Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

HERMINIA SILVA - CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO

 LEMBRAR A GRANDE

HERMINIA SILVA

NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO

23 de Outubro de 2007

Há cem anos nasceu um das maiores estrelas do nosso panorama artístico:

HERMÍNIA SILVA.

Autêntica, igual a si própria, fruto da sua vivência, revela uma subtileza interpretativa e de fino recorte vocal. A sua voz parece uma cascata de água fresca. Nunca ninguém tentou  imitá-la, ou sequer aproximar-se do seu estilo.

A sua capacidade de criar melodias dentro da melodia tornaram-na única, e de tal forma extraordinária que, se foi grande entre nós, sê-lo-ia em qualquer outra parte do mundo. Hermínia tinha uma capacidade inultrapassável de improviso, tanto a cantar como no teatro onde foi aclamada pelas plateias. O público adorava-a, escreveram os jornais que a adorava até ao fanatismo.

Hermínia foi essencialmente uma criativa! Criava sempre algo de novo em cada fado que cantava mesmo que o cantasse todas as noites e que todos o conhecêssemos.

N.L.

BIOGRAFIA

 

Hermínia Silva nasceu às 18 horas do dia 23 de Outubro de 1907, no Hospital de São José, freguesia do Socorro, era filha de Josefina Augusta, que morava à data do parto na Rua do Benformoso, 153, no 1.º andar, freguesia dos Anjos, em Lisboa. (1)

 

(1) Conforme Acento de Nascimento n.º 704, do ano de 1907, na 8.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa.

Sua mãe, chamava-se Josefina Augusta, era natural de Samora Correia. Teve uma irmã mais velha que tinha o nome de Emília e um irmão que se chamou Artur Moreira.

 

É com palavras da própria Hermínia, com a sua simplicidade, a sua graça no jeito tão pitoresco que ela tinha a exprimir­‑se, que aqui se transcreve parte da sua biografia:

Julgo que nasci numa casa ali para os lados do Campo de Santana (2), numa travessa, cujo nome não recordo, e não recordo porque saí de lá apenas com oito meses. A verdade é que não tenho quaisquer recordações do tempo que mediou entre o meu nascimento e a idade escolar, mas creio que fui uma criança absolutamente normal, com todas as gracinhas, «perrices» e evoluções que são comuns a todas as crianças normais.

No entanto, recordo que me con­taram que quando tinha oito meses caí da varanda à rua. Mas eu explico como isso foi e como é possível eu ainda aqui estar a falar sobre a minha infância.

Ora, na casa onde nasci, havia uma va­randa, na qual eu brincava habitualmente, que, por segurança, estava protegida por uma rede. Porém, um dia, por qualquer razão, que ignoro, alguém tirou a rede e eu, na minha «gatinhice», enfiei pelas grades e fiz um «voo pi­cado» até à rua… bom, até à rua não, porque tive a sorte de cair na giga de uma mulher que vendia hortaliça e que, providencial­mente, passava nessa al­tura debaixo da varanda.

Logo um senhor, que passava por ali na ocasião, agarrou em mim e levou­‑me para o Hospital. Cheguei lá e... pasmem, verificaram que não tinha nem uma beliscadura. E eu, muito sossegadinha, não chorava nem nada.

Deram­‑me, depois, lá no Hospital, uma colher de cerveja preta e trouxeram­‑me finalmente de volta a casa, onde todos se encontravam mui­to aflitos,... Mas cair de um segundo andar à rua, apenas com oito meses, e nada sofrer, hem?! Ao menino e ao borracho…

Este é, segundo julgo, o único episódio fora do vulgar da minha infância, já que não tenho ideia ouvir falar em mais nada.

Como consequência dessa queda da janela à rua, veio uma mudança de resi­dência. Minha mãe, impressionada com o acidente, não quis continuar naquela casa e, assim, mudámo­‑nos para o Castelo.

(2) Hermínia faz esta afirmação sobre o seu nascimento em entrevista ao jornal Trovas de Portugal, de 30 Julho de 1933, onde, na página seis, Hermínia escreve pela pena do jornalista: — Sou de Lisboa, freguesia do Socorro, e criei­‑me no Castelo de S. Jorge!

No Álbum da Canção, datado de 1965, fala do local do seu nascimento, mas sem muita clareza: — nasci numa travessa da qual não me lembro o nome, ali ao “Campo de Santana”.

Em 1980, quando da festa da entrega da Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa, Hermínia Silva é entrevistada para a RTP e diz que nasceu na «Rua das Flores» que ficava junto à Travessa Conde de Avintes, e que era perto do local onde morava o Armandinho. Ora este local situa­‑se na freguesia de S. Vicente de Fora e há lá uma Travessa das Flores e não Rua das Flores.

 

Desde que me entendo que gostei de cantar. E o fado, cantava­‑o a todo o mo­mento, e por toda a parte: na rua, em casa, na escola, desde que aos seis anos comecei a frequentar a escola, que ficava ali na Rua da Madalena, mesmo em frente da igreja.

Ora lá na escola, por vezes, havia umas festas nas quais tomavam parte algumas meninas que sabiam cantar. Eu deixava­‑me ficar muito caladinha quanto aos meus «méritos», pois tinha vergonha de os reve­lar. Até que um dia, quando se preparava uma dessas festas, uma das minhas colegas dirigiu-se à mestra e, apontando-me, revelou:

— Minha Senhora, esta menina canta muito bem!

Claro está que a professora quis, imediatamente, avaliar as minhas possibilidades e mandou-me cantar uma música que eu soubesse bem. E eu «desatei» logo a cantar um fado, daqueles bem fadistas.

A professora ao ouvir-me cantar o fado levou as mãos à cabeça e, fazendo um gesto negativo, declarou:

—  Ai. Esta menina! Não… Fado não!

Depois, talvez por ver a decepção estampada na minha cara, incitou-me a cantar outra «moda» que eu soubesse. Cantei, ou melhor, comecei a cantar uma canção que sabia também, mas o pior é que mesmo a canção, na forma como eu cantava e na minha voz, soava como fado. E, de novo, a senhora me interrompeu, repetindo, um tanto ou quanto escandalizada:

—  Não, fado não… Esta menina não pode cantar na festa! As meninas não cantam fado!

Escusado será dizer que fiquei com uma grande «pinha», pois cantar já era para mim uma paixão.

E começava também já a despontar em mim o desejo de representar. E chorei que me fartei.

Mas a vida continuou e eu sempre cada vez mais possuída por aquela verdadeira paixão que era para mim o cantar. E sempre que podia lá estava eu de «boca aberta» quer fosse em casa, quer fosse nas casas de pessoas amigas que me convidavam, de vez em quando, a cantar um «fadinho», quer fosse em festas particulares, onde me chamavam de propósito para eu «botar» cantiga, porque achavam que eu tinha «jeitinho».E eu ia sempre cantando e sempre a pensar no Teatro, pois nesse tempo não havia casas típicas e eu para as tabernas não ia… claro que não ia.

Até que um dia…

Estava eu em casa da minha irmã Emília (3), que morava ali em Entre Muros do Mirante, quando casualmente passou o Armandi­nho, que morava para aqueles lados e me ouviu cantar. Ou melhor, ouviu uma voz, vinda da­quele prédio. Então, subiu as escadas, bateu a porta e perguntou à minha imã, que foi quem abriu:

—  Não é aqui que está uma pequena a cantar?

—  É, é. É a minha irmã — re­plicou.

—  Que idade tem ela?

—  Olhe, tem doze anos.

—  Chame­‑a lá, faz favor — vol­veu Armandinho, cada vez mais interessado.

A minha irmã, que sabia o quanto eu era acanhada, volveu:

—  Ai, ela não vem.

—  Chame­‑a lá — insistiu o grande Armandinho. — Olhe que ela tem uma bonita voz. Uma voz muito engraçada. Ora cha­me­‑a lá. Que eu arranjo já um contrato para ela ir gravar um disco ao «Valentim de Carvalho».

A minha irmã sorriu, pouco convencida, e explicou a Armandinho:

—  Ai, ela não vai. A minha mãe não deixa.

Porém, o famoso guitarrista não se deixou con­vencer com aquela primeira negativa da minha irmã.

(3) Hermínia refere que a irmã vivia ali «Entre Muros do Mirante», à Graça, e provavelmente passava por este local quando ia para casa da irmã. Quanto à sua alusão a Rua das Flores, e como já acima referi, será lógico ser Travessa das Flores, que fica na freguesia de S. Vicente de Fora.

 

Gostara, sinceramente, da minha voz, da ma­neira como eu interpretava o fado e não estava disposto a desistir assim às primeiras. E então pediu licença para entrar, para falar directamente comigo.

Escusado será dizer que eu, que estivera a ou­vir toda a conversa, apareci nesse instante e, então, Armandinho dirigiu­‑se­‑me:

—  Então, não quer vir cantar?

Eu claro que queria cantar, já que cantar era, pode dizer­‑se, a mi­nha vida.

Mas a verdade é que fi­quei muda e o malogrado artista prosseguiu:

—  Ora vá, venha gravar um disco. Olhe, nós agora até vamos a Berlim, com o Menano e a Ercília Costa, e a menina também podia ir.

Talvez por julgar que me encon­trava a sonhar, a verdade é que per­maneci muda como um penedo, enquanto o meu interlocutor, certamente para me entusiasmar, ia pros­seguindo, tentador:

—  Vá, venha que faz um «vistaço». Venha lá gravar um disco. Então não quer ir connosco cantar? Então não quer ir para o Teatro?

É claro que, se eu tinha imensa vontade de ir para o Tea­tro, naquela altura, ainda fiquei com mais. Mas não fui. Não fui com o Armandinho. Sim, não ia assim para Berlim. De maneira nenhuma...

Mas as coisas da vida nem sempre cor­rem à medida dos nossos desejos, e o mundo dá muitas voltas.

Chegou a altura em que tive necessidade de ir aprender um ofício e empreguei­‑me como aprendiza de modista. No en­tanto, o meu pensamento estava sem­pre no Teatro e no Fado. E continuei a cantar, quer pelos bailaricos, quer em festas particulares, para as quais estava sempre a ser chamada. E eu ia sempre, pois o que eu queria era cantar…

 

EU, QUE NÃO SOU NADA DRAMÁ­TICA,

FUI AMADORA DRAMÁTICA

 

Em 1925, sempre norteada pelo grande amor que dedicava ao Teatro, inscrevi­‑me como ama­dora dramática no «Grupo dos Leais Amigos», ali ao pé da igreja de S. Vicente. O que eu queria era representar e tanto assim que representei coi­sas dramáticas, eu que não sou nada dramática... Mas tal era a fúria de ser artista... que tudo me servia.

Em 1926, representei e cantei no antigo Teatro Gil Vicente, à Graça. Foi ali que, certo dia, apareceu um senhor que era escritor, Artur Vítor Machado de seu nome. Esse senhor levou­‑me à presença do pai, o maestro A. Júlio Machado, que era empresário, e foi logo assim, que ainda nesse ano me levou numa tournée à província.

Era tal a minha gana de vencer, que me comportei de tal modo que, no início desse giro artís­tico, o meu nome figurava nos cartazes em último lugar e quando regressámos eu era já a primeira figura.

Terminada essa tournée que foi, pode dizer­­‑se, o início da minha carreira como profissional, fui trabalhar para um cinema, ali à Esperança, o «Malacaio». O contrato por oito dias que me fizeram era para cantar fados no final da exibição dos filmes.

Mas a verdade é que o público me dispensou tantas gentilezas, me acolheu e adoptou com tanta e tão grande simpatia, que esses oito dias se transfor­maram, quase sem que déssemos por isso, em dois anos.
É verdade: durante dois anos consecutivos actuei no «Malacaio» em final de festa. E sempre com o pleno agrado do público frequentador da­quele cinema que não me regateou o seu apoio e os seus aplausos. Ainda hoje conservo no coração a simpatia daquele pú­blico. Foi Rui Metelo, um empresário muito co­nhecido na época, que me proporcionou esse contrato.

 

O PARQUE MAYER

 

Quando finalmente deixei de cantar no «Malacaio», fui para o Parque Mayer. Ali os estabelecimentos de far­turas tinham, ao tempo, grande clientela, estavam em voga. Ali se cantava o fado. Pode dizer­‑se que essas casas foram as percursoras das casas típicas que hoje conhecemos.

Ora, quando fui para o Parque Mayer, era contratada pelo «Valente das Farturas». Este contrato, tal como acontecera com o cinema da Esperança, era por oito dias. Mas tal como aconteceu no «Malacaio», esses oito dias prolongaram­‑se por mais dois anos.

Nessa altura, eram frequentadores assíduos no «Valente das Farturas» a grande maioria dos artistas de então, que trabalhavam nos Teatros do Parque Mayer. Muitos deles já iam lá especialmente para me ouvirem, pois gostavam da minha maneira de cantar. O meu salário então já era de cinquenta e cinco escudos diários, o que para o tempo era um grande cachet, mesmo tendo em consideração que chegava a ter seis sessões diárias.

Entre os muitos artistas que fre­quentavam assidua­mente o «Valente das Farturas», que se tornara o palco onde eu dava livre curso ao meu íntimo desejo de cantar, contavam­‑se dois artistas de grande cartel na época, que trabalhavam no Teatro Maria Vitória, que eram o Alberto Ghira e a Hortense Luz, e certo dia vieram falaram comigo, convidando­‑me a ir para o teatro. Mas eu ganhava ali muito bem, embora o teatro fosse a minha grande paixão, eu não ia trocar o certo pelo duvidoso. Foi, pois, embora contrariada, que lhes disse que não acei­tava.

O Alberto Ghira ainda voltou a insistir, mas continuei a recusar, com o mesmo fundamento de que me sentia ali bem e ganhava uma pequena fortuna, mas disse logo que no dia em que deixar de trabalhar aqui irei para o Teatro, se ainda me quiserem lá.

E, assim, se gorou a primeira grande oportuni­dade­ para eu entrar para o Teatro de Revista e dele fazer o centro da minha actividade artística.

Como já tive oportunidade de frisar, também no «Valente das Farturas», tal como acontecera, ante­riormente, no Cinema em que actuei em fim de festa, mantive­‑me dois anos consecutivos, merecendo sempre, devo reconhecê­‑lo, o carinho do público, que aliás eu fazia por manter, dando tudo quanto tinha dentro de mim, sempre que cantava, o que acontecia, como também já disse, muitas vezes em cada dia.

Mas certo dia tive mesmo que parar de cantar, porque tive uma grande constipação nas cordas vocais que me pôs bastante «à rasca», durante mais de um ano. Foi com imensa tristeza, pois como já sabem, o cantar era o maior gosto da minha vida, e além disso tinha passado a ser a minha fonte de subsistência (4).

 

(4) Estava­‑se em finais de 1926 e Hermínia estava grá­vida; seu filho Mário Silva vem a nascer em 9 de Abril de 1927.

Grande constipação..!, Herminia não fala da sua gravidez nesta altura, pois tem que manter a "credibilidade" da idade que diz que tem e que a sua figura muito miúda aparenta.  Em 1926 tem dezanove anos, mas afirma que tem 15, esta diferença com os anos passa para menos 7 anos, por isto toda a gente fazia as contas e julgava que ela tinha nascido em 1913.

 

POR FIM O TEATRO DE REVISTA

 

Quando, finalmente, recuperei da doença, roidinha de sau­dades de cantar e do contacto com o meu querido público, que sempre me acarinhara, fui trabalhar para uma Sociedade de Recreio que, se não estou em erro, era o «Comando-Geral». Foi aí que, certo dia, o co­nhecido empresário Ma­cedo e Brito me abor­dou, dizendo­‑me que, conhecendo o meu valor achava que eu devia voltar era a cantar. Prometeu­‑me que me ia arranjar uma entrevista com o empresário de teatro António de Macedo.

Passados poucos dias confirmou­‑me a marcação da entrevista; fiquei entusiasmada, não podia perder esta nova oportunidade de ingressar no Teatro, que era o sonho doirado da minha vida, e logo fui falar com o António Macedo, que me contratou imediatamente, para actuar em fim de festa, cantando fados — claro está — na opereta «Fonte Santa» (1932).

O público voltou a corresponder inteiramente, aplaudindo­‑me com simpatia, e foi graças a esse mesmo público que, logo de seguida, fui contratada para fazer uma revista, que se intitulava Feijão­‑Frade (1933), que era um original de Xavier de Magalhães, Almeida Amaral e Fernando Santos. E esta foi a primeira revista em que eu entrei.

Foram assim na realidade os meus primeiros passos a sério com o teatro de revista, e a verdade é que, sem vai­dade, fiz um autêntico brilharete.

De então para cá tomei parte em inúmeras revistas, assim como numas quantas operetas, e até em peças declamadas.

A minha carreira continuou, felizmente, com grandes êxitos, que, certamente, eu não merecia, mas o público me quis oferecer.

Também actuei nos estúdios da RTP, a última vez foi num dos episódios da série Os Três Saloios, protagonizada por Raul Solnado, Humberto Madeira e Emílio Correia, três valores do nosso teatro ligeiro.
E devo confessar que gostei.

Tive, ao longo da minha carreira, como é natural, muitas e variadas pro­postas para ir ao estrangeiro, mas como sou multo «pegada» a isto.

Tenho muita relutân­cia em sair de Portugal, eu ainda nem sequer visitei as províncias ultramarinas, apesar dos muitos convites que para o efeito me têm endere­çado e do grande desejo que te­nho de as conhecer.

—  Fui ao Brasil, onde me demorei o menos tempo possível, aos Açores e à Madeira, onde fiz uma curta série de espectáculos.

Herminia Silva desde a sua estreia em 1932, participou em 13 operetas, 37 revistas, 2 peças declamadas e ainda em 5 filme e vários programas de televisão.

 

Conclusão do autor:

 

Hermínia, sem sombra de dúvidas, nasceu a 23 de Outubro de 1907, no Hospital de S. José, freguesia do Socorro, em Lisboa.

 

O episódio que contou sobre ter caído da janela à rua refere­‑se decerto à rua onde sua mãe morava quando do seu nascimento, Rua do Benformoso, 53, 1.º, freguesia dos Anjos, em Lisboa.

 

Tudo leva a crer que sua irmã morava na Travessa das Flores, freguesia de S. Vicente de Fora, em Lisboa, enqua­drando­‑se assim com toda a lógica o episódio em que conta como o guitarrista Armandinho a ouviu cantar.

 

© Vítor Duarte Marceneiro

Autorizada a utilização desde que seja mencionada a autoria.

Herminia Silva canta:

Fado da Sina

"Filme o Ribatejo     

Letra de Amadeu do Vale e Música de Jaime Mendes

Excerto  de um texto da autoria de Daniel Gouveia, para a reedição de discos de Herminia Silva em CD, para a Casa Valentim de Carvalho

 

 .....Especializou-se, mesmo, no fado jocoso, género que com ela voltou ao galarim dos discos mais vendidos e mais ouvidos radiofonicamente. E especializou-se em fados de tema militar, alguns resultantes das personagens que, travestindo-se, interpretava em cena: Marinheiro Americano, Lá na Caserna (faixa #), Soldado do Fado (faixa #), Marujo de Lisboa e até celebrou em fado um navio da Armada, o Gonçalo Velho.

Fez, com acolhimentos de grande emulação, a ronda das comunidades de emigrantes, por França, Brasil, Estados Unidos e Canadá.

Com Marceneiro no Solar

Em 1958, usou do lugar comum de abrir a sua própria casa de Fado, que manteve até se retirar, em 1982. Mas não era tão comum como isso. Por um lado, porque não teve uma, mas duas casas, sendo a outra em Benavente, o «Barrete Verde». Por outro porque, na de Lisboa, em pleno Bairro Alto, em vez da consabida guitarra-tabuleta à porta, a fachada era austera como a de um banco, apenas o seu nome próprio em letras sóbrias, iluminadas em contra-luz. Lá dentro ouvia-se apenas Fado, sem concessões ao turista. Pelas mesas podia ver-se o Conde de Sobral e outros assíduos que a veneravam, alguns colegas que, nas folgas, iam ver a Hermínia. Porque ouvi-la não chegava. Vê-la era poder sentir uma comunicabilidade que emanava do seu sorriso gozão, de olhinhos piscos; do seu ajeitar de xaile, com um trejeito de ombros e sacudir de cabeça peculiares; das suas confissões de «estar à rasca»; do seu aceno de mão no ar, sublinhando um final mais glorioso; do «puxar» pelos guitarristas com o seu proverbial «Anda, Pacheco!» ou lhes pedir que o acompanhamento fosse «mais picadinho».

A sua voz, ora arrastada, ora sacudida, envolvente nos graves e capaz de gorgeios deliciosos nos agudos era de uma originalidade tão pessoal que, tendo marcado estilo, não fez escola. Pela simples razão de que ninguém, até hoje, foi capaz de a imitar. Ao contrário de outros grandes vultos do Fado que sempre deixam, no seu rasto, mais ou menos velados seguidores dos maneirismos vocais, as «voltinhas» da Hermínia são impossíveis de repetir.

Teve o reconhecimento oficial da Câmara Municipal de Lisboa, que a condecorou em 1980 com a Medalha de Ouro da Cidade. Desapareceu fisicamente no dia mais carismático da sua cidade, o de Santo António, 13 de Junho de 1993. Fica a sua voz inconfundível, a cintilar entre as maiores que o Fado de Lisboa conheceu.

 

O registo mais antigo que foi possível recuperar para esta antologia, Sou Miúda (faixa 1), mostra-nos uma Hermínia ainda sob a influência do estilo com que o fado era cantado por mulheres na década de 1920, personificado por Madalena de Melo, Ermelinda Vitória e, talvez a mais marcante de todas, Maria Alice. Não admira: os primeiros discos de 78 rotações divulgavam, através da telefonia (porque só gente abastada possuía grafonola) esse gosto dominante, o que só dá maior mérito a quem conseguiu romper com ele e dar um passo em frente. Hermínia deu esse passo, com voz e personalidade interpretativa muito próprias, afirmadas na faixa seguinte, Fado das Toiradas. Já sem imitar ninguém e introduzindo a originalidade de trautear em murmúrio (os amantes de fado que o são também de ópera diriam «a bocca chiusa») o refrão musical, mais tarde transformados nos famosos tròlarós que só ela se permitiu (faixas  e   ).

Entramos na fase Parque Mayer com Lisboa Antiga, criação de Hermínia na revista «Pirilau», estreada no Teatro Variedades em 1932 e daí ecoando até aos nossos dias sem nada lhe dimimuir o encanto.

Fado Ribatejano pertence ao filme «Um Homem do Ribatejo», onde Hermínia, no papel de uma cigana, o canta nostalgicamente em pleno campo, junto à sua tenda, no acampamento, de mistura com cenas agrícolas, de lavadeiras, campinos,  manadas de toiros correndo, ao gosto do cinema português da época.

Nova Tendinha (faixa  ) é um aparente anacronismo nesta sequência, pois foi obviamente posterior à Tendinha (faixa  ). Só que o critério seguido é cronológico em relação às gravações e esta é de 1958, enquanto que a da Tendinha é de 1975. Um soberbo exemplo do domínio da dicção, numa letra trabalhosa de debitar, com soluções discutíveis como a do «tão pouqu' ispaço», mas um saldo final de incontestável brilhantismo.

Quis Deus que eu fosse fadista apresenta-nos uma letra originalíssima, encadeando por repetição as últimas palavras de cada verso com as primeiras do seguinte, efeito que não voltou a ser tentado pelos letristas, tendo este, infelizmente, ficado ignorado pelos registos.

Touro de Vila Franca representa o exagero em que os letristas podem cair ao querer explorar as capacidades de fadistas excepcionais. O que se exigiu de Hermínia em acrobacia articulatória resulta aqui forçado mas, mesmo assim, demonstrativo das capacidades da artista.

Fado Recordado ? (jogando o pião...) é um portento de letra, de Carlos Alberto França, retomada mais tarde por outros fadistas, mas nunca com o cunho intimista e evocativo dado por Hermínia.

Rosa Engeitada serve, como poucos exemplos, para explicar o que são interpretações diferentes dos mesmos fados. Tomemos a versão de Maria Teresa de Noronha e a de Hermínia. Com equivalente qualidade, que diferença entre as sonoridades cuidadas, senhoris, e a autenticidade popular de outra. O pranto contido, superiormente tratado, sim, mas como exercício poético, de Maria Teresa de Noronha, e o grito derramado aos quatro ventos, a narração de uma história que também se podia ter passado consigo de Hermínia Silva. E nestas comparações não esqueçamos, por dever de justiça, outra interpretação de superior cunho popular, a de Fernanda Maria.

O Fado da Sina é também do filme «Um Homem do Ribatejo»,

Soldado do Fado é um exemplo do génio de Hermínia para transformar uma letra difícil num fado agradável de ouvir, transmitindo-lhe todo o casticismo independentemente de não se tratar de um fado clássico. O seu talento arrasa os cânones e vai ao ponto de inverter a acentuação, colocando a tónica nas sílabas átonas, para daí extraír um balanço saltado e vivo, assente no contra-tempo, o que não é contratempo nenhum, antes fonte de prazer auditivo.

A Tendinha foi estreada no Teatro Apolo, por Herminia, em 1935, na revista «Zé dos Pacatos».

Daniel Gouveia

 

 

                    

 

Hermínia canta "Mãos Sujas" com letra de Frederico de Brito e Música de Frederico Valério

num programa de Televisão nos anos sessenta.

Este número foi estreado por Herminia na Revista Chuva de Mulheres em 1937

Um texo da autoria do Dr. Luis de Castro, fundador do APAF

Dizer que Hermínia era única é cair num lugar comum. Mas nunca ninguém tentou imitá-la, ou sequer aproximar-se do seu estilo. Hermínia era autêntica, igual a ela própria, fruto da sua vivência. Tal a destacou de outros nomes do seu meio.

Hermínia tinha uma capacidade inultrapassável de improviso, tanto no canto como no teatro onde, como popularmente se chama “metia buchas” que fortaleciam o seu elo de ligação com o público que a adorava.

No teatro Hermínia era além de fadista, era actriz. Uma figura meã conseguia encher o palco de talento e graça. Para a posteridade ficaram alguns filmes da década de 1940 onde contracena com nomes como António Silva e Beatriz Costa, entre outros. Nessas películas irradia a sua graça natural e talento.

Hermínia Silva foi de facto uma extraordinária figura do espectáculo e sê-lo-ia em qualquer outra parte no mundo. Mesmo as suas últimas actuações na televisão imanavam uma enorme energia e vontade criativa. Criava sempre algo de novo em cada fado que cantava mesmo que o cantasse todas as noites e que todos o conhecêssemos, porque foram muitos os seus êxitos: “Marinheiro”, “Reza-te a sina”, “É tão fresca a melancia”, “Roja enjeitada”, “Fado das iscas” ou “Tendinha”. Cada vez que Hermínia cantava, criava e conhecíamos uma nova sensação ao ouvi-la.

Conheci Hermínia Silva em 1948 quando foi actuar a um lar de idosos no Parque do Bonfim, em Setúbal. Só a sua presença – já uma aclamada vedeta – foi acolhida com grande entusiasmo. Hermínia preencheu toda a noite fadista com a sua forma única de cantar que desde logo me cativou. Tornei-me seu admirador, acompanhando o seu percurso, indo escutá-la sempre que podia, designadamente nas populares verbenas e colectividades de recreio, onde actuava ao lado de outros nomes fadistas.

Tornei-me mais próximo da fadista quando esta abriu o seu Solar, na Rua da Misericórdia, em Lisboa, em meados da década de 1950. Aí, Hermínia estava de facto em sua casa. Recebia-nos sempre com um sorriso nos lábios, sempre simpática e atenta. Quando actuava Hermínia imprimia o sentimento próprio daquilo que cantava. Tudo que Hermínia cantava era fado. Cantasse sambas ou canções, na sua voz e na entoação que dava, aquilo era fado. Este será talvez o maior elogio que se pode fazer a uma fadista, alguém que, pela sua maneira intrínseca e única de estilar, torne tudo o que cante fado. Sentirmos fado, independentemente da melodia original, e Hermínia tinha esse dom.

Luis de Castro (APAF)

Livro Recordar Hermínia Silva

Livro biográfico "Recordar Hermínia Silva"

Edição de Autor Vítor Duarte Marceneiro

A vida de Hermínia, fotos, reportagens e as letras do seu repertório

Formato 16 X 21 com 232 páginas

Práticamente esgotado, ainda há alguns exemplares na loja do Museu do Fado

Contacto com o autor: clicando aqui
Viva Lisboa: Á memória de Hermínia
música: Mãos Sujas Video Clip - Fado da Sina cantado
publicado por Vítor Marceneiro às 08:43
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6 comentários:
De Flores de Verde Pino a 23 de Outubro de 2007 às 12:07
Magnífica homenagem a uma grande mulher e fadista! Extraordinário o trabalho aqui desenvolvido que reflecte uma investigação atenta e séria. Todos reconhecemos os múltiplos talentos de Vítor Duarte Marceneiro, mas nunca é demais sublinhá-los e felicitá-lo!
HERMÍNIA foi de facto inexcedível como alguém aqui escreveu e tão grande que não coube no filme do Saura !
Parabéns ao blogger e que nunca se esqueça a castiça alfacinha Hermínia!
De anónimo a 23 de Outubro de 2007 às 15:16
Dessa gostei! "Tão grande, a Hermínia, que nem coube no filme do Saura"... Chama-se a isto "dar a volta ao texto" e muito bem. (Ai, este meu cyber-namorado de que tanto me orgulho!....)
Mais uma vez, parabéns ao Vitor Marceneiro por este trabalho. Quem conheceu a nossa inesquecível Hermínia vai sp. lembrá-la com a saudade do que já foi e não volta... Outros tempos!
De Chico Fadista a 23 de Outubro de 2007 às 18:52


O verde pino de quem já tenho visto alguns comentários, gostando mais de uns que de outros, foi extremamente feliz ao lembrar que a grande Herminia não teve lugar no filme do Saura ( ou do embaixador Carlos do Carmo ? ). Na verdade o facto de a Herminia não ter figurado no filme, foi extremamente infeliz, dando até a entender que foi substituida pela D.Lucilia do Carmo. Não há duvida que a D. Lucilia marcou o fado pela sua voz e forma de interpretar, mas não faz parte do trio que quando se falar de fado terá de figurar constituido por Amália, Herminia e Marceneiro. Mas sobre o filme do Saura ainda muito se há-de escrever, porque o filme envergonha-nos a todos os que gostamos de fado.
Os meus parabéns ao verde pino e ao Vitor pela bela homenagem que presta à Herminia Silva. Eu penso que estes blogues deveriam provocar mais discussão sobre assuntos que interessam ao fado e deixarem por vezes assuntos e discussões menores que a nada levam, além de só traduzirem invejas e ciumes.
De José Alves a 24 de Outubro de 2007 às 19:49
Isto é o resumo do livro?
De Vítor Marceneiro a 24 de Outubro de 2007 às 20:47
Obrigado por ter lido o livro,
è na realidade um plágio ao meu próprio livro, aqui posso revelar as fontes.
O livro foi edição do autor (que fui eu) já está pago e já está esgotado, e Herminia não mais será esquecida, graças a este trabalho e por outros testemunhos, mas concordará que um livro é um documento para o futuro.
Foi um trabalho feito com muito amor, e para fazer justiça a essa grande Senhora, pena o meu amigo não ter falado nele (o livro) ou (dela) ao Sr. Carlos do Carmo e ao Sr. Saura.
Cumprimentos
O autor

De Manuel Faia a 25 de Outubro de 2007 às 01:35
Parabéns ao Vítor por todo este trabalho, mas porque é a primeira vez que vejo um texto do Dr. Luís de Castro.
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