, é como um gorjeio de ave, é como um sonho de amor por outro amor vencido.

            A pouco e pouco a luz tinge de claridade intensa o ambiente festivo do salão. E as pétalas sedentas de uma rosa, lançadas por mão anónima, despedaçam-se contra a fascinação telepática do tablado....

            O meu amigo Nuno António olhou para mim com um ar de horrível indiferença. Era impossível ler-lhe dentro da alma. O Nuno António jazia impenetrável! Apenas à saída lhe perguntei:

Gostaste?

De quê? Da Amália. De que há-de ser?

Da Amália ou dos fados?

De ambas as coisas.

Continuo a ser, por princípio, contra o Fado. Quanto á Amália... No palco todas as mulheres são bonitas...

            E não consegui arrancar-he mais uma palavra. Positivamente, ele não era um... «amalista»!...

Na noite seguinte fui novamente aquele salão do Bairro Alto. A mesma ansiosa expectativa! O mesmo ruidoso triunfo! Depois de eclodir a última palma, olhei em torno de mim. E... podes abrir a boca, leitor fiel e amigo, num grande ah! De justificadíssimo espanto.

Quase a meu lado, o Nuno António, o enciclopédico Nuno António - o queixo apoiado na concha da mão esquerda, arremessava os olhos pelo tablado dentro! Depois, num entusiasmo que eu lhe desconhecia, começou a bater sonoras palmas! E desta vez foi o Nuno António que, num gesto irreflectido fez despedaçar, esquecido da sua integração nos sistemas botânicos, as pétalas sedentas de uma rosa contra a fascinação telepática daquela voz ardente...

in: Voz de Portugal 1954

 

                  Amália no Luso rodeada de amigos e admiradores (anos 50)

 

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Viva Lisboa: Amaliano ou Amalista
publicado por Vítor Marceneiro às 21:33
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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

O FADO É PORTUGUÊS

 

O FADO É PORTUGUÊS
 

 
O Fado é tão português, que, de arnês,
bateu-se em Fez;
esteve em Alcácer-Quibir;
arrostou o mar profundo
e ao Mundo
deu novo Mundo,
na senda de Descobrir!
Esteve em Malaca e Ormuz
e, à luz
do signo da Cruz,
construiu impérios novos;
da Guiné até Timor,
com ardor,
foi defensor
do Destino doutros povos!
Fê-lo Deus aventureiro:
foi guerreiro
e marinheiro;
missionário, ou de má-rês
e — vá ele p' ra' onde for —
¬cante a dor,
ou cante o amor,
o que canta é Português!

  

Poema de: Mascarenhas Barreto

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Viva Lisboa: Fadista
publicado por Vítor Marceneiro às 10:53
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