Sábado, 27 de Junho de 2015

Recordar o passado para viver o futuro - Serviço militar e Censura

Entrei para o serviço militar obrigatório, na Escola Prática de Cavalaria em Santarém  no dia 10 de Abril de 1967, devia ter entrado em 1966 mas pedi adiamento para acaber o curso.

Quando cheguei com os outros mancebos, foi-nos apresentado o nosso comandante de pelotão, o aspirante-miliciano João Coutinho.

Após os preâmbulos sobre o que seria o serviço militar, o então aspirante Coutinho, pergunta:

Disseram-me que temos entre nós um fadista, quem é?

Eu não respondi, já calculava que fosse comigo, pois entre os que assentaram praça, havia mais rapazes de Alcântara, que me conheciam, e deduzi que lhe tivessem dito algo sobre o meu avô.

Ele insiste.

Então,  ninguém se acusa? Não há um fulano que é fadista, ou familiar de fadistas.

Ao que eu respondo, familiar sou, mas fadista não, para se ser fadista tem que se ter uma série de predicados, que eu não tenho, sou sim,  filho e neto de fadistas, meu pai é o Alfredo Duarte Júnior, e meu avô Alfredo Marceneiro, tudo isto dito, com aquela impulsividade que me é característica.

Retorquiu o aspirante Coutinho.

É pá não te exaltes, só queria saber quem era, o familiar, porque Alfredo Marceneiro é uma lenda.

Logo no dia seguinte já fardados e após uma noite de grande farrobodó, é formado o pelotão e começa a chamada,  e eis que o Aspirante Coutinho, chama pelo Duarte, e após o meu – presente –  ele diz:  a partir de hoje passas a ser tratado por,  Alfredinho.

Iniciou-se uma amizade, que levou a que tivéssemos passado aquela recruta, sem grandes sacrifícios.

Conheci também e passou  a ser meu amigo e do Aspirante Coutinho, o Rui, que por ser de Alfama, foi apelidado de Rui-Alfama. 

E assim durante cerca de 40 meses de serviço militar, passei a ser tratado por “Alfredinho”.

Perguntarão os meus amigos, o que tem tudo isto a ver com o Fado?  Tem e muito, aliás “tudo isto é Fado”, senão vejamos:

É graças ao Fado, que escrevo este blog, que contribuiu para que passados estes 40 anos o  meu amigo João Coutinho, de quem eu nunca mais tinha tido notícias, após o final da recruta, pois ele foi logo mobilizado,  entre em contacto comigo através do blog. Fiquei deveras radiante e logo lhe enviei uma foto que guardava exposta na parede, de nós os dois em Santarém.

Falámos e recordámos velhos tempos, pusemos como se costuma dizer a escrita em dia.

Passados dias envia-me um livro que tinha escrito sobre Angola, e a guerra, que mais abaixo irei apresentar.

Pouco tempo logo após este contacto, estávamos perto do Natal de 2007, recebo um telefonema, mais ou menos nestes termos:

— É o Sr. Vítor Marceneiro, peço desculpa de estar a maçá-lo, mas fui ao Museu do Fado para saber de si, deram-me a morada da APAF (!), onde me desloquei e a Srª. Dª. Julieta é que me deu o seu contacto (?), eu sou o Rui-Alfama, que estive consigo na tropa em Santarém, lembra-se? Peço desculpa se o estou a maçar.

As lágrimas embargaram-me a voz e logo respondi, é pá vai chamar Senhor.....  a maçar-me?..... ( os..... é linguagem da nossa juventude), que saudades, então não me havia de me lembrar?.

Combinámos que eu iria a Lisboa logo no dia seguinte, para nos reencontrar-mos e nos abraçar-mos.

Assim foi, e lá estivemos a lembrar em amena cavaqueira,  o nosso passado comum, falei-lhe também que tinha sido contactado pelo Aspirante Coutinho.

E soube que ele tinha dado aquelas voltas todas, porque viu numa livraria o meu livro sobre o meu avô, e queria como prenda de Natal, que o mesmo fosse assinado por mim, e não tinha conhecimento deste blogue.

Passados dias o Rui-Alfama mandou-me duas fotos nossas e do Coutinho, tiradas quando da nossa recruta, que ele guarda no seu álbum de recordações.

Nota: O porquê dos ( pontos de interrogação):No Museu do Fado, ninguém tinha o meu contacto? Se não queriam dar o número de telefone, tudo bem, mas o e-mail não é confidencial. Depois dão a morada da APAF, e porque não o número de telefone?!

A APAF, como não tem sede própria, a morada é a do casal Dr. Luís de Castro e da Snrª Dª Julieta de Castro, sócios fundadores, ainda bem que deram o meu número, mas não seria natural que me contactassem? Eu até julgo que sou da direcção da APAF......

Não,  tudo isto é normal,  eu é que sou um grande complicado e tenho um grande mau feitio. 

Aconteceu que  eu não fui mobilizado, mas os horrores da guerra, não passaram ao lado, estava ciente do que se estava a passar, e num acidente que tive na especialidade, também em Santarém, tive que vir para o Hospital Militar, para ser operado e fui colocado no “Anexo” que estava situado na Rua de Artilharia Nº 1, e aí vi ao vivo, aquilo que até então tinha visto em fotos clandestinas — era o horror — são imagens que nunca mais me saem do pensamento. Houve também mortes de alguns militares que conheci naqueles cerca de quarenta meses.

Fui colocado no Regimento de Cavalaria 4 em Santa Margarida onde fiz muitas amizades e de que guardo grandes recordações, destaco o Lebre Pereira com quem mantenho contacto assíduo.

Passei à disponibilidade em finais de 1970.

 

                   

 

 


 

 

Texto extraído da badana da capa do livro.

JOÃO COUTINHO nasceu na República Democrática do Congo, a 6 de Abril de 1944.

 

Durante o período de 1967 a 1969 foi oficial miliciano, em Angola.

Em Setembro de 1975, parte definitivamente de Angola, todavia a imagem telúrica elos "verdes elo mato", simbólicos da força regenerativa deste continente, perduraram a sua memória..

Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade ele Lisboa, exerceu a profissão de docente (actualmente reformado).

 Neste momento, partilha o seu tempo entre a escrita, a tradução e a televisão, onde é jornalista colaborador (RTP) na área do desporto.

Os verdes anos no mato não acabam  marca a estreia do autor na escrita da ficção, desvelando-se, neste inebriante romance, um mundo bem presente na memória de muitos portugueses.

 

O texto na badana da contra-capa, é arrepiante.

 

(...) perguntaram a um miúdo de doze anos, que tinha ficado sem as pernas por causa de uma mina, qual era o seu sonho para o Natal.

Teve uma resposta que me deixou doente: "A senhora acha que eu posso ter sonhos?"(...)

 

 

Eis a imagem da dedicatória que João Coutinho me escreve no seu livro, onde ainda me chama para além de Vítor Duarte,  de " o eterno Alfredinho" tal com há quarenta anos.

 

 

 

 Um grande abraço, para o Rui - Alfama, para o Coutinho, e para todos os nossos camaradas de então, que esperemos estejam entre nós.

 


 

Em 1972 já depois de ter gravado a solo e em dueto para a etiqueta Estúdio – Emílio Mateus, sou convidado para gravar um EP para a etiqueta Parlophone- Valentim de Carvalho, sendo-me dada a honra de ser acompanhado por José Nunes à guitarra, e Francisco Peres (Paquito) à viola.

Os temas foram escolhidos por mim, e é quando o saudoso Artur Ribeiro, me escreve um Fado original, como já tive oportunidade de aqui referir, “Mais Um Entre Tantos”, escolhi ainda, do repertório de meu avô, “Vestido Azul” poema de Henrique Rego, e também  “Não Me Queres, Não Admira”, de Frederico de Brito, que lhe pedi directamente não só autorização, como os versos que eu não tinha, pois só conhecia o mote, que julgo já tinha sido cantado e talvez gravado por outro artista, o que na realidade desconheço, e finalmente “Sangue de Heróis” do meu saudoso Carlos Conde, que deu o título ao disco, e que escreveu o prefácio na contra-capa.

                               

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto da contra-capa:

Ao longo dos séculos, a terra portuguesa tem sido cenário de lutas intemeratas, de glórias, de amores e de mágoas.

Mas nas lutas. como nos amores, nas mágoas como nas glórias, souberam os portugueses cunhar um destino. E a sua maneira de ser e de viver fez uma Pátria, uma Raça, um Povo e, mais do que tudo isto: uma Alma.

E se a canção é, por vezes, a Pátria, ela está, também, em versos, nas vozes que os cantam, na intenção que os sugere, na saudade que corta todos os silêncios e chora todas as angústias.

 

 O disco foi censurado, na face B, pelo então Director de Programas da Emissora Nacional.

 

 

Caro Vítor  Duarte,                         

Em resposta ao seu pedido enviamos 4 imagens digitalizadas do EP Parlophone 8E 016-40236 [cota EN: A-382] — três das quais testemunham os procedimentos de censura por si mencionados.

 

Na imagem da contracapa é legível a seguinte inscrição: “Proibidas – Exmo. DSP – 12/12/72”. A sigla “DSP” correspondia, na Emissora Nacional a “Director dos Serviços de Programas”. Também o disco apresenta marcas feitas com lápis de cera amarelo com o objectivo de impedir a sua reprodução.

 

Cedemos estas imagens exclusivamente para a utilização declarada – utilização no blogue Lisboa no Guiness. A proveniência das imagens deve ser tornada explícita com a seguinte menção: “Rádio e Televisão de Portugal - Arquivo da Rádio”.

 

Ficamos ao seu inteiro dispor para qualquer esclarecimento adicional,

 

Com os melhores cumprimentos,

Eduardo Leite
Chefe de Departamento

Rádio e Televisão de Portugal
Arquivo da Rádio

 

 

 

Na face B, estão os temas, "Não me queres não admira" e Mais Um Entre Tantos:                                             

 

 

 

Vítor Duarte canta

Não me queres, não admira

Letra de Frederico de Brito

Musica Fado Marcha de Alfredo Correeiro

                                                                                                                                                                                                                                 

 

Vítor Duarte canta

Mais um Entre Tantos

Letra de Artur Ribeiro

Musica Fado Alexandrino Laranjeira de Alfredo Marceneiro

 

 


Mas a censura, não ficou por aqui, Armando Marques Ferreira, que na altura tinha um programa na Rádio Renascença, anulou uma entrevista, que tinha marcada comigo, dizendo-me, que após ouvir o disco, não dava cobertura a simpatizantes da guerra do ultramar, (!) .

O certo é que o disco nunca passou nas rádios.

A face "B" já se viu porquê.  A  face "A" por causa do tema "Sangue de Heróis", de Carlos Conde.

Houve também alguns amigos meus,  que embora sabendo bem quais as minha convicções (e, em que águas eu navegava, desde os tempos de estudante) que me chamaram reaccionário,  e mesmo explicando-lhes que o poema era do poeta talvez mais censurado de Fado, por ser anti-regime, o tema fala de patriotismo, que nos anos trinta,  altura em que Hitler já estava no poder na Alemanha, e era do conhecimento geral, que  queria dominar toda a África, e as colónias portuguesas na altura, eram por ele cobiçadas, qualquer português digno desse nome, se indignava,  mas pasme-se, até  nessa altura a censura, proibiu que a letra fosse cantada, porque era uma provocação! 

Dois anos depois veio o 25 de Abril,  e alguns desses que  se desagradaram com o tema do Fado...... que me chamaram reaccionários, encontrei-os do outro lado ...... não digo mais.

Ainda hoje tenho todo o orgulho como português, do conceito do Fado, e aqui realço os seus versos finais,

 

                      Diz ao mundo, grita aos sóis

                      Enche os céus da nossa glória

                      Num clarão vasto e profundo

                      Que só com sangue de heróis

                      Portugal ergueu  história

                      Nas cinco parte do mundo 

 

Vítor Duarte canta

Sangue de  Heróis

Letra de Carlos  Conde

Musica Fado Cravo de Alfredo Marceneiro

 

 

 

 

     

 

                                 

Nota: Esta página foi publicada pela primeira vez em 27 de Janeiro de 2008

Contacto com o autor: clicando aqui
Viva Lisboa: Viva a Amizade
música: Mais um entre tantos, Não me queres não admira, Sangue de He
publicado por Vítor Marceneiro às 00:00
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