Domingo, 21 de Outubro de 2012

Manuel Domingos - Fadista Amador - 2 anos de saudade

 MORREU O MANEL Morreu o Manel. Claro que ninguém que me escuta conheceu o Manel. O seu poiso era por Lisboa. O Manel é, por isso, um desconhecido. Para quase toda a gente. Menos para os cerca de seiscentos companheiros que teve com ele na guerra colonial da Guiné. Esses conheceram-no bem. Ao seu ar sempre alegre. À sua disposição, muitas vezes, para participar nas loucuras da juventude e nas loucuras de quem está a participar duma guerra. À sua melena a cair sobre a testa, o que lhe dava um ar malandreco. À sua voz e ao seu sentimento, que lhe permitiam cantar o fado de um modo castiço como poucos. Morreu o Manel. Quase ninguém o conheceu. E, no entanto, o Manel merecia ficar nas páginas da História de Portugal. Porque foi um herói. Aliás, igual a uns tantos mais que passaram pela guerra do Ultramar. Eu também lá estive. Não fui herói nenhum. Mas o Manel foi. Naquela noite, em Cutia, a meio caminho entre Mansoa e Mansabá, uma companhia de terroristas, como dizíamos então, ou de guerrilheiros, como docemente se diz agora, atacou um pequeno forte onde o Manel comandava um destacamento de apenas quinze homens. Cento e cinquenta, bem armados, contra quinze, também bem armados. Foi nessa noite que eu acreditei nos Afonsos Henriques, nos Álvares Pereira, nos seus feitos heróicos em inferioridade numérica. O Manel conseguiu, à custa da heroicidade de ele mesmo, ele que era o comandante, sair em campo aberto, peito feito às balas, e à granada, correr com o inimigo que os queria matar a todos. Nem um só foi ferido. O inimigo deixou muitos para sempre, ali. O Manel foi um herói. 

 

 

 

Recebeu a Cruz de Guerra de primeira Classe. Mas não ficará nos livros da história. Merecia ficar. Talvez por ser isso, é que amava o fado, essa canção bem portuguesa, do modo como sabíamos. Um fado que cantou até ao fim. Até já, Manel, meu camarada de armas. Enquanto não nos reencontrarmos, podes não estar nas páginas da História. Mas estás a oiro nas páginas do meu coração! São mais acolhedoras.

magpinto@netcabo.pt

poliscopio.blogspot.com


Por altura do falecimento do Manuel Domingos,  a 21 de Outubro de 2010,  em que eu não consegui estar presente para o acompanhar á sua última morada (do corpo) porque decerto o seu espírito estará algures, onde um dia nos encontraremos novamente, publiquei aqui uma página sobre a efeméride que teve o mérito de dar a conhecer a muitos dos seus amigos e que ficaram gartos porque poderam ir a tempo de o velar..

 

MANUEL DOMINGOS  foi"um amador de cousa amada", prefaciando Camões, tal o seu livre e desinteressado culto pelo fado. É amador por opção. A profissionalização, segundo afirma, retirava-lhe a liberdade e a independência por que pugna. Começou a cantar na década de 1960 no Galito [Estoril], altura em que diz "ter sido uma pedrada no charco" pelo "maior cuidado que se passou a ter na escolha das letras, e também pelo espírito de mudança que já se vivia". Actuou em várias casas da linha do Estoril, designadamente Cartola, Estribo que foi mais tarde o Forte D. Rodrigo, entre outras. Afirma que "não canta por cantar" tem especial cuidado nas letras que escolhe. "Há que respeitar os poetas", afirma o fadista que sublinha que "o fado são as palavras, e os sentimentos que delas advêm". "As letras têm de me dizer qualquer coisa para que sinta capacidade em as transmitir aos outros", afirma. Entre os poetas refere João Dias como um dos seus favoritos. 

Quanto a fados prefere os tradicionais, nomeadamente Fado das Horas, Fado Zeca, Mouraria, Corrido, ou o Alexandrino Antigo. Cultiva o espírito de tertúlia, um dos factores que mais o cativa no fado. onde conheceu "as melhores pessoas". Anima-o o espírito de solidariedade, de amizade e partilha. Esporadicamente cantou "rancheras" um gosto que partilha com Amália com quem conviveu, "especialmente nas décadas de 1960 a 1980" no Picadeiro (Estoril). Segundo afirma "as rancheras são os fados mexicanos, está lá tudo, as palavras, uma história, a emoção". Filho de pai espanhol, foi-lhe fácil o contacto com a língua de Cervantes, mas foram as interpretações de Pedro Infante que o levaram a cantar "rancheras".

Manuel Domingos trabalhou sempre na área das artes gráficas.

Por volta de  1971" gravou um LP ao vivo no Arreda, em Cascais, mas veio a gravar mais discos.

in: Programa da II Gala Amália Rodrigues


Foto do Manuel Domingos no Arreda comigo e com o meu avô

 

 


Contacto com o autor: clicando aqui
Viva Lisboa: Grande Fadista
publicado por Vítor Marceneiro às 12:04
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4 comentários:
De António Moreira da Silva a 21 de Outubro de 2010 às 16:04
Um Grande fadista que se foi. Estava eu a começar, quando o ouvia no Arreda, depois no D.Rodrigo, Ele, o Rodrigo, o Tio Alfredo, o Henrique Santos, o Zé Pracana, o saudoso Carlos Zel e outros. Aprendi bastante com Ele, o Manel.Fez parte do meu crescimento, como Fadista
Deixa muitas saudades, que Deus o receba no seu seio.
Até um dia Manel
António
De Mike a 21 de Outubro de 2010 às 17:33
Ele e o meu pai eram grandes amigos.
Que descanse em paz.
De pedro a 13 de Novembro de 2010 às 22:06
o manel e o *nosso* pai eram grandes amigos. eu tambem gostava muito dele mas, claro, tinhamos uma relacao diferente. um beijo a r***.
De Magalhães PInto a 4 de Maio de 2011 às 17:24
(Crónica de A. Magalhães Pinto, para RADIO CLUBE DE MATOSINHOS, em 3/5/2011)

MORREU O MANEL

Morreu o Manel. Claro que ninguém que me escuta conheceu o Manel. O seu poiso era por Lisboa. O Manel é, por isso, um desconhecido. Para quase toda a gente. Menos para os cerca de seiscentos companheiros que teve com ele na guerra colonial da Guiné. Esses conheceram-no bem. Ao seu ar sempre alegre. À sua disposição, muitas vezes, para participar nas loucuras da juventude e nas loucuras de quem está a participar duma guerra. À sua melena a cair sobre a testa, o que lhe dava um ar malandreco. À sua voz e ao seu sentimento, que lhe permitiam cantar o fado de um modo castiço como poucos.

Morreu o Manel. Quase ninguém o conheceu. E, no entanto, o Manel merecia ficar nas páginas da História de Portugal. Porque foi um herói. Aliás, igual a uns tantos mais que passaram pela guerra do Ultramar. Eu também lá estive. Não fui herói nenhum. Mas o Manel foi. Naquela noite, em Cutia, a meio caminho entre Mansoa e Mansabá, uma companhia de terroristas, como dizíamos então, ou de guerrilheiros, como docemente se diz agora, atacou um pequeno forte onde o Manel comandava um destacamento de apenas quinze homens. Cento e cinquenta, bem armados, contra quinze, também bem armados. Foi nessa noite que eu acreditei nos Afonsos Henriques, nos Álvares Pereira, nos seus feitos heróicos em inferioridade numérica. O Manel conseguiu, à custa da heroicidade de ele mesmo, ele que era o comandante, sair em campo aberto, peito feito às balas, e à granada, correr com o inimigo que os queria matar a todos. Nem um só foi ferido. O inimigo deixou muitos para sempre, ali. O Manel foi um herói. Recebeu a Cruz de Guerra de primeira Classe. Mas não ficará nos livros da história. Merecia ficar.

Talvez por ser isso, é que amava o fado, essa canção bem portuguesa, do modo como sabíamos. Um fado que cantou até ao fim.

Até já, Manel, meu camarada de armas. Enquanto não nos reencontrarmos, podes não estar nas páginas da História. Mas estás a oiro nas páginas do meu coração! São mais acolhedoras.

magpinto@netcabo.pt
poliscopio.blogspot.com

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