Quinta-feira, 23 de Abril de 2015

Miguel Torga - Poemas sobre Lisboa

Adolfo Correia Rocha, São Martinho de Anta  ( adoptou o pseudónimo de Miguel Torga), nasceu  a  12 de Agosto de 1907,  no concelho de Sabrosa (Alto Douro), foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX.

Filho de gente humilde, trabalhadores do campo, frequentou brevemente o seminário.

Em 1920, com doze anos,   emigrou para o Brasil, para trabalhar na fazenda do tio, na cultura do café. O tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais, em Leopoldina. Distingue-se como um aluno dotado.

Em 1925 regressa a Portugal.

Em 1927 é fundada a revista Presença de que é um dos colaboradores desde o início.

Em 1928 entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro, "Ansiedade", de poesia.

É bastante crítico dapraxe e tradições académicas, e chama depreciativamente "farda" à capa e batina, mas ama a cidade de Coimbra. 

Em 1933 concluiu a formatura em Medicina, com apoio financeiro do tio do Brasil e exerceu no início, nas terras agrestes transmontanas, de onde era originário e que são pano de fundo da maior parte da sua obra.

Em 1939 fixa-se em Coimbra e exerce medicina, e é a partir desta cidade que escreve a rande maioria dos seus livros

 

A obra de Torga tem um carácter humanista,  criado nas serras transmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza, sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência, para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração,  (hinos aos deuses, não...os homens é que merecem, que se lhes cante:  a virtude/bichos que cavam no chão/actuam como parecem/sem um disfarce que os mude).

Para Miguel Torga  o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à natureza, como os trabalhadores rurais transmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras, e é com essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a natureza mau grado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, no ver de Torga fazem do homem, único ser digno de adoração.

Considerado por muitos como um avarento de trato difícil e carácter duro, foge dos meios das elites pedantes, mas dá consultas médicas gratuitas a gente pobre e é referido pelo povo como um homem de bom coração e de boa conversa. Foi o primeiro vencedor do Prémio Camões.

Miguel Toga faleceu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995

 

 

Anjos - Almirante Reis dia de nevoeiro

Auguarela de  Meste Real Bordalo

 

 

LISBOA

 

Poema de: Miguel Torga

 

A luz vinha devagar

Através do firmamento...

Vinha e ficava no ar,

Parada por um momento,

A ver a terra passar

No seu térreo movimento.

 

                                        Depois caía em toalha

                                        Sobre as dobras da cidade;

                                        Caía sobre a mortalha

                                        De ambições e de poalha,

                                        Quase com brutalidade.

 

O rio, ao lado, corria

A querer fugir do abraço:

Numa vela que se abria,

E onde um sorriso batia,

O mar já era um regaço.

 

                                          Mas a luz podia mais,

                                          Voava mais do que a vela;

                                          E o Tejo e os areais

                                          Tingiam-se dos sinais

                                          De uma doença amarela.

 

Ardia em brasa o Castelo,

Tinha febre o casario;

Cada vez mais nosso e belo,

O profeta do Restelo

Punha as sombras num navio...

 

                                           Nas casas da Mouraria,

                                           Doirada, a prostituição

                                           Era só melancolia;

                                           Só longínqua nostalgia

                                           De amor e navegação.

 

Os heróis verdes da História

Tinham tons de humanidade;

No bronze da sua glória

Avivava-se a memória

Do preço da eternidade.

 

                                           Nas ruas e avenidas,

                                           Enluaradas de espanto,

                                           Penavam, passavam vidas,

                                           Mas espectrais, diluídas

                                           Na cor maciça do encanto.

 

E a carne das cantarias,

Branca já de seu condão,

Desmaiava em anemias

De marítimas orgias

De um fado de perdição.

 

 

 


 

FADO

 

Poema de Miguel Torga

 

Tem cada povo o seu fado

Já talhado

No livro da natureza.

Um destino reservado,

De riqueza

Ou de pobreza,

Consoante o chão lavrado.

 

E nada pode mudar

A fatal condenação.

No solo que lhe calhar,

A humana vegetação

Tem de viver, vegetar,

A cantar

Ou a chorar

Às grades desta prisão.

 

                                              No livro da natureza.

                                              Um destino reservado,

                                              De riqueza

                                              Ou de pobreza,

                                              Consoante o chão lavrado.

 

                                              E nada pode mudar

                                              A fatal condenação.

                                              No solo que lhe calhar,

                                              A humana vegetação

                                              Tem de viver, vegetar,

                                              A cantar

                                             Ou a chorar

                                             Às grades desta prisão.

 

 

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