Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

A Casa da Mariquinhas e O Leilão

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 tema " A Casa da Mariquinhas ", teve tal êxito, que levou outros poetas a se basearem nele compondo outras versões igualmente cantadas por Marceneiro.
O poeta João Linhares Barbosa, escreveu:

 

O LEILÃO DA MARIQUINHAS

 

                                  Ninguém sabe dizer nada
                                  Da famosa Mariquinhas
                                  A casa foi leiloada
                                  Venderam-lhe as tabuinhas

 

Ainda fresca e com gagé
Encontrei na Mouraria
A antiga Rosa Maria
E o Chico do Cachené
Fui-lhes falar, já se vê
E perguntei-lhes, de entrada
P´la Mariquinhas coitada?
Respondeu-me o Chico: e vê-la
Tenho querido saber dela
Ninguém sabe dizer nada.

 

                                  E as outras suas amigas?
                                  A Clotilde, a Júlia, a Alda
                                  A Inês, a Berta e a Mafalda?
                                  E as outras mais raparigas?
                                  Aprendiam-lhe as cantigas
                                  As mais ternas, coitadinhas
                                  Formosas como andorinhas
                                  Olhos e peitos em brasa
                                  Que pena tenho da casa
                                  Da formosa Mariquinhas.

 

Então o Chico apertado
Com perguntas, explicou-se
A vizinhança zangou-se
Fez um abaixo assinado,
Diziam que havia fado
Ali até de Madrugada
E a pobre foi intimada,
A sair, foi posta fora
E por more de uma penhora
A casa foi leiloada.

 

                                  O Chico foi ao leilão
                                  E arrematou a guitarra
                                  O espelho a colcha com barra
                                  O cofre forte e o fogão,
                                  Como não houve cambão
                                  Porque eram coisas mesquinhas
                                  Trouxe um par de chinelinhas
                                  O alvará e as bambinelas
                                  E até das próprias janelas
                                  Venderam-lhe as tabuinhas.

 

  

Nesta actuação na TVI - Tardes da Júlia, sou acompanhado na guitarra portuguesa por Luís Ribeiro

 e na viola de acompanhamento por Jaime Martins

 

Foram muitos os temas que Alfredo Marceneiro cantou, mas, de entre todos eles, houve um que teve grande êxito com versos da autoria do grande jornalista e poeta Silva Tavares e que foi, aliás, considerado o "ex-libris" das suas criações,

" A Casa da Mariquinhas".

Todos os que o escutavam, eram unânimes em afirmar que os versos que Silva Tavares escreveu, quando cantados pelo Alfredo, "viam imagens reais". Marceneiro, numa ideia genial, decide demonstrar a todos que, também no seu ofício, é um mestre e na escala de 1/10 constrói em madeira a Casa da Mariquinhas, recriando todos os pormenores que são descritos nos versos do fado.

 

   

 

 

"CASA DA MARIQUINHAS"


                                               É numa rua bizarra 
                                               A casa da Mariquinhas
                                              Tem na sala uma guitarra
                                              Janelas com tabuinhas.


Vive com muitas amigas
Aquela de quem vos falo
E não há maior regalo
De vida de raparigas
É doida pelas cantigas
Como no campo a cigarra
Se canta o fado á guitarra
De comovida até chora
A casa alegre onde mora
É numa rua bizarra

 

              Para se tornar notada
              Usa coisas esquisitas
              Muitas rendas, muitas fitas
              Lenços de cor variada
              Pretendida e desejada
              Altiva como as rainhas
              Ri das muitas, coitadinhas
              Que a censuram rudemente
              Por verem cheia de gente
              A casa da Mariquinhas

 

É de aparência singela
Mas muito mal mobilada
No fundo não vale nada
O tudo da casa dela
No vão de cada janela
Sobre coluna, uma jarra
Colchas de chita com barra
Quadros de gosto magano
Em vez de ter um piano
Tem na sala uma guitarra

 

                                               Para guardar o parco espólio
                                               Um cofre forte comprou
                                               E como o gás acabou
                                               Ilumina-se a petróleo
                                               Limpa as mobílias com óleo
                                               De amêndoa doce e mesquinhas
                                               Passam defronte as vizinhas
                                               Para ver o que lá se passa
                                               Mas ela tem por pirraça
                                              Janelas com Tabuinhas

 

 

 

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música: A Casa da Mariquinhas e O Leilão da Mariquinhas
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Segunda-feira, 6 de Março de 2017

RTP - 60 anos

  (1)      (2)         

 

Comemora-se os 60 Anos de Televisão pública em Portugal, a inauguração foi na antiga Feira Popular (1)  Luna Parque) a Palhavã, que era para nós miúdos uma coisa do outro mundo, ficava no (2) Parque onde está a Fundação Calouste Gulbenkian, tive a felicidade de lá estar e nunca mais me esqueci daquela caixinha mágica, acabei de vir a ser profissional de Cinema e Televisão... o sonho concretizou-se.

Relembro este acontecimento porque para mim est á relacionado com Fado, pois naqueles anos quase todos os fadistas profissionais e amadores que sobressaiam ,  eram convidados a cantar para à RTP. Depois de abrirem os outros dois canais  tudo piorou, e até a RTP deixou de dar práticamente Fado, agora são sempre os mesmos que vão aos mesmos canais, e a RTP vai-nos dando as "Memórias".

Passa a alguém pela cabeça que O Fado tenha a sido  considerado Património da Imaterial da Humanidade, porque é  uma forma musical única no mundo, e que seja   no próprio país que reivindica a designação, a Televisão Pública não tem  programas de Fado. (Excepto se for alguém premiado lá fora),.!!!

Mas meus amigos recordam-se?

 

Ficcão... ou Talvez não!

Há um Realizador de Cinema (Documentários) o  Sr. Saura , que  é quem  sabe da poda, foi -lhe pedida ajuda de uns entendidos (conselheiros),  que até arranjaram um mecenas (o er á rio público), pedindo-lhe  para fazer um filme histórico e isento, porque os realizadores portugueses são uns intelectuais e não de debruçam sobre estes temas menores, consta-se que o Sr. Saura   ter á nbsp; logo ter dito: — Fado só com portugueses é uma chatice , assim vai se for como eu quiser , vai haver fado em flamengo, em brasileiro, em mornas etc.

O Sr. Saura estudou muito sobre Fado , e vai acabar,   com conhecimento de causa por  explicar de uma vez por todas aos portugueses, que o Fado não é nada nosso, foi roubado, nós fomos foi grande navegadores, e como aos marinheiro era h á bito ter uma mulher em cada porto, os marinheiros portugueses não fugiam á regra, ou não fossem latino machistas , assim em cada terra por onde passavam, aprendiam um pouco do que por l á se cantava nos bordeis, aprenderam uma notas com os  escravos africanos, mais umas notas com os índios brasileiros, na Índia  também tirámos notas, na China , no Japão, etc. , repovo á mos ainda Cabo Verde com v á rias raças, o que obviamente deu mais umas misturas de musicais diferentes.

Finalmente previdentes como somos,  e para não sermos acusados de pl á gio, e hoje teríamos a pagar indemnizações a esses povos , juntámos tudo num molho e deu esta mistura de canção que chamamos   Fado,  e é por isso que só nós é que o cantamos em todo o Mundo. Mas é porque os outros não quiseram  aproveitar esta "modinha"?,  é porque é pobre musicalmente, é tocado num instrumento que tem cordas a mais,  só tem 1º e 2º  andamento e que é tocado de ouvido, os tocadores não vem do conservatório. Uma chatice .......

Ninguém tem dúvida que o Filme vai ser um êxito (ler a História do Rei Vai Nu), pois ele só ser á entendido por gente inteligente, e se não gostarem e protestarem o Sr. Saura até sabe daquela história do Manuel de Oliveira que no filme "Francisca" ninguém viu o filme até ao fim, a versão de televisão ninguém gostou, ali á s mudavam para o 2º canal, ou apagavam os televisores. Manuel de Oliveira em entrevista na TV confrontado com estes factos retorquiu : — O Filme é bom, o povo português é que é inculto, vejam como eu lá fora sou apreciado (Nota - felizmente é apreciado tem uma obra fant á stica, eu como inculto que sou, tenho direito a só ter gostado do Anikita Bóbó ).

Portanto seja o filme o que for, não tenham dúvidas que vamos ter muitos intelectuais e conhecedores a dizerem que nós é que

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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Vítor Duarte Marceneiro - Fui á Feira da Ladra há mais de 65 anos

Fui à Feira da Ladra com o meu pai...

Vitó com 6 anos.jpg

 

Tinha eu uns seis anos de idade, quando num Sábado o meu pai  Alfredo Duarte Jr., me foi buscar a casa dos meus avós para me levar a conhecer a Feira da Ladra. Nessa época meu pai já tinha abraçado a profissão de "Artista de Variedades – Fadista", mas estava no início, o que ainda não lhe dava estabilidade económica. Com o falecimento precoce de minha mãe, passei a viver com os meus avós, na Rua da Páscoa, a Santa Isabel – Campo de Ourique.

Fomos a pé até ao Largo do Rato, descemos a Rua de S. Bento e, quando íamos a meio da Av.ª D. Carlos I, comecei a chorar porque me doíam muito os pés; tinha calçado nessa altura umas botas de carneira com sola de pneu, boas para jogar à bola, mas para caminhadas pareciam ser feitas de chumbo. Meu pai ficou um pouco arreliado, pois estava a fazer planos para irmos até ao Campo de Santa Clara a pé, e logo me disse:

– Lá vamos ter que gastar catorze tostões em dois bilhetes de eléctrico para a Graça.

                       

Carro Eléctrico aberto anos 50

Chegámos a Santos e apanhámos o eléctrico, tal como o da foto acima (eléctrico aberto). Lembro-me que enjoei um pouco, pois o meu pai disse-me:

– Eh pá, estás amarelo, não vomites no carro – e passou-me para o topo do banco, onde era totalmente aberto, agarrando-me o braço com força para eu não cair.

Lá chegámos e entrámos para o recinto, pelo lado da Rua da Voz do Operário.

 

                    

                        

                                    Foto do ambiente da Feira da Ladra, anos 50

 

Aquilo era um mundo fantástico para mim (tantas coisa giras); algumas eu nem sabia para que serviam, mas meu pai era frequentador e já ia com a ideia fixa do que queria comprar: uma grafonola! Fomos ao poiso do homem que ele sabia ter uma para vender, embora avariada. Na semana anterior já tinha tentado negociar um bom preço, mas não conseguiu. Com a minha presença (talvez para puxar ao sentimento) e batendo no argumento de que a corda estava partida e talvez nunca fosse possível reparar, lá a comprámos por 20$00, incluindo uma caixa de agulhas e um disco de massa da "Voz do Dono" com dois temas de Maria Alice (que mais tarde veio a ser mulher de Valentim de Carvalho).

Tentámos, nos vários comerciantes, arranjar um disco do meu avô para lhe fazer a surpresa, mas em vão; os discos de "Marceneiro" ainda eram preciosidades, raras de mais para aparecerem por ali.

Com o meu pai a transportar a grafonola, que depois de fechada parecia uma mala e tinha uma pega, começámos a descer em direcção à Av.ª 24 de Julho, para nos irmos embora. Ao passarmos junto ao gradeamento que dá para o Hospital da Marinha, havia um homem a vender calçado usado, mas com bom aspecto e muito bem engraxado. Os meus olhos fixaram logo uma botas de cano alto (à cow-boy). Pedi ao meu pai para ir ver se eram da minha medida, calcei-as e recordo que estavam um pouco compridas. Mas o homem disse logo que era a minha medida e que tinham solas novas, estavam muito baratas, só 15$00. Ó paizinho, compre, para eu levar para a escola (eu entrava em Outubro desse ano de 1952 para a 1ª Classe, nas Oficinas de S. José, aos Prazeres).

– São caras e o pai só tem... – e levou a mão ao bolso, mostrando 8$60.

O homem, com a sua lábia de vendedor, disse-lhe:    

– Estas botas, por 15$00, são um pechincha... Mas como o miúdo está aí tão triste, dê cá isso e leve lá as botas.

Mesmo antes que meu pai dissesse algo, embrulhou-as em papel de jornal, atou-as com uma guita, à volta. Eu agarrei-as logo, pois o meu pai, carregado com a grafonola, ainda podia dizer que não, o que não aconteceu. Lá deu o dinheiro ao homem e – meu Deus, como hoje recordo (sem pieguices ,mas com uma lágrima no olho) – que alegria!

Começámos a descer para a 24 de Julho, quando o meu pai se volta para mim e a rir diz:

– O menino Vitó levou a sua avante, mas esqueceu-se de uma coisa: o pai não tem mais dinheiro e agora temos que ir para casa a pé; e olha que não te posso ajudar porque a grafonola ainda é pesada.

– Ó paizinho, não há problema; eu aguento.

– Sempre quero ver isso – retorquiu ele.

Chegámos ao Cais do Sodré e eu derreado, já não conseguia dar mais um passo. Meu pai, a quem também já doía o braço de carregar a grafonola, poisou-a no chão, junto a uma parede, sentou-me em cima dela, disse-me que não saísse dali porque ia ao bar da gare dos comboios, ver se estava lá alguém conhecido.

Fiquei ali e, passados uns minutos, o meu pai aparece com uma sandes de torresmos e um pirolito. Fiquei deliciado, porque já havia um bom bocado que tinha fome e sede, mas não tinha dito nada para não complicar ainda mais a situação. Então, ele disse-me:

– Bem, espero que tenhas aprendido a lição; mas como o pai ainda descobriu aqui no fundo do bolso uns trocos, que deram para as sandes e ainda nos sobrou 2$00, assim podemos ir de eléctrico até ao Rato.

Calculem o alívio e alegria quando ouvi esta novidade, e lá fomos os dois a rir às gargalhadas para a paragem do eléctrico.

Foi um dia em cheio (que saudades, pai)...

Mal chegámos a casa, o meu avô começou logo meter-se com o meu pai, em ar de troça:

– Uma grafonola... e avariada!

– Deixe estar, que eu e o Vitó arranjamos isto – dizia o meu pai.

Claro que eu não percebia nada daquelas coisas, mas recordo ter ficado todo orgulhoso com o comentário. No futuro viria a ter esse jeito para as máquinas e ferramentas, mas meu pai era um grande “engenhocas”, lá em casa arranjava tudo.

Limpámos muito bem a caixa, que estava um pouco mal tratada, e meu pai desmontou o engenho de corda. Lembro-me que era parecido com a corda dos relógios de sala e – vejam a nossa sorte – a corda não estava partida, tinha-se solto o engate da ponta, que prendia ao sistema de fixação do enrolamento. O meu pai todo contente só dizia:

– Eu sabia, eu sabia!

Grafonola-Gramofone-de-mala-antiga-20140202180932.

 

Após a montagem, com a família toda à volta do engenho posto em cima da mesa de jantar, o meu pai dá à corda, destrava a pequena alavanca e o prato começa a rodar. Foi uma proeza saudada com grande algazarra e alegria. Logo o meu avô deu o dito por não dito:

– Já podemos tentar arranjar uns discos meus.

Entretanto, meu pai monta uma agulha, dá à corda (avisa-nos que não se deve rodar até prender, pois pode partir a corda ou voltar a soltar-se o engate) e põe o disco da Maria Alice. Foi, decerto, o primeiro disco que ouvi na minha vida, de tal forma que ainda hoje me lembro do fado na totalidade:

 

Acredita meu amor

Quando te vou visitar

Às grades dessa prisão

Sufocada pela dor

De te ver assim penar

Estala meu coração

 

Por mim mataste um rival

És agora condenado

Ao degredo por castigo

Mas juro por amor fatal

Não vai meu corpo a teu lado

Mas vai minha alma contigo

 

Depois, tomámos o gosto à grafonola e o primeiro disco do meu avô que arranjámos foi da “ODEON”, com os temas, "Amor de Mãe" e "Os Olhos". Como sabem, as grafonolas não tinham uma velocidade constante, e então o meu avô, quando se ouvia, exclamava:

– Então não é que até parece que tenho voz de mulher!!

                                   

                            

 

Disco de Grafonola 78 r.p.m

 

Mas voltemos às botas. Conforme tinha sido combinado, eram para estrear no primeiro dia de aulas, e assim foi, penso que a 6 ou 7 de Outubro. Nesse dia chovia torrencialmente, as botas vinham mesmo a calhar.

Ao fim do dia cheguei a casa desolado e com os pés todos molhados, pois as solas estavam todas desfeitas: eram de cartão colado sobre a sola inicial já gasta, muito bem pintadas, com anilina preta e graxa, o que lhes dava aquele aspecto consistente e novo! Fartei-me de chorar com o desgosto, mas mais tarde até rimos, porque nos lembrámos de como fora o negócio e, afinal, os enganados fomos nós. Pediu-se orçamento ao sapateiro, mas a minha avó disse logo que não se podia agora estar com aquela despesa, as solas e a mão-de-obra custavam quase 30$00 (o meu avô, naquela altura, ganhava 50$00 por noite e o meu pai, quando arranjava para cantar, não ganhava mais do que 20$00 a 25$00 por noite).

Ora, a solução acabou por ser uma alegria e um orgulho para todos nós, isto porque o meu bisavô (pai do meu avô Alfredo) era sapateiro e o meu avô, nos intervalos da escola, até o pai morrer, foi aprendendo o oficio e dando uma ajuda no trabalho. Como o meu avô era habilidoso, desembaraçava-se bem; comprou num armazém, em S. Paulo, um bocado de sola que lhe custou 6$00 ou 8$00 e, como tinha as ferramentas da arte de sapateiro que tinham sido do pai – as formas, sovelas etc. – foi ele próprio que me colocou as solas nas botas, botas que usei enquanto me serviram. Creio que ainda acabaram por levar umas solas de borracha.

Desculpem estes desabafos/recordações dos meus Fados!

 

Vítor Duarte Marceneiro

 

 

 

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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

Vítor Marceneiro - Os Fados da minha vida "O Fado de Cada Um" de Amália

 Vítor Marceneiro aos 6 anos

A primeira vez que entrei numa sala de cinema, foi para ver o filme, História de uma Cantadeira interpretado por Amália Rodrigues, o filme estava em exibição no Cinema Paris, à Estrela ( o edificio ainda lá está, embora em ruinas), quem me levou foi  minha tia Aida. Naquele tempo,  os miúdos desde que acompanhados por um adulto, não pagavam bilhete, mas teriam que ficar sentados ao colo do adulto, se a lotação estivesse esgotada.

Tinha cerca de 6 anos e recordo que  fartei-me de chorar, é que  minha mãe tinha falecido há relativamente pouco tempo, e aquela "linda senhora do filme", fez-me recordá-la,  vendo a foto de minha mãe, poder-se-à entender como para uma criança haviam tais parecenças, minha mãe tinha faleceu com  25 anos de idade,   razão porque fui viver com os meus avós Alfredo e Judite.

  

Mariete Duarte mãe de Vítor Marceneiro

Passado que foram alguns meses, venho a conhecer a tal "linda senhora!", e pasme-se,  ela era uma grande amiga do meu avô,  foi numa manhã em que ela após uma das muitas noites  de Fado que estiveram juntos,  lhe dava boleia  para casa  e onde acabava  também por ficar a comer uma sopa da "Ti Judite, pois é,  a tal senhora era a saudosa Amália Rodrigues. 

 

Apontamento retirado do filme

História de uma Cantadeira

Amália canta "O Fado de Cada Um"

 

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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016

"Ti" ALFREDO MARCENEIRO - pela memória de seu neto Vítor Duarte

 

Jornal I - informação.  Edição fim-de-semana,integra a revista  "NÓS Melancólicos Nº 46 -20/21 Março de 2010"

Texto de Maria Ramos Silva Fotos de José Miguel Soares

  

De avô para neto, a história é de canção. e de família. A viagem pelo ADN Marceneiro é um passeio por gerações que não esquecem o homem do lenço, do boné, do cigarro pendurado na boca com carisma e do discurso castiço. Ti Alfredo pela memória de Vítor Duarte

  

A plateia do extinto Solar da Hermínia tranca-se num reverente silêncio. O avô canta. O desfecho não traz surpresa. As palmas enchem a sala rendida à voz e à guitarra. A maior novidade do serão é anunciada pela boca do amigo Chico Fadista. "Mas vocês não sabem que existe uma terceira geração, aqui o Vítor também canta," O burburinho volta a perder potência e Vitó puxa dos desconhecidos galões. Ainda com as luzes em baixo, nessa passada artística em que os parentescos sucumbem às críticas sérias, o avô solta o veredicto, orgulhoso mas retorcido. "Pois, não está mau. É pena é andar a cantar a mesma coisa que eu ando a cantar há 30 anos! Arranje repertório."
Ao seu jeito sui generis concede o primeiro elogio ao neto. Outros duetos entre Vítor Duarte e o castiço companheiro do boné e do lenço se seguiriam, com o temperamento do veterano sempre a ser cozinhado em lume alto. "Aconteceu cantarmos os dois e ele interromper a meio. 'Estou cansado, já não me apetece. Esqueci-me dos versos. ‘ Quem começava? Claro, abre o avozinho.
Depois, era só agarrar." Numa actuação em Cascais, já com impressionantes 89 anos, exibe o cabelo negro integral que dispensava truques de pintura e os óculos escuros que se encaixaram na cara depois da operação às cataratas. A idosa voz que dá a deixa não vacila. O corpo hirto, falsamente negligente e distante das atenções, encosta-se à parede. Uma das mãos, escondida nos bolsos, continua a inibir movimentos desnecessários do tronco. Ti Alfredo, que o ofício de Marceneiro acabou por baptizar em pia popular, disfarça entre os restantes cinco dedos um lenço que aproxima discretamente dos cantos da boca. Um pormenor delicioso. "Colava a placa com marmelada, e esta começava a derreter!"
A vida de fadista não abundava em açúcar. A conversa do fado nem sequer vagueava pelos corredores do lar. Não valia fortunas e via a saúde empenhada pelas madrugadas fora. Uma criança lá em casa a cantar? "Nem pensar nisso. O fado, andar na noite, não dá nada", dizia. Mas pelo menos uma das etapas do percurso era canja. Canja com arroz.
A iguaria que lhe confortou o estômago durante 60 anos sempre que chegava a casa vindo da noite, partilhada com os fiéis escudeiros. "Quem o levasse encostava o carro e ia comer uma sopinha com ele. Era uma alegria poderem dizer "fui a casa do Ti Alfredo!" As fotos glamorosas dos anos 50 imortalizaram a imagem de marca: o cigarro High Life a fazer cama entre os lábios. Os posters e a caricatura mais emblemática, assinada por José Pragana, resistem na parede da casa de Vítor, no Sobral de Monte Agraço. Pelas 70 primaveras, por ordem do médico, Alfredo enterra a nicotina de vez. Morcego por sina e por gosto, passa a viver em pleno dos banhos de Lua quando se reforma do estaleiro naval, em 1945. O avozinho já leva mais de meio século nas pernas. O lenço que dá estilo ao pescoço e o boné enfiado são mais do que acessórios de moda pessoal – protegem a garganta e a cabeça que já não vão para novas, mas que continuam a frequentar o barbeiro por baixo do desaparecido Clube Ritz quando já passam das duas da matina. "Veja lá se o sol não lhe vai fazer mal", atirava o neto quando se passeavam às claras. "Sempre usou a mesma roupa de Inverno e de Verão. Mas no Inverno vestia ainda a gabardina. E usava sempre o lenço quando saía de casa. Começou a cantar com o lenço cruzado." A glória e queda de um homem contam-se ao ritmo do taxímetro. Os motoristas de praça são marco importante na sua longevidade e garantia de segurança nas incursões nocturnas. Briosos de carregar o fadista no banco de trás, desunham-se por uma viagem com Marceneiro e enterram o machado de guerra mal avistam a criatura. "Eram homens de bairro que não o deixavam sentir-se sozinho. Um dia na Rua das Taipas, às duas e tal da manhã, um táxi vê que é o Ti Alfredo. Quando pára e pergunta se quer boleia três táxis enfaixam-se uns nos outros. Começa grande discussão até verem que era ele. Ficou tudo bem." Da morada na Rua da Páscoa, em Campo de Ourique, desce à Igreja de Santa Isabel e vem a pé até ao Largo do Rato. Entra no carro e em dois tempos o conhecem, lançando um "boa noite, Ti Alfredo". "Nem punham o contador a marcar. 'Olhe, meu querido, vamos para o Bairro Alto mas vais pela Praça das Flores', pedia ele. Era para que a bandeirada não fosse pequena. Dava-lhes 20 escudos no final, mesmo que a corrida fosse só cinco." Em 1979, a ausência de réplica do condutor confere o receio do mestre. As gerações sucedem-se e com elas a memória perde forças para o anonimato completo. Já ninguém responde ao cumprimento. "Entra num táxi, diz boa noite, e nada. 'Viste? Estou lixado. ‘ Os seus antigos companheiros da noite já não existiam para o segurar." Alfredo só permanece sem sair de casa um ano antes de morrer, quando sente um fraquejar numa perna. Despede-se em Junho de 1982, com 94 anos, idade actualizada pelas buscas do neto que lhe situou o verdadeiro ano do nascimento em 1888. Vítor, que chegou há pouco do Canadá onde actuou para portugueses, recupera estas e outras biografias do fado em lisboanoguiness.blogs.sapo. pt, projecto criado em 2007 com o objectivo de tornar a capital portuguesa recordista do mundo enquanto a mais cantada. "Muitos poemas falam de uma mulher, a mulher Lisboa." Dedica-se ainda à investigação, num trajecto pelas memórias do fado e dos seus intérpretes ao longo dos anos, graças a muito know-how a partir da recordação, recapitulando a vida e obra dos "peões" do fado. "Encontro dados daqui, jornais antigos ali, pessoas que conheceram, etc. Estava lá sem saber que estava a assistir à história." Pouco se fazendo escutar, uma recalcada veia de actor latejou na família. O avô, personagem em tamanho grande já de si, chega a entrar na peça Fado, no Coliseu. Goza ainda de um breve apontamento, agora a cantar, num filme de António Lopes Ribeiro, nos anos 30. "Também acabei por não ser actor. Fiz apenas teatro na escola e na General Motors, mas mais tarde como realizador vivi um pouco esse papel. Há uma extroversão e um gosto." O gosto, agora pelo fado, ganhou força anímica entre a juventude de hoje, mercê de uma cultura linguística mais depurada. "As pessoas nunca deixaram de gostar de ouvir a guitarra, independentemente de gostar ou não de fado. Mas as letras ou não eram ouvidas ou achavam que era a história da desgraçadinha, quando esse não é o fado do Marceneiro." Só pelos 23 anos o próprio Vitó, seguidor da pop dos Shadows e dos Beatles, se deixou embalar pela canção, vencendo os preconceitos próprios da idade. "Até então era altamente contestatário. Ele discutia comigo. 'Este neto falta ao respeito ao avô! ‘ Também o picava. 'Brevemente vou ser engenheiro de máquinas', dizia-lhe eu. E ele respondia: 'Você que anda lá a estudar para engenheiro diga-me lá o que quer dizer boninas?"
"Sete colinas são teu colo de cetim Onde as casas são boninas espalhadas em jardim" (Lisboa Casta Princesa, Álvaro Leal/Raul Ferrão)
Vítor lá engolia os espinhos das flores. Com 12,13 anos, poemas como os de Henrique Rego, mais tarde classificados como "fabulosos", desatinavam a sua consciência revolucionária. "Vinha de um bairro operário em Alcântara. 'Bailar à mercê? Nunca vou bailar à mercê de ninguém! Disse logo. Foi uma grande luta e tanto que tenho bailado." Filho de uma costureira que morreu jovem, aos 25 anos, e do "fadista bailarino" Alfredo Duarte Júnior, antigo pintor de automóveis da General Motors, onde também vem a trabalhar, mandava em homens com idade para serem seus pais. Quando já se encontra na Fiat, o então gerente oficial conhece dois responsáveis pelo Hotel Eduardo VIL Pela amizade vêm a saber que é neto de Alfredo. Com 21 anos, começa então a desatar a voz para o fado, com carregada herança nas costas. "Passei a ir para o Galito, em Cascais, onde estava o Zé Inácio (*), que fora porteiro da Adega Machado, o Carlos Zel, etc. Não tinha aspecto mas tinha palheta. Nunca tinha tentado cantar e sentia o peso, o que o meu pai passara por ser filho do Marceneiro. Entrava no Bairro Alto e todos o conheciam. Lá cantei um fado sem saber que cantava." Depois da tropa gravou sozinho e com o avô. Trabalhou em laboratório de fotografia e realizou publicidade. Em 1979 produziu o filme que reuniu as três gerações de fado da família. Foi casado 27 anos com uma prima em segundo grau, com quem teve um filho, que a morte cedo levou. Da actual relação nasceram dois meninos, uma tardia quarta geração que vive o apelido com entusiasmo, entre sete bisnetos do mestre, "Tenho um jeito Marceneiro mas não sou o meu avô. Quem diz que o imito é cretino, porque é impossível imitá-lo. Agora, tenho o ADN do meu avô, é óbvio. Fecho os olhos e sei que ali o meu avô dava aquela voltinha." Vítor, com 64 anos, recorda com saudade a cultura peculiar do avó, de quem escreveu a biografia. Aquele saber à margem dos livros que se fecharam na quarta classe, de quem falava e escrevia com tento pontuado com a sua devida asneira, sem beliscar a língua e insistindo nos acentos tónicos, desafiando a fleuma dos interlocutores durante as entrevistas. Era preciso saber levar e saber escutar. O fadista não gostava de respostas sincopadas. E zelava por algum purismo. "Não sendo um homem retrógrado, no fim até era bastante progressista, nalgumas coisas era retrógrado como eu sou. Se me perguntarem hoje se o fado evoluiu, é claro que evoluiu, mas há uma evolução que vai até um determinado ponto e produção, que eu contesto. Por exemplo, quanto mais simples for tocado o célebre fado menor, à antiga, mais valor tem."
Do Bairro Alto até à Márcia Condessa, na Praça da Alegria, os argumentos ferviam entre gerações. Discutiam de tudo. "Tinha mais a ver com o meu avô do que com o meu pai. Fui criado com ele. Ensinou-me para nunca andar com nenhuma mulher do fado. Era lowprofile. Aliás, a ele nunca lhe conheceram namorada." Nem grande moléstia provocada pelo crivo da censura, ainda que as letras previamente aprovadas tivessem que andar num livrinho debaixo do braço quando ia actuar. Alfredo levava Vítor à revista e ao fabuloso circo no Coliseu, onde engrossavam a chamada claque. A vida não era fácil e com estes bilhetes dados bastava a obrigação de arrancar com as palmas. "A sua própria forma de estar no fado levou a que nunca se conseguisse fixar muito numa casa, daí que mais tarde diziam que andava às esmolas. Não era. Havia era muita gente que para o ouvir o gratificava.” Alfredo só não podia ouvir falar em grandes deslocações. "Nunca quis ir para fora de Lisboa, muito menos para fora de Portugal." Inventava histórias e mais histórias para não arredar pé. Em 1976 desafiaram-no para uma ida ao Coliseu do Porto – Ofereciam alto cachet e punham Mercedes e alojamento à disposição. "Às tantas pergunta-me quantas pessoas leva o Coliseu. 'Umas mil, Ti Alfredo.' Chamou-me aparte. 'Já viste? 200 contos, mais despesas, mesmo que os gajos queiram dar 50 gansos [escudos] para ver a minha tromba multiplica. É tanga! Depois não nos pagam.' Mil e um pretextos arranjados – Arranjadinhos como a merenda que levava consigo: uma carcaça com pastelinhos de bacalhau. Chegavam a ser dez, os comensais espontâneos que disputavam um bocadinho, só pelo prazer de provar a especialidade da mulher, a tia Judite, por quem se enamorou certo dia num baile na Fonte Santa.

(*) Na realidade José Inácio, que era um extraordinário Viola de acompanhamento de Fado, no Galito, tocava guitarra,  e à viola estava o "Pirolito da Ericeira" este sim,  tinha sido porteiro na Adega Machado, este  lapso, a que jornalista é alheia, é da minha responsabilidade pois com o entusiasmo de falar destes acontecimentos poderei tê-la induzido em erro.

 

Considero esta entrevista, na óptica do trabalho da jornalista, muito bem feita e de um rigor exemplar.  Permitam-me destacar que,  Maria Ramos Silva, no decorrer da entrevista me ia fazendo perguntas/reparos muito objectivos às minhas explicações, tendo eu feito uma observação elogiosa aos seus conhecimentos de "Marceneiro" e do Fado, respondeu-me: — Vítor, para além de outras fontes, eu sou visitante assídua dos seu blogue. Fiquei muito "orgulhoso". 

 

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Segunda-feira, 3 de Agosto de 2015

Vítor Duarte Marceneiro - Cantar Lisboa

Vitor Timpanas.jpg

CANTIGAS DE LISBOA

As cantigas que se fazem a Lisboa são declarações apaixonadas de amor. O poeta personifica na Capital a sua Dama e rasga-lhe um sem número de galanteios e piropos.

O poeta o cantor  vê sempre na sua cidade amada,   a mais colorida do Mundo,  e é nesta cor local que joga as suas rimas e estribilhos ...Lisboa Princesa, Lisboa coroada Rainha,  Lisboa menina, Lisboa mãe, avó Lisboa, madrinha Lisboa. Lisboa amada, Lisboa dos meus amores, Lisboa do meu coração, etc...

As cantigas de Lisboa têm todo o encanto nas declarações de amor que recebe dos poetas seus enamorados, Lisboa fica vaidosa porque sabe que é bela, não pela opulência mas sim pela sua alegria e graça natural.

È bem Lisboa a mais cantada e a mais amada Cidade do Mundo.

Bairros de Lisboa

Letra de Carlos Conde

Música do Fado Pajem de Alfredo Marceneiro

 

 

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Sábado, 27 de Junho de 2015

Recordar o passado para viver o futuro - Serviço militar e Censura

Entrei para o serviço militar obrigatório, na Escola Prática de Cavalaria em Santarém  no dia 10 de Abril de 1967, devia ter entrado em 1966 mas pedi adiamento para acaber o curso.

Quando cheguei com os outros mancebos, foi-nos apresentado o nosso comandante de pelotão, o aspirante-miliciano João Coutinho.

Após os preâmbulos sobre o que seria o serviço militar, o então aspirante Coutinho, pergunta:

Disseram-me que temos entre nós um fadista, quem é?

Eu não respondi, já calculava que fosse comigo, pois entre os que assentaram praça, havia mais rapazes de Alcântara, que me conheciam, e deduzi que lhe tivessem dito algo sobre o meu avô.

Ele insiste.

Então,  ninguém se acusa? Não há um fulano que é fadista, ou familiar de fadistas.

Ao que eu respondo, familiar sou, mas fadista não, para se ser fadista tem que se ter uma série de predicados, que eu não tenho, sou sim,  filho e neto de fadistas, meu pai é o Alfredo Duarte Júnior, e meu avô Alfredo Marceneiro, tudo isto dito, com aquela impulsividade que me é característica.

Retorquiu o aspirante Coutinho.

É pá não te exaltes, só queria saber quem era, o familiar, porque Alfredo Marceneiro é uma lenda.

Logo no dia seguinte já fardados e após uma noite de grande farrobodó, é formado o pelotão e começa a chamada,  e eis que o Aspirante Coutinho, chama pelo Duarte, e após o meu – presente –  ele diz:  a partir de hoje passas a ser tratado por,  Alfredinho.

Iniciou-se uma amizade, que levou a que tivéssemos passado aquela recruta, sem grandes sacrifícios.

Conheci também e passou  a ser meu amigo e do Aspirante Coutinho, o Rui, que por ser de Alfama, foi apelidado de Rui-Alfama. 

E assim durante cerca de 40 meses de serviço militar, passei a ser tratado por “Alfredinho”.

Perguntarão os meus amigos, o que tem tudo isto a ver com o Fado?  Tem e muito, aliás “tudo isto é Fado”, senão vejamos:

É graças ao Fado, que escrevo este blog, que contribuiu para que passados estes 40 anos o  meu amigo João Coutinho, de quem eu nunca mais tinha tido notícias, após o final da recruta, pois ele foi logo mobilizado,  entre em contacto comigo através do blog. Fiquei deveras radiante e logo lhe enviei uma foto que guardava exposta na parede, de nós os dois em Santarém.

Falámos e recordámos velhos tempos, pusemos como se costuma dizer a escrita em dia.

Passados dias envia-me um livro que tinha escrito sobre Angola, e a guerra, que mais abaixo irei apresentar.

Pouco tempo logo após este contacto, estávamos perto do Natal de 2007, recebo um telefonema, mais ou menos nestes termos:

— É o Sr. Vítor Marceneiro, peço desculpa de estar a maçá-lo, mas fui ao Museu do Fado para saber de si, deram-me a morada da APAF (!), onde me desloquei e a Srª. Dª. Julieta é que me deu o seu contacto (?), eu sou o Rui-Alfama, que estive consigo na tropa em Santarém, lembra-se? Peço desculpa se o estou a maçar.

As lágrimas embargaram-me a voz e logo respondi, é pá vai chamar Senhor.....  a maçar-me?..... ( os..... é linguagem da nossa juventude), que saudades, então não me havia de me lembrar?.

Combinámos que eu iria a Lisboa logo no dia seguinte, para nos reencontrar-mos e nos abraçar-mos.

Assim foi, e lá estivemos a lembrar em amena cavaqueira,  o nosso passado comum, falei-lhe também que tinha sido contactado pelo Aspirante Coutinho.

E soube que ele tinha dado aquelas voltas todas, porque viu numa livraria o meu livro sobre o meu avô, e queria como prenda de Natal, que o mesmo fosse assinado por mim, e não tinha conhecimento deste blogue.

Passados dias o Rui-Alfama mandou-me duas fotos nossas e do Coutinho, tiradas quando da nossa recruta, que ele guarda no seu álbum de recordações.

Nota: O porquê dos ( pontos de interrogação):No Museu do Fado, ninguém tinha o meu contacto? Se não queriam dar o número de telefone, tudo bem, mas o e-mail não é confidencial. Depois dão a morada da APAF, e porque não o número de telefone?!

A APAF, como não tem sede própria, a morada é a do casal Dr. Luís de Castro e da Snrª Dª Julieta de Castro, sócios fundadores, ainda bem que deram o meu número, mas não seria natural que me contactassem? Eu até julgo que sou da direcção da APAF......

Não,  tudo isto é normal,  eu é que sou um grande complicado e tenho um grande mau feitio. 

Aconteceu que  eu não fui mobilizado, mas os horrores da guerra, não passaram ao lado, estava ciente do que se estava a passar, e num acidente que tive na especialidade, também em Santarém, tive que vir para o Hospital Militar, para ser operado e fui colocado no “Anexo” que estava situado na Rua de Artilharia Nº 1, e aí vi ao vivo, aquilo que até então tinha visto em fotos clandestinas — era o horror — são imagens que nunca mais me saem do pensamento. Houve também mortes de alguns militares que conheci naqueles cerca de quarenta meses.

Fui colocado no Regimento de Cavalaria 4 em Santa Margarida onde fiz muitas amizades e de que guardo grandes recordações, destaco o Lebre Pereira com quem mantenho contacto assíduo.

Passei à disponibilidade em finais de 1970.

 

                   

 

 


 

 

Texto extraído da badana da capa do livro.

JOÃO COUTINHO nasceu na República Democrática do Congo, a 6 de Abril de 1944.

 

Durante o período de 1967 a 1969 foi oficial miliciano, em Angola.

Em Setembro de 1975, parte definitivamente de Angola, todavia a imagem telúrica elos "verdes elo mato", simbólicos da força regenerativa deste continente, perduraram a sua memória..

Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade ele Lisboa, exerceu a profissão de docente (actualmente reformado).

 Neste momento, partilha o seu tempo entre a escrita, a tradução e a televisão, onde é jornalista colaborador (RTP) na área do desporto.

Os verdes anos no mato não acabam  marca a estreia do autor na escrita da ficção, desvelando-se, neste inebriante romance, um mundo bem presente na memória de muitos portugueses.

 

O texto na badana da contra-capa, é arrepiante.

 

(...) perguntaram a um miúdo de doze anos, que tinha ficado sem as pernas por causa de uma mina, qual era o seu sonho para o Natal.

Teve uma resposta que me deixou doente: "A senhora acha que eu posso ter sonhos?"(...)

 

 

Eis a imagem da dedicatória que João Coutinho me escreve no seu livro, onde ainda me chama para além de Vítor Duarte,  de " o eterno Alfredinho" tal com há quarenta anos.

 

 

 

 Um grande abraço, para o Rui - Alfama, para o Coutinho, e para todos os nossos camaradas de então, que esperemos estejam entre nós.

 


 

Em 1972 já depois de ter gravado a solo e em dueto para a etiqueta Estúdio – Emílio Mateus, sou convidado para gravar um EP para a etiqueta Parlophone- Valentim de Carvalho, sendo-me dada a honra de ser acompanhado por José Nunes à guitarra, e Francisco Peres (Paquito) à viola.

Os temas foram escolhidos por mim, e é quando o saudoso Artur Ribeiro, me escreve um Fado original, como já tive oportunidade de aqui referir, “Mais Um Entre Tantos”, escolhi ainda, do repertório de meu avô, “Vestido Azul” poema de Henrique Rego, e também  “Não Me Queres, Não Admira”, de Frederico de Brito, que lhe pedi directamente não só autorização, como os versos que eu não tinha, pois só conhecia o mote, que julgo já tinha sido cantado e talvez gravado por outro artista, o que na realidade desconheço, e finalmente “Sangue de Heróis” do meu saudoso Carlos Conde, que deu o título ao disco, e que escreveu o prefácio na contra-capa.

                               

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto da contra-capa:

Ao longo dos séculos, a terra portuguesa tem sido cenário de lutas intemeratas, de glórias, de amores e de mágoas.

Mas nas lutas. como nos amores, nas mágoas como nas glórias, souberam os portugueses cunhar um destino. E a sua maneira de ser e de viver fez uma Pátria, uma Raça, um Povo e, mais do que tudo isto: uma Alma.

E se a canção é, por vezes, a Pátria, ela está, também, em versos, nas vozes que os cantam, na intenção que os sugere, na saudade que corta todos os silêncios e chora todas as angústias.

 

 O disco foi censurado, na face B, pelo então Director de Programas da Emissora Nacional.

 

 

Caro Vítor  Duarte,                         

Em resposta ao seu pedido enviamos 4 imagens digitalizadas do EP Parlophone 8E 016-40236 [cota EN: A-382] — três das quais testemunham os procedimentos de censura por si mencionados.

 

Na imagem da contracapa é legível a seguinte inscrição: “Proibidas – Exmo. DSP – 12/12/72”. A sigla “DSP” correspondia, na Emissora Nacional a “Director dos Serviços de Programas”. Também o disco apresenta marcas feitas com lápis de cera amarelo com o objectivo de impedir a sua reprodução.

 

Cedemos estas imagens exclusivamente para a utilização declarada – utilização no blogue Lisboa no Guiness. A proveniência das imagens deve ser tornada explícita com a seguinte menção: “Rádio e Televisão de Portugal - Arquivo da Rádio”.

 

Ficamos ao seu inteiro dispor para qualquer esclarecimento adicional,

 

Com os melhores cumprimentos,

Eduardo Leite
Chefe de Departamento

Rádio e Televisão de Portugal
Arquivo da Rádio

 

 

 

Na face B, estão os temas, "Não me queres não admira" e Mais Um Entre Tantos:                                             

 

 

 

Vítor Duarte canta

Não me queres, não admira

Letra de Frederico de Brito

Musica Fado Marcha de Alfredo Correeiro

                                                                                                                                                                                                                                 

 

Vítor Duarte canta

Mais um Entre Tantos

Letra de Artur Ribeiro

Musica Fado Alexandrino Laranjeira de Alfredo Marceneiro

 

 


Mas a censura, não ficou por aqui, Armando Marques Ferreira, que na altura tinha um programa na Rádio Renascença, anulou uma entrevista, que tinha marcada comigo, dizendo-me, que após ouvir o disco, não dava cobertura a simpatizantes da guerra do ultramar, (!) .

O certo é que o disco nunca passou nas rádios.

A face "B" já se viu porquê.  A  face "A" por causa do tema "Sangue de Heróis", de Carlos Conde.

Houve também alguns amigos meus,  que embora sabendo bem quais as minha convicções (e, em que águas eu navegava, desde os tempos de estudante) que me chamaram reaccionário,  e mesmo explicando-lhes que o poema era do poeta talvez mais censurado de Fado, por ser anti-regime, o tema fala de patriotismo, que nos anos trinta,  altura em que Hitler já estava no poder na Alemanha, e era do conhecimento geral, que  queria dominar toda a África, e as colónias portuguesas na altura, eram por ele cobiçadas, qualquer português digno desse nome, se indignava,  mas pasme-se, até  nessa altura a censura, proibiu que a letra fosse cantada, porque era uma provocação! 

Dois anos depois veio o 25 de Abril,  e alguns desses que  se desagradaram com o tema do Fado...... que me chamaram reaccionários, encontrei-os do outro lado ...... não digo mais.

Ainda hoje tenho todo o orgulho como português, do conceito do Fado, e aqui realço os seus versos finais,

 

                      Diz ao mundo, grita aos sóis

                      Enche os céus da nossa glória

                      Num clarão vasto e profundo

                      Que só com sangue de heróis

                      Portugal ergueu  história

                      Nas cinco parte do mundo 

 

Vítor Duarte canta

Sangue de  Heróis

Letra de Carlos  Conde

Musica Fado Cravo de Alfredo Marceneiro

 

 

 

 

     

 

                                 

Nota: Esta página foi publicada pela primeira vez em 27 de Janeiro de 2008

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Sábado, 7 de Fevereiro de 2015

UM DOS FADOS DOS PORTUGUESES.......

 

 

 

 

As análise da política em Portugal, no primeiro dia do ano serão benéficas? É para  nos dar ânimo para prosseguir!... E depois fica tudo na mesma.

 

 

«Há muitos anos a política em Portugal apresenta este singular estado: Doze ou quinze homens sempre os mesmos, alternadamente, possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder... O poder não sai duns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas à outras, pelo ar, numa explosão de risadas.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião e os dizeres de todos os outros que lá estão, - os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do país, e outras injúrias pequenas, mais particularmente dirigidas aos seus caracteres e às suas famílias.
Os outros, os que não estão no poder são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais - os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, os interesses do país e a pátria.
Mas, cousa notável!
Os cinco que estão no poder, fazem tudo o que podem - intrigam, trabalham, para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do país, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se. Conspiram, cansam-se para deixar de ser - o mais depressa que puderem - os verdadeiros liberais e os interesses do país!
Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros - os verdadeiros liberais - entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do país, e os que caíram do poder, resignam-se cheios de fel e de amargura - a vir ser os verdadeiros liberais e os interesses do país.
Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha sido por seu turno esbanjador da fazenda e ruína do país...
Não há nenhum que não tenha sido demitido ou obrigado a pedir demissão pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis...
Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de dirigir as coisas públicas, - pela imprensa, pela palavra dos oradores, pela acusação da opinião, pela afirmativa constitucional do poder moderador...
E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o país neste caminho em que ele vai, feliz, coberto de luz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, num choito [trote miúdo e sacudido] triunfante!»

 

Felizmente que esta crónica foi escrita no ano de 1871..., sim 1871,  senão teríamos que ficar muito preocupados,  e muito atentos... Qualquer semelhança com a política actual no nosso país, não é, (desculpem!!!) é pura coincidência.

 

 

In : "As Farpas", de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, Junho de 1871

 

 continua...

 

 

 

"JANELA DA VIDA"

  

Para ver quanta fé perdida

E quanta miséria sem par

Há neste orbe, atroz ruim

Pus-me à janela da vida

E alonguei o meu olhar

P´lo vasto Mundo sem fim.

 

 

Pus todo o meu sentimento

Na mágoa que não se aparta

Do que mais nos desconsola;

E assim a cada momento

Vi buçaes comendo à farta

E génios pedindo esmola!

 

Vi muitas vezes a razão

Por muitos posta de rastos

E a mentira em viva chama;

Até por triste irrisão

Vi nulidades nos astros

E vi ciências na lama!...

  

Vi dar aos ladrões valores

E sentimentos perdidos

Nas que passam por honradas

Vi cinismos vencedores

Muitos heróis esquecidos

E vaidades medalhadas

 

 

Vi no torpor mais imundo

Profundas crenças caindo

E maldições ascendendo

Tudo vi neste Mundo

Vi miseráveis subindo

Homens  honrados descendo

 

Esse é rico, e não tem filhos

Que os filhos não dão prazer

A certa gente de bem

Aquele tem duros trilhos

Mas é capaz de morrer

P´los filhinhos que tem

 

 

Esta é rica em frases ledas

Diz-se a mais casta donzela

Mas a honra onde ela vai

Aquela não veste sedas

Mas os garotitos dela

São filhos do mesmo pai

 

Por isso afirmo com ciso

Que p´ra na vida ter sorte

Não basta a fé decidida

P´ra ser feliz é preciso

Ser canalha até à morte

Ou não pensar mais na vida.

 

 

Felizmente que... este poema foi escrito no  Século XX, no final dos anos  vinte e que hoje nada disto se poderia passar!, senão bem estávamos (à rasca - desculpem,  mas a frase é da Hermínia Silva), digo,  com razão para estar preocupados!

 

Video-Clip em que Vítor Duarte canta:

Janela da Vida

Letra de: Carlos Conde

 

 

Nota: Esta página foi publicada primeiramente no dia 1 de Janeiro de 2008.  C

Como o tempo passa .... e tudo está a acontecer.

Ver poema do bisneto de Carlos Conde nos comentários

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Viva Lisboa: Enganado
música: Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão- Carlos Conde
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Quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Alfredo Marceneiro - Gala Prémios Amália Rodrigues 2014

Gala Amália.jpg

PRÉMIO SAUDADE – Lembrar para Honrar

ALFREDO MARCENEIRO

 Alfredo Rodrigo Duarte (Marceneiro, profissão) nasceu em Lisboa no Bairro de Campo de Ourique a 29 de Fevereiro de 1888, só foi registado a 25 de Fevereiro de 1891, e aí veio a falecer a 26 de Junho de 1982.

Alfredo Marceneiro é na realidade uma saudade, mas uma saudade presente, porque sendo tocado e ouvido todos os dias é constantemente recordado.

Foi um purista do fado. Cantava com boa dicção e sabia dividir as orações.

As músicas que compôs são hoje Fados “clássicos”, aceites e cantados por gerações fadistas. Sentia de tal modo o Fado que, dir-se-ia que não era ele que vivia o Fado mas sim, o Fado “o” vivia a ele. Tal como Amália, também ele impôs regras e  inovações. Por exemplo, cantar de pé e à meia-luz, que constituíram na altura uma novidade mas que hoje são quase obrigatórias.

Sempre fortemente solicitado pelas Casas de Fado, onde alcançou grandes êxitos,  e privou de muito perto, e com grande amizade, com os “maiores” da época: o guitarrista Armandinho, Berta Cardoso, Hermínia Silva, Lucília do Carmo, Celeste e Amália Rodrigues, entre outros.

Em 1980 foi reconhecido publicamente com a atribuição da medalha de “Ouro de Mérito da Cidade de Lisboa”, pelo então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Eng.º Krus Abecassis. Em 1984, postumamente, com a “Comenda da Ordem do Infante D. Henrique” pelo Presidente da República Portuguesa, General Ramalho Eanes.

Alfredo Marceneiro foi, ainda em vida, carinhosamente apelidado de "O Patriarca do Fado", quer pelos seu pares, quer pelos órgãos de informação.

...E que grande homenagem lhe prestou a grande Amália quando lhe afirmou:   “Alfredo…tu és o Fado”.

Vítor Duarte (Marceneiro), neto.

Prémio Saudade - Amália a Marceneiro.jpg

Apreciação do Júri

“Este Prémio foi atribuído pela 1ª vez em 2013 a Hermínia Silva.

Era lógica e natural a sucessão. A escolha recaiu sobre um “ mestre criador”. Autor/compositor, intérprete e “estilista” do Fado. A maior referência masculina do Fado no séc. XX.”

Vítor Duarte Marceneiro

Canta "Bairros de Lisboa"

Letra de Carlos Conde Música Alfredo Marceneiro

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Domingo, 1 de Junho de 2014

Vítor Marceneiro - Cantar Lisboa

 

Lisboa e as Fadistas (Edição discográfica da Tradisom/José Moças)

 

 

 

 

 

Lisboa… é cantada, Lisboa… é pintada.

 

É estudada, comentada, vivida e sentida por todos, eruditos ou não, que,  afinal, se unem numa só causa: adorá-la, escutá-la e vê-la cintilar por todo o Mundo.

 

Nos poemas sobre Lisboa, transparece o propósito de apresentar uma crónica intensa e profundamente sentida, desdobrando-se e enredando-se nela o autor, por vezes em versos despretensiosos, ditos de “pé-quebrado”, mas nunca desrespeitando o rigor documental da história, num turbilhão de rimas e acidentados ritmos.

 

As cantigas que se fazem a Lisboa são declarações apaixonadas de amor. Os poetas personificam, na capital, a sua dama e rasgam-lhe um sem-número de galanteios e piropos, vendo sempre, na sua cidade amada, a mais cantada e colorida do Mundo. E é nesta cor local que jogam as suas rimas e seus estribilhos... Lisboa Princesa, Lisboa coroada Rainha, Lisboa “menina e moça”, Lisboa mãe, avó Lisboa, madrinha Lisboa, Lisboa amada, Lisboa dos meus amores, Lisboa do meu coração, Lisboa vai!, etc., etc.

 

Nas declarações de amor que recebe dos poetas seus enamorados, Lisboa tem todo o encanto e fica vaidosa, porque sabe que é bonita, não pela opulência, mas, sim, pela sua alegria e graça natural. Hoje é consensual que a nossa Lisboa é a mais cantada e a mais amada cidade do mundo. É a cidade das mil e uma cantigas.

 

Não se conhecem dados, de fonte fidedigna, que nos permitam saber qual terá sido o primeiro Fado dedicado a Lisboa, sabe-se, sim, que esta relação é antiga e terá começado no início do século XIX. Embora se trate inquestionavelmente de uma expressão de música popular urbana nas suas raízes, o tema principal do Fado não é apenas a cidade, destacando-se também a vida, a tragédia e o amor, ou seja, no fundo, a essência do chamado “estado de alma do fadista”.

 

Assim, o Fado tradicional tem como uma das suas regras básicas contar uma história, seja ela de amor, de tragédia ou de outro mote qualquer, mas é a saudade, que os portugueses orgulhosamente reivindicam como um sentimento enraizado nas suas almas, que ocupa o lugar central: a saudade, na partida para o  mar, dos pescadores, dos marinheiros, dos que emigram. Todo o português afirma, ao partir, que  leva no coração a saudade da pátria, da família e dos amigos… a saudade é destino, é signo de português, é o nosso Fado.

 

Lisboa e os seus bairros, as suas sete colinas, os lugares pitorescos, o rio Tejo que a envolve são cantados em muitos géneros musicais, mas o Fado é, sem dúvida, maioritário, seguindo-se as marchas populares, que saíram à rua a partir de 1932. Em cada ano, escrevem-se centenas de poemas sobre Lisboa, sempre lindos e diversos, que versam o mesmo tema, mas nunca se repetem. Este acervo iconográfico à cidade “musa inspiradora” não impõe limites à imaginação e criatividade dos poetas/letristas, tal é a sua beleza,  e, curiosamente, muitos destes temas que são compostos para os concursos das marchas preenchem a métrica para Fado, passando a serem cantados nas músicas dos Fados tradicionais.   

 

De igual modo, o Teatro de Revista produziu muitos temas que passaram a ser elevados a  fados clássicos. De facto, este tipo de teatro, também chamado “revista à portuguesa”, muito centrada em Lisboa, contribuiu bastante com o chamado “Fado revisteiro” para a  notoriedade, no início do século XX, de muitas mulheres fadistas. Muito embora tenha sido, muitas vezes, considerado como um “subgénero do Fado”, ele foi, sem sombra de dúvidas, um grande contributo para a divulgação do Fado e da mulher fadista. 

 

Ícone desta mulher é a Maria Severa (1820-1846), figura mítica de Lisboa, considerada a fundadora do Fado e heroína de um romance de Júlio Dantas. Foi com base nesta figura de Lisboa, que a mulher fadista mais se afirmou, sobretudo quando esta obra foi transposta para o teatro, em 1901, e que, tal como aconteceu com o romance, obteve estrondoso sucesso. Posteriormente, a Maria Severa continuou a ser motivo de inspiração. Em 1909, surgiu mais um êxito, uma “Opereta”, adaptada por André Brun e musicada pelo maestro Filipe Duarte, e na década dos anos 30, o Fado e as fadistas tiveram novo motivo de orgulho, desta vez através da Sétima Arte, o cinema. O primeiro filme sonoro português foi uma nova adaptação de “A Severa” de Júlio Dantas, feita pelo realizador Leitão de Barros. Neste filme, Dina Teresa cantava o «Fado da Severa» (também conhecido como «Rua do Capelão»), incluído na presente compilação.

 

O Fado é cantado pelas fadistas de Lisboa, de vestido preto com um xaile aos ombros, num ambiente de silêncio e respeito à média luz, ao som do trinar de uma guitarra.

 

E agora, caro/a leitor/a,… silêncio, que se vai cantar o Fado!

 

© Vitor Duarte Marceneiro/Tradisom

 

 

 Vítor Duarte Marceneiro

Canta: Bairros de Lisboa

Letra de Carlos Conde e música de Alfredo Marceneiro (Fados Pajem)

 

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Viva Lisboa: Linda Lisboa
música: Bairros de Lisboa
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Sábado, 4 de Janeiro de 2014

Cantigas de Lisboa - Vítor Duarte Marceneiro

 

CANTIGAS DE LISBOA

 

As cantigas que se fazem a Lisboa são declarações apaixonadas de amor. O poeta personifica na Capital a sua Dama e rasga-lhe um sem número de galanteios e piropos.

Porque vê sempre na sua cidade amada  a mais colorida do Mundo e é nesta cor local que joga as suas rimas e estribilhos ...

Lisboa Princesa, Lisboa coroada Rainha,  Lisboa menina, Lisboa mãe, avó Lisboa, madrinha Lisboa. Lisboa amada, Lisboa dos meus amores, Lisboa do meu coração, etc...

As cantigas de Lisboa têm todo o encanto nas declarações de amor que recebe dos poetas seus enamorados, Lisboa fica vaidosa porque sabe que é bela, não pela opulência mas sim pela sua alegria e graça natural.

È bem Lisboa a mais cantada e a mais amada Cidade do Mundo.

 Texto de: Vítor Duarte Marceneiro

 

Vítor Duarte Marceneiro canta:

Bairros de Lisboa

Poema de Carlos Conde

Música Fado Pagem de Alfredo Marceneiro

 

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Viva Lisboa: Viva Lisboa
música: Bairros de Lisboa de Carlos Conde
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Domingo, 3 de Novembro de 2013

Vítro Marceneiro - Fados da Minha Vida

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Viva Lisboa: Honrado
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Domingo, 13 de Outubro de 2013

Entrevista na RTP - Memória - Vítor Marceneiro & Armindo Rosa

Maria João Gama entrevista na RTP Memória no programa Há Conversa, emitido no dia 11 de Outubro de 2013, Vítor Duarte Marceneiro, neto de Alfredo Marceneiro e Director Executivo da Associação Cultural de Fado "O Patriarca do Fado" e Armindo Rosa,  Presidente da Direção da mesma associação.


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Viva Lisboa: Brioso da minha origem
publicado por Vítor Marceneiro às 17:17
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Quarta-feira, 9 de Outubro de 2013

Lisboa no Guinness - Projecto

1.000390 (Um milhão e trezentos e noventa) entradas no blogue LISBOA NO GUINNESS com uma média de 346 páginas visitadas diariamente que perfaz um total 346.000.000. Contagem iniciada em 9 de Abril de 2007 até hoje 9 de Outubro de 2013. Este blogue foi visto em todos os continentes.


Vítor Duarte é fadista amador, mas no que diz respeito à escrita considera-se um profissional. "Sou a pessoa que mais escreveu sobre fado em todo o mundo", garante. Refere-se ao blogue "Lisboa no Guiness" (só com um "n"), que mantém desde2007. Principal objectivo: "Divulgar o fado, fazer intervenção cívica e, acima de tudo, ajudar a candidatar Lisboa ao Livro Guinness dos Recordes como a cidade mais cantada do mundo." Dito de outro modo: "Se há tanta coisa no Guinness e se eu sou um apaixonado por Lisboa e poesia, porque é não haveria de fazer isto?".

Neto de Alfredo Marceneiro (1891- 1982),Vítor Duarte tem 66 anos, nasceu em Alcântara e vive no Cadaval. Adoptou, tal como o avô, a alcunha Marceneiro. Hoje tem um filho de 12 anos chamado Alfredo. Em 1995 publicou a biografia Recordar Alfredo Marceneiro.

Em conversa telefónica com a Time Out, num estilo palavroso e incansável, Vítor Duarte conta que Lisboa é a sua grande paixão. "E como uma mulher muito linda a quem os poetas dedicam poemas de amor." A infância passada em Campo de Ourique, sob o olhar atento do avô fadista, terá forjado a paixão.

Garante que a candidatura ao Guinness já foi aceite, mas ainda não produziu efeitos porque não há concorrentes. "Se me candidato a um recorde, tenho de ter outra pessoa que se proponha ultrapassar-me. Como isso ainda não aconteceu, aguardo o reconhecimento deste recorde."

Os critérios de Vítor Duarte para fazer de Lisboa recordista são talvez extravagantes, mas são os dele. "Por cada poema para fado que inclui a palavra Lisboa, há uns 20 que falam da cidade sem referirem o nome e eu só incluo aqueles que dizem Lisboa explicitamente. Mas não me interessam só os poemas que foram musicados para fado, as letras soltas também contam. Todos os dias me enviam poemas e além disso a palavra 'cantar' aplica-se tanto à música como à leitura de poesia." Percebe-se? "Tenho milhares de poemas potenciais e neste momento transcrevi 533, dos quais 393 são fados. Se alguém quiser bater este recorde, estou em condições de responder com milhares de poemas."

Já teve mais de 716 mil visitantes únicos no blogue. E se a paciência não lhe faltar, há-de conseguir o recorde que lhe dá alento.

In: Time Out Entrevista de Bruno Horta 16 de Novembro de 2011

 

Lisboa irá para o Guiness de certeza absoluta, volto a lembrar como tudo começou...
 
 A Proposta

 GUINESS RECORDS

      “Lisboa a Cidade mais cantada do Mundo”

 

Pesquisa e recolha do maior número possível de Letras de Fado, poemas e prosas sobre LISBOA, sendo que se crê que o maior contributo vem dos poetas e letristas de Fado.

Iniciar o processo de candidatura ao Guiness BooK of Records, sabendo-se que esta iniciativa/modalidade é original no Guiness.

Lisboa ao fazer parte do Guiness Book terá uma divulgação em milhões de pessoas.

 

METODOLOGIA:

 1º Serão compiladas as Letras de Fado sobre LISBOA devidamente identificadas;

  • ·         Autor da Letra
  • ·         Autor da música
  • ·         Registo na SPA se existir
  • ·         Nome do intérprete criador e de outros executantes
  • ·         Gravação fonográfica
  • ·         Programa de Televisão

 

2º Serão compilados os poemas sobre Lisboa, que se desconheça se foram ou não cantados ou gravados.

 

3º Serão compiladas as Letras das Marchas Populares, em que entre a palavra LISBOA

  • ·         Autor da Letra
  • ·         Autor da música
  • ·         Registo na SPA se existir
  • ·         Bairro Executante
  • ·         Ano da Exibição
  • ·         Gravação se existir

 

4º Serão compilados todos os poemas, sonetos prosas sobre LISBOA que se encontrem.

 Será necessário um exaustivo trabalho de pesquisa, passagem a sistema informático, e ficará assim também uma valiosa base de dados sobre este património cultural sobre LISBOA. (Consulta acessível ao público na Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa)

 

Poderá ser elaborado um livro com as Letras mais emblemáticas, traduzidas para Espanhol e Inglês, e dar oportunidade a alguns “pintores aguarelistas” de rua para ilustrarem o mesmo com trabalhos seus também sobre LISBOA. (Venda na Biblioteca Municipal e Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa e outros.)

 Esperamos que outras cidades após esta iniciativa de Lisboa, nos venham tirar o “Recorde” o que só é publicado no ano seguinte, assim na primeira apresentação apresentaremos um número considerável de Letras, mas ficando com uma reserva para podermos contra-atacar.

Dado que nos últimos anos poucos poemas sobre Lisboa tem surgido e estes muito pouco divulgados, seria interessante e estimulante para os poetas, a CML, organizar um concurso para incentivar a criação de letras de fado, poemas, prosas ou sonetos tendo como mote a Cidade de Lisboa. (por ex: seria constituído um Júri para escolher as cinco (ou mais) dos melhores trabalhos entre todas as modalidades, e poderia ainda vir a dar lugar a um Espectáculo (p.e. no S. Luís), e se possível seriam publicadas em livro a editar pela CML.

 Um dos Fados considerado unanimemente por todos os Fadistas e público em geral é Letra de Artur Ribeiro, que é autor de muitos outros fados, e por diversas razões nunca foi devidamente homenageado, pelo que seria uma “ Acção de Grande Cariz Popular” ser o mesmo agraciado a título póstumo pela CML. (ex. medalha de ouro da Cidade ou o nome de uma rua)

Mas para a EGEAC não tem interesse!

 

Resposta da Vereadora da Cultura  da C.M.L. Drª  Maria Manuel Pinto Barbosa, após várias reuniões em que o projecto foi bastante apreciado.

 

 

 

 

Passados dois meses escreve-me a EGEAC:

 

 

 

Mas em 2006 por ordem do então Presidente da C.M.L  Prof. Cardona Rodrigues o Dr. José Amaral Lopes á altura Vereador da Cultura aprovou o projecto

 

 

No mês de Junho tenho uma reunião com   o então Vereador da Cultura Dr. José Amaral Lopes, a quem expus o projecto, relatando-lhe os contactos já havidos.

Após mais alguns detalhes solicitados, o sr. Vereador elogia a ideia, e de imediato  a aprova,   nomeando a sua assessora, Dr.ª Paula de Carvalho, para dar seguimento ao projecto, enviando-o para a EGEAC.  

Sugeri  que o projecto fosse acompanhado pela Dr.ª Sara Pereira,   que aceitou, após conversa telefónica que com ela mantive.

A ajuda pecuniária  acordada seria paga mensalmente e durante  6 meses de trabalho de pesquisa, seguindo-se a recolha e registo de uma base de dados. Foi acordado que devido à grande quantidade de dados que se esperavam encontrar, o prazo poderia ser insuficiente, pelo que poderia vir a ser renovado.

Embora já tivesse sido  dada luz verde pelo senhor Vereador, que era simultaneamente Presidente da EGEAC.,atingimos, o fim do ano, sem que o projecto avançasse.

Ora, nesta altura já todos os órgãos de informação tinham publicitado o projecto, através duma entrevista dada por mim à agência LUSA, conduzida pelo jornalista Nuno Lopes, assim como, já tinha estado presente no programa da Fátima Lopes na SIC. A publicidade dada ao assunto, motivou, que tivesse recebido várias mensagens de incentivo, sobretudo, de apreciadores de Lisboa e do Fado, assim como esteve na origem de ter sido convidado pela direcção do Sapo, para dar inicio a um blogue sobre o assunto, ficando desde logo registado como “Lisboa no Guiness”.

Antes mesmo do contrato assinado, e de ter recebido qualquer remuneração, entreguei no Museu do Fado um DVD, com os seguintes dados: Registo de Poemas de Fado de Lisboa, "350 de A a Z" e ainda Registos de Fado de temas gerais, incluindo grande parte do repertório de Alfredo Marceneiro, Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Fernando Farinha e muitos outros, num total de 315 registos de "A a Z". Aliás na altura os temas de Lisboa foram aqui publicados.

O próprio vereador, e alguns orgãos de informação, e eu próprio, questionámos a Dr.ª. Sara Pereira,   sobre o andamento do projecto, que informou, faltarem resolver, apenas, alguns pormenores de carácter burocrático.

No início de Janeiro de 2007 comecei a publicação do blogue, tendo continuado a trabalhar nas pesquisas e recolhas.

Em Março ou Abril de 2007, assinei um contrato no Museu do Fado, tendo-me sido paga a quantia acordada, mas, sem que até hoje tenha recebido cópia do contrato, e o que lamento, nunca tenha conseguido ser recebido pela Dr.ª Sara Pereira, a despeito, das várias tentativas que efectuei.

Termino este comentário, com a satisfação de ver visitado o meu blogue de minha iniciativa pessoal, que penso, muito ter contribuído para a divulgação dos fadistas, do  Fado e de Lisboa. Sinto também do mesmo modo, grande satisfação, pela autoria dos livros biográficos de meu avô e de Hermínia Silva. 

 

Mas entretanto começa o escândalo do Filme Fados,  o célebre "Roubo do Fado Versículo". E quem diz as verdades a desmascarar as mentiras do Carlos do Carmo, o prémio Goya, a estreia no Olympia, etc.  É "persona non grata" 

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Viva Lisboa: Lisboa no Guinness - Projecto
música: Lisboa no Guinness - Projecto
publicado por Vítor Marceneiro às 20:00
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Quarta-feira, 2 de Outubro de 2013

Vítor Marceneiro - RECADO Á TROIKA

Vítor Duarte Marceneiro canta.

Sangue de Heróis

Letra de Carlos Conde

Música de Alfredo Marceneiro



 

Este poema é da autoria de Carlos Conde, grande poeta (fazia questão de ser apelidado de poeta popular e assim ficou para a história numa placa toponímia numa rua de Lisboa no bairro de Campolide),.

 

Foi conhecido também por ser um democrata, como dizia Alfredo Marceneiro, era um poeta do "reviralho".

 

Nos anos Trinta no inicio da 2ª Guerra Mundial, as tropas de Hitler, mesmo tendo aceito Portugal como país neutro, cobiçava as então nossas províncias ultramarinas e as ilhas.

 

Foi  um poema "revolucionário",  também assim  o entendi quando o gravei em 1993, mas foi logo censurado pela Emissora Nacional,  e facto curioso,  também considerado reaccionário e pró-colonialista, porque causa da estrofe "Portugal não cede um palmo de terra".( Ver crónica em http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/102684.html)

 

 Enfim mudam-se os tempos, mudam-se os pensamento e hoje penso que é uma boa  mensagem para as "TROIKAS DESTE MUNDO" e para os simpatizantes deles, que por cá andam ao "TACHO".


 

SANGUE DE HERÓIS

 

Letra de Carlos Conde

Música de Alfredo Marceneiro (Fado Cravo)

 

 

Se é de longe que tu vens

D´um país onde se abraça

O amor, a fé a nobreza

Podes entrar porque tens

Um abrigo em cada lar

 Um lugar em cada mesa

 

Mas se trazes a divisa 

De te impor de interceder

Por favor deixa-nos sós

O meu país não precisa 

Que outros venham resolver 

A questão que há entre nós

 

Se vens com torvo ideal 

Ou com o fito de 

Leva contigo os maus trilhos 

E diz lá que Portugal 

Não vende um palmo de terra 

Nem vende a honra dos filhos 

 

Diz ao mundo, grita aos sóis

Enche os céus da nossa glória 

Num clarão vasto e fecundo 

Que só com sangue de heróis 

Portugal ergueu a história 

Nas cinco parte do mundo 


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Viva Lisboa: Portugal Independente já
música: Sangue de Heróis recado á Troika
publicado por Vítor Marceneiro às 21:00
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Quarta-feira, 28 de Agosto de 2013

Vítor Marceneeiro - JANELA DA VIDA

Em 1994, na comemoração do 1º aniversário da SIC, disse e/ou declamei,  com fundo musical o poema Janela da Vida. Foi um poema do repertório de Alfredo Marceneiro, mas que infelizmente ele não o pode gravar.


 

 Esta letra da autoria de Carlos Conde, para o repertório de meu avô Alfredo Marceneiro, foi escrita no final dos anos vinte do século passado, foi "CENSURADA", mas acabou por ser cantada "à revelia" tendo criado alguns dissabores ao seu autor o poeta Carlos Conde,  quer ao meu avô.

Qualquer semelhança com o panorama  actual, é obviamente DESCABIDA!!!, será ?


Vítor Duarte Marceneiro diz:

Janela da Vida

Poema de Carlos Conde

Música do Fado do Cravo de Alfredo Marceneiro

 

 

 

 Nota: Os versos abaixo transcritos, diferem do que se gravou, em virtude do poema ser demasiado longo


 

"JANELA DA VIDA"

Letra de: Carlos Conde
Música: Marcha de Alfredo Marceneiro


Para ver quanta fé perdida
E quanta miséria sem par
Há neste orbe, atroz ruim
Pus-me à janela da vida
E alonguei o meu olhar
P´lo vasto Mundo sem fim.

Pus todo o meu sentimento
Na mágoa que não se aparta
Do que mais nos desconsola;
E assim a cada momento
Vi buçais comendo à farta
E génios pedindo esmola!

Vi muitas vezes a razão
Por muitos posta de rastos
E a mentira em viva chama;
Até por triste irrisão
Vi nulidades nos astros
E vi ciências na lama!...

Vi dar aos ladrões valores
E sentimentos perdidos
Nas que passam por honradas
Vi cinismos vencedores
Muitos heróis esquecidos
E vaidades medalhadas

Vi no torpor mais imundo
Profundas crenças caindo
E maldições ascendendo
Tudo vi neste Mundo
Vi miseráveis subindo
Homens honrados descendem

Esse é rico, e não tem filhos
Que os filhos não dão prazer
A certa gente de bem
Aquele tem duros trilhos
Mas é capaz de morrer
P´los filhinhos que tem

Esta é rica em frases ledas
Diz-se a mais casta donzela
Mas a honra onde ela vai
Aquela não veste sedas
Mas os garotitos dela
São filhos do mesmo pai

Por isso afirmo com siso
Que p´ra na vida ter sorte
Não basta a fé decidida
P´ra ser feliz é preciso
Ser canalha até à morte
Ou não pensar mais na vida

                                

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Viva Lisboa: Portugal está a ser mutilado!.
música: Janela da Vida de Carlos Conde e Alfredo Marceneiro
publicado por Vítor Marceneiro às 12:00
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013

JOSÉ PRACANA

Sabes   Zé, o meu avô ensinou-me- 
 

QUEM MEUS FILHOS BEIJA MINHA BOCA ADOÇA

 

Obrigado pelo carinho que lhe dedicaste, e que ele te retribuiu.


 

JOSÉ PRACANA, nasceu a 18 de Março de 1946 em Ponta Delgada, S. Miguel, Açores. Em 1956 veio residir para Lisboa com os pais e os irmãos

Iniciou a sua carreira artística em 1964 como fadista-amador, estatuto que sempre manteve, cantando e imitando em festas de estudantes. Frequentou várias casas de Fado-Amador que existiram no Estoril e em Cascais, onde aos fins de semana se juntava a José Carlos da Maia, Carlos Rocha, que em 1965 lhe proporciona as primeiras lições de guitarra portuguesa, João Ferreira-Rosa, António Mello Corrêa, Francisco Stoffel, João Braga, Teresa Tarouca, Carlos Guedes de Amorim, Francisco Pessoa e outros.

Em 1968 actuou pela primeira vez na RTP, num programa das Forças Armadas. Em 1969 foi ao Zip-Zip.

Em Dezembro de 1969, com Luís Vasconcellos Franco, seu conterrâneo, inaugurou o Bar de Fados Arredo, em Cascais, que dirigiu até 1972, ano em que abandonou a actividade empresarial para trabalhar na TAP  onde exerceu as funções de Comissário de Bordo e de funcionário da Direcção de Relações Públicas/Relações Externas e Protocolo da TAP/Air Portugal.

Na RTP participou no Curto-Circuito em 1970, programa de Artur Agostinho e João Soares Louro. A convite da RTP produziu o programa Vamos aos Fados, em 1976, uma série de cinco programas da sua autoria. Em 1985 entrou no programa televisivo de Carlos Cruz, "Um, Dois, Três". João Maria Tudela convidou-o para a RTP em 1987, actuando em Noites de Gala. No ano seguinte Simone de Oliveira teve a mesma iniciativa no Piano Bar. Em 1991 Júlio Isidro levou-o a Regresso ao Passado. A convite da RTP-Açores fez uma série de cinco programas com o título Silêncio Que Se Vai Cantar O Fado, em 1993. No ano seguinte Herman José convidou-o para Parabéns. Em 1995, Carlos Cruz fê-lo entrar em Zona Mais. etc.

Grande admirador de José Nunes e seu seguidor no estilo em que toca guitarra, e também de Alfredo Marceneiro.

Nos últimos anos regressou aos Açores onde vive actualmente.

José Pracana nos últimos tempos tem lutado contra uma doença que tem debilitado, mas estou crente que não o irá derrotar.... E Graças a Deus não derrotou.

Felicidades “Kana”

 

 Vitó

 

O Meu Amigo Pracana
 

Para mim, escrever sobre José Pracana, melhor dizendo, o Kana, é canja. O Zé e eu conhecemo-nos numa das noites quentes do Cartola — um bar na cave do Tridente, um restaurante que ficava mesmo defronte do antigo Cinema S. José, em Cascais, no tempo em que começámos a correr para as fadistices que lá havia como se disso dependesse as nossas vidas. Lá, no Estribo, no Galito, em Caxias, mais tarde no seu Arreda, na Taverna do Embuçado, enfim, em todo e qualquer sítio onde houvesse uma guitarra, uma viola, mulheres bonitas e com bom ouvido. Depressa me apercebi, nesses primeiros encontros, de que ele tinha talento para dar e vender, além de um sentido de humor que é raro encontrar na Península Ibérica, o que é perfeitamente natural: nasceu nos Açores. 

Ao Zé, conheci-lhe três paixões fundamentais: as mulheres, a boa mesa e a guitarra. E não obrigatoriamente por esta ordem. Um dos guitarristas de fado que mais me deslumbrou, desde que o escutei em casa de meus pais, tinha eu quatro, cinco anos de idade, foi José Nunes. Sei que o Kana também se encantou com a sua arte fadista e elegeu-o como farol, no que à lira diz respeito, sem que isso o impedisse de admirar mais alguns e entusiasmar-se com os seus trinados, porque o sectarismo não habita o interior do Zé, ao contrário do que é comum, desgraçadamente, à maioria dos fadistas.

 

Não fosse José Pracana um incorrigível amador e podia ter tido uma carreira profissional ímpar, como humorista, do género “stand-up comedy” — para usar uma terminologia pós-moderna —, numa variante composta por imitações, melhor dizendo, por caricaturas de personagens conhecidas do grande público: Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos, Vasco Santana, Francisco José, Vitorino Nemésio, António Ramalho Eanes, Tony de Matos, António Silva, Vicente da Câmara e até Simone de Oliveira, a Simone dos tempos em que a obrigavam, pobre dela, a ir para África entreter as tropas colonialistas. Pensando melhor, não é legítimo meter toda esta gente no caldeirão da pós-modernidade, mas como também nunca ninguém descodificou muito bem esse palavrão, ficamos assim. Começou também por tentar imitar José Nunes, mas, como já disse, inflamou-se de tal forma pelo seu tocar, que eu digo, seja a quem for, que jamais encontrei alguém que arrancasse um som tão semelhante ao do guitarrista dos olhos azuis, como o Pracana. 

O Zé sempre foi e continua a ser um apaixonado pelo Fado, por todos os fados que compõem o seu acervo e que ele conhece de cor e salteado. Na voz, na guitarra, na alma, escapando à onda da irritante moda de investigação que assola a canção de Amália e de Armandinho, que ele tem passado a vida a esforçar-se em conhecer melhor, partindo em busca da razão das coisas: dentro das livrarias, dos alfarrabistas, das tascas dos bairros mais antigos de Lisboa, através dos velhos cultores do Fado, com quem ainda se cruzou, e de quem bebia a sabedoria que eles oralmente lhe transmitiam.

Um desses mestres foi Alfredo Marceneiro. O homem, além de um extraordinário fadista, era um poço de sabedoria das coisas do Fado, um genuíno catedrático de tudo quanto respeita à nossa canção. Com ele, estou certo de que o Kana aprendeu muito do que sabe, até porque o Alfredo não tinha paciência para repartir a sua sapiência com quem não mostrasse muito interesse, o que não era nitidamente o caso do Zé. Tempos houve em que quando se via um sabia-se que o outro estava por perto, eram inseparáveis e o Kana possui um tal repertório de histórias dele e com ele que se Portugal fosse um outro país a esta hora já estariam reunidas em livro, para uma história do Fado — sem compadrios nem exclusões. 

Inseparáveis também, ou quase, fomos e somos eu e o Kana, ainda com mais episódios de vida partilhados, no Fado, na tropa, na boémia, embora neste caso com edição de duvidoso gosto. Haveria muito mais para dizer, infinitamente mais para contar mas, afinal, é muito mais difícil do que eu julgava escrever sobre uma pessoa a quem dedicamos uma tão grande amizade.

 

Lisboa, 14 de Julho de 2008

 

João Braga

 

Esta página já tinha sido publicada neste blogue em 14 de Julho de 2008.

 

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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013

Fados no EstaFado

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Domingo, 27 de Janeiro de 2013

Fui à Feira da Ladra

 

Vou novamente relembrar a minha ida à feira da ladra nesse ano de 1951, com o meu pai antes do inicio da escola, em que para aléda compra de uma grafonola, é também a história das minha botas de cano alto à "cow-boy".

Foi num Sábado de Agosto de 1951, que o meu pai me foi buscar a casa dos meus avós para me levar a conhecer a Feira da Ladra. Nessa época meu pai já tinha abraçado a profissão de "Artista de Variedades – Fadista", mas estava no início, o que ainda não lhe dava estabilidade económica. Com o falecimento precoce de minha mãe, passei a viver com os meus avós, na Rua da Páscoa, a Santa Isabel – Campo de Ourique.

Fomos a pé até ao Largo do Rato, descemos a Rua de S. Bento e, quando íamos a meio da Av.ª D. Carlos I, comecei a chorar porque me doíam muito os pés; tinha calçado nessa altura umas botas de carneira com sola de pneu, boas para jogar à bola, mas para caminhadas pareciam ser feitas de chumbo. Meu pai ficou um pouco arreliado, pois estava a fazer planos para irmos até ao Campo de Santa Clara a pé, e logo me disse:

– Lá vamos ter que gastar catorze tostões em dois bilhetes de eléctrico para a Graça.

                               

Carro Elécrico aberto anos 50

Chegámos a Santos e apanhámos o eléctrico, tal como o da foto acima (eléctrico aberto). Lembro-me que enjoei um pouco, pois o meu pai disse-me:

– Eh pá, estás amarelo, não vomites no carro – e passou-me para o topo do banco, onde era totalmente aberto, agarrando-me o braço com força para eu não cair.

Lá chegámos e entrámos para o recinto, pelo lado da Rua da Voz do Operário.

 

                    

                                          

                                    Foto do ambiente da Feira da Ladra, anos 50

 

Aquilo era um mundo fantástico para mim (tantas coisa giras); algumas eu nem sabia para que serviam, mas meu pai era frequentador e já ia com a ideia fixa do que queria comprar: uma grafonola! Fomos ao poiso do homem que ele sabia ter uma para vender, embora avariada. Na semana anterior já tinha tentado negociar um bom preço, mas não conseguiu. Com a minha presença (talvez para puxar ao sentimento) e batendo no argumento de que a corda estava partida e talvez nunca fosse possível arranjá-la, lá a comprámos por 20$00, incluindo uma caixa de agulhas e um disco de massa da "Voz do Dono" com dois temas de Maria Alice (que mais tarde veio a ser mulher de Valentim de Carvalho).

Tentámos, nos vários comerciantes, arranjar um disco do meu avô para lhe fazer a supresa, mas em vão; os discos de "Marceneiro" ainda eram preciosidades, raras de mais para aparecerem por ali.

Com o meu pai a transportar a grafonola, que depois de fechada parecia uma mala e tinha uma pega, começámos a descer em direcção à Av.ª 24 de Julho, para nos irmos embora. Ao passarmos junto ao gradeamento que dá para o Hospital da Marinha, havia um homem a vender calçado usado, mas com bom aspecto e muito bem engraxado. Os meus olhos fixaram logo uma botas de cano alto (à cow-boy). Pedi ao meu pai para ir ver se eram da minha medida, calcei-as e recordo que estavam um pouco compridas. Mas o homem disse logo que era a minha medida e que tinham solas novas, estavam muito baratas, só 15$00. Ó paizinho, compre, para eu levar para a escola (eu entrava em Outubro desse ano de 1952 para a 1ª Classe, nas Oficinas de S. José, aos Prazeres).

– São caras e o pai só tem... – e levou a mão ao bolso, mostrando 8$60.

O homem, com a sua lábia de vendedor, disse-lhe:    

– Estas botas, por 15$00, são um pechincha... Mas como o miúdo está aí tão triste, dê cá isso e leve lá as botas.

Mesmo antes que meu pai dissesse algo, embrulhou-as em papel de jornal, atou-as com uma guita, à volta. Eu agarrei-as logo, pois o meu pai, carregado com a grafonola, ainda podia dizer que não, o que não aconteceu. Lá deu o dinheiro ao homem e – meu Deus, como hoje recordo (sem pieguices ,mas com uma lágrima no olho) – que alegria!

Começámos a descer para a 24 de Julho, quando o meu pai se volta para mim e a rir diz:

– O menino Vitó levou a sua avante, mas esqueceu-se de uma coisa: o pai não tem mais dinheiro e agora temos que ir para casa a pé; e olha que não te posso ajudar porque a grafonola ainda é pesada.

– Ó paizinho, não há problema; eu aguento.

– Sempre quero ver isso – retorquiu ele.

Chegámos ao Cais do Sodré e eu derreado, já não conseguia dar mais um passo. Meu pai, a quem também já doía o braço de carregar a grafonola, poisou-a no chão, junto a uma parede, sentou-me em cima dela, disse-me que não saísse dali porque ia ao bar da gare dos comboios, ver se estava lá alguém conhecido.

Fiquei ali e, passados uns minutos, o meu pai aparece com uma sandes de torresmos e um pirolito. Fiquei deliciado, porque já havia um bom bocado que tinha fome e sede, mas não tinha dito nada para não complicar ainda mais a situação. Então, ele disse-me:

– Bem, espero que tenhas aprendido a lição; mas como o pai ainda descobriu aqui no fundo do bolso uns trocos, que deram para as sandes e ainda nos sobrou 2$00, assim podemos ir de eléctrico até ao Rato.

Calculem o alívio e alegria quando ouvi esta novidade, e lá fomos os dois a rir às gargalhadas para a paragem do eléctrico.

Foi um dia em cheio (que saudades, pai)...

Mal chegámos a casa, o meu avô começou logo meter-se com o meu pai, em ar de troça:

– Uma grafonola... e avariada!

– Deixe estar, que eu e o Vitó arranjamos isto – dizia o meu pai.

Claro que eu não percebia nada daquelas coisas, mas recordo ter ficado todo orgulhoso com o comentário. No futuro viria a ter esse jeito para as máquinas e ferramentas, mas meu pai era um grande “engenhocas”, lá em casa arranjava tudo.

Limpámos muito bem a caixa, que estava um pouco mal tratada, e meu pai desmontou o engenho de corda. Lembro-me que era parecido com a corda dos relógios de sala e – vejam a nossa sorte – a corda não estava partida, tinha-se solto o engate da ponta, que prendia ao sistema de fixação do enrolamento. O meu pai todo contente só dizia:

– Eu sabia, eu sabia!

Após a montagem, com a família toda à volta do engenho posto em cima da mesa de jantar, o meu pai dá à corda, destrava a pequena alavanca e o prato começa a rodar. Foi uma proeza saudada com grande algazarra e alegria. Logo o meu avô deu o dito por não dito:

– Já podemos tentar arranjar uns discos meus.

Entretanto, meu pai monta uma agulha, dá à corda (avisa-nos que não se deve rodar até prender, pois pode partir a corda ou voltar a soltar-se o engate) e põe o disco da Maria Alice. Foi, decerto, o primeiro disco que ouvi na minha vida, de tal forma que ainda hoje me lembro do fado na totalidade:

 

Acredita meu amor

Quando te vou visitar

Às grades dessa prisão

Sufocada pela dor

De te ver assim penar

Estala meu coração

 

Por mim mataste um rival

És agora condenado

Ao degredo por castigo

Mas juro por amor fatal

Não vai meu corpo a teu lado

Mas vai minha alma contigo

 

Depois, tomámos o gosto à grafonola e o primeiro disco do meu avô que arranjámos foi da “ODEON”, com os temas, "Amor de Mãe" e "Os Olhos". Como sabem, as grafonolas não tinham uma velocidade constante, e então o meu avô, quando se ouvia, exclamava:

– Então não é que até parece que tenho voz de mulher!!

                                   

                                         

                                      Disco de massa para grafonola

Mas voltemos às botas. Conforme tinha sido combinado, eram para estrear no primeiro dia de aulas, e assim foi, penso que a 6 ou 7 de Outubro. Nesse dia chovia torrencialmente, as botas vinham mesmo a calhar.

Ao fim do dia cheguei a casa desolado e com os pés todos molhados, pois as solas estavam todas desfeitas: As solas eram de cartão,  colado sobre a sola inicial já gasta, muito bem pintadas, com anilina preta e graxa, o que lhes dava aquele aspecto consistente e novo! Fartei-me de chorar com o desgosto, mas mais tarde até rimos, porque nos lembrámos de como fora o negócio e, afinal, os enganados fomos nós. Pediu-se orçamento ao sapateiro, mas a minha avó disse logo que não se podia agora estar com aquela despesa, as solas e a mão-de-obra custavam quase 30$00 (o meu avô, naquela altura, ganhava 50$00 por noite e o meu pai, quando arranjava para cantar, não ganhava mais do que 20$00 a 25$00 por noite).

Ora, a solução acabou por ser uma alegria e um orgulho para todos nós, isto porque o meu bisavô (pai do meu avô Alfredo) era sapateiro e o meu avô, nos intervalos da escola, até o pai morrer, foi aprendendo o oficio e dando uma ajuda no trabalho. Como o meu avô era habilidoso, desembaraçava-se bem; comprou num armazém, em S. Paulo, um bocado de sola que lhe custou 6$00 ou 8$00 e, como tinha as ferramentas da arte de sapateiro que tinham sido do pai – as formas, sovelas etc. – foi ele próprio que me colocou as solas nas botas, botas que usei enquanto me serviram. Creio que ainda acabaram por levar umas solas de borracha.

Desculpem estes desabafos/recordações dos meus Fados!

 

Vítor Duarte Marceneiro

 


Video Clip da autoria de Vitmaco

Fernando Mauricio canta: Feira da Ladra

Letra de Carlos Conde

Música de Raul Pereira (Faddo Zé Grande)


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Viva Lisboa: Saudades Pai
música: Fui à Feira da Ladra
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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012

Rádio Amália - Vítor Marceneiro canta ao vivo



Quarta-Feira dia 19 de Dezembro estarei a cantar ao vivo na RÁDIO AMÀLIA, pelas 18 hora,  a convite da minha amiga Inga Oliveira, qunto a mim, uma das radilistas mais conhecedoras de Fado, repito, de FADO, , para o programa ESTRELA DA TARDE, tenho o prazer e a honra de ser acompanhado por dois grandes músicos e meus amigos:

Guitarra Portuguesa o Prof. Luís Petisca

Viola de acompanhamento  Armando Figueiredo.

Para além de cantar irei falar do meu avô e da associação " O Patriarca do Fado", estarei à vossa disposição para criticas e porque não de elogios.

 

 

 Inga Oliveira

 

Relembro que há dias estive na mesma estação a ser entrevistado pela minha amiga a jovem radialista Cláudia Matos Silva, e que recebi muitos telefonemas a apoiar-me e a elogiarem a  jovem Cláudia Matos Silva..


Falando do meu avô com locução da Júlia Pinheiro


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Viva Lisboa: Fadista no sentir e no cantar
música: Vários de Marceneiro... é óbvio
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