Sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

A Cesária - Casa de Fados

fachada da cesária mais de perto 2.jpg

 A Casa de Fados "A Cesária", situada na Rua Gilberto Rola em Alcântara, era uma tasca já desde o século XIX.

Já no século XX passou a ser uma casa de "prostituição", que na época eram autorizadas, funcionava com o nome de Bar Sábá. Tinha dois andares, em baixo bebia-se e acordava-se o preço com as "meninas", em cima havia dois quartos de curta permanência, á disposiçaõ dos interessados.

Mais tarde o seu proprietário Mário Lopes de Oliveira, aproveitando o edifício ter dois pisos, passou para o 1º piso a parte da "prostituição" criando para tal uma porta de entrada independente pela rua. No rés-do- chão abre uma casa típica com petiscos e onde se podia cantar o Fado com o nome "Casa A Cesária", a pouco e pouco começa a ter bastante afluência, principalmente aos fins de semana, em que iam pessoas para ouvir o Fado, e os próprios Fadistas apareciam, porque gostavam do ambiente.

Pouco tempo passado e as casas de prostituição são proibidas e obrigadas a fechar, o proprietário que mais tarde passou a ser conhecido pelo Mário da Cesária, como tem alvará de bar, consegue licença para ampliar a casa, o primeiro andar é aberto, ficando como uma varanda com visão para a divisão de baixo, que passou a ser o pátio das cantigas, era uma casa muito "castiça" quer pela decoração quer pela construção , pois dava a ideia que estávamos num pátio lisboeta, passando a dar Fado todos os dias.

Imagem do interior da casa retirada de um anúncio e ainda o painel em azulejo existente na parede da casa

 

Carlos Duarte uma noite na Cesária

 

Segundo a tradição, terá sido neste local, outrora uma "taverna" que Maria Cesária, terá cantado pela última vez em 1877.

Nos anos sessenta como já referi, passaram pela Cesária quase todos os fadistas da época, destacando-se o meu tio Carlos Duarte, que nunca foi profissional, mas ali ía todos os dias, aos dias de semana só até cerca de meia-noite, pois no dia seguinte tinha que ir trabalhar, aos sábados e domingos as "fadistisses" iam até de madrugada, acabando muitas das vezes, em que fadistas, empregados e clientes, acabavam no cacau da ribeira, até o sol nascer. (Grandes noites, ainda tive oportunidade de viver algumas delas, com o meu pai e o meu avô, o meu tio Carlos e o meu primo Valdemar).

Quando fui para o serviço militar em 1967, também já era por lá e pelo Timpanas mais ao lado, que eu ía continuando a dar os primeiros passos no Fado. Nesta altura, o Mário contrata o meu primo Valdemar Duarte, filho do meu tio Carlos Duarte (que faleceu em 1966), como gerente artístico e também para cantar.

Entretanto o meu primo Valdemar Duarte, casa-se e organiza a vida e demite-se da Cesária, nunca mais cantou, e foi pena pois cantava muito bem, na linha que nós todos da família comungamos, é o "ADN do Marceneiro", já tinha angariado bastantes admiradores, tenho muita pena que ele infelizmente não tenha nada gravado, mas o Fado está-lhe na alma, actualmente anda a aprender a tocar guitarra.

A Casa A Cesária fechou definitivamente as portas em 1988.

Há uma realidade que é inegável, é que os "Marceneiros", estiveram sempre com o FADO e no Fado.... E continuam

 

© Vítor Duarte Marceneiro

 

Carlos Duarte na Cesária a cantar e em convívio (1964)

 

 

Foto Valdemar Duarte a cantar na Cesária ao lado está a irmã Judite Duarte,

também filha de Carlos Duarte (1966)

Foto Tirada na Cesária em 1966 

Da esquerda para a direita: Vítor Duarte Marceneiro, Aida Duarte (filha de Marceneiro), Aida Duarte (sobrinha de Marceneiro, filha de seu irmão Júlio Duarte), e seu marido Carlos 

 

Seguem-se mais alguns elementoa relacionados com A Cesária:

Painel de Azulejos, a fachada do edificio actualmente, um copo gravado,

 

 

 

Recebi em tempos um email de Carlos Branquinho, com a seguinte mensagem, foi para mim de tal forma gratificante, que não posso deixar de a publicar aqui e voltar a falar da Casa de Fados, A Cesária  na Rua Gilberto Rola em Alcantara.

Abri o computador e procurei recordações, lembrei-me da Cesária na Rua Gilberto Rola, com as lágrimas a balbuciarem-me nos olhos, (não é feio um homem chorar) recordei aqueles tempos que já não voltam. Parece que estou a ver o Mário o proprietário da casa e o tal primeiro andar onde se consumava o sexo. Eram outros tempos, eram tempos sãos. Ali parei longos anos a ouvir cantar o Fado e como diz e muito bem, de madrugada alta lá nos encaminhávamos até ao cacau da Ribeira. Que saudades de ouvir os fadistas daquela época que cantavam letras que mexiam connosco. Hoje também há felizmente bons fadistas, mas são mais comerciais. Estive outro dia a jantar com umas pessoas amigas na Parreirinha de Alfama, ouve-se bom Fado mas o Fado castiço, aquele que nos punha a chorar gritando À Fadista, quase não existe. É pena porque o Fado não morreu, pelo contrário viverá e felizmente reconhecido pela Unesco. Em minha casa oiço Fado, por exemplo há uma rádio que só dá Fado é a Rádio Amália, tem mérito. Hoje que já não sou menino tenho por isso os sentimentos mais à flor da pele, quando oiço por exemplo os saudosos Carlos Ramos ou Berta Cardoso entre outros, sentado no sofá ou à secretária, aí estou eu sem querer a limpar os olhos. São as saudades dos tempos da noite, de quando corria ao Bairro Alto para entrar na Toca do Carlos Ramos, no Luso ou quando ia até às tascas de Alfama ou ali à Calçada do Carriche ouvir bom Fado. Meu amigo, peço desculpa pelo desabafo, mas senti neste momento que estava presente em quem como eu ama o Fado. Obrigado pela sua paciência, foi maravilhoso escrever o que aqui deixei. Desejo do coração que viva muitos anos e continue a gritar aos quatro ventos que Portugal nada é sem o nosso Fado. Abraça-o com particular estima o Cabé.

NOTA IMPORTANTE – É bom que se diga, porque é verdade que grandes intérpretes do Fado começaram na Cesária e noutras casa parecidas, nas tascas, nas verbenas etc.etc. 

Carlos Branquinho

Contacto com o autor: clicando aqui
Viva Lisboa: Viva o Fado
publicado por Vítor Marceneiro às 00:00
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11 comentários:
De Mia Lukas a 8 de Agosto de 2010 às 02:41
Vitor, que surpresa maravilhosa encontrar este conteudo, uma relíquia para amantes do fado como eu! Tive a grande felicidade de ainda conhecer o Marceneiro, no Machado, o teu pai e a ti também! " Eu lembro-me de ti" e " O Louco", cantados por ti, ao vivo, ficarão para sempre na ternura da minha memória...! Parabéns e já não deixarei de te ler! Obrigada por esta partilha!
De Vítor Marceneiro a 8 de Agosto de 2010 às 16:47
Olá querida amiga Mia

Obrigado pela mensagem e recordação, são estas - poucas mas boas -mensagens que me levam a continuar.
Um abraço de amizade
Vítor
De Fernando Silva a 16 de Novembro de 2014 às 00:43
Peço desculpa pela intromissão, mas de facto, "A Cesária" foi onde eu ouvi fado ao vivo pela primeira vez.. Nos idos anos de 1967 quando o meu amigo foi para a tropa...Tinha 17 anos nunca mais deixei de "ir aos fados. Saudade enorme desse tempo!
De Vítor Marceneiro a 16 de Novembro de 2014 às 10:36
Caro Fernando, pedir desculpas de quê, foi uma alegria ler a sua mensagem, velhos tempos, cheguei a cantar lá fardado. Um grande abraço.Vítor
De Fernando Silva a 18 de Novembro de 2014 às 02:11
Caro Vítor,
Muito agradeço a sua resposta a qual me deixou muito feliz. Aquela casa merecia, mas merecia mesmo ser reabilitada e continuar o que foi interrompido em 1988, os apontamentos e espectáculos de Fado. Tem toda a mística do Fado e do fado da vida que teve anterior, casa de meninas, botequim, etc., e continue a dispensar ao Fado tudo o que ele merece e a sua linhagem dos Duarte conquistou por direito próprio. Grande abraço
De Vítor Marceneiro a 18 de Novembro de 2014 às 10:58
Obrigado amigo Fernando pelas suas simpáticas palavras.
A casa já está recuperada mas não é para Fado.
Um abraço
Vítor
De Armando henriques a 17 de Abril de 2016 às 02:18
Sr,eu vivi s minha juventude nessa casa.mimha mae foi ai cozinheira em 1987 ,vinda da antiga cada de fados solar da herminia e tipoia no bairro alto
De Pedro Félix a 19 de Abril de 2016 às 15:17
Caro Victor,

Como sempre, um abraço de parabéns pelo seu site, sempre cheio de informações.
Estou a escrever sobre casas de fado e uma das informações que me falta é precisamente a data de abertura da "Cesária".... em alguma ideia do ano de abertura desta casa enquanto Casa de Fados...?
Desde já muito obrigado e mais uma vez muitos parabéns

Pedro Félix
De Vítor Duarte a 19 de Abril de 2016 às 16:17
Caro Pedro Felix, na realidade nunca consegui saber ao certo, mas foi de certeza no inicio dos anos 60, tinha eu cera de 15 anos. Um abraço, se descobrir mais pormenores aviso
De Zé Canas a 25 de Fevereiro de 2017 às 16:25
Li com gosto o seu artigo, até porque fui frequentador dessa distinta casa, mas uma interrogação sobressaltou-me. Numa das legendas, identifica todos com o apelido Duarte, mas e o estimável Vítor ao apelido acrescenta "Marceneiro", não é categoria profissional,que saiba a sua profissão é engenheiro de som, além de realizador de televisão.
De Vítor Marceneiro a 25 de Fevereiro de 2017 às 20:04
Caro Zé Canas, se carregar na minha foto do lado direito (Clique na foto para ver o meu perfil) lá encontra a explicação, aliás é onde viu as minhas habilitações, mas já agora Vítor Duarte Marceneiro está registado como meu nome artístico e também como autor na SPA- Sociedade Portuguesa de Autores, espero que tenha percebido. Cumprimentos

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