Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

Alfredo Marceneiro - Os primeiros passos no Fado

 

A primeira vez que Alfredo vai ouvir cantar o fado, em recinto adequado, foi na Rua do Poço dos Negros, no Beco dos Carrascos, onde actuavam conhecidos fadistas de então que, por serem gente de trabalho, cantavam por amor à arte. Os acompanhamentos musicais nessa época eram feitos ao piano, com bandolim, ou com guitarras.

Mas foi no «14» do Largo do Rato, antiga casa de jogo e que o dono transformou em «cabaret» quando os jogos de azar foram proibidos, que o jovem Alfredo começou a ser mais conhecido no meio fadista, sendo frequentemente convidado a cantar alguns «fadinhos», cujos versos ele mesmo improvisava. Outros versos que também cantava, letras de qualidade literária e poética muito fracas, eram adquiridos nos quiosques pelo preço de um vintém.

Aqui travou conhecimento com alguns dos poetas populares e grandes fadistas de nomeada daquela época, nomeadamente, o Britinho, estucador, o Soares, do Intendente, o Júlio Proença, estofador, o João Mulato, o Chico Viana, o Jorge, caldeireiro, o Fernando Teles e tantos outros, todos peritos de Fado, que não tardaram em ver no jovem Alfredo um verdadeiro fadista. Como manifestação desse reconhecimento começaram a dar-lhe algumas das suas criações poéticas para que ele as cantasse.

O fado era uma canção de revolta e/ou de amor. Era a história do operário que ficava sem uma perna, sem um braço, ou que era despedido e ficava na miséria, era a história da rapariga que vinha do campo e se perdia nas vielas, era a história do órfão abandonado. Era também a história do amor inflamado pela esperança ou pela desilusão.

É certo que havia letras de fados bastante «lamechas», mas Alfredo tinha a intuição natural de saber escolher de entre os melhores poemas que os poetas da altura escreviam, utilizando sempre o seu dom de bem-dizer e de correctamente dividir as orações gramaticais, o que decerto contribuiu, a par com o seu estilo musical, para a sua enorme popularidade.

As deambulações pelos retiros de Fado continuam e certo dia foi convidado para uma «patuscada» no Carioca da Trindade, mais conhecido por "Coimbra", situado no Largo da Abegoaria, hoje Largo Rafael Bordalo Pinheiro. Alfredo cantou e foi aplaudido com bastante entusiasmo, tendo havido alguém que, quando ele cantou o "Fado Dois Tons", com invulgar sentimento, não resistiu a ir abraçá-lo e, com os olhos rasos de lágrimas, apresentando-se, disse:

— Você não me conhece, mas de hoje em diante faço questão de ser seu amigo, pois comoveu-me profundamente ouvi-lo cantar. Chamo-me Manuel Rêgo, sou poeta, escrevo letras para fado e terei muito gosto em dar-lhe alguns dos meus poemas.

Assim começou uma amizade que durou anos, tendo Manuel Rêgo escrito para Alfredo Duarte alguns poemas para o seu repertório.

Quando Manuel Rêgo adoeceu, logo Alfredo, com outros elementos, lhe organizou uma festa de solidariedade, como homenagem ao poeta e amigo.

E num dia, que nunca mais esqueceu, disseram-lhe que o seu amigo Manuel Rêgo tinha falecido, vítima de uma «galopante». Sucumbido com a notícia, que lhe parecia inacreditável, Alfredo ficou de tal forma sentido que durante dois dias não saiu de casa.

Quando voltou à oficina, decidiu fazer uma cruz em madeira e foi ao cemitério colocá-la na campa onde jazia o amigo. Era uma homenagem singela, mas não a última pois continuou pela vida fora homenageando-o ao cantar os seus versos e, acima de tudo, mantendo-o bem vivo na sua memória, tal como vezes sem conta o referiu.

Eis o exemplo de um de fado, considerado patriótico, mas do género do que se escrevia após a primeira Grande Guerra Mundial.

 

" ASSOMO DA RAÇA "

 

Enquanto o Mundo, cobarde,

Precipita com rancor

Numa trágica odisseia,

Na escola, ao cair da tarde

O velhinho professor

Fala aos rapazes da aldeia!

 

«Sabeis vós o que é a guerra,

«Essa hecatombe terrível

«De que fala todo o Mundo?

«É ver os homens, na terra,

«Em luta medonha, horrível,

«Num ódio torvo e profundo!

 

«Vai-se p´ra a guerra contente,

«Patriotismo exaltado

«Na fé baixa da vingança!

«Mas, regressa-se descrente,

«Cego, doido ou mutilado,

«Velho, até, se foi criança...

«Contra a guerra e contra tudo

«O que no mundo a consente!

 

Brada o professor por fim; 

 

5

 


    Mas o CHICO miúdo,

   Uns quatro palmos de gente

   Levantou-se e disse assim:

 

«Seja a Guerra obra do mal,

«Duro flagelo, não nego,

«Diga-se o que se disser...

«Se alguém quiser Portugal

«Fique mutilado ou cego

«Eu tenho de defender!

 

 

E o gesto desse rapaz,

Que oito séculos de História

Obrigavam a falar,

Mostrou bem do que é capaz

O Povo de maior Glória,

LIVRE NA TERRA E NO MAR

 

© Vítor Duarte Marceneiro in “Recordar Alfredo Marceneiro”

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Viva Lisboa: Orgulho nas origens
publicado por Vítor Marceneiro às 21:00
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