Segunda-feira, 26 de Maio de 2014

HENRIQUE REGO

Poeta popular, nasceu e morreu em Lisboa (1885-1963).

Cantador na juventude, foi na poesia que se celebrizou, abordando temas bucólicos e líricos, tendo legado uma vasta obra, com versos de gran­de perfeição.

Fez parte dos concílios poéticos muito na moda na época.

Foi quem mais versos escreveu para Alfredo Marceneiro

Alfredo Marceneiro tinha uma sensibilidade muito especial para escolher  os fados que cantava, e a partir de certa altura eram os poetas que o assediavam para que interpretasse os seus poemas.

Dos muitos poetas que para ele escreveram, Henrique Rêgo foi decerto o que mais admirou. Mas no início desta relação houve um episódio que Alfredo relembrava:

 

Henrique Rêgo afirmou certo dia num "concílio poético" de fado:

 

— Que os versos só tinham valor e eram sentidos, quando escritos ou recitados, mas que nunca poderia senti-los quem os cantasse.

 

Alfredo Marceneiro ao ouvir tal afirmação, discordou firmemente e solicitou ao guitarrista Henrique Simas que o acompanhasser, e cantou um fado da autoria de Henrique Rêgo, Amor de Mãe.

 

Este ao ouvir os seus versos cantados com tal sentimento e intuição, comovido disse:

 

— Isto define um cantador... retiro o que tinha dito

 

Deve ter sido a partir desta altura, que amizade de ambos mais se cimentou, Henrique Rêgo veio a ser seu compadre, pois fez questão de ser padrinho de baptismo da sua filha Aida.

Certo dia perguntaram-lhe a sua opinião sobre Alfredo Marceneiro, ao que ele respondeu em verso:

 

Como existe compadrio

Ente mim e «Marceneiro»,

O meu maior elogio

É dizer, abertamente,

Que este fadista afamado

Enebria toda a gente

Que gosta de ouvir o Fado!...

 

 © Vítor Duarte Marceneiro

 

Eis um resumo da produção desse grande poeta popular Henrique Rêgo, para o repertório de Alfredo Marceneiro.

 

" COLCHETES D´OIRO "

 

Toma lá colchetes d´oiro

Aperta o teu coletinho

Coração que é de nós dois

Deve andar aconchegadinho

 

" CABELO BRANCO"

 

Cabelo Branco é saudade

Da mocidade perdida

Às vezes não é da idade

São os desgostos da vida

 

" O LENÇO"

 

O lenço que me ofertaste

Tinha um coração no meio

Quando ao nosso amor faltaste

Eu fui-me ao lenço e rasguei-o

 

 "A MENINA DO MIRANTE "

 

Menina lá do mirante

Toda vestida de cassa

Deite-me vista saudosa

E um adeus da sua graça

 

 

" MOINHO DESMANTELADO"

 

Moinho desmantelado

Pelo tempo derroído

Tu representas a dor

Deste meu peito dorido

 

" AVÓZINHA "

 

Ainda me lembro bem

Dessas noites invernosas

Em que o vento sibilava

E das lendas amorosas

Que a minha avó que Deus tem

Junto á lareira me contava

 

" SINAS "

 

Já mandei ler tantas sinas

Na palma da minha mão

E todas elas constatam

Que as buliçosas meninas

Dos teus olhos é que são

As meninas que me matam

 

"AS FONTES DA MINHA ALDEIA"

 

As fontes da minha aldeia

Murmuram, gemem em coro,

E as águas que vão correndo

Levam consigo o meu choro

 

 

" OS VÉLHINHOS "

 

Sentado nos degraus

Musgosos d´uma Ermida

Dois velhos aldeões

Mortinhos de saudade

Com palavras de amor

Cândidas como as rosas

Lembravam com ternura

A morta mocidade

 

" O NATAL DO MOLEIRO "

 

Que noite de Natal, tristonha agreste

De neve amortalhava-se o caminho

E o vento sibilada do nordeste

Por entre as frinchas da porta do moinho

 

 

" TRÊS TABULETAS "

 

De ferro três tabuletas

Todas três numeros seguidos

Dizem eternas moradas

Desses três na morte unidos

" OH ÁGUIA "

 

Oh águia que vais tão alta

Num voar vertiginoso

Por essas serras d´além

Leva-me ao céu, onde tenho

A estrela da minha vida

A alma da minha mãe

  

" AMOR DE MÃE "

 

Há vários amores na vida

Lindos como o amor perfeito

Belos como a Vénus querida

De tantos que a vida tem

Só um adoro e respeito

É o santo amor de mãe

“ANTES QUE QUEIRA NÃO POSSO”

 

Antes que queira não posso

Deixar o fado é morrer

É ele o meu Padre-Nosso

Que eu vou rezando a sofrer

 

"CABARÉ"

 

Foi num cabaré de feira, ruidoso

Que uma vez ouvi cantar, comovido

Uma canção de rameira, sem ter gozo

Que depois me fez chorar, bem sentido

 

 " O BÊBADO PINTOR"

 

Encostado sem brio

Ao balcão da taberna

De nauseabunda cor

E tábua carcomida   

O bêbado pintor

A lápis desenhou      

O retrato fiel

Duma mulher perdida

"A LUCINDA CAMAREIRA"

 

A Lucinda Camareira

Era a moça mais ladina

Mais formosa e mais brejeira

Do Café da Marcelina

 

" FADO BAILADO "

           

À mercê dum vento brando

Bailam rosas nos vergéis

E as Marias vão bailando

Enquanto vários Manéis

Nos Harmónios vão tocando

 

 

“O CAMPONÊS E O PESCADOR”

 

Eu adoro do mar

As ondas imponentes

Que vão morrer á praia

Em finos rendilhados

 

Eu adoro a campina

A rústica montanha

Adoro enfim a Paz

Nostálgica dos prados

" O BAILADO DAS FOLHAS "

 

Foi numa pálida manhã de Outono

Soturna como a cela dum convento

Que num vetusto parque ao abandono

Dei largas ao meu louco pensamento

 

" O LOUCO"

 

Quiseste que eu fosse louco

Para que te amasse melhor

Mas amaste-me tão pouco

Que eu fiquei louco de amor

 

"TRICANA"

 

Não sabes Tricana linda

Porque chora quando canta

O rouxinol no choupal

É porque ele chora ainda

P´la Rainha mais Santa

Das Santas de Portugal

“QUADRAS SOLTAS”

 

Junto ao Moinho cantando

Lavam roupa as lavadeiras

Os patos brincam nadando

Arrulham pombos nas eiras

 

Nota: Todos estes poemas forma cantados e gravados por Alfredo Marceneiro, com músicas da sua autoria.

 

 

 

Contacto com o autor: clicando aqui
Viva Lisboa: Grande Poeta "Popular"
música: Amor de Mãe
publicado por Vítor Marceneiro às 00:00
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5 comentários:
De N. Almeida Coelho a 13 de Outubro de 2007 às 12:26
O registo destas histórias é essencial para uma Grande História do Fado. Esta pequena história remata todo um percurso fadista.
A importância que para o fado tinha não só a palavra - e daí ser importante dizê-la bem - como a forma como se dizia ou melhor a forma como se interpretava todo o verso.
Refira-se que Rêgo era uma poeta da escola tardo-romântica e não o que se designaria de "poeta pooular" e que, em minha opinião, os seus melhores versos são os interpretados por Marceneiro.
De Vítor Marceneiro a 13 de Outubro de 2007 às 21:24
Amigo Almeida Coelho
Mais uma vez a sua colaboração dá um toque especial ao artigo.
Obrigado
Colabore sempre que possa.
Um abraço
Vítor Marceneiro
De m_l_castanheira@hotmail.com a 19 de Outubro de 2007 às 00:47
Não é a primeira vez, nem será a última em que elogio um texto seu, mas de facto coloca sempre uma perspectiva de interesse e diferente.

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