Terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Carta para Portugal de Manuel Carvalho

Em 23 de Setembro de 2007 recebi e publiquei  do meu amigo Manuel de Carvalho esta carta,  hoje volto a repescá-la pois está bem actual nestas comemorações e homenagens que se vêm fazendo á nos AMÁLIA

 CARTA PARA PORTUGAL

 

      Caro amigo

      Antes de me sentar para te escrever, pus um CD da Amália a tocar. Sim, sim, da Amália! Rio-me aqui sozinho, divertido,  ao imaginar a tua cara de espanto. É verdade,  podes crer, agora também gosto de fado. Como aliás já gosto de muitas outras coisas a que antigamente, antes de emigrar, não ligava nenhuma e até tinha mesmo declarada aversão.

Seria demasiado longo e talvez infrutífero tentar explicar-te as premissas desta mudança tão radical. Talvez lá mais para o fim da carta, comeces a ver uma luzita ao fundo do túnel.

Aceita , pois, por agora, sem objecções, o facto consumado: gosto de fado, adoro fado. Neste preciso momento, a voz cristalina e sem par da grande diva desliza-me pela alma  como uma cascata refrigerante de diamantes:

 

(...)

Dizem as velhas da praia

Que não voltas.

São loucas! São loucas!

 (...)

 

            Perguntavas-me na tua última carta, com uma ponta de inquetação, bem o percebi,  se tencionava regressar, algum dia, a Portugal, pondo assim um termo a esta já tão longa aventura da emigração.

            Que resposta te poderei dar? Será a emigração uma viagem sem regresso? Certamente, na grande maioria dos casos. E os números nus e crus das estatísticas estão lá para comprová-lo.

 Regresso! Palavra de mil alquimias. Nos primeiros tempos, a sua evocação é  abençoado remédio contra os males da saudade e do desenraizamento. Depois, à medida que novas raízes começam a rasgar húmus imprevistos, transforma-se, sem nos darmos conta disso, num espinho cravado nas carnes, num agente perturbador da paz de espírito.

Como todos aqueles que um dia partiram do chão que os viu nascer, a minha firme intenção era regressar o mais rapidamente possível. Cinco anos? Dez anos? Já nem me recordo com precisão dos prazos então estabelecidos.

              Mas, como diz o ditado, o homem põe e Deus dispõe. E tortuosos são os caminhos da vida. Imprevistamente, estas terras alheias, onde nos nasceram e  cresceram os filhos, começam, num impreciso e decisivo momento, a ser também nossas e, quando nos apercebemos disso, é irremediavelmente tarde. Já então,  tal como cantou o Poeta, temos a alma pelo mundo em pedaços repartida e o sonho do REGRESSO, miragem cada vez mais esfumada e inalcançável, perde-se definitivamente nos insondáveis espaços míticos do imaginário colectivo da diáspora.  É um  enorme choque, acredita, esta constatação.

             Mas ninguém pode viver eternamente paredes meias com o desespero. Finalmente, após longa travessia do deserto, num belo dia de todas as graças, um subtil e poderoso mecanismo de sublimação põe-se lentamente em marcha. É então chegada a hora de, estoicamente, fazer das tripas coração e  agarrar agulha e linhas para remendar o rasgão que nos dilacera a alma .

 

(...)

Eu sei , meu amor, que nem chegaste a partir

Pois tudo em meu redor me diz

Que estás sempre comigo

(...)

           

            No meu caso pessoal, a mais balsâmica das respostas para as minhas apreensões e simultaneamente para a tua pergunta descobri-a na mensagem inconformista da letra deste fado. Como poderei regressar se nunca parti verdadeiramente de Portugal? Estás a compreender o paradoxo? Portugal, meu amigo, nunca deixou de estar incrustado no meu espírito, no decorrer da minha errância por este mundo além. Adivinho, sinto a sua presença constante no pulsar da carne,  no sussurro da memória, nos sobressaltos  dos sentidos, no latejar das emoções, na voz  da alma.

             Sim, podes crer, nunca cheguei a partir definitivamente de Portugal, ou talvez melhor, recorrendo a uma imagem mais convincente, quando parti trouxe Portugal comigo, na mala, para, companheiro indefectível,  me fazer companhia nas horas de solidão.

Então agora que vivemos esta espantosa revolução das comunicações que alterou drasticamente a geografia do mundo e que encurtou as distâncias físicas e afectivas, a minha convicção é cada vez mais profunda e sustentável. Basta chegar a casa e ligar a televisão ou o computador para que Portugal, como um deus omnipresente, como um génio da lâmpada, desperte e invada as mais recônditas fibras do meu corpo sempre pronto para ser lavrado e semeado pelas forças telúricas que tutelam a minha existência.

            Será pois despropositado falar de regresso. Não queiras ser, com a tua pergunta dilacerante, uma das velhas da praia...da minha vida. Para quê subverter um equilíbrio tão penosamente conquistado?

(...)

Dentro do meu peito

Estás sempre comigo.

(...)

 

Compreendes agora por que razão gosto de fado? E por que , entre todos, o meu predilecto seja o Barco Negro da Amália?

Como sempre que me é possível, aí estarei este verão em Portugal para mais um cíclico regresso às origens e aos prados floridos da infância. Até lá, recebe um grande abraço deste  teu amigo

 

http://manuelcarvalho.8m.com

                                                   Amália canta:

                               

 

 

              BARCO NEGRO

 

 

Poema: David Mourão-Ferreira 

Música: Piratini; Caco Velho 

 

De manhã, que medo
Que me achasses feia!
Acordei, tremendo,
Deitada na areia...
Mas logo os teus olhos
Disseram que não:
E o sol penetrou
No meu coração.

 

Vi depois numa rocha uma cruz,
E o teu barco negro
Dançava na luz...
Vi teu braço acenando,
Entre as velas já soltas...
Dizem as velhas da praia que não voltas.
São loucas!
São loucas!

 

                   Eu sei, meu amor:
                   Que nem chegaste a partir,
                   Pois tudo, em meu redor,
                   Me diz que estás sempre comigo.

 

                   No vento que lança
                   Areia nos vidros;
                   Na água que canta;
                   No fogo mortiço;
                   No calor do leito;
                   Nos bancos vazios;
                   Dentro do meu peito
                   Estás sempre comigo

  

 


música: Barco Negro por Amália

publicado por Apontamentos Amalianos às 19:00
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2 comentários:
De Domingos a 23 de Setembro de 2007 às 16:20
Resposta (minha) a uma carta para Portugal:
Estimado Manuel de Carvalho,
Notam-se em seus tons os tons todos de quem se sente ausentado.
Nota-se na sua escrita os matizes todos de uma saudade mitigada com uma esperança de Verão.
No seu amor ao fado e apego a paradoxos desta vida se lhe notam, afinal, uma condição humana, viva e actuante de quem sabe que gritar não faz mal nenhum.


De Josué Antunes a 23 de Setembro de 2007 às 23:16
Vitor
Você não pára, já nos deu esse grande poeta declamador Euclides Cavaco e agora este nosso compatriota, com esta carta fabulosa.
è pena que não haja mais portugueses emigrados a colaborar.
Pois você dá-nos a nós que cá estamos (essência de Portugal) lá fora a fragância deve ser, ou deveria, mais intensa.
Muito bem deleniado o seu blog que quase vejo desde o inicio, mas só hoje lhe escrevi, para lhe dizer. Obrigado
josueantunes@gmail.com


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