Terça-feira, 19 de Junho de 2012

MIGUEL TORGA

Adolfo Correia Rocha, São Martinho de Anta  ( adoptou o pseudónimo de Miguel Torga), nasceu  a  12 de Agosto de 1907,  no concelho de Sabrosa (Alto Douro), foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX.

Filho de gente humilde, trabalhadores do campo, frequentou brevemente o seminário.

Em 1920, com doze anos,   emigrou para o Brasil, para trabalhar na fazenda do tio, na cultura do café. O tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais, em Leopoldina. Distingue-se como um aluno dotado.

Em 1925 regressa a Portugal.

Em 1927 é fundada a revista Presença de que é um dos colaboradores desde o início.

Em 1928 entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro, "Ansiedade", de poesia.

É bastante crítico dapraxe e tradições académicas, e chama depreciativamente "farda" à capa e batina, mas ama a cidade de Coimbra. 

Em 1933 concluiu a formatura em Medicina, com apoio financeiro do tio do Brasil e exerceu no início, nas terras agrestes transmontanas, de onde era originário e que são pano de fundo da maior parte da sua obra.

Em 1939 fixa-se em Coimbra e exerce medicina, e é a partir desta cidade que escreve a rande maioria dos seus livros

 

A obra de Torga tem um carácter humanista,  criado nas serras transmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza, sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência, para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração,  (hinos aos deuses, não...os homens é que merecem, que se lhes cante:  a virtude/bichos que cavam no chão/actuam como parecem/sem um disfarce que os mude).

Para Miguel Torga  o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à natureza, como os trabalhadores rurais transmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras, e é com essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a natureza mau grado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, no ver de Torga fazem do homem, único ser digno de adoração.

Considerado por muitos como um avarento de trato difícil e carácter duro, foge dos meios das elites pedantes, mas dá consultas médicas gratuitas a gente pobre e é referido pelo povo como um homem de bom coração e de boa conversa. Foi o primeiro vencedor do Prémio Camões.

Miguel Toga faleceu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995


 

Anjos - Almirante Reis dia de nevoeiro

Auguarela de  Meste Real Bordalo

 

LISBOA

 

Poema de: Miguel Torga

 

A luz vinha devagar

Através do firmamento...

Vinha e ficava no ar,

Parada por um momento,

A ver a terra passar

No seu térreo movimento.

 

                                        Depois caía em toalha

                                        Sobre as dobras da cidade;

                                        Caía sobre a mortalha

                                        De ambições e de poalha,

                                        Quase com brutalidade.

 

O rio, ao lado, corria

A querer fugir do abraço:

Numa vela que se abria,

E onde um sorriso batia,

O mar já era um regaço.

 

                                          Mas a luz podia mais,

                                          Voava mais do que a vela;

                                          E o Tejo e os areais

                                          Tingiam-se dos sinais

                                          De uma doença amarela.

 

Ardia em brasa o Castelo,

Tinha febre o casario;

Cada vez mais nosso e belo,

O profeta do Restelo

Punha as sombras num navio...

 

                                           Nas casas da Mouraria,

                                           Doirada, a prostituição

                                           Era só melancolia;

                                           Só longínqua nostalgia

                                           De amor e navegação.

 

Os heróis verdes da História

Tinham tons de humanidade;

No bronze da sua glória

Avivava-se a memória

Do preço da eternidade.

 

                                           Nas ruas e avenidas,

                                           Enluaradas de espanto,

                                           Penavam, passavam vidas,

                                           Mas espectrais, diluídas

                                           Na cor maciça do encanto.

 

E a carne das cantarias,

Branca já de seu condão,

Desmaiava em anemias

De marítimas orgias

De um fado de perdição.

 

 

 


 

FADO

 

Poema de Miguel Torga

 

Tem cada povo o seu fado

Já talhado

No livro da natureza.

Um destino reservado,

De riqueza

Ou de pobreza,

Consoante o chão lavrado.

 

E nada pode mudar

A fatal condenação.

No solo que lhe calhar,

A humana vegetação

Tem de viver, vegetar,

A cantar

Ou a chorar

Às grades desta prisão.

 

                                              No livro da natureza.

                                              Um destino reservado,

                                              De riqueza

                                              Ou de pobreza,

                                              Consoante o chão lavrado.

 

                                              E nada pode mudar

                                              A fatal condenação.

                                              No solo que lhe calhar,

                                              A humana vegetação

                                              Tem de viver, vegetar,

                                              A cantar

                                             Ou a chorar

                                             Às grades desta prisão.

 

 

Contacto com o autor: clicando aqui
Viva Lisboa: Grandeescritor
música: Poemas para ler
publicado por Vítor Marceneiro às 00:00
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8 comentários:
De lapa a 22 de Setembro de 2007 às 17:33
Cristóvão de Aguiar vai lançar em breve um importante livro sobre Miguel Torga.
Intitular-se-á: Miguel Torga "o lavrador das letras"
Parabéns!
De Maria de Jesus a 22 de Setembro de 2007 às 22:01
Meu amigo Vítor Marceneiro

Meter Miguel Torga num site de fado que fala de Lisboa, é de mestre! foi oportuno e merece como tem acontecido em praticamente todo este seu trabalho , o meu apreço e amizade.
Continua.
Ninguém já duvida, que independentemente da sua obra, Marceneiro, teve neste neto o percursor de perpetuar da sua obra, e de honrar a sua prole de Fadistas.
Um beijo
Maria de Jesus
De domingos.mesias@gmail.com a 23 de Setembro de 2007 às 16:00
Primeiro a notícia da obra mais completa e desassombrada sobre toda a escrita de Miguel Torga, publicada no Porto, em 1990 pelas Edições Salesianas. Nela o senhor Professor Doutor António Freire, S.J ., disserta sobre quem é Miguel Torga, como é que esse autor se vê a si próprio, o seu Unamunismo , desespero, a sua obra de escritor, a sua obra poética e sobre o seu porteguesismo ». Vale a pena uma atenta consulta.
De Vítor Marceneiro a 23 de Setembro de 2007 às 22:55
Meu caro amigo Mesias
Permita que o desafie a fazer essa análise, este espaço é seu para o que quizer publicar.
Um abraço
Vítor
De Mesias a 24 de Setembro de 2007 às 14:39
Amigo Marceneiro,
Deixo transcrito, diga-se copiado, um ANTELÓQUIO que o autor da obra sobre Miguel Torga por mim já referida assinou e datou de Braga, Faculdade de Filosofia (Departamento de Humanidades), 1 de Agosto de 1989.

ANTELÓQUIO

Pretendi escrever uma obra sobre Miguel Torga, na qual patenteasse todo o entusiasmo que me empolga pela figura ímpar deste escritor e comunicasse aos leitores (jovens e adultos) o gosto pela leitura das obras (em prosa e em verso) daquele que ouso apelidar um dos expoentes mais altos do português actual.
Como cinzelador da prosa portuguesa, possui os predicados que mais de molde concorrem na formação de bons escritores do nosso idioma: robustez e clareza de estilo, pujança de imaginação, vernaculidade e criatividade poética. Se por um lado é o maior entalhador da prosa portuguesa actual, só comparado, porventura, a Vieira e a Camilo, por outro o seu poder de criatividade é tal que faz dele poeta criador, até quando escreve em prosa: maior prosador porque poeta, maior poeta porque prosador.
Numa geração prolífica em bons escritores, como a nossa, não fica descabido de realçar o mérito de Miguel Torga, tanto mais que, desde os seus primeiros tentames literários, tanto os próceres do Poder como os pontífices da Literatura lhe foram adversos: uns com a perseguição sistemática, outros com o silêncio, que são as alfinetadas que mais têm pungido a sensibilidade torguiana.
Não conheço pessoalmente Miguel Torga. O preito que lhe rendo é isento de compadrios ou mecenatismos. Torga é o que há de mais avesso a convencionalismos. Portugal começa a compreendê-lo e a fazer-lhe justiça. A melhor é a divulgação das suas obras, para despertar nos jovens o gosto pela leitura genuinamente portuguesa e pela criatividade literária. Por isso, quisemos que este livro fosse um como aperitivo para atrair os leitores para a obra integral de Miguel Torga. Sempre que pudemos, deixamos que fosse Torga a falar.
Até nos defeitos que, aqui e além, lhe apontamos, nos servimos da confissão do próprio Torga. Nem ele nem ninguém terá que levar-nos a mal, pois procurámos não sair da obra de Torga Tentámos interpretá-lo com a máxima compreensão. E se, como ele diz, só quem ama, é que vê, estou certo de haver acertado, dada a simpatia com que abordei este estudo bastante complexivo. Oxalá muitos outros se entusiasmem como eu!
De Vítor Marceneiro a 24 de Setembro de 2007 às 22:32
Caro Amigo Mesias
Foi uma mais valia para a página e para melhor entender Miguel Torga, muito obrigado, pela sua colaboração
Um abraço
Vítor
De Domingos a 23 de Setembro de 2007 às 18:44
Veja-se, em poesia do próprio, as supra relatadas dimensões Transcendente e Imanente de Miguel Torga:

Doutrina

Abro o livro da vida, o catecismo
Onde qualquer analfabeto lê.
Abro, soletro e cismo:
Um outro céu, porquê?

Tudo aqui tão visível e concreto!
Tudo florido em letras de verdade!
Um rio que passa, e passa a majestade
De um Júpiter discreto
Que liquefez a própria eternidade.

Deixar o certo pelo duvidoso!
Trocar a amada por um querubim!
E este corpo terroso?
E este viril amor que existe em mim?

Perguntas e respostas que eu entenda!
E nada de mistérios de encomenda
Onde uma cobra sorna se enroscou...
Pedir a alguém que sofra e se arrependa
Por causa da maçã que um outro mastigou!...

A bem-aventurança natural.
Um paraíso onde se possa ir:
Árvores do bem e do mal,
E na porta este aviso paternal:
- É proibido proibir!
De Vítor Marceneiro a 23 de Setembro de 2007 às 22:53
Obrigado poela colaboração.
Felizmente que começa a acontecer, estou feliz porque afinal há pessoas que entendem, o que me proponho, Lisboa no Guiness, Fado, Poesia, Cultura, Amizade, enfim portugueses em diálogo e harmonia.
Um Abraço
Vítor Marceneiro

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