Sexta-feira, 26 de Junho de 2020

ALFREDO MARCENEIRO - Deixou-nos há 38 anos

 E DEUS LHE DEU A GRAÇA E A ALEGRIA,  DE TER MORRIDO NA SUA FREGUESIA, COMO UM SOLDADO MORRE NO SEU POSTO

 

 

Alfredo Marceneiro faleceu na sua casa  pelas sete horas da manhã do dia 26 de Junho de 1982, contava 91 anos. (*)
O seu corpo esteve em câmara ardente, na Igreja de Santa Isabel, sendo apostas na urna a Bandeira Nacional e a bandeira da cidade de Lisboa por iniciativa do, então, Presidente da edilidade Engº Krus Abecassis e ainda uma guarda de honra permanente prestada pelos Soldados da Paz do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa.
 O Padre designado para fazer as exéquias do funeral de Alfredo Marceneiro desconhecia de todo a sua obra, mas impressionado com os milhares de pessoas presentes no velório, quis esclarecer-se sobre a sua figura. Levou a noite a escutar o José Pracana e este tão eloquentemente lhe falou do seu querido amigo "Ti Alfredo", que no dia do funeral,  o Padre ao dizer a Missa de Corpo Presente, ele próprio com as lágrimas nos olhos enalteceu a sua imagem de lisboeta e fadista, amante da sua cidade e da sua freguesia E a todos supreendeu, quando recitou os versos que Marceneiro tantas vezes cantou:

 

Alfredo Marceneiro canta:

A Minha Freguesia

 

Se os cantadores todos, hoje em dia
Ruas e bairros cantam, de nomeada
Eu cantarei á minha freguesia
A de Santa Isabel tão afamada

 

Freguesia gentil que não tem par
É talvez de Lisboa, a mais dilecta
De D. Diniz, a rua faz lembrar
O esposo de Isabel o Rei poeta

 

Lembra a Rainha Santa, quando vinha
Transformar o pâo em rosas, com fé tanta
Ela que Santa foi, menos Rainha
Mas foi entre as Rainhas, a mais Santa

 

Poetas e literários, foram seu
Ilustres moradores, geniais
Como Almeida Garrett, João de Deus
Teófilo, Junqueiro e outros mais

 

Freguesia onde enfim, moro também
Onde sempre pisei honrados trilhos
Nela casou a minha querida mãe
E nela é que nasceram os meus filhos

 

Que Deus me dê a graça, a alegria
Na vida tão cheínha, de desgostos
A vir morrer na minha freguesia
Como um soldado morre no seu posto

 

Assim, até na sua morte o Fado acontecia. Cumpriu-se o desejo que Alfredo Marceneiro cantava nos versos escritos pelo poeta Armando Neves.
É de realçar, que não havendo espaço no talhão dos artistas no Cemitério dos Prazeres, a Câmara Municipal de Lisboa, disponibilizou um gavetão perpétuo para repouso dos seus restos mortais.
 Milhares de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre que apesar de ser proibido se efectuou a pé, numa sentida manifestação de pesar desde Santa Isabel até ao Cemitério dos Prazeres.   Guitarristas dedilharam os seus instrumentos, durante todo o percurso, " a sua Marcha" em tom dolente e magoado, que mais parecia um choro de guitarras.
O Povo de Campo d´Ourique estendeu colchas nas janelas, numa homenagem singela ao homem simples do seu bairro.

Todos os orgãos de informação se referiram á efeméride, com títulos de destaque.

 (*) 91 anos em termos de registo de nascimento, masa na realidade tinha 94 anos

 

Chorai Fadistas, chorai...
A morte de Alfredo Marceneiro
— A GRANDE LENDA DO FADO
in Diário de Notícias

 

« Ti Alfredo » deixou-nos

Morreu O REI do FADO.

Morreu aquele a quem apelidaram de
—PATRIARCA do FADO

 

Marceneiro morreu, o fado de luto

Morreu Alfredo Marceneiro
— O MONSTRO do FADO

 

Guitarras choraram por Alfredo Marceneiro
in Correio da Manhã

 

Morreu Alfredo Marceneiro...
 O Fado lisboeta está de luto.
in O Dia

 

De todos os jornais diários que se referiram á efeméride  destaco o artigo assinado pelo jornalista e poeta Fernando Peres que foi seu grande amigo e admirador:

 

GUITARRAS CHORAM NO FUNERAL DE MARCENEIRO
in A Capital


"Não sabemos de quem teria sido a ideia mas não é difícil adivinhá-lo: José Pracana tem alma de poeta e uniu-o sempre ao ti Alfredo uma amizade filial. Talvez pela primeira vez, desde a saída do corpo até ao cemitério dos Prazeres, guitarras e violas choraram o que deixa insubstituível um lugar e foi um intérprete ímpar de várias gerações. Apenas melodias suas foram escutadas por gente que se espalhava pelas janelas para assistir ao cortejo enorme e ouvir um coro imenso de vozes de que Alfredo Duarte (o Marceneiro para toda a gente) era autor e andam na boca de toda a gente.
Esta é uma verdade indesmentível. Se reflectirmos, podemos concluir que a vida e a morte constituem os círculos viciosos do tempo.
A hora que se viveu é uma hora morta. Aquilo que hoje é emoção violenta, constitui amanhã, uma sensação esquecida.
Devemos insistir: esta é uma verdade indesmentível pois existe dentro de cada homem uma tragédia que ele ignora e uma comédia que ele vive. Algumas vezes, a tragédia é caricata ridícula, dá vontade de rir. Mas nunca ninguém riu da tragédia que consigo arrasta. É que a dor é um sinal da vida. Na realidade, só vive quem sabe sofrer...
Por isso ti Alfredo não sofre sózinho. Consigo leva um bocadinho do coração de todos nós. Os ídolos do fado são ídolos do povo. E um desses foi esse extraordinário Alfredo Marceneiro, decano dos intérpretes portugueses e, talvez, mundiais. Quase todos choraram quando foi o «momento da despedida». Mas homens como o ti Alfredo não morrem, nunca. Faltou a madrugada, substituída por um Sol radioso. Mas tudo teve expressão e significado. Valeu pela intenção valiosa e espectacular (houve quem  estivesse de muletas). Se era preciso, foi a consagração de um grande fadista. Quantos o acompanharam, e entre eles o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Leonor Beleza, constituíram um público, sem distinção de classes ali acorrendo a acenar o seu adeus ao maior intérprete da canção, nascida não se sabe onde ecoou em vozes doridas e viciosas nas betesgas das ruelas de Lisboa. Depois, ganhou raça em gargantas aristocráticas e hoje corre mundo na névoa das «boites».
De facto, passam tristezas a desfazer-se e o vento arrasta-se, lentamente, com vagares de cansaço. Já se feriram alegrias em vibrantes risos. Uma lágrima indiscreta espreita um sorriso.
Não o disse? «Felizes os que sabem, colhendo beleza e poesia, refugiar-se em recordações purificadas da mesquinhez do mundo. Felizes os que  são sabem, colhendo inspirados pelo amor, para quem o poente é sempre uma rosa e o azul tem transparências». Teve a sua companheira — a tia Judite — ao seu lado até ao último momento. Mãe dos seus filhos teve até ao final um gesto de amor. «Felizes os que sabem andar feliz o coração no espaço infinito, entre orações, bençãos e perdão. Felizes os que sabem demorar o perfume que o amor deixou».
Lá estiveram os seu amigos. O infalível Júlio Amaro (como podia ele faltar?). E sabe uma coisa? Foi uma manifestação de ternura, neste mundo de egoísmos, cada vez mais fracas.
 Ti Alfredo, até qualquer dia..."

 

Na Revita "MAIS"  de 2 de Julho de 1982, destaca-se aqui o seu editorial e dois artigos da autoria de grandes jornalistas.

 

UM SILÊNCIO NO FADO

"Um silêncio no Fado, eis o que se fez, súbito, no último fim-de-semana.
Morrera Alfredo Marceneiro ou, se preferirem ele mudara de "poiso" para parte incerta onde, afinal, todos acabaremos por beber do mesmo copo — como ele continua, certamente a fazer.
Um silêncio no Fado, eis o que se fez, súbito no último fim-de-semana.
Um silêncio de guitarras e violas, um silêncio de gargantas vazias, um silêncio cúmplice de cantos impossíveis.
Alfredo Marceneiro "diz" agora ali mesmo, ao virar desta esquina, todos o sabemos. Por isso aqui estamos prontos a escutá-lo naqueles que o testemunharam, naqules que o viveram e conviveram.
Prontos, não a consagrá-lo (que é lá isso?) mas a guardá-lo, nosso."

"MARCENEIRO" — exemplo do fado autêntico

"Sim, é uma verdade indesmentível: os ídolos do Fado são os ídolos do povo. E Alfredo Marceneiro, o «maior» do Fado tinha em si qualquer coisa de indefinível, de boémia atrevida e palpitante a confundir-se com uma ingenuidade quase infantil. Como era ele, afinal?
Igual a si próprio: rezingão e pitoresco, com a sua madeixa preta, a testa enrugada, matendo ao pescoço o lenço de seda com um nó mal-humorado. Como cantava? Como ninguém: com voz saturada de sensibilidade, uma voz popular e instintiva intérprete como nenhuma outra, da pobreza feliz da cidade e a pesia do seu povo. No Fado, soube sempre poetizar Lisboa. E, por isso, talvez, já não pertence apenas ao Fado e aos que o admiram — é património de Lisboa.
A cidade vai perdendo as suas figuras típicas. Mas ainda tinha em Alfredo Marceneiro um exemplo do Fado autêntico, nascido não se sabe onde mas que vivia na sua alma. Ele possuía a reforma do ofício que foi durante anos um apelido. Chamava-se Alfredo Rodrigo Duarte, o «Marceneiro» para quase todos, «Ti Alfredo» para os fadistas e para os amigos. Andou a roçar os noventa e era ainda uma figura da noite lisboeta. Raros o viram de dia e sempre por ocasiões graves. De resto era a noite que o trazia, envolvendo-o nas suas sombras de mistério. E, parecia conservar nos lábios uma saudade e um beijo quando chegava e dizia: «boa-noite». Sim, era a noite quem o trazia pois é de noite que ele vivia no mundo onde ganhou fama e glória. A sua ronda diária pelas casas típicas (a terminar sempre madrugada alta) era já talvez, uma necessidade de se sentir estimado, acarinhado, vivo para os que lhe queriam bem. O Fado, a sua segunda vida foi,  afinal, a sua vida inteira."

Assina: Fernando Peres

 

E ainda na Revista Mais um artigo de Miguel Esteves Cardoso

 

Ao fadista, Alfredo Marceneiro,

bem ido e bem vindo,

por,ocasião do fim da sua primeira vida (1891 - 1982)

 

"Se, como escreveu D.H. Lawrence, a morte é a única pura e bela conclusão de uma grande paixão, então a morte do fadista Alfredo Marceneiro é, também ela, um acto de paixão.
E é um Fado.
E é uma morte.
Mas um fadista não morre como morreram os outros homens.
A morte não o surpreende nem o leva — é ele que a chama e a ela se entrega. Porque ser fadista é atiçar, cortejar, pedir a morte desde o primeiro momento em que o Fado lhe nasce na voz. Um fadista, ao morrer, vê a sua arte a atingir o ponto máximo de perfeição.
E é um Fado.
E é uma morte.
Mas um fadista não morre como morrem os outros homens.
Ele trata a morte por tu. Conhece-le os jeitos e as manhas e só pode ter por ela o respeito que se tem por aquilo que conhecemos de gingeira: é gingão com ela, mas tem-lhe amor. Ou não fosse todo o Fado um fingimento da morte e todo o fadista um fingimento da vida
E é um Fado.
E é uma morte
E é uma saudade, e um destino. Ou não fosse a saudade, como memória do bem que jamais regressará, no qual que nunca desaparecerá, uma espécie de morte. O mesmo, em vida que ver morrer. Ou não fosse o destino, como pressentimento sem recuo nem apelo, uma espécie de preparação para a morte. O mesmo, em vida, que ver-mo-nos morrer.
E é um Fado
E é uma morte.
Pela saudade, o fadista pôde saborear a morte que lhe sobe do peito pela garganta, até à boca. É talvez um amargo e doce paladar — terá concretiza algo a ver com amêndoas cruas, caroços de cereja, vinho acre.
Pelo destino, o fadista faz no peito a cama á morte e o aroma desses lençóis  sobe pela garganta até à boca e tem o cheiro de uma mortalha lavada nas lixívias pungentes da vida.
E é só um Fado.
É afinal apenas uma Morte.
Mas que sentido teria celebrá-la e senti-la senão com sua própria língua, a do Fado e da Morte ? A morte de um fadista, a morte de Marceneiro, só pode ser celebrada e sentida na voz de outro fadista. Não pode ser escrita, não consente ser lida.
Porque o Fado precisa dos seus fadistas mortos, das suas lendas e lugares. No Fado, o luto continua. Deste modo sempre. Ou há alguém que disputa a lenda e o lugar da Severa ? Ou há alguém que duvide que, como morto. Marceneiro servirá o Fado como o não pôde servir nos últimos anos da sua vida ?
E é outro Fado.
E é nenhuma Morte.
Ao morrer, Marceneiro inicia uma outra carreira no Fado. Tão bela e importante como aquela que findou. Será furiosamente lembrado, mistificado, transformado em voz. Porque é uma das bonitas qualidades do Fado: o Fado nunca esquece. Agora é que Marceneiro começará a viver, porque já está morto, reconciliado com o seu destino de homem, preparado para a sua missão de reminiscência e saudade.
E é este o verdadeiro Fado.
E é esta a verdadeira Morte.
Porque os fadistas não morrem como os outros homens.
Melhor: nem sequer morrem. Toda a vida anseiam morrer. De amor e paixão, de cio e da saudade. Sem respeitar a vida, que é coisa que vem e que passa, senão daquilo que a vida tem de transportadora. Transportadora da imagem e do desejo das coisas que se amaram, e que nela se guardam, tão brancos como no dia que nasceram,os vícios da alma, os vícios do corpo.
E é assim um bonito Fado.
E não é assim uma feia Morte.
Ou não haja alguém que ponha em causa que um fadista não é um homem que, ora em ora, canta o Fado. Não existe esse bicho: o fadista em tempo parcial. Cantar o Fado é apenas um momento na vida de um fadista, tão natural como abrir as janelas de manhã, tão normal como as tarefas do dia-a-dia. E as tarefas do noite-a-noite, as rondas, as batalhas, os amores, os vinhos, os amigos, os trabalhos, misturam-se com o canto e — nos grandes fadistas, como o Marceneiro — entram pelo canto adentro e tudo encharcam para que a voz depois dê vazâo à paixão, dê cor à dor, dê despejo ao desejo.
È isto o dito Fado.
Bendito Fado, para além da Morte.
Alfredo Marceneiro foi esse fadista em que o Fado, como mero canto, era indissociável do Fado, como mera vida. Mas se dantes não havia realidade que podia com o arroubo de lembrar — o Fado é uma perpétua reconstrução do passado, sabendo sempre que nunca o poderá reconstruir a tempo de evitar o futuro — se dantes não havia Marceneiro—homem que podia com o esplendor de Marceneiro—mito; agora, agora e durante os muitos anos que só o Fado guarda contristadamente faz enternecer, Marceneiro pertence todo ao Fado como nem ele em vida, conseguiu pertencer.
E é Fado
E deixa de ser Morte
Digamos só: Olá Alfredo Marceneiro, é bom tê-lo outra vez entre nós.

Assina: Miguel Esteves Cardoso

 

Imagem do Cortejo que acompanhou a pé, em marcha lenta, ao som das guitarras, Marceneiro até à sua sepultura

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Domingo, 3 de Maio de 2020

DIA DA MÃE - 2020

dadi&Filhos6.jpg

Saúdo e dou Graças a Deus pela mãe dos meus filhos
O 1º Domingo do mês de Maio, foi convencionado passar a  ser o dia da mãe, saúdo as mães de todo o Mundo, com especial carinho para aquelas que acabam por passar os seus últimos dias de vida, ou sozinhas nas suas casas ou em lares, e tantas vezes esquecidas e desamparadas.

SE PARA SER HOMEM, JESUS,

PRECISOU QUE UMA MULHER

O DESSE Á LUZ NESTE MUNDO

O AMOR DE MÃE É A LUZ

QUE TORNA O NOSSO VIVER

NUM HINO DE AMOR PROFUNDO

 

Maria das Dores ( a avó Maria)  e Vítor Duarte

Minha mãe partiu com 25 anos, tinha eu cinco anos, mas quando eu já sabia escrever, era à minha saudosa avò Maria,  que eu escrevia uma mensagem de amor de filho,  como se da minha mãe se tratasse,  porque ela na realidade foi um "grande mãe" a ela lhe devo tudo o que sou,  era no dai 8 de Dezembro que durante muitos anos era celebrado o DIA DA MÃE.

 

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Viva Lisboa: QUE SAUDADES AVÓ MARIA
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Segunda-feira, 23 de Março de 2020

Carlos Gonçalves Guitarrista e Compositor - Faleceu Hoje aos 81 anos de idade

Nasceu em Beja a 3 de Junho de 1938. Apaixonou-se pela guitarra portuguesa aos 13 anos e dois anos depois começou a aprender tocar, influenciado pelo que ouvia na Rádio, sobretudo quando se tratava de José Nunes. Em 1957 veio viver para Lisboa, tendo sido contratado para tocar na Adega da Anita, de Anita Guerreiro, no Parque Mayer. Posteriormente passou para o Restaurante Típico Lobos de Mar, da Calçada de Carriche. Foi depois para a Viela, Márcia Condessa, Toca, Severa e 0 Folclore. Em 1965 esteve no Carlota de Cascais, daqui passou para a Taberna do Embuçado em Alfama, para o Arreda e Picadeiro. Até esta altura tinha acompanhado Alfredo Marceneiro, Filipe Pinto, Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo, Argentina Santos, Fernando Farinha, Fernando Maurício, Fernanda Maria e Beatriz da Conceição. Em Maio de 1968 passou a acompanhar Amália Rodrigues, integrada no conjunto de José Fontes Rocha. E autor do fado Quero Que Sintas Que Te Quero", com música popular. Foi interpretado por João Roque no CD Tasca do Chico. Em 2004 Carlos Gonçalves voltou a brindar os amantes da guitarra portuguesa, através da edição de novo álbum produzido pela CNM onde encanta com 0 Meu Sentir, de Jaime Santos, Meditando, de Armandinho, Marcha Fadista, de Armandinho / Francisco Carvalhinho, Lágrima, de Carlos Gonçalves, Caixinha de Música, de José Nunes, Lisboa Antiga, de Raul Portela, Variações em Mi, de Armandinho/José Nunes, Variações Em Si Menor, de José Nunes, Vira de Frielas, de José Nunes, Fado João de Deus, de Armandinho/José Nunes, Balada de Coimbra, de Artur Paredes com arranjo seu, Romance, de Narciso Yepez e Abril Em Portugal, de Raul Ferrão. Teve o acompanhamento à viola de Leio Nogueira. Luís Caldeira foi o técnico de som. O álbum é apresentado por Rui Vieira Nery. Fez conjunto com Sebastião Pinto Varela, Jorge Fernando e Joel Pina nos Anos 80. Nessa altura atingiu o ponto máximo da sua carreira, como autor e como intérprete, tendo acompanhado Amália em variadíssimas gravações, espectáculos ao vivo e em muitos palcos de todo o mundo. A sua colaboração com a Diva do Fado durou até 6 de Outubro de 1999, data em que ela faleceu. Reconhece-se por unanimidade que Carlos Gonçalves é dotado de grande musicalidade e de grande técnica na guitarra portuguesa. Entre outras gravações salientam-se três LP's de 1980-1983, com temas exclusivos de sua autoria, com letras de Amália como Lágrima e Grito. Desde o final de 1999 tem actuado também como solista, tendo nesta situação gravado um CD. São da sua autoria musical os seguintes fados gravados por Amália; Ai As Gentes, Ai A Vida, Ai, Minha Doce Loucura, Alma Minha, Amor de Md, Amor De Fé! Asa De Vento, Contigo Fica O Engano, Entrega, Flor De Lua, Flor De Verde Pinho, Fui Ao Mar Buscar Sardinhas, Gostava De Ser Quem Era, Grito, Lágrima, Morrinha, Nasci Para Ser Ignorante, O Fado Chora-se Bem, O Pinheiro Meu Irmão, Obsessão, Olha A Ribeirinha, Romance, Se Deixas De Ser Quem És, Sete Anos De Pastor e Sou Filha Das Ervas. É também autor das músicas dos seguintes fados: Perlim Pim Pim, Quando Se Gosta De Alguém, Rosa De Fogo, Tenho Em Mim A Voz Dum Povo, Vai Do Vira, Variações Em Mi Menor, Vi O Meninotes, Xaile De Silêncio, Ai Maria, Alfama Não Cheira A Fado, Bem £ Mal Amado, Cor De Lua, Gastei Contigo As Palavras, Marcha Fadista Em Ré, Meu Amor De Alfazema, Labão e Nasçam Os Amores e Homenagem, hoje em estreia, poema de Manuel Trindade. Carlos Gonçalves efectuou as seguintes gravações: de 1970 a 1979, Covilhã, Cidade Neve, É Ou Não É, Ó Careca, Oiça Lá Ó Senhor Vinho I, 2e3, Amália No Japão, Cantigas De Amigos, Zé Soldado Soldadinho, Amália Canta Portugal 3, Cheira A Lisboa, Fadinho De Ti Maria Benta, Cana Verde Do Mar, Valentim, Meu Amor £ Marinheiro, Trova Do Vento Que Passa e Caldeirada; de 1980 a 1989, Gostava De Ser Quem Era, Cantigas Ao Menino Jesus, É Ou Não £, Amália Fado, Lágrima, Amália Coliseu 3 de Abril de 198 7, Folclore A Guitarra e A Viola, Amália 50 Anos, Amália Mais Os Poetas Populares; de I 990 a 1999, Obsessão, Oiça Lá O Senhor Vinho, Gostava De Ser Quem era e Lágrima. Teve os acompanhamentos de José Fontes Rocha na guitarra, Pedro Leal na viola e Joel Pina na viola-baixo, por vezes Manuel Martins (Oiça Lá O Senhor Vinho), Jorge Fernando em discos gravados em 1980-89, José Nunes, Castro Mota, Raul Nery, Domingos Camarinha, Santos Moreira, Jaime Santos e Joaquim Luís Gomes ( O menor de Amália Vol. II, Tudo Isto É Fado ). Em 2005 a Fundação Amália Rodrigues atribuiu-lhe o prémio Guitarra Portuguesa.

in: Programa I GALA DOS PRÉMIOS AMÁLIA RODRIGUES.

Publicado pela primeira vez neste blogue e 20 de Setembro de 2012

Foto de: Leonel Lourenço

 

 

Vítor Duarte Marceneiro

Canta Bairros de Lisboa

Guitarra Carlos Gonçalves - Viola Jaime Martins

http://www.youtube.com/watch?v=PT-r-SeCnQY

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Viva Lisboa: Fadista
música: Bairros de Lisboa
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Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019

ARGENTINA SANTOS FALECEU 18-09-19

MARIA ARGENTINA PINTO DOS SANTOS, nasceu em Lisboa, na Mouraria (fre­guesia do Socorro), a 6 de Fevereiro de 1926.

Desde 1950 que se mantém à frente do seu restaurante típico “A Parreirinha de Alfama”, também conhecida antigamente com (Cantinho da Amália), sendo considerada uma excelente cozinheira.

Argentina Santos só iniciou a sua carreira artística depois da aber­tura do seu restaurante, cantando com sucesso para os frequentadores da casa. De facto, graças à autenticidade das suas interpretações e a um estilo muito pessoal, logo se impôs como uma das mais dotadas e prometedoras fadistas da época, tornando-se desde então, muito apreciada como intérprete do fado clássico, na linha das cantadeiras afamadas do passado.

Pela Parreirinha de Alfama passaram as mais consagradas cantadeiras de fado, aliás as paredes estão decoradas com molduras com as fotos de todas elas. Homens só Marceneiro e Júlio Peres.

Os fados As Duas Santas (letra de Augusto Martins e música do Fado Franklin) e Juras (letra de Alberto Rodrigues e música de Joaquim Campos) foram, entre outros, grandes êxitos seus.

Gravou o seu primeiro disco em 1960 cantando conhecidas composições como Chafariz do Rei, Quadras (de António Botto), Naquela Noite, Em Janeiro, Amar Não é Pecado, Dito por Não Dito, Passeio Fadista, A Grandeza do Fado, Não Me Venhas Bater à Porta, Mágoas Com a Vida, Reza, Quadras Soltas e Os Meus Passos.

Tendo-se embora confinado às suas actuações na Parreirinha de Alfama e a uma ou outra intervenção em festas públicas e particulares, Argentina Santos não deixou, por isso, de se tornar conhecida e apreciada como cantadeira castiça.

Nas últimas décadas tem tido umas deslocações ao estrangeiro, onde também tem agradado.

Na 1º Gala dos *Prémios Amália Rodrigues, foi agraciada com o prémio carreira.

Em 2011 Argentina Santos, retira-se para a Casa do Artista.

 

Argentina Santos e Alfredo Marceneiro

 

 

Anúncio da "Parreirinha de Alfama" no Jornal a Voz de Portugal de Janeiro de 1959

em que se verifica que se apelidava também de (Cantinho da Amália)

 

 

Berta Cardoso, Alfredo Marceneiro, Lina Maria Alves (a fadista que há mais anos foi residente na Parreirinha) e o guitarrista Acácio Gomes

 

 

Caricatura de Argentina Santos da autoria

do Dr. Francisco Faria Pais

oferecida à Associação Cultural de Fado "O Patriarca do Fado"

Protegida por Direitos Autorais

 

 

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Segunda-feira, 11 de Novembro de 2019

TEREZA TAROUCA

Tereza Tarouca faleceu hoje 11 de Novembro de 2019 aos 77 anos de idade. Paz à sua Alma

Teresa Tarouca2.jpg

Tereza de Jesus Pinto Coelho Telles da Silva, nasceu em Lisboa a 4 de Janeiro de 1942, oriunda de uma família ligada à música e grandes amantes de Fado. É bisneta dos Condes de Tarouca, prima afastada de Maria Teresa de Noronha e prima de Frei Hermano da Câmara.

O Salão dos Bombeiros de Oeiras, foi palco da estreia de Tereza Tarouca, em que cantou o fado tinha apenas 13 anos, afirma que teve influências de Amália Rodrigues e Maria Teresa de Noronha.

Gravou seu primeiro disco para a RCA em 1962.

Fez vários programas de televisão.

Cantou poemas e músicas de Fados clássicos de autores de nomeada,  como D. António de Bragança, João de Noronha, Casimiro Ramos, João Ferreira-Rosa, Francisco Viana, Alfredo Marceneiro, D. Nuno de Lorena, Pedro Homem de Mello e Maria Manuel Cid. 

Tereza Tarouca ganhou vários prémios nacionais e internacionais e actuou em muitos países como Dinamarca, Bélgica, Espanha, Estados Unidos e Brasil.

Em 1989 publicou um álbum emblemático da sua carreira: Tereza Tarouca Canta Pedro Homem de Mello.

 

Dos seus principais êxitos, destacam-se:
"Mouraria",
"Deixa Que Te Cante Um Fado",
"Fado",
"Dor e Sofrimento",
"Passeio à Mouraria",
"Saudade,
"Silêncio e Sombra",
"Não Sou Fadista de Raça",
"Meu Bergantim",
"Zé Sapateiro".

 

 

 Tereza Tarouca canta: Cai Chuva no Céu Cinzento

Festival da RTP - 1993

 

 


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Quarta-feira, 30 de Outubro de 2019

EU TENHO UM SONHO

EU AINDA QUERO SONHAR COM UM PAÍS DEMOCRÁTICO E PLURALISTA

cravo-aries.jpg

 

Martin Luther King, foi assassinado vai há mais de 50 anos,  por  ter tido a ousadia de SONHAR e LUTAR

 contra uma sociedade racista e intolerante, tiraram-lhe a vida, mas a sua mensagem perdura.

MESMO QUE ISSO LHE CUSTE A VIDA , SEMPRE QUE UM HOMEM SONHA, O MUNDO PULA E AVANÇA2019-10-30

 

  

 

 

 

Manuel Freire canta:

 

Pedra Filosofal

Poema de António Gedeão

Música de Manuel Freire

 

PEDRA FILOSOFAL

 

Eles não sabem que o sonho

É uma constante da vida

Tão concreta e definida

Como outra coisa qualquer

Como esta pedra cinzenta

Em que me sento e descanso

Como este ribeiro manso

Em serenos sobressaltos

Como estes pinheiros altos

Em que verde e oiro se agitam

Como estas aves que gritam

Em bebedeiras de azul

 

                                                                 Eles não sabem que o sonho

                                                                 É vinho, é espuma, é fermento

                                                                 Bichinho alacre e sedento

                                                                 De focinho pontiagudo

                                                                 Num perpétuo movimento

 

 

Eles não sabem que o sonho

É tela, é cor, é pincel

Base, fuste ou capitel

Arco em ogiva, vitral

Pináculo de catedral

Contraponto, sinfonia

Máscara grega, magia

Que é retorta de alquimista

Mapa do mundo distante

Rosa-dos-ventos, Infante

Caravela quinhentista

Que é Cabo da Boa Esperança

Ouro, canela, marfim

Florete de espadachim

Bastidor, passo de dança

Columbina e Arlequim

Passarola voadora

Pára-raios, locomotiva

Barco de proa festiva

Alto-forno, geradora

Cisão do átomo, radar

Ultra-som, televisão

Desembarque em foguetão

Na superfície lunar

 

                                                         Eles não sabem nem sonham

                                                         Que o sonho comanda a vida

                                                         Que sempre que um homem sonha

                                                         O mundo pula e avança

                                                         Como bola colorida

                                                         Entre as mãos de uma criança

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Segunda-feira, 28 de Outubro de 2019

Amália & o Chico da Amalia

Documento inédito de uma entrevista a Francisco Cruz (1º marido de Amália alcunhado do Chico da Amália), dada ao Jornal de Notícias de Lourenço Marques em 16 de Janeiro de 1951.  Com factos que embora do foro pessoal de Amália e do Francisco Cruz, são relevantes para desmistificar algumas publicações menos correctas e objectivas, que me foi entregue em mão, com a mensagem: És uma fonte credível... continua.

Amália16-01-51.jpg

Esta página inédita em breve será divulgada depois de trancrita para um ficheiro Pdf

©Vitor Duarte Marceneiro

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Quarta-feira, 9 de Outubro de 2019

Artur Ribeiro Poeta

ARTUR RIBEIRO

Artur Ribeiro, Max e Alfredo Marceneiro

Artur Ribeiro nasceu no Porto em 1923, mas cedo vem para Lisboa e aqui fica radicado, sendo para mim o poeta que fez um dos poemas mais lindos sobre Lisboa, Lisboa , A Grande Marcha de Lisboa 1965 – Só Lisboa, Lisboa à meia-noite, Cachopa do Minho, A Rosinha dos Limões, A Fonte das Sete Bicas, Sete Saias, Nem às Paredes Confesso, Pauliteiros do Douro, Eu nasci Amanhã, O Meu Coração Parou, Adeus Mouraria, Lisboa à meia-noite, Fiz Leilão de Mim, Anda o fado Noutras Bocas, è Urgente que Venhas, Vielas de Alfama, etc. A sua parceria com Fernando Farinha e mais tarde com Max teve o condão de nos deliciar, e foi raro o artista que não tenha cantado  Fados da sua autoria.

Connheci o Artur Ribeiro,  convivi com ele desde muito jovem, meu pai e meu avô eram seus grandes amigos, era uma pessoa bastante afável e uma clarividência intelectual notável, aprendi muita coisa em escutá-lo, ficou-me a honra de ter gravado um poema seu que escreveu de propósito para mim,  a que deu o título “Ser Mais Um Entre Tantos” ao receber o poema logo me apercebi que tinha a ver comigo,  constatei que aquele grande Senhor durante aqueles anos em  que falava com este rapazinho de então, me levava a sério, e já homem escreve-me num Fado tudo aquilo que sentia por mim e pela minha maneira de ser.

Artur Ribeiro deixou de escrever poemas para nós em 1988.

O meu projecto “Lisboa A Cidade mais cantada do mundo” tem como poema eleito,  a Canção de Lisboa de sua autoria.

Fiz a apresentação de projecto à CML e espero vir a ter colaboração de toda a comunidade fadista para que seja feita a devida homenagem a este grande poeta que tanto amou Lisboa, para que lhe seja atribuída a titulo póstumo a Medalha da Cidade e uma rua da edilidade. (Sonhos...!?)

 

 Anda o Fado Noutras Bocas

 
Letra: Artur Ribeiro
 
Andei p'la Mouraria
Nas tascas do antigamente
Mas o fado estava ausente
Mudou de lá quem diria
E corri Lisboa inteira
Até encontrar o fado
Porém achei-o mudado
Cantado doutra maneira
 
Estribilho
 
Chorai fadistas chorai
Como dizia a cantiga
E se uma guitarra amiga
Trinar em tom magoado
Cantai fadistas cantai
Com vossas gargantas roucas
Que anda o fado noutras bocas
Que não são bocas p'ró fado
 
Agora de madrugada
Eu oiço por todo o lado
Noutras bocas outro fado
Que do fado não tem nada
E choro então o passado
Dos fadistas que morreram
Ouvindo alguns que nasceram
P'ra tudo menos p'ró fado
 

 

Beatriz da Conceição canta Canção de Lisboa de Artur Ribeiro

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música: Canção de Lisboa
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Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019

MAX - Maximiano de Sousa

Maximiano de Sousa ficou conhecido do grande público, pelo diminutivo “Max”, nasceu no Funchal a 20 de Janeiro e 1918, mas só foi registado a 2 de Feveriro do mesmo ano.
Aprende o ofício de alfaiate, e mesmo depois de ser artista ainda durante muito tempo manteve essa profissão.
Em 1936 começou a actuar à noite num bar de um hotel do Funchal, em 1942 foi um dos fundadores do conjunto Toni Amaral, onde actuava como cantor e baterista.
Em 1946 integrando esse mesmo conjunto rumam a Lisboa e são contratados para actuar no famoso cabaré “Nina”.
Começou a cantar fado em 1948, e o primeiro sucesso chamou-se “ Não digas mal dela” com música de Armandinho e letra de Linhares Barbosa, o êxito deste fado foi tão grande que iniciou a carreira a solo, que rapidamente se transformou num sucesso.
Em 1949 gravou o seu primeiro disco para a “Valentim de Carvalho”, com duas canções que se tornaram no seu definitivo trampolim para o estrelato “Noites da Madeira” e “Bailinho da Madeira”. Foi o primeiro de muitos êxitos como :“ A mula da cooperativa” “Porto Santo” “ 31” “ Sinal da Cruz” e muitos mais. Em 1952 iniciou uma brilhante carreira de actor, a convite de Eugénio Salvador participa na revista “Saias Curtas” , o desempenho agradou e entrou numa longa série de revistas. Em 1957 partiu para os E.U.A onde se manteve dois anos, inicia outra digressão por Angola, Moçambique, África do Sul, Brasil e Argentina. Depois do enorme êxito desta digressão e regressado a Portugal, lançou um novo fado que igual sucesso “Pomba Branca”.
Além de cantor Max destacou-se como compositor, muitos dos êxitos que interpretou foram composições suas, mas é de salientar a sua parceria com Artur Ribeiro, “Vielas de Alfama”, “Noite” , “Rosinha dos Limões” etc..
Este grande cantor, compositor, autor e músico deixou-nos no ano de 1980.
Embora nascido na Madeira, foi em Lisboa que Max se formou como artista, e foi nesta também sua cidade que alcançou os grandes sucessos da sua carreira, Max foi um fadista de alma e coração, para além da sua querida Ilha da Madeira, amava profundamente Lisboa.
 
Video Clipe com  Max  a cantar "Sinal da Cruz"
Os figurantes, são os meu filhos Alfredo e Beatriz
Realização Vítor Duarte Marceneiro
 
 
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Viva Lisboa: Grande MAX
música: Sinal da Crz
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Sexta-feira, 6 de Setembro de 2019

Fados do meu Fado...As estrelas do meu menino

Vitó com 6 anos.jpg

Quando minha mãe faleceu tinha eu de 5 para 6 anos, e fui morar com os meus avós paternos, a avó Judite e o avô Alfredo.
O meu avô acompanhou a minha mãe na fase da doença e tinha um carinho muito especial por ela, era como uma filha para ele e para a minha avó.
Como é de calcular no início da mudança,  eu era uma criança  com momentos de muita tristeza e melancolia, mas meu avô acarinhava-me muito, e acima de tudo fazia diálogos comigo, o que se prolongou até à minha saída de casa, foram estes diálogos e o meu espirito  de curiosidade, que contribuiram para que eu possa nestas páginas, contar com fidelidade o que me ensinou e relatou sobre a vida, e a sua experiência no Fado.
Num certo dia eu estava taciturno e lembro-me do meu avô logo que se apercebeu, começou por me dizer:
— Oh! Vitó, nas estejas com esse olhar mortiço, tens os olhos da tua mãe, que eram muito bonitos.
Nunca mais me esqueci, pois logo de seguida disse-me estes versos:

 Tua mãe quando nasceste
Viu cair duas estrelas
Foi  apanhá-las, e fez-te
Teus lindos olhos com com elas

 
Há uns anos atrás, contei com emoção este episódio ao poeta Carlos Escobar, que glosou a quadra, que eu nunca soube se foi inspiração do meu avô, ou era alguma quadra de um autor que ele tinha em mente.

 
 AS ESTRELAS DO MEU MENINO
 
TUA MÃE QUANDO NASCESTE
VIU CAIR DUAS ESTRELAS
FOI APANHÁ-LAS, E FEZ-TE
TEUS LINDOS OLHOS COM ELAS
 
                                         QUEM O DISSE JÁ PARTIU
                                         DISSE-O COM AR MENINEIRO
                                         E QUANDO O DISSE ELEGEU
                                         DESCENDÊNCIA... MARCENEIRO
 
INDA MUITO PEQUENINO
O PETIZ NÃO PERCEBEU
MAS SOUBE LOGO MENINO
QUE HAVIA ESTRELAS NO CÉU
 
                                       REPAROU NUMA, BRILHANDO
                                       E O AVÔ TAMBÉM OLHOU
                                       E DE MÃOS DADAS ANDANDO
                                       SORRIU, PENSOU E CALOU
 
E NÃO DISSE AO SEU MENINO
QUE NAS ESTRELAS ALÉM
NUM PONTINHO PEQUENINO
ESTAVAM OS OLHOS D' MÃE
 
Autoria de Carlos Escobar para o Vitor Duarte

      Foto de minha mãe Mariete Duarte          Vitor Duarte aos 18 meses
 
 
 
 
  “È TÃO BOM SER PEQUENINO”
 
Letra de: Carlos Conde
 É tão bom ser pequenino
Ter pai, ter mãe, ter avós
Ter esperança no destino
E ter quem goste de nós
 
                                          A velhice traz revés
                                          Mas depois da meninice
                                          Há quem adore a velhice
                                          Para ser menino outra vez
                                          Ser menino que altivez
                                          De optimismo e desatino
                                          Ver tudo bom e divino
                                         Tudo esperança, tudo fé
                                          Enquanto a vida assim é
                                          È tão bom ser pequenino
 
Ver tudo com alegria
Sem delongas sem demoras
Viver a vida numa hora
Eternidade num dia
Ter na mente a fantasia
Dum bem que ninguém supôs
Ter crença sonhar a sós
Com a grandeza deste mundo
E para bem mais profundo
Ter pai, ter mãe, ter avós
 
                                        Ter muito enlevo a sonhar
                                         Acordar e ter carinho
                                        Ter este Mundo inteirinho
                                         No brilho do nosso olhar
                                         Viver alheio ao penar
                                         Deste orbe torpe ferino
                                        Julgar-se eterno menino
                                        Supor-se eterna criança
                                        E num destino sem esperança
                                        Ter esperança no destino
 
Oh! Desventura, Oh! Saudade
Causas da minha inconstância
Dai-me pedaços de infância
Retalhos de mocidade
Dai-me a doce claridade
Roubando-a ao tempo atroz
Eu queria ter a minha voz
Para cantar o meu passado
E é tão bom cantar o fado
E ter quem goste de nós
 
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Viva Lisboa: Recordar é viver
música: É Tão Bom Se Pequenino
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Quarta-feira, 4 de Setembro de 2019

Amigos tenho-os aos centos, mas....

Obrigado a todos os amigos que me têm apoiado, fazer um trabalho destes,  embora que modesto, é mais graticante quando recebemos uma palavra de retorno,  mesmo de crítica, saber que somos lidos só  por si é um estímulo.

Bem Hajam

A gente não faz amigos, reconhece-os

TinTin.jpg

AMIGOS

Se alguma coisa me consome e me entristece é que a roda furiosa da vida, não me permite ter sempre ao meu lado,

Morando comigo

Andando comigo

Falando comigo

Vivendo comigo

Todos os meus amigos

·        Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.

·        Tenho amigos que não percebem o amor que lhes devoto.

·        Tenho amigos que não imaginam a necessidade que tenho deles.

·        A alguns dos meus amigos não os procuro, basta-me saber que eles existem.

·        Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles... eles não iriam acreditar.

·        Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.

·        Se um dos meus amigos morrer, eu ficarei torto para um lado.

·        Se todos os meus amigos morrerem, eu desabo!

·        Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.

              Muitos dos meus amigos irão ler esta crónica e não sabem, não fazem ideia que. estão incluídos

     ...na sagrada relação de meus amigos.

 

 

Nota: Poema amigos - Excertos de Vinicios de Morais   

 

 

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Quinta-feira, 29 de Agosto de 2019

JÚLIA MENDES

 Cantadeira e actriz, nasceu em Lisboa (1885­-1911).

Revelando desde pequena especial talento, começou a cantar o Fado pelas ruas de Lisboa enquanto a mãe pedia esmola.
Estreou-se no teatro de revista no Teatro da Trindade, no dia 25 de Dezembro de 1902, numa matinée promovida pela Tuna do Diário de Notícias.
Foi a consolidação de uma carreira iniciada nos teatros de feira, situação que viria a prejudicá­-la junto de alguns empresários, nomeadamente José dos Santos Libório, do Casino de Paris, o qual apesar disso lhe assegurou o primeiro contrato estável, tornando-se desde logo conhecida do grande público pelo seu espírito trocista, ditos brejeiros e capacidade de improviso.
Passou pelo Príncipe Real e pelo teatro Aveni­da. Ficaram célebres as suas participações nas revistas Ó da Guarda!, P'rá Frente, Zig-Zag, ABC e Sol e Sombra.
Menina mimada do povo boémio da época pela beleza da sua voz e dicção claríssima, foi con­siderada Rainha da Revista, chegando a manter um teatro com o seu nome - Salão Júlia Mendes­ na Feira de Agosto.
Desempenhou o papel de Se­vera na ópera cómica do mesmo nome, acompa­nhando-se à guitarra.
Os seus grandes olhos expressivos e alegria na­tural criaram um estilo a que não era alheio, segun­do os críticos da época, uma subtil tendência para o trágico dentro do próprio humor que levaram ao carácter eminentemente popular da sua Severa.
Representou pela última vez, em 1910, na Fei­ra de Agosto, na revista Zig-Zag.
Tal como Maria Vitória desaparecida muito jovem, com ela se formou um dos grandes mitos dos tempos do Fado do início do século.
Em 1969, na Revista Ena, Já Fala, é relembrada por Fernanda Batista, que declamava:
Acabando em apoteoso cantando o Fado ”Saudades da Júlia Mendes”,
cujos autores foram: João Nobre e César de Oliveira, Rogério Bracinha e Paulo Fonseca
© Vítor Duarte Marceneiro

 

Maria da Nazaré canta:

Saudades da Júlia Mendes

 



Saudades da Júlia Mendes

Eu trago a vida suspensa
Das cordas duma guitarra
Mas oiço com indiferença
Quando me veem dizer
Naquela ideia bizarra
De eu não cantar p'ra viver.

 


Ó Júlia
Trocas a vida pelo fado Pelo fado
Esse malandro vadio
Ó Júlia
Olha que é tarde
Toma cuidado
Leva o teu xaile traçado
Porque de noite faz frio
Ó Júlia
Andas com a noite na alma
Tem calma
Inda te perdes p' raí
Ó Júlia
Se estás no mundo vencida
Não finjas gostar da vida
Que ela não gosta de ti.

Não fales coração
Tu és um tonto sem razão
Viver só por se querer
Não chega a nada
Aceito a decisão
Que os fados trazem ao nascer
Todos nós temos que viver
De hora marcada
Se Deus me deu voz
Que hei-de eu fazer
Senão cantar
O fado e eu a sós
Queremos chorar
Eu fujo não sei bem
De quê, do mundo ou de ninguém
Talvez de mim
Mas oiço alguém
Dizer-me assim:

 

Ó Júlia
Trocas a vida pelo fado Pelo fado
Esse malandro vadio
Ó Júlia
Olha que é tarde
Toma cuidado
Leva o teu xaile traçado
Porque de noite faz frio
Ó Júlia
Andas com a noite na alma
Tem calma
Inda te perdes p' raí
Ó Júlia
Se estás no mundo vencida
Não finjas gostar da vida
Que ela não gosta de ti.

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Viva Lisboa: Ah! fadista
música: Saudades da Júlia Mendes
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Quinta-feira, 15 de Agosto de 2019

A SEVERA

A SEVERA

      Imagem da Severa     

As relações amorosas ilícitas, entre o Conde de Vimioso e a canta­deira de Fado Maria Severa, constituíram motivo de inspiração para representações de arte plástica, de teatro, cinema, televisão, sendo decerto o livro de Júlio Dantas que mais se destacou, mais tarde Júlio Dantas com base no livro escreve uma peça (em quatro actos) represen­tada pela primeira vez no Teatro D. Amélia (actual S. Luís) em 25 de Janeiro de 1901, e tal como já  acontecera com o romance, obteve grande sucesso.

Em 1909 é mais um êxito como “Opereta” adaptada por André Brun e musicada pelo maestro Filipe Duarte
Em 1931 foi ainda usado como guião para o realizador Leitão de Barros rodar o filme “A Severa”, o primeiro filme sonoro gravado em Portugal.
Em 1955 a Severa foi reposta em cena no Teatro Monumental, com Amália Rodrigues no papel da protagonista e a participação, entre outros, de Madalena Sotto, Assis Pacheco, Santos Carvalho, Paulo Renato, Rui de Carvalho e Mário Pereira, ainda o público encontrou nela motivos de agrado.
Em Fevereiro de 1990 o empresário Sérgio de Azevedo leva à cena um musical no Teatro Maria Matos, “ A SEVERA” tendo o papel da Severa , a actriz Lena Coelho e Carlos Quintas no papel do Vimioso, Carlos Zel também fez parte do elenco.
Maria Severa Onofriana, filha de Severo Manuel de Sousa e de Ana Gertrudes Severa (alcunha adaptada do nome próprio do marido), nasceu em 1820 em Lisboa aos Anjos numas barracas nos montes,
Seu pai era de etnia cigana, e a mãe uma portuguesa de Ovar que, com outros pescadores da região, emigrara para Lisboa . Atri­bui-se a essa ascendência cigana a sua beleza exótica e o seu cantar expressivo, que conquistou os boémios da capital.
Sua mãe, Ana Gertrudes Severa, era uma célebre prostituta da Mouraria conhecida pelo sobrenome de "Barbuda", e Maria Severa terá ingressado muito cedo na mesma profissão, depressa se distinguindo nesse meio, não só - e muito em particular, como seria de esperar em semelhante contexto - pela beleza trigueira, como ainda pelos dotes invulgares de cantadeira de Fado.
Em 1831 morava na Rua Direita da Graça, terá ainda morado no Pátio do Carrasco, ao Limoeiro por alturas de 1844-45, viveu no Bairro Alto à Travessa do Poço da Cidade, antes de se fixar definitivamente na Mouraria, na Travessa do Poço da Cidade nº 35-A, ao tempo chamada de Rua Suja, era frequentada pela marujada portuguesa e inglesa.
De Severa à muitos estudiosos, contam-se muitas histórias dela e/ou com ela, umas talvez verdadeiras, outras talvez não tanto.
Conta-se que percorria os bairros populares de Lisboa, e a sua voz animou as noites de muitas tertúlias bairristas, tabernas ficaram famosa só pela sua presença.
Naquela época os “bastidores” da Mouraria, eram de má fama. Botequins, batota, ladrões, prostitutas e rufias, que lhe dava um estranho encanto, era esta a Lisboa popular e a Mouraria oitocentista — “chinela no pé, cigarro lambido, peúgo riscado, chapéu às três pancadas, navalha no bolso tendo como banda sonora a guitarra. Esperas e Touradas, hortas aos Domingos, pancadaria de vez em quando. Os nobres demandavam tabernas e as meretrizes eram recebidas nos salões” — escândalos cujas crónicas deixaram registo.
 
 
 

                                                                                                                   

             Inicio da  Rua do Capelão na época                                       Largo da Severa na Mouraria, onde a Severa viveu.
 
A Severa cantava e batia o Fado na taberna da Rosária dos óculos, situada ao cimo da Rua do Capelão na chamada casa de pedra.
A sua mocidade cheia de beleza, despertou paixões e ocasionou desvarios, fez perder a serenidade, e a compostura a fidalgos, burgueses, artistas e políticos.
Dizem escritos da época — Era linda, era alta um pouco delgada, seio e flancos esplêndidos, cabelos muito pretos, lábios muito vermelhos e nos olhos uma expressão indiscritível.
Diz-se que terão sido os seus olhos que terão atraído o Conde de Vimioso aliado ao seu doce canto e a paixão deste pelo som da guitarra.
O Conde era um homem garboso e de boa figura, foi o primeiro Cavaleiro Tauromáquico da sua época, arte que foi durante muitos anos ídolo dos espectadores das toiradas no Campo de Sant' Ana, o que não foi indiferente à Severa, o seu entusiasmo pelas corridas de touros, e sobretudo pelo toureio equestre, que a aproximou daquele, cuja popularidade exaltou cantando-o em letras de fados, de um dos quais chegou até nós esta quadra:
 
p'ra mim, o supremo gozo
É bater o fado liró
E ver combater c'um boi só
 
O contraste entre a condição social destes amores, foram por si só tema de conversa e de boatos e de muitos fados.
Má sina, na verdade, a da pobre Severa, que teve a intuição de que após a sua morte ainda havia de andar muito nas bocas do mundo, como resulta destas sextilhas da sua autoria:
 
                                    Quando a morte me levar
                                    Não há decerto faltar
                                    Quem diga mal da Severa!
                                    Pois neste mundo falaz
                                    De tudo se é capaz
                                    E só o mal se tolera...
 
                                    Lá na fria sepultura,
                                    Nessa cova tão escura
                                    Irei enfim descansar?
                                    Pressinto que em expiação
                                    E novamente ao baldão
                                   Aqui terei de voltar...
 
Leviano e mulherengo o Conde acaba por deixar a Severa e apaixona-se por uma cigana, o que a deixa desvairada, mas começa a não ter forças e a vivacidade para lutar pelo seu amante.
Por volta de 1845 já se manifestavam os sintomas da doença que a haveria de matar. (A sua morte terá sido devido a tuberculose pul­monar, de acordo com o estudo do Dr. Amaro de Almeida)
Severa morre pobre e abandonada num miserável bordel da Rua do Capelão, corria o ano de 1846, consta que as sus últimas palavras terão sido — “Morro, sem nunca ter vivido” — tinha 26 anos.
Foi sepultada em vala comum, sem caixão, que as amigas exigiram para fazer cumprir o que considerava seu desejo quando cantava versos dela:
 
                                     Tenho vida amargura
                                     Ai que destino infeliz!
                                     Mas se sou tão desgraçada
                                     Não fui eu que assim o quis.
 
                                     Quando eu morrer, raparigas,
                                     Não tenham pesar algum
                                     E ao som das vossas cantigas
                                     Lancem-me na vala comum.
 
 
Certidão de óbito da Severa
Assento de óbito, exarado pelo pároco da freguesia do Socorro, Padre Félix do Coração de Jesus,
"No dia trinta do mez de Novembro de mil oito centos e quarenta e seis annos na Rua do Capellaõ N° 35 A, falecêo apopletica sem Sacramentos, Maria Severa Honofriana, natural de Lisboa, idade de vinte e seis annos, solteira, filha de Severo Manoel de Souza e de Anna Gertrudes Sevéra. Foi a sepultar ao Cemiterio do Alto de Saõ Joaõ, de q fiz este assento”.
 
Registo do enterramento
 
1º cemitério de Lisboa
(Oriental – Alto de S. João)
Lº. Nº 3 a fls. 117
Nome: – Maria Severa Honofriana
Idade: - 26 anos
Estado: – Solteira
                Meretriz
Onde faleceu: - Rua do Capelão nº 35- A – Loja
Freguesia: - Socorro
Quando faleceu: - às 21 horas de 30 de Novembro de 1846
Entrou no cemitério: - às 16 horas e trinta de 1 de Dezembro de 1846
Quando sepultada: - às 7 horas do dia 2 de Dezembro de 1846
Onde: - Vala comum
Faleceu de: - Congestão cerebral
 
Mas foi após a sua morte que ela se tornou, de facto, um símbolo do fado. Na ver­dade, desde então jamais os autores de letras de fados deixaram de a celebrar, suges­tionados pela lenda dessa mulher de baixa condição que, todavia, logrou transpor os umbrais da fama. E, de entre as muitas composições que falam dela, uma alcançou teve grande êxito, com letra de José Galhardo e música de Raul Ferrão:
 
                                           Num beco da Mouraria
                                           Onde a alegria
                                           Do Sol não vem,
                                           Morreu Maria Severa.
                                           Sabem quem era?
                                           Talvez ninguém!
 
Consultas:
“Severa” de Júlio de Sousa e Costa
“História do Fado” Pinto de Carvalho (Tinop)
 
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Sexta-feira, 26 de Julho de 2019

Vítor Marceneiro - 53 Anos de Fado - Tudo tem um início

Que saudades daquela noite no «Solar da Hermínia», em que cantei pela primeira vez, na presença do meu pai e do meu avô.

 

 O «SOLAR da HERMÍNIA» e a própria Hermínia Silva fazem parte de um dos episódios mais marcantes da minha vida, na relação pai/avô/fado

Corria o ano de 1965, inícios de 1966 , tinha cerca de 20 anos, fiz uma pausa nos bailaricos e outros «poisos» e comecei a frequen­tar o fado amador, que praticamente desconhecia, pois, até essa altura, costumava acompanhar o meu avô e o meu pai às casas tradicionais.

Certo dia, uns amigos convidaram-me para uma noite de fados no Galito, que ficava no Estoril. Lá fui e, como é lógico entre os frequentadores habituais, ao saberem de quem eu era filho e neto, logo pensaram que havia mais um para cantar. Gostei imenso do ambiente e passei a ser frequentador assí­duo. Ali conheci o Pracana, o malogrado Carlos Zel, o Frazão, pai deste, e do saudoso Alcino, que era então um miúdo mas já demonstrava o gosto que tinha pela música e pela guitarra portuguesa (estava sem­pre a dedilhar a guitarra do Inácio, mal este parava de to­car e a poisava), o Valdemar Silva, o saudoso Carlos Barra, a Maria do Carmo «Micá», e tantos outros amadores do Fado, na época.

Ora eu não cantava. Para ser sincero, com muita pena minha, achava que não conseguia e, para «meter água», era melhor estar calado. Isto porque tinha a noção da responsabi­lidade de ser filho e neto de quem era.

Mas a rapaziada estava sempre a apertar comigo (este gajo é filho de fadistas e não canta?), alguns até aventavam a hipótese de que eu não cantava porque tinha a mania de que era bom de mais para cantar ali! Mal sabiam eles a pena que eu tinha de sentir que não era capaz.

Certa noite, por insistência do Zé Inácio, grande executante de viola, mas que, na altura, fazia o acompanhamento à gui­tarra, acompanhado à viola pelo «Pirolito da Ericeira», começa­ram a dedilhar a Marcha do Marceneiro, o Zé Inácio começou a desafiar-me, era no princípio da noite, não havia ainda muitos clientes, timidamente comecei a entoar o poema Amor é Água Que Corre (eu nem calculava que, afinal, sabia o poema todo). Parece que não saiu muito mal, recordo que o tom em que cantei foi (hoje canto em So/); no final, o Zé Inácio disse-me:

- Como vês, é preciso não ter medo, perder a vergonha e, a partir de agora, ir praticando. Tomei-lhe o gosto e, durante algum tempo, só cantava este fado. Foi ainda com a ajuda do Zé Inácio que comecei a ensaiar e a cantar outros poemas, mas cantava sempre letras e músicas do repertório do meu avô.

Uma noite, no fim da fadistice do costume no Galito, o Valdemar Silva, que era conhecido pelo «Chico Fadista» e passou a ser o meu companheiro destas andanças, aceitou o meu convite para irmos até ao Bairro Alto, ter com o meu pai, Alfredo Duarte Júnior, que estava a cantar contratado no «Solar da Hermínia».

Chegámos, as luzes estavam reduzidas, como é costume quando se canta o fado, era o meu pai que estava a cantar, pelo que ficámos logo ali na entrada, sentámos-nos na mesa da Dona Hermínia que, prontamente, com o ar carinhoso e sorri­dente com que sempre me recebia, segredou-me ao ouvido que o meu avô, Alfredo Marceneiro, se encontrava na sala.

            O meu pai termina o fado que estava a cantar e informa os presentes:

            — Senhoras e Senhores, o meu pai, Alfredo Marceneiro, a pedido da Dona Hermínia, vai cantar.

Esta informação foi, de imediato, estrondosa e efusivamente recebida pela assistência, pois era do conhecimento geral, o quanto era difícil convencer Alfredo Marceneiro a cantar.

            O meu avô cantou, julgo que uns três fados, sempre escu­tados num rigoroso silêncio e, no final, vigorosamente aplaudidos.

Ainda com as luzes reduzidas e após uma das entusiás­ticas ovações que o meu avô teve, sublinhada por ditos do tipo «- Ah! Grande Ti' Alfredo», houve um curto espaço de tempo de relativo silêncio e eis que o Valdemar, o «Chico Fadista», se levanta de repente e, com uma voz possante, diz sensivelmente isto:

            - O que vocês não sabem é que aqui o Vitó, neto do Ti Alfredo também canta, e não deixa a família ficar mal!

            Fez-se um silêncio total na sala, eu fiquei sem pinga de sangue! (- Ó Chico, tu és maluco?)

A assistência começou a bater palmas, insistindo para que cantasse, eu nem conseguia levantar-me, olhei de relance para o meu pai e para o meu avô, estavam ambos na expectativa, eu só queria que aparecesse ali um buraco onde pudesse desaparecer. A Dona Hermínia, então, com o seu habitual bom humor, disse-me: «- Vai, filho, não tenhas medo. Quando a música começa, a gente esquece tudo.»

Levantei-me, hesitante, e dirigi-me para junto dos guitarris­tas, pedi que tocassem a «Marcha do meu Avô». Aos acordes iniciais da música, todo eu tremia, mas foi um momento ines­quecível, eu ia cantar à frente do meu pai e do meu avô. E, logo a seguir ao meu avô, era uma grande responsabilidade.

Comecei a cantar e nunca tirei os olhos do meu avô. Este, com o cotovelo sobre a mesa e a cabeça apoiada no braço, de olhos fechados, ouvia-me atentamente. Reparei que trauteava bai­xinho os versos que eu ia cantando e ia acenando com a cabeça.

Quando terminei, o público foi generoso e aplaudiu-me. Dona Hermínia comentou: «- Temos fadista.»

            O comentário do meu avô foi: «- Não está mal, mas tem é que aprender outros versos, para não andar a cantar a mes­ma coisa que eu ando a cantar há mais de trinta anos.» !.

O meu pai avisou-me logo: «- Deixa lá as fadistices, que isto não dá nada, tira mas é o teu curso, e fado, só por desporto.»

Não segui estes conselhos e, sempre que me dão a oportunidade continuo a cantar, nas suas músicas, os versos do seu repertório não enjeitando o “apelido”  MARCENEIRO.

            Com este episódio ultrapassei algumas barreiras que até então julgava intransponíveis, e assim acabava de entrar no Fado, bem ou mal, mais um elemento da família, dando a origem ás “ 3 GERAÇÕES DE FADO de MARCENEIRO”

Gravei em disco e em Televisão com meu avô e meu pai

                      

Dueto Avô e Neto "Amor é Água que corre"

RTP- Programa 3 Gerações de Fado

Produção e som de Vítor Duarte Marceneiro

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Terça-feira, 23 de Julho de 2019

AMÁLIA E A LENDA - Faria hoje 99 anos

 

Amália e Marceneiro

(Lendas do Fado)

            No nosso tempo, Amália e a sua bonita lenda, constituem o motivo mais grato ao coração sentimental dos portugueses.

            Uma menina,  num bairro popular de Lisboa, frágil como haste duma flor, gorjeia timbres, qual ave de penas. Como esta também, quando as possui, saem-lhe da garganta adolescente os amargores que lhe possam ir no peito.

                        — Se tiveres tanto jeito para as letras como para as cantigas...

                        Era o que a avó lhe dizia. Morreu com 94 anos, e viu que a neta se inclinava mais para as trovas.

                        Ladina e gárrula entrou na escola cedo e saiu cedo. Só o preciso para decifrar os versos das cantigas.

                        Amália é um nome de raiz amorosa.

 

«Amália, sem amor

Não rima...»

 

                        O Tejo glauco e lírico caminha para o mar na sua eterna corrente elegíaca. A cidade é um presépio emaranhado. Manje­ricos e cravos de papel! O pardalito das ruas do seu bairro começa a cantar para os outros e os outros ouvem-na deslum­brados e alguns olhos choram.

                        — Há uma pequena do bairro de Alcantara...

                        De boca em boca, foi assim que a fama começou a correr. Depois...

                        Depois foram as primeiras cantigas públicas. Amália está numa casa entre a-terra-e-o-mar, mas nasceu na Mouraria, junto ao Benformoso, ao pé da Calçada de Santana.

                        Quando tomou parte num concurso da Primavera, organi­zado por um jornal de Fado como o nosso, todas as concorren­tes desistiam  ao ouvi-la. Foi-lhe pedido para que ela abandonasse a competição. Era o primeiro degrau para o seu trono de rainha.

            Nunca mais Lisboa deixou de ouvir os ais das suas cantigas nostálgicas e misteriosas. De retiro em retiro, chega ao teatro, à rádio e ao cinema. Todas as mesas se povoam; as lotações dos espectáculos esgotam-se e as emissões de rádio obtêm o maior sucesso. Duma vez foi ao Porto e veio de lá com o cognome de «Princesinha do Fado». Depois ao Brasil e, na chegada do avião, estavam os produtores à sua espera para assinar contractos dum filme que esgotaria as bilheteiras meses e meses seguidos. As suas canções e os seus fados postos em disco ou película, dão a volta ao Mundo inteiro. Portugal, para se fazer representar numa par­ada artística internacional, envia-a como embaixatriz das nossas cantigas. Madrid, Paris, Roma, Londres, Berlim, Estocolmo — todas as capitais da Europa a aplaudem e a conhecem.

                        Que fluido ou que sortilégio possui a voz de Amália Rodri­gues? Que amplidão sentimental e que força de sedução é capaz de arrastar consigo pobres e ricos, nobres e plebeus, desgraçados ofendidos, tristes e desesperados ou desconsolados?

                        Gentes de todos os matizes e povoados de todas as lingua­gens  a entendem. Ninguém explica mas todos atestam. Ela mesmo não sabe. Canta como os pássaros trinam, como o vento soa ou como a chuva chora. É a linguagem dos eleitos — a graça.

                        Um dos seus poetas dedicou-lhe esta estrofe:

 

                                               «Foi Deus

                                               Que me pôs no peito

                                               Esta voz...»

 

            E assim, as multidões a seguem. Os palcos são pequenos. Os redondéis das praças abrem-se para a multidão ansiosa. Veri­ficam-se os únicos recintos com capacidade para tal. Ela, franzina, silhueta negra, com o coração chagado, as mãos nas franjas do xaile, não tem mais nada do que a sua arte. Afunda-se, perde-se no espaço. Só a voz soa. Canta o lado da Mouraria, em cima dum estrado, entre uma viola e uma guitarra. É uma trágica a desfiar emoções. Nesta simplicidade aterradora está uma força telúrica inexplicável. Fenómeno? Talvez. Na singularidade ímpar da sua pessoa criou-se a sua lenda  a lenda da Amália, a lenda «Amalista».

                        Uma actriz popular, enraizada no Brasil há muito, quando lhe perguntaram a sua opinião sobre Amália, disse:

Esta é que é grande. Canta o Fado e deita-se ás seis da manhã! —

Fadista, grande, a maior fadista!

                        Ganha milhões e troca-os em moedas que espalha como pétalas de flores.

                        Na sua rua, todos estão ansiosos por vê-la quando ela sai. Lisboa adora-a. Portugal idolatra-a. Os presos chamam-lhe con­soladora e os exilados irmã.

Para ser eterna só lhe falta calar-se.

...Calou-se há 10 anos?  Não,   Amália vai cantando, cantando, cantando sempre.

 

AMÁLIA, É FADO

 Portugal inteiro viu

E uma Lágrima caiu

Foi tão triste a despedida

Já não vais ao Rio Lavar

E Deus Vai-te Perdoar

Que Estranha Forma de Vida

 

Na Rua do Capelão

Confesso, foi Maldição

Esse teu Nome de Rua

Malhoa, na sua vez

E esse, Fado Português

A quem disseste, Sou Tua

 

Eras Casa Portuguesa

Lisboa Não é Francesa

No mundo inteiro tens fama

Ai Mouraria, Madragoa

Foste, Maria Lisboa

E Madrugada de Alfama

 

Eu Queria Cantar-te Um Fado

Como, Tudo Isto É Fado

Foi a Deus que agradeci

A Gaivota, quebrou amarras

Silêncio, trinam guitarras

Disse-te Adeus e Morri

 

Maria de Lurdes Brás (2009)

 

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Quinta-feira, 18 de Julho de 2019

JOAQUIM CARDOSO .... Fadista

Joaquim da Silva Cardoso, nasceu  a 15 de Dezembro de 1948 na bela povoação Senhora Aparecida, situada  em pleno coração do Vale do Sousa, concelho de Lousada no Douro Litoral.
Desde muito jovem começou a despertar para a poesia, música e canto. As palavras simples, claras e abrangentes dos poetas, a magia das melodias da guitarra portuguesa e os estilos e formas tão apaixonadas dos fadistas,  fizeram nascer nele a forte paixão de ser Fadista!!!
Define-se como um fadista muito ligado ao Fado tradicional, porque entende que o Fado é "O reflexo exacto de cada geração que passa, e na sua essência, sempre esteve , está,  e estará em constante evolução. Será sempre  Fado !... O Fado de todos nós!!!
Também desde muito jovem que escreve poemas, tinha 16 anos quando concorreu ao
“Concurso de Jovens Poetas” , organizado pelo Rádio Clube Português, no qual arrebata o 1º prémio.
Tem cantado em  “Casas Típicas”, festas populares e de apoio social, tendo actuado em diversos  espectáculos, quer em Portugal, quer no  estrangeiro, ao lado de grandes nomes do Fado.
Em 1992 consegue realizar um sonho,  que foi trazer á sua terra a grande Amália Rodrigues. No inicio do espectáculo também actuou, tendo merecido de Amália o elogio que nunca esquece: "Tem uma forma muito bonita de cantar o Fado! Contínue sempre assim!!!".
 Já gravou  três cd´s,  o primeiro em  1991 "Desde Menino", segue-se em 1997 "Com Guitarras", e em  2005 "O Lado de Cá do Fado".
A sua actividade profissional principal é  de empresário na área da industria e comércio de máquinas agrícolas, mas arranja sempre tempo, porque a disposição e o gosto não lhe falta para continuar a cantar e a viver o FADO!

 Joaquim Cardoso
canta: Ser Mãe
Letra de sua autoria
Música do Fado Georgino

Fados do meu Fado....

Joaquim Cardoso e a “Geração de Marceneiros”

Joaquim Cardoso afirma,  gostar de Fado, passa por gostar de Marceneiro, não teve a oportunidade conhecer pessoalmente,  mas tem um episódio na sua vida,  que muito preza,  e que há muito me queria contar. Tomou conhecimento do meu contacto através  do blogue, e não hesita em  telefonar-me, para me falar de um encontro que teve com o meu pai,   e do gosto que teria em conhecer-me pessoalmente,  o que muito me sensibilizou.

Contou-me então...
Corria o ano de 1986,  Joaquim Cardoso, veio a Lisboa com um grupo de amigos que o levaram até ao bairro alto, entraram na  Adega Machado  onde estava contratado o meu pai, não teve dificuldade em encetar conversa com ele, pois meu pai era um homem muito popular,  fala-lhe do seu gosto pelo Fado, pelos “Marceneiros” e meu pai em dada altura diz-lhe de rompante: — Sabes, estou a ouvir-te falar,  e  fazes-me lembrar o meu filho Vítor!!!  Pega-lhe num braço, e logo de seguida o põe a cantar. Tudo isto cimentou mais a admiração que já tinha por meu pai.

Passados dias, telefona-me novamente,  e convida-me a deslocar-me á sua bonita terra, Senhora Aparecida, onde organizou com os proprietários do “Salão Nobre Estrada Real “, uma noite de Fado para  homenagear meu pai e meu avô, é o mesmo salão onde actuou Amália, quando lé esteve.

Foi uma grande noite de Fados no dia 21 de Novembro de 2009, cantei eu, o Cardoso e uma jovem que canta muito bem de seu nome,  Melanie, a qual brevemente aqui terei muito gosto em apresentar.
Não é difícil de perceber que logo nos tornámos amigos, e os meus filhotes ao ouvirem a história da boca do Joaquim Cardoso, logo o começaram a tratar carinhosamente por “tio”.
Obrigado Joaquim Cardoso, até sempre, e muito obrigado pela tua amizade.

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Viva Lisboa: Ah! Fadista
música: Ser mãe
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Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

JOÃO PAULO - Fadista de Bucelas

 

João Paulo.jpgJoão Paulo Pascoal Félix, nasceu em 1977 na Bemposta, freguesia de Bucelas, onde ainda reside,

Desde muito jovem que tem uma tendência para o Fado, ao conseguir ter o seu primeiro rádio com gravador incorporado, passa os tempos livres a ouvir rádio e a gravar os seus ídolos, Amália Rodrigues, Tristão da Silva,Fernando Farinha, e outros.

Sempre afirmou  ser fã incondicional de Fernando Maurício, cantando alguns números do seu repertório, que apraz assinalar, num estilo muito próprio.

Aos 11 anos começou a cantar fado, em colectividades recreativas,    festas dos Bombeiros, etc.

Nunca perdeu a oportunidade de se inscrever em todos os concursos de Fado,  teve conhecimento, tendo em todos eles se destacado, o  que lhes deu-lhe um palmarés notável:

Em 1992 com 15 anos concorre à Grande Noite do Fado "CASA DA IMPRENSA", e ficou em 2° lugar na classe de juvenis

No ano seguinte, já mais experiente, concorre novamente à Grande Noite do Fado no Coliseu de Lisboa, mas agora na classe sénior, e ganha o 1º lugar, sem contestação.      .

Foi finalista no programa “Lugar aos Novos” da Rádio Renascença, tendo sido o Vencedor.

No programa "Luzes da Ribalta" de Júlio Isidro na TVI, mantém-se em primeiro lugar durante quatro semanas, tendo alcançado um feito único num programa de TV do género.

Já actuou em quase todo o país, Coliseu do Porto, Coliseu de Lisboa, Teatro São Luís, Teatro Maria Matos, Pavilhão Carlos Lopes, Voz do Operário, Fórum Almada, etc., etc.,

No estrangeiro, já actuou em Inglaterra, França e Suiça, agradando quer pelo seu estilo de cantar, quer pela sua forma de estar.

Jovem mas consciente da sociedade em que está inserido, nunca recusa a sua colaboração em festas de beneficência.

Embora cantando com bastante frequência, tem uma outra actividade que considera ser a estabilidade do seu futuro e da sua família.

Gravou uma Cassete e mais tarde um CD para a Metro-Som, está a preparar a produção de um novo trabalho para CD, com inéditos, para a mesma editora.

Actuou na TVI num Programa de Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira  como meu convidade em homenagem a meu avô  Alfredo Marceneiro.

João Paulo actuou na Noite de fados nas janelas da Casa da Amália em 2011 a meu convite e nas Festa de Campo d´Ourique - Santa Isabel em Festa.

 

 João Paulo

Canta: Leilão da Mariquinhas

Letra de João Linhares Barbosa

Música do Fado Mouraria

 

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Viva Lisboa: fadista da Nova Geração
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Valentim Matias

Foto GP1.jpg

Valentim Carvalho Matias , nasceu a 25 de Outubro de 1942  em Vila Nova de S. Pedro, concelho de Azambuja.

Desde muito jovem que sentiu apetência pela música e pela poesia, começou  a escrever versos que ele próprio cantava "á capela" nas festas dos amigos e vizinhos, mas esta sua apetência para escrever e cantar já tinha raízes de Fado.Em 1961,  com 18 anos de idade foi morar para o Cadaval, onde iniciou a sua vida profissional como empregado de comércio, trabalhava de dia e estudava de noite o que lhe permitiu mais tarde ir trabalhar para um banco, onde se manteve até á reforma.

Ainda em 1961, Ingressou nos Bombeiros Voluntários do Cadaval e chegou a Comandante da Corporação em 1972 até 1996.

Cumpriu o serviço militar na Guiné de 1963 a 1965.

Nos anos oitenta, começou a cantar acompanhado de  guitarra e viola, passado pouco tempo,  iniciou um grupo musical, chamado  "Os Amantes do Fado" de que faziam parte também,  Maria de Lurdes (Milú), Francisco Duarte e Manuel Carriche e os músicos José de Oliveira Pedro e Eduardo Lemos, grupo este,  que era muito solicitado especialmente aos fins de semana  na zona Oeste e no Ribatejo.

Em 1989 aceita o convite para se candidatar ás eleições autárquicas  sendo eleito Presidente da Câmara Municipal do Cadaval, actividade esta,  que levou  a que actuasse só em casos muito pontuais, em 2001 reformou-se.

Foto GP.jpg

 Valentim Matias nunca deixou de escrever poemas essencialmente para  músicas que Eduardo Lemos foi compondo, temas estes, que gravou em três CD´s, é de salientar que alguns dos seus poemas foram também  cantados e gravados por Rodrigo, António Pinto Basto, Guilherme Frazão, Luís Maia e Irene Oliveira, etc. Escreveu ainda vários temas musicais para teatro de revista amador.Quando se reformou voltou às lides fadistas, tem actuado por todo o País incluindo as regiões autónomas e em programas de televisão. No estrangeiro, esteve nos EUA, França, Suíça.Brevemente pensa gravar um novo CD com alguns temas novos de sua autoria .Tenho por Valentim Matias, grande estima e gratidão, pois sempre realçou a figura de meu avô, que como se sabe teve as suas origens no Cadaval,  é  membro da Associação Cultural de Fado "O Patriarca do Fado", sendo o autor do poema "Alfredo Marceneiro o Patriarca do Fado", que cantou no Teatro de Revista Amador (Grupo Gente Gira) e que passou a ser o hino da associação.

Vítor Marceneiro

 

O PATRIARCA DO FADO

 

                          Alfredo, foi o seu nome

                          Marceneiro, a profissão

                          Foi fadista de renome

                          Da nossa bela canção

 

                          Cantou Lisboa e o fado

                          De maneira bem singela

                          Por ele foi inventado

                          Cantar fado à luz de velas

 

                                    Refrão

 

                          O Patriarca do fado,

                          Foi Alfredo Marceneiro

                          Hoje e sempre recordado

                          Dentre todos o primeiro

                          Cantou , estilou a seu jeito

                          Fados lindo que venero

                          Há festa na Mouraria

                          E o Natal do Moleiro

                          P`rà Lucinda Camareira

                          Amor é Água que Corre

                          E o Leilão da Mariquinhas, não morre

                          A Menina do Mirante

                          Que é dos Bairros de Lisboa

                          Mocita dos Caracóis , o povo entoa.

 

                          No seu jeito bem castiço

                          Gostava de usar boné

                          E envolvia o pescoço

                          Com o lenço de cachené

                          Os poemas que cantava

                          Dizia -os como ninguém

                          Eu por mim também gostava

                          De os dizer assim tão bem

 

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Sexta-feira, 28 de Junho de 2019

SÃO PEDRO - Santos Populares

 

São Pedro como Santo Popular, tem a sua origem nas festividades religiosas em honra sua, que foram promovidas pela confraria dos pescadores de Aldeia Galega, fundada há Século XVI.

Durante os festejos assistia-se à procissão bênção, de um rio e dos barcos ali acostados, comia-se o tradicional bodo de sardinha assada, que era oferecido aos visitantes.

O ponto alto era a queima de um batel,  na realidade trata-se de um ritual pagão muito antigo, mas era um espectáculo muito interessante, que atraía as multidões.

Em muitas  festas populares, que têm São Pedro por padroeiro, são organizadas largadas de touros, touradas,  festivais de folclore e concursos de jogos florais.

É de notar que são as comunidades ligadas à faina piscatória que mais venera São Pedro, pois também ele foi pescador. 

A comunidade de Roma foi fundada pelos apóstolos Pedro e Paulo e é considerada a única comunidade cristã do mundo fundada por mais de um apóstolo e a única do Ocidente instituída por um deles. Por esta razão desde a antiguidade a comunidade de Roma (chamada actualmente de Santa Sé pelos católicos) teve o primado sobre todas as outras comunidades locais (dioceses); nessa visão o ministério de Pedro continua sendo exercido até hoje pelo Bispo de Roma (segundo o catolicismo romano), assim como o ministério dos outros apóstolos é cumprido pelos outros Bispos unidos a ele, que é a cabeça do colégio apostólico, do colégio episcopal. A sucessão papal (de Pedro) começou com São Lino.

È comum a imagem de São Pedro, tendo na mão as chaves do céu.

 

Comemora-se a 29 de Junho 

 

Benção dos barcos

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Quarta-feira, 26 de Junho de 2019

ALFREDO MARCENE$IRO - Deixou-nos há 37 anos

 E DEUS LHE DEU A GRAÇA E A ALEGRIA,  DE TER MORRIDO NA SUA FREGUESIA, COMO UM SOLDADO MORRE NO SEU POSTO

Alfredo Marceneiro faleceu na sua casa  pelas sete horas da manhã do dia 26 de Junho de 1982, contava 91 anos. (*)
O seu corpo esteve em câmara ardente, na Igreja de Santa Isabel, sendo apostas na urna a Bandeira Nacional e a bandeira da cidade de Lisboa por iniciativa do, então, Presidente da edilidade Engº Krus Abecassis e ainda uma guarda de honra permanente prestada pelos Soldados da Paz do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa.
 O Padre designado para fazer as exéquias do funeral de Alfredo Marceneiro desconhecia de todo a sua obra, mas impressionado com os milhares de pessoas presentes no velório, quis esclarecer-se sobre a sua figura. Levou a noite a escutar o José Pracana e este tão eloquentemente lhe falou do seu querido amigo "Ti Alfredo", que no dia do funeral,  o Padre ao dizer a Missa de Corpo Presente, ele próprio com as lágrimas nos olhos enalteceu a sua imagem de lisboeta e fadista, amante da sua cidade e da sua freguesia E a todos surpreendeu, quando recitou os versos que Marceneiro tantas vezes cantou:

 

Alfredo Marceneiro canta:

A Minha Freguesia

Se os cantadores todos, hoje em dia
Ruas e bairros cantam, de nomeada
Eu cantarei á minha freguesia
A de Santa Isabel tão afamada

 

Freguesia gentil que não tem par
É talvez de Lisboa, a mais dilecta
De D. Diniz, a rua faz lembrar
O esposo de Isabel o Rei poeta

 

Lembra a Rainha Santa, quando vinha
Transformar o pâo em rosas, com fé tanta
Ela que Santa foi, menos Rainha
Mas foi entre as Rainhas, a mais Santa

 

Poetas e literários, foram seu
Ilustres moradores, geniais
Como Almeida Garrett, João de Deus
Teófilo, Junqueiro e outros mais

 

Freguesia onde enfim, moro também
Onde sempre pisei honrados trilhos
Nela casou a minha querida mãe
E nela é que nasceram os meus filhos

 

Que Deus me dê a graça, a alegria
Na vida tão cheínha, de desgostos
A vir morrer na minha freguesia
Como um soldado morre no seu posto

 Assim, até na sua morte o Fado acontecia. Cumpriu-se o desejo que Alfredo Marceneiro cantava nos versos escritos pelo poeta Armando Neves.
É de realçar, que não havendo espaço no talhão dos artistas no Cemitério dos Prazeres, a Câmara Municipal de Lisboa, disponibilizou um gavetão perpétuo para repouso dos seus restos mortais.
 Milhares de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre que apesar de ser proibido se efectuou a pé, numa sentida manifestação de pesar desde Santa Isabel até ao Cemitério dos Prazeres.   Guitarristas dedilharam os seus instrumentos, durante todo o percurso, " a sua Marcha" em tom dolente e magoado, que mais parecia um choro de guitarras.
O Povo de Campo d´Ourique estendeu colchas nas janelas, numa homenagem singela ao homem simples do seu bairro.

Todos os orgãos de informação se referiram á efeméride, com títulos de destaque.

 (*) 91 anos em termos de registo de nascimento, mas na realidade tinha 94 anos

Chorai Fadistas, chorai...
A morte de Alfredo Marceneiro
— A GRANDE LENDA DO FADO
in Diário de Notícias

 « Ti Alfredo » deixou-nos

Morreu O REI do FADO.

Morreu aquele a quem apelidaram de
—PATRIARCA do FADO

Marceneiro morreu, o fado de luto

Morreu Alfredo Marceneiro
— O MONSTRO do FADO

 Guitarras choraram por Alfredo Marceneiro
in Correio da Manhã

 Morreu Alfredo Marceneiro...
 O Fado lisboeta está de luto.
in O Dia

 

De todos os jornais diários que se referiram á efeméride  destaco o artigo assinado pelo jornalista e poeta Fernando Peres que foi seu grande amigo e admirador:

 

GUITARRAS CHORAM NO FUNERAL DE MARCENEIRO
in A Capital


"Não sabemos de quem teria sido a ideia mas não é difícil adivinhá-lo: José Pracana tem alma de poeta e uniu-o sempre ao ti Alfredo uma amizade filial. Talvez pela primeira vez, desde a saída do corpo até ao cemitério dos Prazeres, guitarras e violas choraram o que deixa insubstituível um lugar e foi um intérprete ímpar de várias gerações. Apenas melodias suas foram escutadas por gente que se espalhava pelas janelas para assistir ao cortejo enorme e ouvir um coro imenso de vozes de que Alfredo Duarte (o Marceneiro para toda a gente) era autor e andam na boca de toda a gente.
Esta é uma verdade indesmentível. Se reflectirmos, podemos concluir que a vida e a morte constituem os círculos viciosos do tempo.
A hora que se viveu é uma hora morta. Aquilo que hoje é emoção violenta, constitui amanhã, uma sensação esquecida.
Devemos insistir: esta é uma verdade indesmentível pois existe dentro de cada homem uma tragédia que ele ignora e uma comédia que ele vive. Algumas vezes, a tragédia é caricata ridícula, dá vontade de rir. Mas nunca ninguém riu da tragédia que consigo arrasta. É que a dor é um sinal da vida. Na realidade, só vive quem sabe sofrer...
Por isso ti Alfredo não sofre sózinho. Consigo leva um bocadinho do coração de todos nós. Os ídolos do fado são ídolos do povo. E um desses foi esse extraordinário Alfredo Marceneiro, decano dos intérpretes portugueses e, talvez, mundiais. Quase todos choraram quando foi o «momento da despedida». Mas homens como o ti Alfredo não morrem, nunca. Faltou a madrugada, substituída por um Sol radioso. Mas tudo teve expressão e significado. Valeu pela intenção valiosa e espectacular (houve quem  estivesse de muletas). Se era preciso, foi a consagração de um grande fadista. Quantos o acompanharam, e entre eles o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Leonor Beleza, constituíram um público, sem distinção de classes ali acorrendo a acenar o seu adeus ao maior intérprete da canção, nascida não se sabe onde ecoou em vozes doridas e viciosas nas betesgas das ruelas de Lisboa. Depois, ganhou raça em gargantas aristocráticas e hoje corre mundo na névoa das «boites».
De facto, passam tristezas a desfazer-se e o vento arrasta-se, lentamente, com vagares de cansaço. Já se feriram alegrias em vibrantes risos. Uma lágrima indiscreta espreita um sorriso.
Não o disse? «Felizes os que sabem, colhendo beleza e poesia, refugiar-se em recordações purificadas da mesquinhez do mundo. Felizes os que  são sabem, colhendo inspirados pelo amor, para quem o poente é sempre uma rosa e o azul tem transparências». Teve a sua companheira — a tia Judite — ao seu lado até ao último momento. Mãe dos seus filhos teve até ao final um gesto de amor. «Felizes os que sabem andar feliz o coração no espaço infinito, entre orações, bençãos e perdão. Felizes os que sabem demorar o perfume que o amor deixou».
Lá estiveram os seu amigos. O infalível Júlio Amaro (como podia ele faltar?). E sabe uma coisa? Foi uma manifestação de ternura, neste mundo de egoísmos, cada vez mais fracas.
 Ti Alfredo, até qualquer dia..."

 

Na Revita "MAIS"  de 2 de Julho de 1982, destaca-se aqui o seu editorial e dois artigos da autoria de grandes jornalistas.

 

UM SILÊNCIO NO FADO

"Um silêncio no Fado, eis o que se fez, súbito, no último fim-de-semana.
Morrera Alfredo Marceneiro ou, se preferirem ele mudara de "poiso" para parte incerta onde, afinal, todos acabaremos por beber do mesmo copo — como ele continua, certamente a fazer.
Um silêncio no Fado, eis o que se fez, súbito no último fim-de-semana.
Um silêncio de guitarras e violas, um silêncio de gargantas vazias, um silêncio cúmplice de cantos impossíveis.
Alfredo Marceneiro "diz" agora ali mesmo, ao virar desta esquina, todos o sabemos. Por isso aqui estamos prontos a escutá-lo naqueles que o testemunharam, naqueles que o viveram e conviveram.
Prontos, não a consagrá-lo (que é lá isso?) mas a guardá-lo, nosso."

"MARCENEIRO" — exemplo do fado autêntico

"Sim, é uma verdade indesmentível: os ídolos do Fado são os ídolos do povo. E Alfredo Marceneiro, o «maior» do Fado tinha em si qualquer coisa de indefinível, de boémia atrevida e palpitante a confundir-se com uma ingenuidade quase infantil. Como era ele, afinal?
Igual a si próprio: rezingão e pitoresco, com a sua madeixa preta, a testa enrugada, mantendo ao pescoço o lenço de seda com um nó mal-humorado. Como cantava? Como ninguém: com voz saturada de sensibilidade, uma voz popular e instintiva intérprete como nenhuma outra, da pobreza feliz da cidade e a poesia do seu povo. No Fado, soube sempre poetizar Lisboa. E, por isso, talvez, já não pertence apenas ao Fado e aos que o admiram — é património de Lisboa.
A cidade vai perdendo as suas figuras típicas. Mas ainda tinha em Alfredo Marceneiro um exemplo do Fado autêntico, nascido não se sabe onde mas que vivia na sua alma. Ele possuía a reforma do ofício que foi durante anos um apelido. Chamava-se Alfredo Rodrigo Duarte, o «Marceneiro» para quase todos, «Ti Alfredo» para os fadistas e para os amigos. Andou a roçar os noventa e era ainda uma figura da noite lisboeta. Raros o viram de dia e sempre por ocasiões graves. De resto era a noite que o trazia, envolvendo-o nas suas sombras de mistério. E, parecia conservar nos lábios uma saudade e um beijo quando chegava e dizia: «boa-noite». Sim, era a noite quem o trazia pois é de noite que ele vivia no mundo onde ganhou fama e glória. A sua ronda diária pelas casas típicas (a terminar sempre madrugada alta) era já talvez, uma necessidade de se sentir estimado, acarinhado, vivo para os que lhe queriam bem. O Fado, a sua segunda vida foi,  afinal, a sua vida inteira."

Assina: Fernando Peres

 

E ainda na Revista Mais um artigo de Miguel Esteves Cardoso

 

Ao fadista, Alfredo Marceneiro,

bem ido e bem vindo,

por,ocasião do fim da sua primeira vida (1891 - 1982)

 

"Se, como escreveu D.H. Lawrence, a morte é a única pura e bela conclusão de uma grande paixão, então a morte do fadista Alfredo Marceneiro é, também ela, um acto de paixão.
E é um Fado.
E é uma morte.
Mas um fadista não morre como morreram os outros homens.
A morte não o surpreende nem o leva — é ele que a chama e a ela se entrega. Porque ser fadista é atiçar, cortejar, pedir a morte desde o primeiro momento em que o Fado lhe nasce na voz. Um fadista, ao morrer, vê a sua arte a atingir o ponto máximo de perfeição.
E é um Fado.
E é uma morte.
Mas um fadista não morre como morrem os outros homens.
Ele trata a morte por tu. Conhece-le os jeitos e as manhas e só pode ter por ela o respeito que se tem por aquilo que conhecemos de gingeira: é gingão com ela, mas tem-lhe amor. Ou não fosse todo o Fado um fingimento da morte e todo o fadista um fingimento da vida
E é um Fado.
E é uma morte
E é uma saudade, e um destino. Ou não fosse a saudade, como memória do bem que jamais regressará, no qual que nunca desaparecerá, uma espécie de morte. O mesmo, em vida que ver morrer. Ou não fosse o destino, como pressentimento sem recuo nem apelo, uma espécie de preparação para a morte. O mesmo, em vida, que ver-mo-nos morrer.
E é um Fado
E é uma morte.
Pela saudade, o fadista pôde saborear a morte que lhe sobe do peito pela garganta, até à boca. É talvez um amargo e doce paladar — terá concretiza algo a ver com amêndoas cruas, caroços de cereja, vinho acre.
Pelo destino, o fadista faz no peito a cama á morte e o aroma desses lençóis  sobe pela garganta até à boca e tem o cheiro de uma mortalha lavada nas lixívias pungentes da vida.
E é só um Fado.
É afinal apenas uma Morte.
Mas que sentido teria celebrá-la e senti-la senão com sua própria língua, a do Fado e da Morte ? A morte de um fadista, a morte de Marceneiro, só pode ser celebrada e sentida na voz de outro fadista. Não pode ser escrita, não consente ser lida.
Porque o Fado precisa dos seus fadistas mortos, das suas lendas e lugares. No Fado, o luto continua. Deste modo sempre. Ou há alguém que disputa a lenda e o lugar da Severa ? Ou há alguém que duvide que, como morto. Marceneiro servirá o Fado como o não pôde servir nos últimos anos da sua vida ?
E é outro Fado.
E é nenhuma Morte.
Ao morrer, Marceneiro inicia uma outra carreira no Fado. Tão bela e importante como aquela que findou. Será furiosamente lembrado, mistificado, transformado em voz. Porque é uma das bonitas qualidades do Fado: o Fado nunca esquece. Agora é que Marceneiro começará a viver, porque já está morto, reconciliado com o seu destino de homem, preparado para a sua missão de reminiscência e saudade.
E é este o verdadeiro Fado.
E é esta a verdadeira Morte.
Porque os fadistas não morrem como os outros homens.
Melhor: nem sequer morrem. Toda a vida anseiam morrer. De amor e paixão, de cio e da saudade. Sem respeitar a vida, que é coisa que vem e que passa, senão daquilo que a vida tem de transportadora. Transportadora da imagem e do desejo das coisas que se amaram, e que nela se guardam, tão brancos como no dia que nasceram,os vícios da alma, os vícios do corpo.
E é assim um bonito Fado.
E não é assim uma feia Morte.
Ou não haja alguém que ponha em causa que um fadista não é um homem que, ora em ora, canta o Fado. Não existe esse bicho: o fadista em tempo parcial. Cantar o Fado é apenas um momento na vida de um fadista, tão natural como abrir as janelas de manhã, tão normal como as tarefas do dia-a-dia. E as tarefas do noite-a-noite, as rondas, as batalhas, os amores, os vinhos, os amigos, os trabalhos, misturam-se com o canto e — nos grandes fadistas, como o Marceneiro — entram pelo canto adentro e tudo encharcam para que a voz depois dê vazâo à paixão, dê cor à dor, dê despejo ao desejo.
È isto o dito Fado.
Bendito Fado, para além da Morte.
Alfredo Marceneiro foi esse fadista em que o Fado, como mero canto, era indissociável do Fado, como mera vida. Mas se dantes não havia realidade que podia com o arroubo de lembrar — o Fado é uma perpétua reconstrução do passado, sabendo sempre que nunca o poderá reconstruir a tempo de evitar o futuro — se dantes não havia Marceneiro—homem que podia com o esplendor de Marceneiro—mito; agora, agora e durante os muitos anos que só o Fado guarda contristadamente faz enternecer, Marceneiro pertence todo ao Fado como nem ele em vida, conseguiu pertencer.
E é Fado
E deixa de ser Morte
Digamos só: Olá Alfredo Marceneiro, é bom tê-lo outra vez entre nós.

Assina: Miguel Esteves Cardoso

 

Imagem do Cortejo que acompanhou a pé, em marcha lenta, ao som das guitarras, Marceneiro até à sua sepultura

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