Domingo, 8 de Julho de 2007

FADO TRADICIONAL DE LISBOA por Luis Penedo

Pedi ao Engº Luis Penedo, dignº Presidente da Academia Portuguesa da Guitarra e do Fado, também conselheiro do Museu do Fado, que cedesse este seu trabalho  com a autorização para o publicar, porque se trata de um estudo/análise  muito interessante sobre o Fado Tradicional... que nós tanto gostamos.

Ao que ele respondeu com o envio do mesmo:

Victor

Claro que tenho até muito gosto em que publique no seu blog, e divulgue, como entender. Como deve saber, a evolução faz-se pela diferenciação o que quer dizer que na medida em que a complexidade aumenta as definições têm de ser claras e precisas. Se queremos proteger esse magnifico património do Séc XX, fundamentalmente, temos de o caracterizar. Foi esse o objectivo.

Esta definição (descritiva, pois não estamos em matemática) é um primeiro passo. Ignorar as diferenças, misturar tudo e baralhar o conhecimento é, naturalmente, coisa de ignorantes. Sem prejuízo dos outros tipos de Fado, aliás referidos na matriz de separação, cujo interesse, sobretudo a nível pluricultural, é grande e pertinaz. A definição foi iniciativa minha, que a assino e assumo a responsabilidade, mas teve contributos interessantes de outros membros do Conselho Consultivo da CFGP, sobretudo no esclarecimento do significado das expressões, nomeadamente do Daniel Gouveia e da Julieta de Castro.

Um abraço 

Luís Penedo

 FADO TRADICIONAL DE LISBOA

O Fado Tradicional de Lisboa, peça singular do Património da Cidade de Lisboa, define-se na sua FORMA e no seu CONTEÚDO.

No que respeita à FORMA podemos considerar a linguagem física (gestual e facial), a linguagem oral (palavra e musicalidade fonética) e a linguagem musical.

Assim, temos em primeiro lugar a mais básica das formas de comunicação, comum à maior parte dos seres vivos, estabelecida na linguagem corporal gestual e facial que, no caso dos seres humanos, se traduz por uma muito complexa teia de sinais.

Em segundo lugar temos a linguagem oral, que é a complexa comunicação pela palavra produzida oralmente, mas que engloba, para além dos significados directos (digamos, literários) da língua, a entoação, as diferenças de intensidade sonora, a rapidez de pronúncia, o significado variável do uso da tessitura utilizada, etc., ou seja a musicalidade básica da voz, que existe independentemente do conceito de música.

 A palavra, aqui, é a poesia de versos de métrica constante ou regular, de sete, dez e doze sílabas (incluindo o verso alexandrino), estruturados em estrofes regulares de quatro, cinco, seis ou dez versos e, para que seja utilizável como linguagem do Fado Tradicional de Lisboa, deve ser passível de conter um batimento coincidente de sílabas tónicas e uma história encadeada no contexto de uma mensagem com uma moral conclusiva.

Esta regularidade, poética, que inclui o versículo e os fados de versos combinados mas sempre regulares,  permite a utilização de estruturas tonais padrão. Não se trata pois de uma manifestação de divertimento, mas sim de uma comunicação com significado, em que não é a expressão oral que serve de apoio à música, mas a música, que serve de apoio à palavra.

E, em terceiro lugar, os sons ditos musicais, produzidos pela própria voz como instrumento musical ou por instrumentos musicais.

Aqui, a música, que a partir do século XVI  adopta a estrutura tonal, começa naturalmente pela mais simples estrutura tonal, deixando ao intérprete a máxima liberdade para entoar à sua maneira e “estilar” o que, em Fado Tradicional, significa improvisar permanentemente a melodia sobre essa estrutura básica (tónica e dominante). É assim com o Fado Corrido Maior, com o Fado Corrido Menor e com o Fado ao Desafio, ou Mouraria, ou Fado à Desgarrada (conforme a utilização que a expressão oral assuma).

A partir de meados do Século XIX, surgiram os ornamentos tonais que acabaram por se consolidar em estruturas mais complexas sem se perder, no entanto, a forma de expressão regular, e que conduziram até hoje à existência de algumas centenas de estruturas tradicionais consolidadas.

 No que respeita ao seu CONTEÚDO, a mensagem é um sentir pessoal, emoção humana, real, experimentada, o que, por difícil ou quase impossível de transmitir, requer uma aplicação de todas as linguagens possíveis em simultâneo. A mensagem (literária) contida na letra joga aqui um papel decisivo, pois ou trata de questões humanas, histórias de vida, ou se refere a emoções e sentires, ou não se trata de Fado Tradicional de Lisboa.

A mensagem, na sua totalidade, deve ser coerente e harmónica em todas as linguagens referidas, sem o que o intérprete falha o seu objectivo e a comunicação traduzirá apenas um tecnicismo teatral.

Sem mensagem emocional o conteúdo perde-se e a transmissão pelas linguagens referidas resume-se a um exercício de técnicas de comunicação. Teremos, contudo de considerar não apenas as situações extremas mas também as intermédias que definirão um valor qualitativo para a interpretação.

O Fado Tradicional de Lisboa é, portanto, uma interpretação completa e complexa que, para além das técnicas adequadas de comunicação nestas três linguagens, algumas de aprendizagem prática, longa e difícil como para qualquer arte, requer a própria condição da comunicação humana: a mensagem do sentir.

Nesta acepção é uma preciosidade, não por ser ou deixar de ser uma inovação, mas por representar um sistema total de comunicação humana, num ambiente urbano, com recursos a formas características da Antiguidade, mas numa combinação moderna, que hoje se perdeu noutras culturas.

O Fado Tradicional de Lisboa manteve-se na expressão do sentir. É isso que se torna sensível a quem o ouve sem saber português, pois a comunicação expressa-se a todos os níveis simultaneamente e a mensagem humana completa ultrapassa (no sentir) a barreira da linguagem oral (apenas a letra não é entendida).

O quadro seguinte mostra as diferentes formas relacionadas à volta do Fado Tradicional.

Nome

Tema de fado

Poesia Regular

Refrão

Música

Fado Tradicional de Lisboa

sim

sim

não

improviso

Fado com Refrão/de Revista

sim

sim

sim

improviso

Fado Musicado

sim

sim

não

própria

Fado Musicado

sim

sim

sim

própria

Fado Musicado

sim (*)

não

não

própria

Fado Canção

sim (*)

não

sim

própria

Canção de Improviso

não

não

não

improviso

Canção de Improviso

não

não

sim

improviso

 (*) Só se tiver tema de fado, ou seja, descrição de vida humana, tem sentido considerar como pertencendo ao Fado o Fado Canção ou o Fado Musicado, ambos de poesia irregular e com música própria.

 
CARACTERÍSTICAS SINGULARES DO FADO TRADICIONAL DE LISBOA

O Fado Tradicional de Lisboa é uma matriz na qual estão incluídos os seguintes elementos diferenciadores em relação a outras formas de expressão poético-musical, mesmo próximas deste:

  1. O Fado Tradicional de Lisboa é uma interpretação baseada fundamentalmente na emoção e no sentir pessoal. Neste sentido é uma complexa comunicação humana e serve para transmitir e partilhar emoções e sentires.
  2. No Fado Tradicional de Lisboa, os versos são regulares. Essa regularidade estende-se ao número de versos por estrofe. Existem casos de regularidade mais complexa que continuam, no entanto, a permitir a utilização de sequencias tonais a várias poesias diferentes.
  3. Em virtude da regularidade dos versos, um Fado Tradicional de Lisboa pode ser cantado em formas diferentes de suporte musical, isto é, qualquer letra de quadras, por exemplo, pode ser cantada em muitos “fados” (matriz musical), escolhendo-se, normalmente, uma variante que melhor se enquadre nas palavras, na sua divisão e no próprio conteúdo dos versos. A regularidade da estrutura poética permite a independência do intérprete relativamente à forma musical que prefere utilizar.
  4. A poesia para o Fado Tradicional de Lisboa requer um batimento coincidente de vogais fortes (tónicas) em cada verso, para que a memória neles se enquadre e suporte constantemente (tal como nas lenga-lengas). A boa maneira de cantar implica saber dividir bem o verso, para que este batimento se não perca e sem nunca partir palavras a meio, o que contribuiria para tornar confuso o significado da mensagem oral.
  5. A interpretação é, no Fado Tradicional de Lisboa, um acto artístico e de recriação, por excelência, e não pode ser imitado, ainda que o Fado possa ser igual, na poesia e na matriz musical. Trata-se, quando genuíno, de um acto de interpretação criativa que expressa emoções e, portanto, inimitável.
  6. O Fado Tradicional de Lisboa implica um improviso constante pois ninguém sente exactamente o mesmo duas vezes. Este improviso depende do estado de alma em cada momento, do intérprete e de quem está presente. É uma dádiva artística e não uma mera reprodução, cópia de outra interpretação.
  7. O Fado Tradicional de Lisboa não utiliza o refrão, pois trata-se de uma letra regular, embora se possam aceitar por vezes repetições de versos, desde que a estrutura poética e melódica simples não seja alterada com a introdução de um novo esquema musical para o refrão.
  8. O Fado Tradicional de Lisboa tem um sentido moral ou filosófico na sua letra, reminiscência das histórias antigas ou dos conceitos traduzidos em versos simples.
  9. O Fado Tradicional de Lisboa requer o estabelecimento de um ambiente apropriado, de ligação entre o intérprete e a sua audiência, o que o distancia das formas urbanas típicas. Tem um ritual, que as canções na sua forma urbana já perderam:

a)      O silêncio de quem ouve, pois trata-se de uma mensagem humana complexa;

b)      A concentração do intérprete e a atenção da audiência para a comunicação;

c)      A noite, mais propícia à partilha do sentir;

d)      Uma pequena audiência;

e)      A ligação específica e singular com os seus instrumentos, a Guitarra Portuguesa de Lisboa, e a Viola de Fado.

f)        Existem cerca de 400 formas estabelecidas, mas novas podem vir a produzir--se.

Não pode haver confusão entre o termo Tradicional e o termo Antigo. O Fado Tradicional de Lisboa corresponde a uma matriz e podem sempre produzir-se novos fados tradicionais desde que a matriz seja respeitada.

 

SINGULARIDADES da ligação com a Guitarra Portuguesa de Lisboa e a Viola

 

1.      Instrumento único no mundo, EXISTEM DOIS TIPOS EM PORTUGAL, Lisboa tem um, Coimbra tem outro tipo.

2.      Afinação singular destinada a produzir efeitos de sonoridade

3.      Capacidade de transposição permanente de tons base, como necessária capacidade técnica para o acompanhamento do Fado Tradicional de Lisboa

4.      A Viola serve para a marcação do compasso, colorindo as passagens das mudanças tónicas com melodia nos graves, sem exageros e com, fundamentalmente, tonalidades básicas.

5.      A Guitarra Portuguesa (de Lisboa) acompanha e desafia permanentemente o cantor a improvisar, como a própria Guitarra o faz. O acompanhamento da Guitarra, embora dentro de limites, permite e pede a improvisação nos silêncios da voz. 

 

Luís Filipe Penedo

Versão de Novembro de 2005

 

 

Contacto com o autor: clicando aqui
publicado por Vítor Marceneiro às 21:49
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4 comentários:
De Pedro Sousa a 9 de Julho de 2007 às 18:23
Grande tratado por um senhor que ninguém no fado conhece, pelo menos no de Lisboa!
De Virgilio Veloso a 10 de Julho de 2007 às 19:47
Meu caro amigo : Este Pedro Sousa deve ser um homem traumatizado e complexado e cheira-me que seja pessoa muito ligada ao fado, mas que seja um daqueles falhados que nada deve ter feito e que se entretem a deitar tudo abaixo. Depois do texto sobre a musica do fado que o meu amigo publicou do Engº Penedo o homem concordando ou não não aproveitou nada do que lá está escrito....é tudo mau ? Não se aproveita nada ? É verdade que não é um nome sonante, mas também não é um total desconhecido. É o Presidente da Academia da Guitarra e acompanha muitas vezes uma grande promessa do fado, que é a Carmo Rebelo de Andrade. Penso mesmo que o primeiro disco dela terá sido gravado com ele e sobre ela, já gente do fado me confirmaram que não há muita gente a cantar fado como ela. Quem é conhecido no fado ? É só a Mariza, o Carlos do Carmo e o Camané ?
O amigo Pedro Sousa se quiser que me responda mas o comentário dele foi muito infeliz, reflectindo um mau caracter.
Um comentário como aquele não se faz.
O seu blog é interessante, mas devia proporcionar mais discussão ( saudável) sobre os assuntos, alguns de muito interesse que publica.
Cumprimentos
De Vítor Marceneiro a 10 de Julho de 2007 às 21:27
Obrigado pelo seu comentário.
Agradeço também a resposta que deu ao Sr. Pedro., é isso mesmo que o meu amigo afirmou.
Meu caro amigo, este blog ao contrário de muitos tem a via dos comentários livres, quer isto dizer que não é preciso qualquer registo, portanto o debate haverá se as pessoas quiserem , devo confessar que me dá bastante prazer receber comentários e até rectificações se necessárias. Há blogs que podem primeiro ver a mensagem e só se lhe interessar, é que publica, não é o caso aqui, que mal se escreve fica registado e para toda a gente ver.
No entanto sem falsa modéstia, os números de visitantes e a posição do meu blog nos motores de busca em referência ao tema está nos primeiros lugares.
Escreva mais vezes.
Um abraço fadista
Vítor Marceneiro
De Martim Moniz a 11 de Julho de 2007 às 22:37
O meu homónimo, ficou entalado nas portas de LISBOA.
Pedro Sousa parece entalado na ignorância.

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