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Associação Cultural de Fado

"O Patriarca do Fado"
Terça-feira, 19 de Março de 2024

EU TENHO UM SONHO

EU AINDA QUERO SONHAR COM UM PAÍS DEMOCRÁTICO E PLURALISTA

cravo-aries.jpg

 

Martin Luther King, foi assassinado vai há mais de 50 anos,  por  ter tido a ousadia de SONHAR e LUTAR

 contra uma sociedade racista e intolerante, tiraram-lhe a vida, mas a sua mensagem perdura.

MESMO QUE ISSO LHE CUSTE A VIDA , SEMPRE QUE UM HOMEM SONHA, O MUNDO PULA E AVANÇA2019-10-30

 

  

 

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=piXnVh0LfNg

 

Manuel Freire canta:

 

Pedra Filosofal

Poema de António Gedeão

Música de Manuel Freire

 

PEDRA FILOSOFAL

 

Eles não sabem que o sonho

É uma constante da vida

Tão concreta e definida

Como outra coisa qualquer

Como esta pedra cinzenta

Em que me sento e descanso

Como este ribeiro manso

Em serenos sobressaltos

Como estes pinheiros altos

Em que verde e oiro se agitam

Como estas aves que gritam

Em bebedeiras de azul

 

                                                                 Eles não sabem que o sonho

                                                                 É vinho, é espuma, é fermento

                                                                 Bichinho alacre e sedento

                                                                 De focinho pontiagudo

                                                                 Num perpétuo movimento

 

 

Eles não sabem que o sonho

É tela, é cor, é pincel

Base, fuste ou capitel

Arco em ogiva, vitral

Pináculo de catedral

Contraponto, sinfonia

Máscara grega, magia

Que é retorta de alquimista

Mapa do mundo distante

Rosa-dos-ventos, Infante

Caravela quinhentista

Que é Cabo da Boa Esperança

Ouro, canela, marfim

Florete de espadachim

Bastidor, passo de dança

Columbina e Arlequim

Passarola voadora

Pára-raios, locomotiva

Barco de proa festiva

Alto-forno, geradora

Cisão do átomo, radar

Ultra-som, televisão

Desembarque em foguetão

Na superfície lunar

 

                                                         Eles não sabem nem sonham

                                                         Que o sonho comanda a vida

                                                         Que sempre que um homem sonha

                                                         O mundo pula e avança

                                                         Como bola colorida

                                                         Entre as mãos de uma criança

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Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional, assim como registo na Sociedade Portuguesa de Autores, sócio nº 125820, e Alfredo Marceneiro é registado como marca nacional no INIP, n.º 495150.
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BERTA CARDOSO

 

 

 

Berta dos Santos Cardoso, nasceu na Rua da Condessa, freguesia do Sacramento em Lisboa, no 21 de Outubro de 1911.
Ficou órfã de pai muito cedo e devido a dificuldades económicas de sua mãe, esteve internada numa instituição oficial,  onde fez os seus estudos, saiu aos 16 anos e foi novamente viver com a mãe e os irmãos.
Berta Cardoso, que não era filha única, teve um irmão de seu nome Américo dos Santos, que andava no Fado  como amador e tocava viola, e assim a influenciou a para cantar o Fado.
Berta Cardoso foi mãe de dois filhos.
Corria o ano de 1927, com 16 anos de idade, estreia-se no Salão Artístico de Fados, no Parque Mayer, que era gerido pelo Armandinho, foi tal  êxito da sua actuação que de imediato ficou contratada, tendo adoptado o nome artístico de Berta Cardoso.
Sendo o Salão Artístico no Parque Mayer, local, onde como se sabe apareceram os Teatros de Revista. Berta Cardoso não passou despercebida e logo em 1929 é a cantadeira contratada para a Revista Ricócó, levada à cena no Teatro Maria Vitória, segue-se “Viva O Jazz” e a “Nau Catrineta”.
Nos intervalos das suas actuações na revista, é das cantadeiras mais solicitada nos recintos de Fado, Solar da Alegria, Salão Jansen, Café Luso, Retiro da Severa, etc.
Integrada num elenco artístico  com a Beatriz Costa,  parte numa digressão ao Brasil onde obteve grandes êxitos.
Infelizmente não havia os meios de comunicação de hoje, pois é indiscutível que Berta Cardoso foi uma das primeiras cantadeiras de Fado a internacionalizar o Fado, assim com a grande Ercília Costa. (1)
Estas actuações internacionais tem mais expressão no Brasil e em todo o continente Africano, em particular nas Colónias Portuguesas. O que levou a que, em 1933 os diversos interveniente no espectáculo Fado, decidiram criar o “Grupo Artístico de Fados”, com Madalena de Melo e a Berta Cardoso, na guitarra o Armandinho e nas violas,  Martinho d’ Assunção Jr. e João da Mata.
Este conjunto de intérpretes de renome,  parte a bordo do navio Niassa para um percurso de espectáculos na África Ocidental e Oriental e também nas ilhas portuguesas. Concretiza-se como a primeira viagem que o Fado faz a África, tornando-se numa digressão muito noticiada pelos jornais, uma vez que os espectáculos se desenrolam ao longo de quase um ano, passando por diversos locais, destacando Angola, Moçambique e Rodésia.
No inicio dos anos trinta grava para a editora Odeon, e mais tarde passa a gravar de para a editora Valentim de Carvalho.
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Berta Cardoso fica muito ligada ao Teatro de Revista, onde se apresenta com uma regularidade de cerca de várias peças por ano.
Em 1936 no  Retiro da Severa, ao lado de outros  grandes fadistas da época, Maria Emília Ferreira, Maria do Carmo Torres, Alfredo Duarte Marceneiro, Júlio Proença e José Porfírio, são considerados e apresentados como a "Embaixada do Fado do Retiro da Severa",  actuaram em muitos locais,  com relevância as idas  ao Porto, Teatro Sá da Bandeira e no Teatro Variedades, com lotações sempre esgotadas,   a imprensa e a rádio destaca as actuações de Berta Cardoso e Alfredo Marceneiro.
Em 1939 é contratada novamente por Beatriz Costa, para uma série de espectáculos em  todo o Brasil, com as revistas "Eh, Real", "Oh, meu rico São João", "Dança da Luta" e "Pega-me ao Colo", novamente estes espectáculos tiveram grandes êxitos. Mas,  antes da sua partida, é homenageada pelos seus colegas no Retiro da Severa.

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Foi também neste ano,  que  grava e filma com Alfredo Marceneiro, no Teatro Variedades e no Retiro do Colete Encarnado,  actuações estas   para o filme "O Feitiço do Império", de António Lopes Ribeiro, que  estreou em 1940.

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Após o regresso do Brasil, em 1940, é convidada para a "Embaixada do Fado do Solar da Alegria", que no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, obtém grandes elogios e lotações esgotadas, também faziam parte deste elenco, Maria Carmen, Júlio Proença e Amália Rodrigues.
Berta Cardoso continua a cantar nos retiros de Fado e no teatro, até cerca de 1960, ano em que decide manter-se só a gravar, e cantar Fado em casas típicas, primeiro n´O Faia, segue-se a Viela e por último o Poeta, em Alfama, onde anteriormente tinha havido uma  casa de fados bem pitoresca,  que se chamava “A Nau Catrineta”.
Em 1943 conclui na Faculdade de Medicina o curso de enfermagem, com a especialização em obstetrícia, mas nunca chegou a exercer.
Desde muito miúdo que convivi com Berta Cardoso na Viela, do Sérgio onde eu para além de ter um pretexto  para estar no Fado, arranjava “uns trocos para alimentar a moto”, era lá fotógrafo, nessa estudava à noite e já trabalhava na GM, meu avô, grande amigo da Berta,  todos os dias aparecia para me lembrar que tinha que ir para casa a partir da meia-noite. Tenho da Berta Cardoso, gratas recordações, as estórias que me contava do meu avô e do meu pai, e lembro ainda,  com saudade, quando ela tinha que cantar várias vezes o Fado “O Homem da Berta”, pois iam chegando mais clientes e admiradores,  e como muitas das vezes ela já tinha cantado o tema, era tal a insistência, que tinha que o voltar a cantar.
Há registos seus na RTP, no ZIP-ZIP, e no programa com o título “As  bodas de ouro de uma Fadista”.
Berta Cardoso foi internada num lar da Santa Casa da Misericórdia, em 1996, local onde veio a falecer a 12 de Julho de 1997.
Reconhecendo Berta Cardoso como uma figura emblemática do Fado tradicional, com uma larga carreira sempre associada a esta canção urbana e representante de um período muito característico da História do Fado, em 2006, o Museu do Fado organizou uma exposição temporária centrada nesta fadista e lançou um livro sobre a sua figura
Também em  2006 no Restaurante Nini, fazendo eu  parte da APAF, fiz uma pequena palestra sobre a Berta Cardoso,  com um diaporama de minha autoria, que merecu o agrado dos presentes, foi uma sincera homenagem da minha parte.
Reconhecendo Berta Cardoso como uma figura emblemática do Fado tradicional, com uma larga carreira sempre associada a esta canção urbana e representante de um período muito característico da História do Fado, em 2006, o Museu do Fado organizou uma exposição temporária centrada nesta fadista e a edição de um livro evocativo.

(Nota)    Meu avô Alfredo Marceneiro, poderia ter tido também uma carreira internacional, mas teve sempre o cuidado de não acreditar no profissionalismo no Fado, razão porque sempre se manteve na sua profissão de marceneiro, e como já escrevi só ficou a viver do Fado, a partir de 1946, na sequência das greves no Arsenal do Alfeite, tinha 54 anos pelo registo de nascimento e 57 na realidade. 

©Vitor Duarte Marceneiro

Linhares Barbosa - Berta Cardoso - Alfredo Marceneiro


TEMPOS DE OUTRORA

Repertório de: Berta Cardoso
Letra de: Fernando Teles
Música: Fado Tradicional

Dos Belos tempos de outrora
São Relíquias do passado
Dois impagáveis tesoiros
A guitarra mais o Fado

Era na Lisboa, antiga
Quinta- Feira de Ascensão
Dia da consagração
Porque era dia de espiga

Com farnéis e sem fadiga
Assim que raiava a aurora
Toda a gente campos fora
Procurando a sombra amena

Ai que saudades que pena
Dos belos tempos de outrora
As noites tradicionais
De todos os nossos santos

Eram motivos de tantos
Ranchos, bailes e festivais
Os sírios e arrais
Rabicha, senhor roubado

Atalaia sol doirado
Como tudo isto era lindo
Estas coisas tempo findo
São relíquias do passado

E nas vésperas das toiradas
Nos retiros que alegria
Até a nobreza se via
Pelas mesas abancada

Cantava-se ás desgarrada
Até à vinda dos toiros
Cobriam-se assim de loiros
Entre a fadistagem vária

A Severa e a Cesária

Dois empagáveis tesouros
Fidalgos boémios e artistas
E toureiros elegantes
Tinham por suas amantes
As cantadeiras bairristas
Nesses tempos de fadistas

E do saiote encarnado
Só nos resta por sagrado
Penhor bem tradicional
Dois filhos de Portugal
A guitarra mais o Fado

 Berta Cardoso canta um dos seus grandes êxitos
"TIA MACHETA"
Letra de Linhares Barbosa e Música de Manuel Soares

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Viva Lisboa:
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DIA DO PAI- FADOS DA MINHA VIDA

FADO é sorte, desde o berço até à morte

ninguém foge por mais sorte

ao destino que Deus quis.....

(Silva Tavares)

Alfredo Rodrigo e Eu.jpg

Eu com o meu falecido filho Alfredo Rodrigo Duarte

Que Deus me o levou em Setembro de 1995

 Saúdo todos os pais do mundo, hoje é um dia de alegria, mas  para muitos  pais, o  coração chora e sorri, chora quem tem a dor de ter perdido um filho, e sorri, qquem têm a bênção de ter outros,  que neste dia lhe darão uma  lembrança, que por mais simples que seja,  nos enche de felicidade  e orgulho. 

Tive um filho

Deus levou-mo

Fez-me guerra

Pôs uma estrela no céu

E uma saudade na terra

(Carlos Conde)

Este é um dia em que recordo com saudade, e lágrimas nos olhos, o meu pai, o pai do meu pai, e o meu filho, que Deus me levou... Três Alfredos da minha vida... do meu Fado...

Mas Deus que tudo destina... tirou-me com uma mão... mas deu-me com a outra.... deu-me outro Alfredo e uma Beatriz... mas no meu coração está sempre  um lugar guardado, com a recordação daquele, que em vez de me ver partir...partiu.

Mas mais logo,  terei a alegria dos meus dois filhinhos, o Alfredo e a Beatriz,  me trazerem a sua prendinha, será decerto aquele cartãozinho com pinturas que as suas infantis fantasias idealizam, mas que têm sempre escrita,  a frase sentida e sincera, como só as crianças  sentem... És o melhor pai do mundo!!, tal como no passado tive, e que guardo com muito amor.

 

 Vito&Filhos.JPG

Os meus filhos Alfredo e Beatriz

Alfredo Rodrigo Duarte II ( 1971- 1995 )

 

Os meus saudosos e chorados Alfredo´s

Alfredo Figueiredo Duarte  (1924 - 1999)

Alfredo Rodrigo Duare I (1891 - 1982

Alfredo Rodigo Duarte II (1971- 1995)

 

               MANUEL DIAS canta uma criação de Maria Emília Ferreira

AMOR DE PAI

Letra de: Armando Neves

Música de: Franklim Godinho

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Segunda-feira, 18 de Março de 2024

ALFREDO MARCENEIRO - Deixou-nos há 42 anos

 E DEUS LHE DEU A GRAÇA E A ALEGRIA,  DE TER MORRIDO NA SUA FREGUESIA, COMO UM SOLDADO MORRE NO SEU POSTO

 

Alfredo Marceneiro faleceu na sua casa  pelas sete horas da manhã do dia 26 de Junho de 1982, contava 91 anos. (*)

Nasceu em 29 de Fevereiro de 1888, mas só foi registado em 25 de Fevereiro de 1891
O seu corpo esteve em câmara ardente, na Igreja de Santa Isabel, sendo apostas na urna a Bandeira Nacional e a bandeira da cidade de Lisboa por iniciativa do, então, Presidente da edilidade Engº Krus Abecassis e ainda uma guarda de honra permanente prestada pelos Soldados da Paz do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa.
 O Padre designado para fazer as exéquias do funeral de Alfredo Marceneiro desconhecia de todo a sua obra, mas impressionado com os milhares de pessoas presentes no velório, quis esclarecer-se sobre a sua figura. Levou a noite a escutar o José Pracana e este tão eloquentemente lhe falou do seu querido amigo "Ti Alfredo", que no dia do funeral,  o Padre ao dizer a Missa de Corpo Presente, ele próprio com as lágrimas nos olhos enalteceu a sua imagem de lisboeta e fadista, amante da sua cidade e da sua freguesia E a todos supreendeu, quando recitou os versos que Marceneiro tantas vezes cantou:

 

Alfredo Marceneiro canta:

A Minha Freguesia

 

Se os cantadores todos, hoje em dia
Ruas e bairros cantam, de nomeada
Eu cantarei á minha freguesia
A de Santa Isabel tão afamada

 

Freguesia gentil que não tem par
É talvez de Lisboa, a mais dilecta
De D. Diniz, a rua faz lembrar
O esposo de Isabel o Rei poeta

 

Lembra a Rainha Santa, quando vinha
Transformar o pâo em rosas, com fé tanta
Ela que Santa foi, menos Rainha
Mas foi entre as Rainhas, a mais Santa

 

Poetas e literários, foram seu
Ilustres moradores, geniais
Como Almeida Garrett, João de Deus
Teófilo, Junqueiro e outros mais

 

Freguesia onde enfim, moro também
Onde sempre pisei honrados trilhos
Nela casou a minha querida mãe
E nela é que nasceram os meus filhos

 

Que Deus me dê a graça, a alegria
Na vida tão cheínha, de desgostos
A vir morrer na minha freguesia
Como um soldado morre no seu posto

 

Assim, até na sua morte o Fado acontecia. Cumpriu-se o desejo que Alfredo Marceneiro cantava nos versos escritos pelo poeta Armando Neves.
É de realçar, que não havendo espaço no talhão dos artistas no Cemitério dos Prazeres, a Câmara Municipal de Lisboa, disponibilizou um gavetão perpétuo para repouso dos seus restos mortais.
 Milhares de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre que apesar de ser proibido se efectuou a pé, numa sentida manifestação de pesar desde Santa Isabel até ao Cemitério dos Prazeres.   Guitarristas dedilharam os seus instrumentos, durante todo o percurso, " a sua Marcha" em tom dolente e magoado, que mais parecia um choro de guitarras.
O Povo de Campo d´Ourique estendeu colchas nas janelas, numa homenagem singela ao homem simples do seu bairro.

Todos os orgãos de informação se referiram á efeméride, com títulos de destaque.

 (*) 91 anos em termos de registo de nascimento, masa na realidade tinha 94 anos

 

Chorai Fadistas, chorai...
A morte de Alfredo Marceneiro
— A GRANDE LENDA DO FADO
in Diário de Notícias

 

« Ti Alfredo » deixou-nos

Morreu O REI do FADO.

Morreu aquele a quem apelidaram de
—PATRIARCA do FADO

 

Marceneiro morreu, o fado de luto

Morreu Alfredo Marceneiro
— O MONSTRO do FADO

 

Guitarras choraram por Alfredo Marceneiro
in Correio da Manhã

 

Morreu Alfredo Marceneiro...
 O Fado lisboeta está de luto.
in O Dia

 

De todos os jornais diários que se referiram á efeméride  destaco o artigo assinado pelo jornalista e poeta Fernando Peres que foi seu grande amigo e admirador:

 

GUITARRAS CHORAM NO FUNERAL DE MARCENEIRO
in A Capital


"Não sabemos de quem teria sido a ideia mas não é difícil adivinhá-lo: José Pracana tem alma de poeta e uniu-o sempre ao ti Alfredo uma amizade filial. Talvez pela primeira vez, desde a saída do corpo até ao cemitério dos Prazeres, guitarras e violas choraram o que deixa insubstituível um lugar e foi um intérprete ímpar de várias gerações. Apenas melodias suas foram escutadas por gente que se espalhava pelas janelas para assistir ao cortejo enorme e ouvir um coro imenso de vozes de que Alfredo Duarte (o Marceneiro para toda a gente) era autor e andam na boca de toda a gente.
Esta é uma verdade indesmentível. Se reflectirmos, podemos concluir que a vida e a morte constituem os círculos viciosos do tempo.
A hora que se viveu é uma hora morta. Aquilo que hoje é emoção violenta, constitui amanhã, uma sensação esquecida.
Devemos insistir: esta é uma verdade indesmentível pois existe dentro de cada homem uma tragédia que ele ignora e uma comédia que ele vive. Algumas vezes, a tragédia é caricata ridícula, dá vontade de rir. Mas nunca ninguém riu da tragédia que consigo arrasta. É que a dor é um sinal da vida. Na realidade, só vive quem sabe sofrer...
Por isso ti Alfredo não sofre sózinho. Consigo leva um bocadinho do coração de todos nós. Os ídolos do fado são ídolos do povo. E um desses foi esse extraordinário Alfredo Marceneiro, decano dos intérpretes portugueses e, talvez, mundiais. Quase todos choraram quando foi o «momento da despedida». Mas homens como o ti Alfredo não morrem, nunca. Faltou a madrugada, substituída por um Sol radioso. Mas tudo teve expressão e significado. Valeu pela intenção valiosa e espectacular (houve quem  estivesse de muletas). Se era preciso, foi a consagração de um grande fadista. Quantos o acompanharam, e entre eles o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Leonor Beleza, constituíram um público, sem distinção de classes ali acorrendo a acenar o seu adeus ao maior intérprete da canção, nascida não se sabe onde ecoou em vozes doridas e viciosas nas betesgas das ruelas de Lisboa. Depois, ganhou raça em gargantas aristocráticas e hoje corre mundo na névoa das «boites».
De facto, passam tristezas a desfazer-se e o vento arrasta-se, lentamente, com vagares de cansaço. Já se feriram alegrias em vibrantes risos. Uma lágrima indiscreta espreita um sorriso.
Não o disse? «Felizes os que sabem, colhendo beleza e poesia, refugiar-se em recordações purificadas da mesquinhez do mundo. Felizes os que  são sabem, colhendo inspirados pelo amor, para quem o poente é sempre uma rosa e o azul tem transparências». Teve a sua companheira — a tia Judite — ao seu lado até ao último momento. Mãe dos seus filhos teve até ao final um gesto de amor. «Felizes os que sabem andar feliz o coração no espaço infinito, entre orações, bençãos e perdão. Felizes os que sabem demorar o perfume que o amor deixou».
Lá estiveram os seu amigos. O infalível Júlio Amaro (como podia ele faltar?). E sabe uma coisa? Foi uma manifestação de ternura, neste mundo de egoísmos, cada vez mais fracas.
 Ti Alfredo, até qualquer dia..."

 

Na Revita "MAIS"  de 2 de Julho de 1982, destaca-se aqui o seu editorial e dois artigos da autoria de grandes jornalistas.

 

UM SILÊNCIO NO FADO

"Um silêncio no Fado, eis o que se fez, súbito, no último fim-de-semana.
Morrera Alfredo Marceneiro ou, se preferirem ele mudara de "poiso" para parte incerta onde, afinal, todos acabaremos por beber do mesmo copo — como ele continua, certamente a fazer.
Um silêncio no Fado, eis o que se fez, súbito no último fim-de-semana.
Um silêncio de guitarras e violas, um silêncio de gargantas vazias, um silêncio cúmplice de cantos impossíveis.
Alfredo Marceneiro "diz" agora ali mesmo, ao virar desta esquina, todos o sabemos. Por isso aqui estamos prontos a escutá-lo naqueles que o testemunharam, naqules que o viveram e conviveram.
Prontos, não a consagrá-lo (que é lá isso?) mas a guardá-lo, nosso."

"MARCENEIRO" — exemplo do fado autêntico

"Sim, é uma verdade indesmentível: os ídolos do Fado são os ídolos do povo. E Alfredo Marceneiro, o «maior» do Fado tinha em si qualquer coisa de indefinível, de boémia atrevida e palpitante a confundir-se com uma ingenuidade quase infantil. Como era ele, afinal?
Igual a si próprio: rezingão e pitoresco, com a sua madeixa preta, a testa enrugada, matendo ao pescoço o lenço de seda com um nó mal-humorado. Como cantava? Como ninguém: com voz saturada de sensibilidade, uma voz popular e instintiva intérprete como nenhuma outra, da pobreza feliz da cidade e a pesia do seu povo. No Fado, soube sempre poetizar Lisboa. E, por isso, talvez, já não pertence apenas ao Fado e aos que o admiram — é património de Lisboa.
A cidade vai perdendo as suas figuras típicas. Mas ainda tinha em Alfredo Marceneiro um exemplo do Fado autêntico, nascido não se sabe onde mas que vivia na sua alma. Ele possuía a reforma do ofício que foi durante anos um apelido. Chamava-se Alfredo Rodrigo Duarte, o «Marceneiro» para quase todos, «Ti Alfredo» para os fadistas e para os amigos. Andou a roçar os noventa e era ainda uma figura da noite lisboeta. Raros o viram de dia e sempre por ocasiões graves. De resto era a noite que o trazia, envolvendo-o nas suas sombras de mistério. E, parecia conservar nos lábios uma saudade e um beijo quando chegava e dizia: «boa-noite». Sim, era a noite quem o trazia pois é de noite que ele vivia no mundo onde ganhou fama e glória. A sua ronda diária pelas casas típicas (a terminar sempre madrugada alta) era já talvez, uma necessidade de se sentir estimado, acarinhado, vivo para os que lhe queriam bem. O Fado, a sua segunda vida foi,  afinal, a sua vida inteira."

Assina: Fernando Peres

 

E ainda na Revista Mais um artigo de Miguel Esteves Cardoso

 

Ao fadista, Alfredo Marceneiro,

bem ido e bem vindo,

por,ocasião do fim da sua primeira vida (1891 - 1982)

 

"Se, como escreveu D.H. Lawrence, a morte é a única pura e bela conclusão de uma grande paixão, então a morte do fadista Alfredo Marceneiro é, também ela, um acto de paixão.
E é um Fado.
E é uma morte.
Mas um fadista não morre como morreram os outros homens.
A morte não o surpreende nem o leva — é ele que a chama e a ela se entrega. Porque ser fadista é atiçar, cortejar, pedir a morte desde o primeiro momento em que o Fado lhe nasce na voz. Um fadista, ao morrer, vê a sua arte a atingir o ponto máximo de perfeição.
E é um Fado.
E é uma morte.
Mas um fadista não morre como morrem os outros homens.
Ele trata a morte por tu. Conhece-le os jeitos e as manhas e só pode ter por ela o respeito que se tem por aquilo que conhecemos de gingeira: é gingão com ela, mas tem-lhe amor. Ou não fosse todo o Fado um fingimento da morte e todo o fadista um fingimento da vida
E é um Fado.
E é uma morte
E é uma saudade, e um destino. Ou não fosse a saudade, como memória do bem que jamais regressará, no qual que nunca desaparecerá, uma espécie de morte. O mesmo, em vida que ver morrer. Ou não fosse o destino, como pressentimento sem recuo nem apelo, uma espécie de preparação para a morte. O mesmo, em vida, que ver-mo-nos morrer.
E é um Fado
E é uma morte.
Pela saudade, o fadista pôde saborear a morte que lhe sobe do peito pela garganta, até à boca. É talvez um amargo e doce paladar — terá concretiza algo a ver com amêndoas cruas, caroços de cereja, vinho acre.
Pelo destino, o fadista faz no peito a cama á morte e o aroma desses lençóis  sobe pela garganta até à boca e tem o cheiro de uma mortalha lavada nas lixívias pungentes da vida.
E é só um Fado.
É afinal apenas uma Morte.
Mas que sentido teria celebrá-la e senti-la senão com sua própria língua, a do Fado e da Morte ? A morte de um fadista, a morte de Marceneiro, só pode ser celebrada e sentida na voz de outro fadista. Não pode ser escrita, não consente ser lida.
Porque o Fado precisa dos seus fadistas mortos, das suas lendas e lugares. No Fado, o luto continua. Deste modo sempre. Ou há alguém que disputa a lenda e o lugar da Severa ? Ou há alguém que duvide que, como morto. Marceneiro servirá o Fado como o não pôde servir nos últimos anos da sua vida ?
E é outro Fado.
E é nenhuma Morte.
Ao morrer, Marceneiro inicia uma outra carreira no Fado. Tão bela e importante como aquela que findou. Será furiosamente lembrado, mistificado, transformado em voz. Porque é uma das bonitas qualidades do Fado: o Fado nunca esquece. Agora é que Marceneiro começará a viver, porque já está morto, reconciliado com o seu destino de homem, preparado para a sua missão de reminiscência e saudade.
E é este o verdadeiro Fado.
E é esta a verdadeira Morte.
Porque os fadistas não morrem como os outros homens.
Melhor: nem sequer morrem. Toda a vida anseiam morrer. De amor e paixão, de cio e da saudade. Sem respeitar a vida, que é coisa que vem e que passa, senão daquilo que a vida tem de transportadora. Transportadora da imagem e do desejo das coisas que se amaram, e que nela se guardam, tão brancos como no dia que nasceram,os vícios da alma, os vícios do corpo.
E é assim um bonito Fado.
E não é assim uma feia Morte.
Ou não haja alguém que ponha em causa que um fadista não é um homem que, ora em ora, canta o Fado. Não existe esse bicho: o fadista em tempo parcial. Cantar o Fado é apenas um momento na vida de um fadista, tão natural como abrir as janelas de manhã, tão normal como as tarefas do dia-a-dia. E as tarefas do noite-a-noite, as rondas, as batalhas, os amores, os vinhos, os amigos, os trabalhos, misturam-se com o canto e — nos grandes fadistas, como o Marceneiro — entram pelo canto adentro e tudo encharcam para que a voz depois dê vazâo à paixão, dê cor à dor, dê despejo ao desejo.
È isto o dito Fado.
Bendito Fado, para além da Morte.
Alfredo Marceneiro foi esse fadista em que o Fado, como mero canto, era indissociável do Fado, como mera vida. Mas se dantes não havia realidade que podia com o arroubo de lembrar — o Fado é uma perpétua reconstrução do passado, sabendo sempre que nunca o poderá reconstruir a tempo de evitar o futuro — se dantes não havia Marceneiro—homem que podia com o esplendor de Marceneiro—mito; agora, agora e durante os muitos anos que só o Fado guarda contristadamente faz enternecer, Marceneiro pertence todo ao Fado como nem ele em vida, conseguiu pertencer.
E é Fado
E deixa de ser Morte
Digamos só: Olá Alfredo Marceneiro, é bom tê-lo outra vez entre nós.

Assina: Miguel Esteves Cardoso

 

Imagem do Cortejo que acompanhou a pé, em marcha lenta, ao som das guitarras, Marceneiro até à sua sepultura

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FERNANDO PINTO RIBEIRO -. 1928 -. 2009 - 15 Anos de Saudade

 

  Fernando   Pinto Ribeiro, deixou-nos há 15 anos  

Sinto saudade e mágoa imensa, desde o dia em que tive a honra de o conhecer, nasceu ente nós uma amizade   e carinho, que nunca esquecerei.
Poucos dias antes da sua partida, em conversa telefónica informou-me que ia escrever o poema que me dedicou pela sua própria mão. Enviou-me pelo correio, aqui publico, que pena não ter tido a oportunidade de o conhecer há muitos mais anos.
Afirmava-me que era meu afilhado do Fado,  fazia também  questão de me apelidar de Vítor Duarte Terceiro (por extenso). 

Até um dia Fernando, não estás esquecido.

   

NAS RUAS DA NOITE

 

A Vítor Duarte, “Marceneiro Terceiro” — Meu padrinho no Fado

Fernando Pinto Ribeiro

 

 

 No crepitar de estilhaços(*)

de estrelas sobre os espaços

da Lisboa  rua em rua —

crucificámos abraços

encruzilhados nos passos

que à noite a lua insinua

 

                                Nas nossas bocas unidas

                                sangrámos fados em feridas

                                dos beijos amordaçados —

                                salvámos vias vencidas

                                que andam pla treva perdidas

                                como num mar afogados

 

Cegos de sombras e lama

E da sede que se inflama

numa inquisição divina —

bebemos o vinho em chama

que sanguínea  luz derrama

no candeeiro da esquina

 

                                Embriagados de lume

                                sem dissipar o negrume

                                do fumo que nos oprime —

                                rezamos todo o queixume

                                do cio deste ciúme

                                num amor que se faz crime

 

Crucificamos abraços

encruzilhados nos passos

que a noite nua desnua —

crepitantes de estilhaços

de estrelas quando em pedaços

vêm morrer sobre a rua

 

O Poeta e escritor Fernando Pinto Ribeiro, que faz questão de me chamar  "Seu Padrinho no Fado" quando eu nasci já ele escrevia para o Fado  isto,  porque acha que eu fui  a pessoa do Fado, que escreveu acerca dele  e da sua obra, , de uma forma que ele considera a mais objectiva, em todos estes  anos que tem de Fado. ("O percurso da História é muitas vezes estrangeiro ao percurso do artista. Nem sempre este se integra de forma tão sincronizada e congruente com aquele".
hoje somos somos duas almas gémeas do "Fado" que se encontraram, como que para reatar uma amizade que há muito estava estagnada.
É uma ternura para mim este seu sentir, como honrado fico com os versos que me dedica, e que gostaria  que eu um dia cantasse com música de meu avô. 
(*) Este tema já foi cantado e gravado, por decisão própria de quem o cantou, o poeta autorizou através da SPA, por delegação, mas é a primeira vez que ele o dedica pessoalmente,  com algumas, mas importantes reformulações, em última e definitiva versão, orientadas,  pela minha peculiar forma de me exprimir e venerar o Fado.

  

Fernando Pinto Ribeiro, é natural da Guarda. Nasceu em 1928. Ao 17 anos vem para Lisboa após completar o Curso Liceal, inscrevendo-se na Faculdade de Direito, cujo curso não chegou a completar. Já em jovem começa a rimar as palavras, nunca deixando de escrever quadras soltas, tendo aos catorze anos escrito, o seu primeiro soneto a que dá o título de “Soneto dos 15 Anos”.
Colaborou nas Revistas Flama , Panorama, Páginas Literárias, em Jornais, como Diário de Notícia, Diário Ilustrado e em vários jornais regionais, tendo também sido publicados  no Brasil alguns poemas de sua autoria.
Foi Director da Revista de Letras e Artes “CONTRAVENTO” (1968), da qual só se conseguiram editar quatro  números, dado que o seu cariz intelectual e democrático, não podia de deixar de ser amordaçado pela censura.
Pertence aos corpos sociais da Sociedade da Língua Portuguesa, Sócio da Associação Portuguesa de Escritores, Cooperador da Sociedade Portuguesa de Autores, Sócio da Colectividade Grupo Dramático e Escolar “Os Combatentes”. (Colectividade Popular Centenária)
Frequenta algumas noites de Fado e fica fascinado com o ambiente da noite fadista, começando sem que se aperceba, a identificar-se com  a “expressão fadista” o que apela  à sua alma de poeta, começando a escrever alguns fados que desde logo foram bastante elogiados. Compositores de Fado colaboraram,  e a qualidade dos seus poemas é tal, que logo houve nomes do panorama musical do Fado que os quiseram interpretar, fadistas como: Ada de Castro, Alexandra Cruz, Anita Guerreiro, António Mourão, António Laborinho António Passão , António Severino, Arlindo de Carvalho, Artur Garcia, Beatriz da Conceição, Branco de Oliveira, Carlota Fortes, Chico Pessoa, Estela Alves, tia e sobrinha, Fernando Forte, Francisco Martinho, Humberto de Castro, Julieta Reis e sua filha Sara Reis, Lenita Gentil, Lídia Ribeiro, Maria Jô-Jô Pedro Lisboa, Lurdes Andrade, Natércia Maria, Simone de Oliveira Toni de Almeida,, Tonicha , Tristão da Silva, Xico Madureira, e outros. No início Fernando Pinto Ribeiro usava o pseudónimo "SÉRGIO VALENTINO".
Alguns das suas letras para fado mais conhecidos, são: Às Meninas dos Meus Olhos, A Cantiga dos Pardais, Era um Marinheiro, Fado Alegre, Hino à Vida, Nas Ruas da Noite, Bom Fim de Semana, Noites Perdidas, Pensando em Ti, Lisboa vai,  Pensando em Ti, , etc.

 © Vítor Duarte Marceneiro

  Fernando Pinto Ribeiro
Diz um poemas de sua autoria
«AO NOVO DIA»
Video realizado por Vítor Marceneiro


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Viva Lisboa: Grande Poeta e Grande HOMEM
música: Ao Novo Dia
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AVELINO DE SOUSA _ Fadista, Compositor, Poeta e Dramaturgo

Retrato Avelino de Sousa P&B.jpg

Nasceu em Lisboa em 1880 e residia no Bairro de Campolide. Faleceu em Lisboa em 1946.

Começou a trabalhar numa livraria, foi posteriormente tipógrafo e bi­bliotecário da Torre do Tombo.

Aos 15 anos já cantava as suas obras. Era pre­sença obrigatória em qualquer festa de trabalha­dores.

cantando apenas obras de sua autoria,  nor­malmente acompanhado pelo guitarrista Domin­gos Pavão, seu amigo de infância, o mote das suas letras, versava o amor, saudade e também usava o Fado, para através dele veicular as suas ideias politicas e sociais.

Cantou em tabernas, retiros, colectividades de recreio, em salas de gente elegante.

Travou grandes “despiques” com João Patusquinho, Manuel Serrano, João Black, Júlio Janota, Carlos Harrington e o Calci­nhas Narigudo.

Estreou-se em 1911, como autor teatral com a revista “Perdeu a Fala”, vindo a conquistar assinalá­vel êxito com a opereta “Bairro Alto”, com música de Venceslau Pinto, Alves Coelho e Raul Portela, apresentada em 1927 no Teatro São Luiz, em que a cantadeira Aldina de Sousa, desempenha o papel de Adelaide Pinóia cantando o Fado do Bairro Alto, “Cacho Doirado” (de colaboração com Venceslau de Olivei­ra), a fantasia “País do Sol” (de colaboração com Carlos Leal), o drama “A Guerra” (de colaboração com Luís Galhardo), e o «vaudeville» “Guerra do Fa­do”.

Publicou ainda, entre outros, os livros Canções do Fado, O Fado das Mulheres, A Canção Nacional (com prefácio de Angelina Vidal), Cinquenta So­netos e Cantem Todos...

Há uma quadra que compôs,  que ainda hoje, quase toda a gente, principalmente do Fado conhece, pela sua originalidade, sendo muito cantada em desgarradas:

Ao Fado tudo se canta,

Ao Fado tudo se diz:

— No cristal de uma garganta

Vive a alma de um país.

 Colaborador regular da imprensa operária e da imprensa do Fado, coligiu em 1912 os artigos escritos em A Voz do Operário sob o título O Fado e os Seus Censores, com prefácio de Júlio Dantas, obra de referência na bibliografia fadista.

Meu avô era amigo de Avelino de Sousa, (ainda não era conhecido como “Alfredo Marceneiro”), e foi por sua influência que entrou para sócio de “A Voz do Operário” em 1914, o que decerto muito contribuiu para o seu futuro como fadista, mais tarde e já conhecido como Alfredo Marceneiro, veio a integrar o elenco da opereta de Avelino de Sousa “História do Fado”, no Coliseu dos Recreios, como interprete de Fado.

Parte do espólio de Avelino de Sousa, foi entregue ao autor deste bloco, na sua qualidade de Director Executivo da Associação Cultural de Fado “ O Patriarca do Fado”- Alfredo Marceneiro, através da Poetisa Aline Mamede e a pedido da Srª. Dª Noémia Marques Gouveia Alexandre, filha adoptiva de Avelino de Sousa e de sua mulher Lucinda Ferreira de Sousa, para que o entregasse a quem considerasse que melhor o divulgaria e conservava, pelo que,  a A.C.F.P.F, foi quem lhe mereceu melhor consenso, aliás este blogue já tinha relembrado este grande autor  numa publicação desde 2007.

Este espólio, é composto por:

  • O manuscrito da peça de Avelino de Sousa “Bairro Alto” estreada em 1927.  E ainda,  um livro da mesma peça, com encadernação da época.
  • Um álbum de recortes de jornais e cartazes encadernado feito por Avelino de Sousa e que contem poemas seus inéditos.
  • Um livro encadernado com poemas dedicados por Avelino de Sousa á sua esposa amada , Lucinda, todo escrito á mão.
  • 25 Fotografias da Opereta História do Fado e outras de artistas da época, e uma foto do poeta em tamanho A3.

Foi uma grande honra recebermos este espólio, sabemos que não fomos a primeira opção, mas as outras,  que pensavam ter mais lógica recebê-las, foram ao que me constou, uma desilusão.

Aqui vos deixo algumas fotos deste extraordinário espólio.

Vítor Duarte Marceneiro

 

Fotos do manuscrito e do livro encardenado da  Opereta Bairro Alto

Manuscrito Opereta Bairro Alto.jpg

            Livro da Opereta Bairro Alto.jpgInterior do Livro Operata Bairro Alto.jpg

Fernanda de Sousa H do Fado 2.jpg                     Opereta História do Fado3.jpgFernanda de Sousa H do Fado.jpg

 

 

 Fotos da Opereta "Bairro Alto" com a artista que fazia de camareira Aldina de Sousa e outros figurantes.

Opereta História do Fado.jpg

Livro de Poemas manuscrito  dedicado á mulher                                                    Album de Recordações 

Livro Poemas á Mulher.jpg

 

Album de Recortes.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FADO DO BAIRRO ALTO

 

Letra de: Avelino de Sousa

Música de: Alves Coelho

Cantado por: Aldina de Sousa n´Opereta Bairro Alto

 

Coro

É o fado nacional

A canção mais portuguesa,

Que nos fala ao coração

E que tem em Portugal

A graça, o encanto, a beleza,

Da mais sagrada oração!

 

Do Alto Longo ao Camões,

Atravessa-se num salto!

Mas tão curtas dimensões

Guardam sempre as tradições

Do meu velho Bairro Alto!

 

refrão

Quando chega a procissão

Dos Passos, no seu andor,

Todo o bairro vai então

Confirmar a devoção,

Beijar o pé ao Senhor!

O Bairro Alto

Vale mais que a Mouraria,

Onde a Severa vivia

E só por isso tem fama!...

O Bairro Alto,

Mais fidalgo e mais artista,

É mil vezes mais fadista

Até do que a própria Alfama.

 

 Da madrugada ao alvor

Passa a rascoa e o faia...

E entre a navalha e o amor

Chora o fado a sua dor

Pela Rua da Atalaia!

 

Toda a gente dos jornais,

Poetas e actor's lá vão

Ouvir os sons divinais

Dos fadinhos nacionais

À taberna do Tacão!

 

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Quarta-feira, 13 de Março de 2024

Amália & o Chico da Amalia

Documento inédito de uma entrevista a Francisco Cruz (1º marido de Amália alcunhado do Chico da Amália), dada ao Jornal de Notícias de Lourenço Marques em 16 de Janeiro de 1951.  Com factos que embora do foro pessoal de Amália e do Francisco Cruz, são relevantes para desmistificar algumas publicações menos correctas e objectivas, que me foi entregue em mão, com a mensagem: És uma fonte credível... continua.

Amália16-01-51.jpg

Esta página inédita em breve será divulgada depois de trancrita para um ficheiro Pdf

©Vitor Duarte Marceneiro

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