Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010

ARMANDO BOAVENTURA - Jornalista, Pintor e Caricaturista

MEMÓRIAS QUE DESTA VIDA SE CONSENTEM... (Por ARMANDO BOAVENTURA)

 

(O SÉCULO ILUSTRADO – Nº. 762 DE 09 DE AGOSTO DE 1952)

 

 UMA PROFECIA DE ANTÓNIO ARROIO SOBRE O FADO QUE A FEIRA POPULAR DESMENTE...

 

 

 

 Feira Popular, bela iniciativa do grande jornal «O Século» - e nunca «O Século» foi tão dignamente ilustrado por feito de tão são espírito de humanitarismo, ao serviço da grei e da Pátria - em prol das crianças portuguesas, como é, sua Colónia Balnear - tem, nos seus múltiplos aspectos que a tornam o único centro de atracção dos alfacinhas nesta quadra estival, um que, particularmente, nos ajuda a reviver «Memórias que desta vida se consentem»... Referimo-nos a certos «retiros populares» - reminiscência das antigas «hortas» fora de portas, mas que cabem, e bem, dentro das portas da actual vida portuguesa, que, com nobilíssimos fins de assistência social, «O Século» nos franqueia. Assim, os últimos abencerragens dos fins do século XIX e seus imediatos sucedâneos, cuja adolescência começou a ser vivida ao despontar do século XX, fazem da Feira Popular a sua «lareira do passado» - porque, aqui, além, alguma coisa lhes recorda Lisboa - «Senhora dos tempos idos»... São as típicas locandas que embora algumas com designações modernas, lembram as que existiam naquela época distante e igualmente tão discretas, que nelas se entra e delas se sai sem que o numeroso público, que aflui à Feira, se aperceba de quais se trata... Velhos venerandos fidalgos, boémios de sempre, que andavam de braço dado com D. João da Câmara, Henrique Lopes de Mendonça, Marcelino Mesquita e outros, pelo «Zé dos Pacatos» e «Águia Roxa» na estrada de Sacavém, e que assistiram nesta última «tasca», à homenagem tributada - a D. João da Câmara, na «prêmiere» da sua peça histórica «Alcácer Quibir» - onde Carlos Harrington glosou de improviso, uma quadra célebre do autor da letra de «A Portuguesa» - hoje, Hino Nacional... Raros são os que os conhecem - eles passam irrepreensíveis em suas atitudes fidalgas, como impecáveis em seus trajos, Só porque a Feira lhes proporciona durante os meses de verão matar saudades de «in illo tempore». Nomes? Para quê? Os últimos abencerragens da Lisboa antiga são os últimos a abandonar a Feira Popular da Lisboa Nova... E de quando em quando, não obstante o modernismo ruidoso dos auto-falantes, transmitindo «sambas», «emboladas» e «modinhas» do Brasil, entremeados de canções portuguesas, ainda se ouve o nosso fado o castiço, como antigamente, na mesma toada plangente com que era cantado «fora de portas» - através de Lisboa inteira. Ás vezes, parece-nos estar no Arco do Cego, nas tabernas do «António da Joana» ou do «Frade»; na Calçada do Carriche, na «Nova Sintra» ou no «Patusca»; no campo Grande, no «Quebra Bilhas» ou no «Colete Encarnado»; em Benfica, no «Caliça»; em Campolide, no «Ferro de Engomar», (depois implantado em Benfica), no «Rabicha» ou na «Tia Iria» - em típica taberna também traslada para Campo de Ourique - até aqui, pertinho da Feira actual, no popular «Zé Azeiteiro», cuja casa estava sempre aberta, de dia e de noite, como o famoso «Botin» da Plaza de los Herradores, em Madrid, onde o infante D. Afonso, o «Arreda», após o seu casamento com a princesa Nevada, costumava cear, fiel à tradição de que, naquele velho restaurante, o fogão para assar os «cochinillos» fora aceso no tempo dos Filipes e... nunca mais se apagará. Mas... vamos ao fado, mas em silêncio - sem microfones. Ainda, há dias, ouvimos o fado antigo, cantado num ambiente dos antigos «retiros» alfacinhas. E um velho fidalgo, a nosso lado, chorou de emoção - pretexto admirável a que logo nos apegámos para redigir mais uma página de «Memórias que desta vida se consentem...». Alguns dos que assistiram ao almoço típico na «Adega da Lucília», são do tempo em que o fado, vivido e cantado - sobretudo sofrido - tinha seus bairros próprios: - Alfama e Mouraria - e todos lembramos a campanha então movida, através da tuba canora da imprensa contra a «canção nacional». O que se disse e o que se escreveu!... E até a política se meteu no caso, só porque o rei D. Carlos, ainda nos seus tempos de príncipe, aprendera a tocar guitarra com o famoso João Maria dos Anjos... Um Rei fadista?... e vá de atacar o fado... Uns deram-lhe por pai o «lundum» afro-americano (a que já se referira Tolentino) e por mãe a «módinha brasileira», esquecendo que embora sem o nome de fado, a «Triste Canção do Sul», de Alberto Pimentel tinha suas fundas raízes naquele «cantar guayado» dos nossos marinheiros e homens da Ribeira e Alfama e ao qual já aludira Gil Vicente... Tudo isto nos ocorre ao ouvir, em plena Feira Popular o velho fado cantado por um velho cantador (Alfredo Marceneiro) que tem, num rapaz de 22 anos, Luís Filipe, talvez o seu melhor continuador. E não nos venham repetir o que, em 1909, escrevia o embora autorizado António Arroio, nas suas arremetidas contra o fado pois a sua doutrina definida nestas duas frases que fizeram eco: - «Sendo Portugal positivamente um doente, o fado diagnostica a doença...: «0 fado exprime o estado de inércia e inferioridade sentimental em que o nosso País está mergulhado. Há muitos anos, e do qual urge que saia»... - está inteiramente invalidada. Nunca se cantou tanto o fado, como hoje - e ainda que não lhe demos foros de «canção nacional», (que a não possuímos), a verdade é que a sua repercussão em Portugal e além fronteiras atinge as proporções duma verdadeira consagração. E no entanto, Portugal saiu daquele estado de inércia e de inferioridade sentimental da qual o insigne António Arroio dizia ser mister sair... E a prova de que o fado não «diagnosticava a doença de que Portugal sofria» está precisamente no facto do fado acompanhar a salvação do País. Portugal restaurado fez ressurgir o fado. E no fado que hoje se canta, ainda há muita coisa do fado antigo. Voltam, assim, os bons tempos de outrora...

 

  Armando Boaventura

 

Caricatura de Alfredo Marceneiro por Armando Boaventura
 
É graticante par mim que este trabalho, tenha receptividade e que contribua para recordar figuras que fizeram parte da nossa cultura, publiquei pelas primeira vez em Agosto de 2008, uma página sobre Armando Boaventura, e passados pouco tempo fui contactado por um seu filho, Fernando Boaventura ('fmboaventura@clix.pt' ), que por ser muito jovem quando o pai faleceu, possuia poucos elementos sobre a sua obra,  ficou sentido por saber que o pai era lembrado. Nessa altura fiz um apelo, pedindo que quem soubesse algo mais sobre esta personalidade, nos contactasse.
Há dias recebi a seguinte mansagem:

 

De: Lety Vilhena
Enviada em: terça-feira, 27 de Julho de 2010 18:04
Para: fado.em.movimento@sapo.pt
Assunto: Obras de Armando Boaventura
 
Sr. Vitor,
boa tarde, moro no Brasil, na cidade de Lambari -Minas Gerais, onde tenho um imóvel com algumas pinturas de Armando Boaventura, gostaria de saber mais sobre este artista, sobre sua história e obras.
Pode me ajudar?
Grata desde já pela atenção.

Paula Vilhena

 

Logo lhe respondi,  pedindo-lhe se me enviava os trabalhos que possuía, pedido a que foi aceite,  recebi fotos dos quadros, que   publico com muito gosto e com um abraço para o  filho do autor, Fernando Boaventura.

 

 

 

Contacto com o autor: clicando aqui
publicado por Vítor Marceneiro às 13:34
link do post | comentar | favorito
Clique aqui para se inscrever na
Associação Cultural de Fado

"O Patriarca do Fado"
Clique na Foto para ver o meu perfil!

arquivos

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Site Portugues
Aguarelas gentilmente cedidas por MESTRE REAL BORDALO. Proibida a sua reprodução

tags

10 anos de saudade

2008

50 anos de televisão

ada de castro

adega machado

adelina ramos

alberto ribeiro

alcindo de carvalho

alcino frazão

aldina duarte

alfredo correeiro

alfredo duarte jr

alfredo duarte jr.

alfredo duarte júnior

alfredo marcemeiro

alfredo marceneiro

alice maria

amália

amália no luso

amália rodrigues

américo pereira

amigos

ana rosmaninho

angra do heroísmo

anita guerreiro

antónio dos santos

antónio melo correia

antónio parreira

argentina santos

armanda ferreira

armandinho

armando boaventura

armando machado

arménio de melo - guitarrista

artur ribeiro

árvore de natal

ary dos santos

aurélio da paz dos reis

avelino de sousa

beatriz costa

beatriz da conceição

berta cardoso

carlos conde

carlos escobar

carlos zel

dia da mãe

dia do trabalhador

euclides cavaco

fadista

fado

fado bailado

fados da minha vida

fados de lisboa

feira da ladra

fernando farinha

fernando maurício

florência

gabino ferreira

guitarra portuguesa

guitarrista

helena sarmento

hermínia silva

herminia silva

joão braga

josé afonso

júlia florista

linhares barbosa

lisboa

lisboa no guiness

lucília do carmo

magusto

manuel fernandes

marchas populares

maria da fé

maria josé praça

maria teresa de noronha

max

mercado da ribeira

miguel ramos

noites de s. bento

oficios de rua

óleos real bordalo

paquito

patriarca do fado

porta de s. vicente ou da mouraria

pregões de lisboa

raul nery

real bordalo

santo antónio de lisboa

santos populares

são martinho

teresa silva carvalho

tereza tarouca

tristão da silva

vasco rafael

vítor duarte marceneiro

vitor duarte marceneiro

vítor marceneiro

vitor marceneiro

zeca afonso

todas as tags